O primeiro hétero a gente nunca esquece

2 Capítulo Um: O menino do bumbum grande


Sabe o que eu sempre gostei? De bumbuns. Sim, eu sempre gostei de bumbuns. Bundas. Nádegas. Retaguardas. Popôs. Bolhas. Principalmente, as grandes.

Uau, que maneira suja de começar isto, não é mesmo? Eu apenas senti que era uma declaração importante para dar de início a esta história: “Eu gosto de bumbum”. Bumbum sempre foi o que mais me atraiu no ser humano, claro, tinha o cérebro, a mente, a beleza dos olhos e do sorriso, a forma de se vestir, a forma de se comportar, os talentos e os dons, mas o que eu sempre reparei e gostei mesmo foram aquelas grandes maçãs no fim das costas: A bunda. Sou promiscuo por isso? Provavelmente um pouco. Mas, fatos são fatos, pessoal.

Teve um bumbum que marcou minha vida. Foi o bumbum de um garoto que estava na minha sala durante o segundo ano, ah, e que garoto e que bumbum! O nome dele era Lucas, acho que eu já devo ter falado disso. Lucas era lindo, e Lucas tinha a bunda mais linda do mundo para mim, um garoto de dezesseis anos na época cheio dos hormônios explodindo de excitação e atração. Até hoje, eu não sei bem o que diferenciou a bunda do Lucas da bunda de qualquer outro cara por aí, mas eu nunca me senti tão atraído e magnetizado sexualmente por uma retaguarda depois que vi a dele. De qualquer forma, não sei por que estou pensando nisso hoje. Acho que assisti muito pornô gay antes de dormir.

— Erick! Erick! — ouço Tisha me gritar naquele tom que ela sempre grita quando está com pressa. Um tom desesperado e raivoso. — A gente tá atrasado, meu filho. — diz ela, quando eu saio do quarto pulando em um pé e enfiando meu tênis Nike no outro.

— Estamos? — eu pergunto, fazendo-me de sonso e fingindo que não sei que estamos atrasados provavelmente uns dez minutos já, levando em conta que o ônibus só passa a cada duas décadas e leva três séculos para chegar até o centro da cidade.

— Estamos! — grita ela novamente. Os gritos da Tisha me assustam quando ela está nervosa. É como se ela estivesse possuída por um demônio e ele estivesse a fazendo falar com aquela voz grossa. Sabe? Aquela voz que as testemunhas não identificadas do jornal ficam quando falam? Aterrorizante. — E eu juro pra você que se eu chegar atrasada no primeiro dia de aula, você vai desejar não ter escolhido morar no quinto andar quando a gente assinou o contrato desse apartamento com uma janela grande o bastante para empurrar um corpo.

Consigo finalmente enfiar meu pé inteiro dentro do tênis e suspeito que três dedos meus quebraram de tão apertado que o tênis está. Eu me considero uma pessoa econômica, vivo aceitando roupas de doação, comprando peças baratas em bazares e brechós, mesmo que não me sirvam. Mesmo que apertem, rasguem e sangrem, eu uso porque é mais barato do que comprar em lojas e apoiar o trabalho escravo de um monte de criancinhas na Tasmânia que estão costurando para marcas famosas no porão de uma fábrica. Exagerei? Talvez um pouco.

— Sabe, essa é a terceira ameaça de me empurrar da sacada no mês, Ti. Eu estou começando a ficar realmente preocupado. — digo enquanto pego minha mochila jogada no sofá e saio do apartamento com Tisha ao meu lado.

— Pois é, Erick, pois, é — sussurrou Tisha enquanto eu rodava a chave na fechadura da porta. — Sugiro que você comece a ser mais rígido com o seu relógio. Eu assisti Gone Girl semana passada e fiquei muito inspirada a começar um plano de vingança e incriminação em cima de você caso continue me desobedecendo.

Quando Tisha diz aquilo, eu dou uma risada escandalosa que provavelmente acordou os gêmeos hiperativos da vizinha que mora no número 22.

Tisha é minha melhor amiga. Ela vem sendo desde o ensino médio. Eu ainda consigo me lembrar do nosso primeiro dialogo, foi na oitava série, logo após o professor falar o nome dela na lista de chamada. Eu tinha cutucado ela na carteira ao lado, e perguntado:

Ei, garota. Seu nome é Tisha mesmo?

— É — Ela tinha respondido em um tom monótono que mais tarde eu conheceria como o tom de Tisha para qualquer interação com outro ser humano.

— Que legal. Me lembra Kesha. Eu adoro a Kesha. Posso ser seu amigo? — eu tinha perguntado de novo, sendo irritante e chato propositalmente. Na oitava série, ninguém pedia para ser amigo de alguém, mas eu adorava confundir as pessoas com meu jeito esquisito de socializar. Entretanto, Tisha apenas tinha revirado os olhos, soltado uma risadinha e falado:

— Claro. Eu adoro a Kesha também.

E assim se iniciou uma amizade inseparável. Tisha e eu percebemos logo de imediato, que nós dividíamos uma conexão daqueles transcendais, tipo almas gêmeas de amizade? A gente sempre teve um humor muito estranho e esquisito, que só nós dois entendíamos, mas também reflexões sobre o sentido da vida e papos e opiniões inteligentes sobre o aquecimento global e a crise nacional, além de um gosto musical super bacana e idêntico. Se eu não fosse gay, e se Tisha não fosse lésbica, provavelmente nós casaríamos e teríamos filhos com super personalidades que futuramente iriam dominar o mundo. É realmente uma pena. Entretanto, nossa sexualidade também foi uma grande chave para a nossa amizade tão intima e maravilhosa. No primeiro ano do ensino médio, assim que nos assumimos um para o outro e que percebemos que ambos iriamos queimar no fogo do inferno (segundo as opiniões de alguns pastores e da minha tia-avó), Tisha e eu ficamos ainda mais próximos.

Então, quando a escola acabou e nós já não suportávamos mais morar com nossas famílias conservadoras, irritantes e preconceituosas, comprar um apartamento na cidade e morar juntos pareceu uma ideia maravilhosa. E foi. Ambos começamos trabalhar meio período durante um ano e juntar dinheiro. Ela trabalhou em uma lanchonete na cidade, e eu em uma empresa de telemarketing, levando xingos e ganchos de telefone na cara sempre que ligava para cobrar a conta de internet dos caloteiros malditos, mas tudo valeu a pena, porque depois de um ano juntando dinheiro, nós conseguimos alugar um apartamento de dois dormitórios baratinho na cidade.

E claro, nós não fomos para a faculdade imediatamente após o colégio terminar, mas tudo bem, ainda estamos nos preparando mentalmente para a experiência exaustiva de uma universidade enquanto isto. Além de que, estamos com apenas vinte anos de idade, há tempo mais do que o suficiente. A gente tem feito uns cursos e aulas gratuitas por enquanto. No ano passado, fizemos uma aula pública de culinária e uma de artes na República de Dotes da cidade, uma associação criada pelo governo que dá aulas livres de todos os tipos de coisa, desde 1900 e não sei quantos. É provavelmente a coisa mais bacana já criada nesta cidade. Este ano a gente vai fazer as aulas livres de teatro, e costura. Inclusive, começamos a aula de teatro hoje e é para exatamente isto que estamos atrasados.

Começamos a descer a escadaria do prédio correndo, pois o elevador no nosso andar está com defeito, ele leva vinte minutos até finalmente parar (eu descobri isso da pior maneira, foi muito triste perder aquela entrevista de emprego no Burger King).

— Eu estou animado para esse curso de teatro — digo respirando de forma afobada entre os degraus intermináveis. — Sinto que vai ser... Especial.

Tisha para bruscamente no meio da escada e me encara.

— O quê? — pergunto.

— Engraçado você dizer isto — ela sorri de uma maneira misteriosa que eu não consigo entender, mas que me assusta levemente. — Eu também sinto que será, muito, muito especial.

No momento em que chegamos á República dos Dotes, uma sensação de satisfação alojou-se em meu peito. Eu amava aquele lugar, e já estava com saudades de tudo: Aquele pátio inicial ao ar livre que parecia um parque de tão lindo, uma área gigante de gramado e postes de luzes circulares e grandes como aqueles brincos de bolinha que eram moda em 2012 (Á noite, apenas aquelas luzes acesas e as estrelas no céu transformavam o pátio da republica no lugar mais romântico do universo para mim. Sim, eu sou uma pessoa que acha as coisas românticas); A recepção da república também era um lugar lindo, alguns sofás e pufes de couro preto e leds azuis iluminando a parede, dava realmente um toque chique moderno a um local para apenas sentar e esperar; E então, claro, tinham as salas onde aconteciam todas as aulas, essas eram mais especificas, entretanto, todas também bem chiques e parecendo o que poderia ser o cenário de um filme clássico. De onde nós dois estávamos, era possível enxergar a sala onde iriamos fazer o curso de teatro, que era... A sala de teatro, ora. Duas portas vermelhas, uma no lado esquerdo e uma no lado direito, com uma escadinha para cada, eram à entrada da sala. Eu já tinha vindo assistir algumas peças ali, uns quatrocentos lugares na plateia e um palco gigante onde eu me imaginei apresentando muitas vezes. Tisha não sabia da minha secreta paixão por atuar, quando eu sugeri que fizéssemos esta aula no começo do ano, ela provavelmente aceitara porque pensou que seria algo culto para o currículo dela.

Como nós acabamos realmente nos atrasando (Tisha iria me assassinar mais tarde naquele dia, eu tinha certeza), a maioria dos alunos do curso já pareciam ter chegado. Não me leve a mal, eu até cumprimentaria e me apresentaria a todos, porém, preguiça.

Uma garota com um rabo de cavalo loiro-gelo e seios absurdamente grandes demais (alôôô, silicone além da conta?), literalmente pulou na frente de mim e de Tisha sem pudor algum.

— Oiêêêê! Vocês também estão aqui para a aula de iniciação teatral? — berrou ela, com uma voz estridentemente animada, que eu com toda certeza, iria zoar sobre depois da aula.

Tisha a encarou com o olhar desinteressado de sempre e mexeu em seus cachos longos com a ponta do dedo.

— É, estamos sim.

— Ai que tudo, eu também! — berrou ela novamente. Comecei a notar que “alto” seria o único tom de conversa daquela garota. — Prazer, meu nome é Jéssica Kelly Souza! Mas podem me chamar só de Jéssica Souza, ou só de Jéssica, eu sempre digo o Kelly, não sei o porquê, ninguém me chama assim, apenas minha mãe quando fica muito brava comigo, ela é daquelas mães temperamentais, sabe? No fundo, eu acho hilário quando ela grita “Jéssica Kelly Souza, já disse para arrumar seu quarto!”. Mas, enfim, estão animados com o primeiro dia de aula?

Eu e Tisha ficamos petrificados com o monte de palavras expositivas que aquela menina tinha pronunciado em tão pouco tempo. Graças a Deus, antes que pudéssemos pensar em uma resposta para aquele discurso, a portinha vermelha esquerda da sala de teatro se abriu e um homem baixinho demais, com cabelos longos e loiros avermelhados, parecendo á versão de Rumpelstiltskin do filme do Shrek saiu.

— Turma da Iniciação Teatral? Podem entrar! — gritou Rumpelstiltskin.

— O professor trouxe o filho dele para a aula? — sussurrei no ouvido de Tisha, com um risinho venenoso e ela balançou a cabeça com uma expressão que dizia: Eu quero rir, mas isto é errado.

Eu sabia que era ruim da minha parte ser tão venenoso e julgar tanto todo mundo ás vezes, mas não conseguia parar, sempre que uma piadinha malvada me vinha á cabeça, eu cutucava Tisha rapidamente e a contava esperando boas risadas. Tisha sempre me criticava, mas também, sempre ria e concordava.

Nós entramos na sala de teatro, escura e quente, onde apenas o gigantesco palco no final das escadas tem iluminação e um chão negro reluzente. O professor Rumpelstiltskin pediu que todos se acomodassem, deixassem suas coisas e formassem uma roda sentados no palco em seguida.

Enquanto todos estavam se ajeitando e jogando suas mochilas e bolsas sobre os bancos na plateia, tirando seus tênis e meias para subir ao palco, eu comecei a reparar melhor em cada aluno que estará na minha turma. Um menino e uma menina nerds que parecem irmãos gêmeos já tinham sentado se lado a lado no palco, três amigas com cortes de cabelo Chanel combinando (que tosco) subiam a escadinha para a plataforma usando meias rosas, um garoto com a pele cor de oliva e olhos verdes que está usando camiseta polo com gola mas que parece muito bonitinho para ser hétero cumprimentou um garoto branquelo que parecia o Fábio Porchat, a tal da Jéssica loiro-gelo que fala demais estava tagarelando algo para uma garota ruiva de óculos de Harry Potter, uma menina negra com tranças cinzas e braços musculosos (parece ser lésbica, e tenho certeza de que Tisha já notou isto, pois não para de olhar para a garota e babar) estava quieta sentada no fundo da roda e um garoto bronzeado que está entrando agora na sala, começou a se posicionar na última fileira.

Algo nele me chama muito a atenção. O rapaz é incrivelmente bonito, com braços musculosos de uma forma natural (não uma forma suplemente da academia e gema de ovo), uma pele bronzeada como se vivesse na selva junto com o Tarzan, um rosto que lembra a beleza de um bebê, mas não de forma infantil, um cabelo com leves cachos relaxados que parecem macios e hidratados desta distância e... Ai, meu Deus... Ele tem um bumbum gigante. Um maravilhoso bumbum gigante. O mais lindo que eu já vi. Algo na minha respiração parece falhar por um segundo e eu não consigo tirar os olhos daquele Deus grego. E não apenas pela beleza dele, mas há algo... Algo familiar, talvez? Nostálgico? Não é como ver um garoto bonito por aí e ficar surpreendido e estonteado com a beleza dele, é como ver alguém já bonito em uma nova versão evoluída e masterizada. Uma sensação inexplicável de Déja vu está me dominando neste momento, e eu não sei o porquê. E o mais estranho que, o mais reconhecível nele para mim é aquela bunda. Ave Maria, eu tenho certeza de que já vi aquela bunda antes, por mais estranho que pareça esta sentença.

— Ei, Ti — cutuco Tisha, querendo perguntar para ela se nós já conhecemos aquele Deus grego que chegou agora, mas ela está muito distraída babando sobre a garota de tranças do outro lado do palco.

O menino sobe ao palco, olha para mim e solta um sorriso maravilhosamente incrível que me nocauteia e se senta na rodinha já formada pelos alunos. Foi para mim o sorriso? Ele me conhece? Ele está flertando? Ele definitivamente poderia ser gay, se veste super bem. Apesar de nem todos os gays se vestirem bem. E nem todos os héteros se vestirem mal, eu que o diga com a experiência de ilusões. Ou será que foi para alguém atrás de mim? Mas só há Tisha atrás de mim, certo? Ai meu Deus, eu estou suando?

— Muito bem, já estamos todos aqui? — pergunta o professor Rumpelstiltskin quando mais uns cinco alunos aleatórios e atrasados chegam e sobem ao palco correndo. Eu espero que possa começar a chamar o professor pelo próprio nome quando ele se apresentar, estou começando a me acostumar com Rumpelstiltskin.

— Vamos lá, então. Prazer, meu nome é Rael e eu serei o professor de Iniciação Teatral de vocês aqui na República dos Dotes. Antes que eu fale mais sobre esta aula e tudo que aprenderemos, e como tudo vai funcionar, eu gostaria que cada um de vocês na roda também se apresentassem, dissessem seus nomes, idade e porque decidiram começar a fazer este curso.

Professor Rael Rumpelstiltskin (tarde demais, já me acostumei) aponta para o menino gêmeo nerd ao seu lado e ele começa a se apresentar.

— Meu nome é Danilo, eu tenho dezenove anos, que nem a minha irmã gêmea, Danila, aqui do meu lado e... — Depois que ele confirma minhas suspeitas, eu paro de ouvir. Meus olhos estão cravados naquele garoto ainda. Por que eu sinto que já o vi em algum lugar? Ele está sentado ao lado da tal da Danila, então, em breve vai se apresentar também e talvez isto mate minha dúvida.

Tisha aperta meu braço e eu viro bruscamente para ela.

— Eu pensei que você não ia reconhecer ele após todos esses anos — sussurra ela, enquanto Danila faz uma apresentação digna de biografia para todo mundo.

Rapidamente minhas sobrancelhas se franzem em uma confusão.

— Quê? Ele quem?

— O gatinho que você não para de olhar, Erick. — responde ela, rindo.

— Espera, a gente conhece ele, Tisha? Quem é ele?

Tisha não responde, apenas aponta para o menino, bem no momento que Danila para de falar e é a vez dele de se apresentar.

Eu fico bem atento, engulo em seco e então, ouço o mesmo começar a se introduzir:

— Prazer, meu nome é Lucas, e eu tenho vinte anos.

De repente, a sala para.

Minha mente parece fazer uma daquelas viagens rápidas de imagens e células correndo, como uma realização chocante, e tudo que eu consigo pensar é: Claro, mas é claro! Aquela pele, aqueles braços, aquele cabelo, aquele bumbum, aquele garoto...

É o Lucas.

Notas finais
eu espero que vocês estejam gostando da história aaaaaaa, eu estou muito animado com essa fanfic porque tive umas ideias pra ela que gostei bastante e não vejo a hora de escrever e postar tudo. enfimmm, comentem e até o próximo capítulo. beijão.