O primeiro dia
1 Prólogo.
Encarou o relógio pelo que fosse a décima vez ou décima primeira, talvez. Já perdera as contas e já havia decorado cada entalhe do próprio relógio de pulso. Era a mesma coisa, todos os dias, não entendia como ela conseguia demorar tanto para se arrumar. Edward Cullen revirou os olhos, ajeitando o terno de risca fina e lançando um olhar contrariado para o motorista e amigo, que insistira para que esperassem por Bella ao invés de voltar e buscá-la. Que diabos! Ela era só uma professora, qual a necessidade de tamanha arrumação? Pior, qual a necessidade de ir até a maldita escola dar aulas? Ele era um homem rico que daria a ela o que quisesse, não entendia a absurda necessidade que sua esposa tinha em manter a ideia tola de trabalhar. Estavam casados há dez anos, há quatro tiveram como filha a pequena Renesmee — uma criança para qual Edward não tinha paciência e que tampouco parecia respeitá-lo.
Soltou um suspiro exasperado ao ver Isabella atravessar o jardim junto da filha. — Finalmente. — Resmungou para si mesmo, voltando a colocar os óculos de escuros de volta ao rosto.
- Bom dia, papai! – Saudou com animação, Nessie. Os cachinhos dourados – característicos de Edward – se agitaram quando ela se jogou sobre o banco do carro.
- Porque tanta demora? — Questionou ignorando o cumprimento da filha, os olhos fixos em Isabella.
- Eu estava arrumando Nessie. — Bella estreitou os lábios, os olhos tornando-se fendas devido a irritação com as atitudes do marido. Um suspiro chateado escapou de seus lábios quando friamente Edward ordenou que Harry colocasse o carro em movimento e o deixasse primeiro em seu escritório, para só depois atender as necessidades das duas. Era sempre a mesma coisa todos os dias, Bella insistia para si mesma que era só o estresse do trabalho, que Edward e ela iriam voltar a ser felizes e serem o mesmo casal de antigamente, mas parecia quase sempre uma esperança vã que ruía a cada dia. Edward mudara muito nos últimos cinco anos e parecia que a tendência era sempre piorar, uma rápida olhada ao marido, com os olhos fixos ao celular lhe mostrou que de fato, perdera há muito o homem pelo qual se apaixonara. Lembrava-se perfeitamente das manhãs felizes e animadas que tinha com Edward, repletas de beijos apaixonados e carinhos inesperados por parte de ambos. Eram um casal feliz, uma típica família americana de comercial de margarinas, mas não mais, fazia muito tempo que Edward não era atencioso, romântico ou até mesmo, educado.
- Papai. — Nessie chamou sua atenção, fazendo-o retirar os olhos do BlackBerry e fazendo Bella desviar os olhos da face exasperada do marido. — Olha o que eu desenhei — ela esticou a folha em sua direção, apontando com os dedinhos cada um de seus desenhos — somos eu, você, a mamãe, o vovô Charlie, a vovó Renné, o vovô Carlisle é este aqui... E esta é a vovó Esme...
- Renesmee! — Edward a cortou com um grito impaciente, o que fez a menina se calar e fitá-lo assustada.
- Edward! — Bella ralhou com o marido quando notou as feições de Nessie desabarem em tristeza, sabia que a filha não iria chorar ou começar com pirraças, o que seria típico de maioria das crianças e de certa forma, a entristecia que Nessie já soubesse quais seriam as reações do pai diante de tal atitude. – Nessie, amor, porque você assiste algum desenho até chegarmos? – Bella esticou o tablet em direção a filha e sorriu confiante, logo que a atenção de Nessie estava voltada para a imagem exibida na pequena tela, Bella voltou os olhos para o marido. – Você precisa parar com isso, Edward! – Sua voz soou só como um sussurro raivoso, mas foi o suficiente para Edward retirasse os óculos escuros e a encarasse com alguma atenção. – Ela é a sua filha.
- Eu preciso trabalhar, Isabella. – As palavras foram praticamente rosnadas em sua direção. – Acha que eu tenho tempo para ficar vendo os rabiscos de Renesmee?
- Cale-se Edward! – Bella grunhiu, as palavras sendo ditas em alto e bom som. Ela respirou fundo, ajeitando-se no banco do carro e aproximando o corpo de Nessie. – Não suporto mais isso, Edward. – Sussurrou finalmente.
- Isso não é assunto para agora, Isabella. – Decretou lançando um olhar para o motorista e logo em seguida para janela, onde já avistava o enorme prédio da Cullen Consolidates.
- Claro que não. – Bella soltou outro suspiro assim que a voz de Harry soou avisando que já haviam chegando. Edward lançou a ela um último olhar desinteressado e partiu do carro como um furacão, sequer despedindo-se.
- Mamãe? – Nessie retirou um dos fones, lançando um olhar preocupado para a mãe. – Tudo bem?
- Claro, querida. – Bella sorriu, logo dirigindo-se a Harry. – Harry, por favor, pode nos levar a algum lugar divertido no centro da cidade? – Bella pareceu envergonhada. – Faz tanto tempo que Nessie e eu não saímos durante o dia...
- Vai faltar à aula, Sra. Cullen? – Harry lançou um olhar especulativo para a mulher e Nessie agitou as mãos, sentindo-se animada.
- Sim, Harry. – Bella abriu um grande sorriso, olhando para a filha. – Nós vamos.
Edward caminhou pela construção luxuosa, se quer se dando conta das pessoas ao seu redor, não tinha tempo, essa era a frase da sua vida. Bella não entendia como era difícil para ele carregar nas costas o peso que era o império do seu pai, um legado, como todos diziam.Tudo o que Bella queria saber era das criancinhas ridículas de seu primário e pior, queria que ele as amasse tanto quanto ela. Mal tinha tempo para a própria filha, como poderia para os filhos dos outros? Arriscou um olhar no escritório impessoal, lembrando-se vagamente de Jasper Withlock, um dos homens com quem estava fechando uma parceria, o homem possuía diversos retratos da esposa Alice e da filha pequena – da mesma idade de Renesmee – que agora ele não se lembrava o nome.
Fazia quanto tempo que não passava um dia inteiro com Bella e Renesmee? Tinha algum receio de que havia muito tempo, mas não importava, afinal, estava trabalhando por elas e lhe dando tudo que fosse necessário. Renesmee estudava na melhor escola de Toronto, Isabella tinha a casa de seus sonhos, estava tudo muito bem, concordou consigo mesmo, finalmente colocando-se a trabalhar. O dia passara tão rápido quanto pôde e em um piscar de olhos já eram seis horas da tarde e sua secretária, Angela – uma boa garota e decente, escolhida por Isabella após tantas outras causarem tumulto no casamento – avisou-o de que estava partindo para o final de semana. Era fim de ano, afinal e Angela iria comemorar com sua família. Edward se despediu da moça com educação e assim que se encontrou sozinho, retirou o celular blackbarry do bolso, observando a foto do papel de parede.
Eram Bella, ele e Nessie, haviam ido para Forks, onde a família de ambos moravam e onde quase sempre costumavam passar o fim de ano reunidos. Os dedos deslizaram pela tela e ele discou o número de Bella, logo o celular caindo na caixa postal, ela deveria estar furiosa, pensou com desgosto e certa irritação, logo abandonando a ideia de contatar a esposa e voltando a se focar nos contratos à sua frente. Havia uma grande transação que necessitava de sua atenção, algo muito mais importante do que os caprichos de Bella e Renesmee.
O som estridente do toque do celular o tirou de sua concentração, um rápida olhada no relógio o informou que já se passavam das nove da noite e Edward estranhou o fato de Isabella até então não ter ligado ou até mesmo aparecido para buscá-lo, como já fora costume quando ele se via muito envolvido no trabalho.
- Cullen. – Atendeu, abaixando os papéis e levantando-se para esticar as pernas.
- Boa noite, senhor Cullen. Há dois policiais na portaria, eles gostariam de falar com o senhor. Posso autorizar?
- Sim, mandem subir. – Edward afrouxou as gravatas, soando mais impaciente do que gostaria, cruzou os braços atrás das costas e observou a paisagem ao redor do prédio. Quando os dois policiais apareceram diante da porta, Edward voltou-se para encará-los. – Cavalheiros, em que posso lhes ser útil?
- Senhor Cullen... – O mais baixo se adiantou, tirando da cabeça o chapéu e encarando-o com um pesar que o desagradou rapidamente. – Houve um acidente esta tarde... Um caminhão colidiu contra o carro em que estavam sua filha e sua esposa.
- O que? – Edward sentiu imediatamente as pernas fraquejarem diante da possibilidade. – Isso é engano. Isabella e Renesmee estavam ambas em uma escola.
- Sentimos muito, Sr. Cullen. – Murmurou o policial mais magro. – Elas estavam na interestadual 75.
- Onde elas estão agora? – Engoliu em seco, encarando aos dois homens sem realmente vê-los, ele podia ouvir o próprio sangue bombeando dentro de si, a cada batida a mais parecia ainda mais real, ainda assim ele não conseguia acreditar. Como?
- Estão no Central Medical, foram levadas para lá em estado critico, veja Sr. Cullen... – Edward não esperou pelas palavras do policial, tudo o que ele queria era vê-las, era tê-las em seus braços e saber que estavam bem. Não sabia que seria assim, não saberia que seria esta a dor, mas como poderia, afinal? Se quer as notava e agora entendia os conselhos que recebia da mãe. Se cansara de quantas vezes a mandara se calar por estar lhe passando sermões sobre como amar e respeitar a própria família e agora poderia não ter uma família a qual respeitar. Edward atravessou o hospital como um fuçarão, constatando que toda a sua família já estava lá.
- Edward! Oh Edward! – Esme jogou-se em seus braços, Edward a correspondeu atordoado. – Porque demorou tanto, Edward? – Esme se lamentou.
- Eu... Fiquei sabendo agora, passei o dia trabalhando... Onde elas estão? – Esme acariciou o rosto do filho com tristeza evidente nos olhos cheios de lágrimas. – Onde elas estão, mãe?!
- Edward, filho. Mantenha a calma. – Carlisle se aproximou apoiando as mãos em seus ombros e Edward se desvencilhou do toque, olhando por cima de seus ombros. Renné chorava copiosamente nos ombros de Charlie e Edward sentiu as pernas falharem ao se dar conta do motivo da hesitação dos pais.
- Pai, não, por favor pai. – Carlisle se agachou junto a ele, puxando-o para um abraço. – Como pai? Eu... nem me despedi.
- Nenhum de nós filho. – Murmurou. – Nenhum de nós pode o fazer.
- Nessie...?
- Ela não resistiu ao impacto filho. – Murmurou Carlisle, a garganta estava rouca e Edward podia ver o esforço que o pai fazia para conter o sofrimento, ao contrário de Esme que chorava copiosamente junto de Emmett e Rosalie – os melhores amigos dele e de Bella. – Bella teve uma parada cardíaca há pouco mais de dois minutos – Carlisle completou com delicadeza, não podia sequer imaginar o sofrimento pelo qual o filho passava e era com pesar que admitia que Bella e Nessie eram o que mantinham a pouca humanidade de Edward, agora não sabia o que seria dele.
- Posso vê-las? – Edward murmurou e Carlisle pareceu em dúvida. – Por favor, pai. – A expressão torturada do filho o convenceu e conhecendo todos os médicos do lugar, Edward foi levado em direção aos corpos, primeiro o de Nessie. A sua pequena criaturinha, se pudesse sorrir naquele momento, sorriria com a lembrança, cada momento que passara ao lado da filha não fora o bastante e ele sabia que a culpa sempre seria dele. Edward fitou o desenho que a filha fizera, havia sido colocado em um saco plástico junto com os outros pertences de Nessie. Um lagrima escapou de seus olhos e antes que pudesse controlar, Edward estava convulsionando sobre o corpo de Nessie, se pudesse voltar atrás... Se tudo pudesse ser diferente. Se ele talvez as amasse como merecessem, então Bella e Nessie poderiam estar vivas. Sua pequena criaturinha poderia estar atormentando-o com as idéias de natal e Bella correndo pela casa, descalça e vestindo os trapos velhos que Edward só achava sexy nela e em nenhuma outra mulher.
Se ele pudesse fizer tudo de novo, ele faria tudo diferente.
Se tivesse outra chance, ele mudaria o destino e as amaria incondicionalmente.
E se ele tivesse outra chance?
Notas finais
Espero que tenham curtido, beijos!
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