O preço do prazer
24 Let it burn
Notas iniciais
Um vinho. Um paracetamol. Um sonífero, algo que me entorpecesse o suficiente pra me fazer esquecer os meus problemas.
Quatro da manhã. Dormir pra mim a essa altura era luxo. Não sentia sono, ele não vinha. Meu cérebro não relaxava o suficiente pra isso. Deitada de lado na cama, tenho Neji num sono profundo atrás de mim. Eu invejo ele. Embora saiba que os últimos dias não tinham sido fáceis pro Hyuuga.
Ele dormiu, dormiu mesmo. Como não deveria fazer há dias. Exausto. E agora quem assumia a responsabilidade de vigia era eu, como se alguma coisa fosse acontecer a qualquer momento. Como se ficar acordada fosse a única maneira de manter os problemas da porta pra fora. Tsc, tolice.
Os problemas estão bem dentro da cabeça da gente.
Permito meus braços permanecerem jogados pra fora do colchão, a partir dos cotovelos, e as pernas desleixadas entre os lençóis macios. Está frio, mas não está chovendo. É um frio bom, afinal.
Olhando sem foco pra o relógio da parede, pensando. Eu queria a verdade, e eu a consegui... porém, o que eu faria com ela? Ainda era um pouco vago, ou melhor, complicado. Saber do retorno de Tamaki me trouxe sensações ruins, lembranças... mas eu não seria boba, não permitiria que ela me afundasse dessa vez.
A respiração pesada e quente do Hyuuga bate contra minha nuca, ela é intensa. Vez ou outra mais forte, nuances do seu sono. Olho por sob o ombro, vejo sua boca entreaberta, desenhada. A forma sensual e sutil que seus dentes se mostravam naquele pequeno espaço, respirando. Tão entregue ao sono.
Suas sobrancelhas se comprimem, franzindo. Sua respiração novamente acelera um pouquinho, e eu me viro pra ele. Levo minha mão ao seu rosto, tocando o centro daquele ponto de tensão devagar. Ele reage ao meu toque, relaxando. Sua respiração se torna novamente tranquila e profunda. Suas feições mais serenas, em contrapartida o meu peito acelera e dói um pouco. Castigando-me por amá-lo.
Eu deveria sentir raiva de Neji, depois de tudo, era isso que eu deveria sentir, raiva. Mas eu não conseguia, não vendo-o tão frágil. Tranquilo perto de mim, relaxado. Como se pra ele, eu fosse seu porto seguro. Onde ele podia finalmente chegar, e dormir.
Eu não poderia culpá-lo, em hipótese alguma, por ter alguém como Tamaki atrás dele. A gente não escolhe as pessoas que se apaixonam por nós, e às vezes, algumas delas são loucas. Psicopatas.
Ela teria infernizado e ido atrás dele independente de terem transado ou não, essa obsessão dela com ele não era só pelo sexo. Infelizmente, pra Neji, o medo que ele sentia refletia no meu. Sua ânsia se dava pela tensão de algo acontecer comigo, da mesma forma que eu me preocupava com ele. Era mútuo.
Se as coisas começassem diferentes, e se nunca houvesse sido garoto de programa, elas terminariam iguais. Porque conhecer ele, pra mim, já estava escrito acontecer. Estaríamos onde estamos. E eu estaria apaixonada por ele.
É assim que tem que ser.
Recordo que, durante o sequestro, Neji fez de tudo pra me manter segura. Mesmo que isso parecesse uma utopia. Ele a todo momento tirava a atenção de Kiba de mim, colocando o dele na reta até mesmo quando o Inuzuka já estava armado. Sem pensar duas vezes.
Provocava o outro, como se de alguma forma o obrigasse a focar sua raiva nele, tentando me proteger. Hoje eu vejo isso com mais clareza.
Ele não pensou duas vezes nas consequências quando agia em algo, nem mesmo quando o matou. Agora, enfim, eu entendo o porquê. Ele tinha algo a proteger.
E ele não mediria esforços pra isso.
Continuou fazendo isso por mim continuamente, mesmo que às vezes da maneira errada. Como quando aceitou o acordo da Inuzuka em ficar com ela em troca da minha liberdade. Até mesmo quando se expôs aceitando minha proposta de namoro. Incitando o ódio daquela mulher.
Sua ânsia e sua vontade de estar perto de mim, de agir, mesmo que aos olhos dos outros, que éramos um casal, gritou mais forte. Como se fosse necessidade.
Ele queria ser algo importante pra mim. E ele era.
Agora eu vejo, quando temos a necessidade de manter alguém a salvo, a opção mais tola e débil se torna uma solução. A gente meio que se torna refém disso, porque o medo faz com que não vejamos saída alguma. E aí fazemos qualquer coisa pra manter esse alguém seguro. Até matar.
Neji não viu saída quando fez o que fez, como eu pouco vejo agora. E apesar das consequências, eu tinha medo de onde isso podia dar.
“...eu não quero que você precise...” lembro dele dizer-me. Talvez Neji já soubesse onde isso ia dar, talvez tentasse me prevenir, por isso não queria me envolver. Tolice, eu era parte disso, quisesse ele ou não.
Volta em minhas lembranças e me recordo com o coração apertado em como ele se jogava na frente do perigo ao enfrentar Inuzuka Kiba, ainda mais armado. Protegia-me com unhas e dentes, ele não se via como um humano, eu acho... se via como um escudo. Um escudo que não importasse o quanto quebrasse, iria me proteger até o fim.
Essa palavra é forte, proteção. Ela dá um alento no peito e uma sensação gostosa, de que alguém faria qualquer coisa pra te manter bem. Eu quero protegê-lo, Neji, como você tem feito por mim desde que a gente se conheceu. Até mesmo em evitar me contar a verdade, por medo ou resguardo. Eu te amava, eu te amo. Eu quero que você sinta esse alento no peito também, comigo.
Ele era péssimo com palavras, isso era notório. Mas ele parecia não fazer questão de esconder em seus olhos o que sentia. Perdi as contas de quantas vezes tentei decifrá-lo pelo olhar, e a resposta esteve na minha frente o tempo todo. Nosso sentimento é mútuo. Era tão bom pensar assim, nele. Neji me dá paz, ao mesmo tempo que traz meu inferno. Suspiro.
O que éramos um pro outro além de uma transa boa? Pra ele, eu já era muito mais. Isso era tão claro que até Kiba percebeu, mas eu era incapaz. Talvez eu não estivesse pronta pra isso. Lembro dele chegar ao ponto de ignorar-me, lembro de sentir raiva, mas também lembro de me dar conta de que isso era a forma que ele havia encontrado de me proteger. Se Kiba achasse que eu não significava nada pra ele, ele não me machucaria. Mas ele percebeu... e ele me protegeu. Essa palavra era quase uma cantiga, de tão gostosa que era aos ouvidos do pensamento.
Sentir-me protegida, mesmo morrendo de medo. Porque ele estava ali.
Olho-o uma vez mais, Hyuuga, o que eu faria por você? Eu tenho medo da resposta. Talvez Neji tenha se apaixonado por mim depois da nossa foda, talvez eu tenha o surpreendido no nosso encontro no dia anterior. Talvez ele tenha gostado de descobrir quem eu sou e como eu soube jogar seu jogo, mantendo seu segredinho sujo embaixo do tapete. Talvez ele gostado de me provocar. Talvez ele tenha percebido da pior maneira que tinha se apaixonado, talvez tenha aceitado o destino fadado ao fracasso.
Ou talvez, ele tenha se dado conta desde o momento que os meus olhos encararam os seus pela primeira vez, que ele já estava fodido ali mesmo. Só talvez.
Eu não conseguia enxergar com clareza quando isso passou de um jogo a sentimento, nem mesmo pra mim. Pudera ter sido paixão desde o início, pudera ainda nem ter acontecido e estamos emaranhados nesse mar de ilusão. Pudera... se eu não me tornasse uma adolescente toda vez que ele me olhava, ou sorria. Assim como eu continuava aqui, olhando-o dormir. Me sentindo no melhor lugar do mundo.
Hyuuga Neji, por que tão lindo!? Por que tão fodidamente sexy? Você tem minha libido e meu coração na palma das mãos e na cabeça do pau, faça o que bem entender com eles.
Continuo olhando-o fixa, como se ele fosse abrir os olhos pra mim a qualquer momento. Eu sinto necessidade de olhá-lo, e acho que invertemos os papéis. Agindo com ele da mesma forma que ele vinha agindo comigo ultimamente, podendo finalmente entende-lo também. Como se eu pudesse perde-lo a qualquer instante. Nós somos cúmplices, nós dois somos culpados, no mesmo instante que teu corpo toca o meu.
Durma, meu bem. Ainda tocando seu rosto.
Cuidando dele.
Suspirei outra vez. Virei-me finalmente, afundando uma mão embaixo do travesseiro. Talvez ele tenha sentido falta do meu toque, pois buscou-me. Sinto um arrepiar quando seu braço atravessa minha cintura, envolvendo-a. Sua respiração ainda mais próxima em minha nuca, seu aperto é firme. Ouço-o murmurar, nada audível. Uma lamúria, apertando-me ainda mais. Seu tórax quente aquecendo minhas costas, ele parecia estar sofrendo. Com a mão livre, repouso sob a sua que me apertava contra ele. Segurando-a com carinho.
Ele relaxou outra vez.
— ...Tenten... — chamou-me entre seus lampejos. Uma voz baixa e rouca, vinda do fundo da garganta. — ...eu — abraçou-me, seu ar era triste, magoado. Como se eu estivesse distante, como se estivesse partindo. Seus braços firmes me enroscavam como cobras, mas me aqueciam como ninho. Repousa a cabeça sob a minha, sussurrando.
— Tudo bem, eu estou aqui. — digo, em alento.
Embora saiba que ele não vá me ouvir. Ele sorriu, eu ouço, e sinto o ar anasalado contra minha pele. Quase como se pudesse me ouvir, me alcançar. Em seu sonho.
— Eu te amo. — sussurra. Sinto-me arrepiar, como um choque. Afasto-me do Hyuuga, olhando-o sentada na cama.
Com uma mão no peito, tento acalmar as batidas do meu coração. Respirando acelerado. Sem desviar minha atenção dele, nervosa. Fito-o por alguns segundos na intenção de descobrir se estava mesmo dormindo. E estava.
Viro-me devagar, mole. Meu Deus, meu coração ainda tá acelerado. Ponho os pés no chão, sentindo um choque térmico pelo meu corpo febril. Ele estava dormindo, mesmo. Deduzo triste, olhando-o mais uma vez. O maldito efeito que essas três palavrinhas te causam. Eu sempre soube o que ele sentia por mim, apesar de nunca ter se declarado. Neji nunca fez questão de esconder bem isso, e sempre tentou jogar na minha cara. Então, eu não deveria ficar tão nervosa por ouvi-lo falar isso, não é?! Mas, por céus, por que minhas mãos não param de tremer? Indago-me observando-as.
Eu sabia porquê. Uma declaração direta, mesmo tendo conhecimento dela, mexe contigo. Ele tinha um efeito catastrófico em mim, e era disso que eu tinha medo. Eu tinha medo do que esse sentimento podia fazer em mim.
Desde o início eu soube das consequências de me envolver e me apaixonar por alguém como ele. E me meti nessa mesmo assim. E agora, correndo o risco de perde-lo, não parece mais tão divertido assim. Levo as mãos as têmporas, perturbada. O peito ainda salpica, as extremidades do meu corpo formigam. Isso era o efeito Hyuuga Neji em mim.
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Bebo água, percebendo que eu precisava disso. Urino. Sentada no vaso eu pensava, ainda nervosa. Como se tentasse trocar os componentes do meu corpo no momento em que ele fez a declaração. Lavo às mãos, e saio. Ele ainda está dormindo, é quase dia, mas ainda está escuro.
De pé, admiro sua face outra vez. Ele é tão bonito. Neji é tão fodidamente bonito. Tinha que ser assim tão gato, cheiroso e ainda bom de cama?
Seu sono é tranquilo, pesado.
Eu gostava de ficar olhando-o, descobri isso. São mais de cinco da manhã, e eu não dormi. É muita coisa pra processar e pouco cérebro pra fazê-lo, mas eu me perdia olhando a cara bonita desse filho da puta. Tinha uma expressão serena apesar do perigo constante. Parecia realmente estar relaxado, seguro como não esteve em dias. Talvez ele se sentisse protegido comigo também.
Aproximo-me.
A calmaria que ele expressava... era raro vê-lo assim, como se não tivesse que resolver tudo o tempo todo. Normalmente sua expressão era séria, suas sobrancelhas franzidas e os olhos cerrados, dependendo da situação seus cabelos podiam estar milimetricamente arrumados ou completamente bagunçados e suados. Porém, agora, estavam espalhados de forma graciosa pelo travesseiro branco, era tão sexy.
Deslizo minha mão sobre sua tez outra vez, meus dedos brincam nos pelos recém-crescidos.
Eu nunca tinha percebido, mas a aparência mais velha que a barba por fazer lhe dava o deixava com um ar ainda mais maduro e firme, era sensual. Imagino involuntariamente esses pelos grossos deslizando pelo interior da minha coxa, e tremo. A reação que deveriam causar em cadeia, a ponta do seu nariz roçando na minha feminilidade, a língua rodando no meu clitóris. Oh fucking, meu cérebro entra em colapso. Engulo em seco.
Tão irresistível.
Aproximo-me. Beijo-lhe devagar, sentindo parte dos meus lábios roçarem nos seus. Não era momento pra isso, e eu sabia disso. Ele estava dormindo, depois de dias sem descansar, e estávamos em um impasse. Mas eu não conseguia me controlar, não quando o assunto era ele. Eu já estava quente, e ele nem tinha me tocado. Sinto-o despertar, afasto-me, fito-o. Seus movimentos eram lentos, quase tardios. Os longos cílios pretos piscando devagar, à medida que as orbes brancas se abriam. Buscando-me.
Seus olhos encontram os meus, e ele vê desejo neles. A máquina de sexo do meu namorado vem até mim, como se transar fosse automático seu, como se não precisasse despertar totalmente pra isso. Caio no colchão, sentindo-o chegar. Gemo.
Seu corpo suprime o meu, imponente, exigente. Beijando-me. Sobre mim, já sinto com clareza seu pau roçar minha virilha e estimular-me mais, tremo. A parte interna da minha boceta se contrai deliciosamente, sentindo-o partir pro meu pescoço, estou mole. Suas mãos subjugavam as minhas, segurando-as contra o colchão.
Eu o queria, mas ao mesmo tempo, algo faltava em mim.
— Neji... — meu tom é triste, fraco.
Tento sua atenção de meu pescoço, onde me ataca como um animal selvagem. Como se aquela fosse a única língua que a gente falasse. Naturalmente eu me excitava, meu corpo respondia aos estímulos dele espontaneamente. A gente era isso, sexo. Porém, algo dentro de mim, dizia que a gente é mais.
Minha vadia interior pirava, esganiçava com o toque desse homem. O pau duro pressionando, quase furando a minha pele com pressão. Eu o podia sentir desejando aquilo, necessitando. E eu também... porém...
— Neji! — chamei-o, de novo, mais triste. Com a voz num fio. O sexo de Neji não seria suficiente pro vazio que eu sentia.
Ele respeitou, afastou-se olhando os meus olhos. Perdido. Uma profunda expressão de tristeza, desgosto.
— Não me quer, né!? — sua voz é triste, seus ombros estão caídos. — Imaginei... sabia que isso ia acontecer quando soubesse a verdade... — tentou disfarçar. Evitando me olhar.
— Neji... — tentei atrair sua atenção. Apesar de não saber ao certo o que dizer, eu não sabia o motivo de tê-lo rejeitado. Não quando fui eu quem o procurei.
— Você... — com a voz fraca e o cenho franzido, Neji parecia sofrer em tentar dizer aquilo. Como se realmente esperasse o pior.
— ...Neji. — chamei-lhe outra vez. Suspirei, meneei em negativa, a tristeza na voz e na expressão dele era quase palpável.
— ...Vai terminar comigo também!? — ignorou-me. A verdade era que ele parecia não ouvir o que eu dizia, como se sua atenção estivesse em outro lugar. Ao fim de sua fala, seus olhos buscaram os meus, e o medo que eles expressaram... ah, isso acabou comigo. Ele estava com medo de me perder, eu já havia visto esse olhar antes. Há poucos minutos, no espelho do banheiro. Os meus para ele.
Só tive reação em abraçá-lo, trazê-lo pra mim. Eu não iria mais ignorar esses olhos tristes de Neji, não iria mais fingir que não entendi as indiretas dele. Ele estava sofrendo, e eu também.
Seu corpo treme por inteiro, talvez não esperando essa reação. Ele relaxa em meus braços, repousando a cabeça em meu colo.
— Não... — sussurro, tentando reconfortar seu coração. — Eu não vou perder você, Neji. Eu juro. — digo-lhe, emaranhando meus dedos nos fios de seu cabelo.
— Isso é uma promessa? — pergunta baixo, com aquele ar de temor.
— É a realidade. — respondo.
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Naquele início de matina Neji se abriu mais pra mim. Inicialmente ele havia mentindo sobre onde e quando conheceu Tamaki, mas se ele contasse a verdade, teria que contar toda a outra verdade.
Eu me recordava disso, como se fosse ontem. Foi no dia do sequestro, ele me disse que conhecera Tamaki em uma festa que a família Inuzuka havia dado. Disse até que ela já era casada com Kiba há muito tempo. Essa verdade, e olha onde essa verdade nos trouxe... tsc.
Porém, eu não queria julgá-lo, não agora. Queria entendê-lo.
Sobre ser um dos donos da Heaven, ele pretendia me contar tudo quando eu lhe fiz o pedido, a proposta de namoro. Naquela época a Inuzuka já ameaçava-o, a ele e ao Uzumaki. E eu me lembro bem dele tentar me falar algo, foi durante o nosso reencontro na comemoração da promoção de Sai. O próprio albino atrapalhou a gente.
Descobri que Naruto pretendia apagar os rastros dele sobre qualquer envolvimento no negocinho sujo deles. E ele faria isso assim que o próprio Hyuuga assumisse a liderança.
Porém, fazendo isso, Neji ficava totalmente à mercê da Inuzuka. Era como assinar uma carta de escravidão.
Eu não merecia a verdade, Neji? Naquela situação, eu não merecia!? Questionei-lhe, mas sua resposta foi silêncio. O calo apertava e ele ficava cada vez mais contra a parede.
— Tava bom demais, Tenten. Acreditar cada segundo que aquilo era real e não só um negócio. Um acordo. Mas uma parte de mim vivia cada segundo sabendo que poderia ser o último, porque você não retribui meus sentimentos... — ele olhou pra mim, nos meus olhos, falando aquilo.
Sentir-me quebrar em pedaços.
Eu não tive outra reação a não ser desviar os olhos, nervosa. Incapacitada. Não conseguia encarar os olhos dele me dizendo isso, mas também não conseguia lhe dizer a verdade. Lembro de me sentir um lixo, me dando conta do quão hipócrita eu era, cobrando a verdade de Neji, quando nem sincera o suficiente com ele eu tinha coragem de ser. Quase chorei, sentindo como se uma mão grande apertasse o meu coração ao ponto de fazê-lo sangrar até a última gota.
— Neji... acha que eu estaria aqui enlouquecendo se eu não me importasse com você? — ele merecia saber. Não era uma declaração, não era um eu te amo, mas eu esperava que ele compreendesse o significado disso. E ele entendeu. Seus olhos, fitando os meus, foram os mais lindos que eu já vi. Vendo-os se arregalarem lentamente, ganhando um brilho lindo com a nova descoberta. Que era correspondido.
Pegou em seu colo, me beijou. Dedilhei meus dedos em sua nuca, beijando-o. Sua boca quente contra a minha, como se aquecesse meu próprio peito e a minha alma. Aquele vazio passou, que eu senti momentos antes. Eu me sentia completa de novo. Feliz.
Afastamos nossas bocas, estava com o queixo erguido olhando pra mim. Com aquela serenidade estampada em sua face, como se estivesse dormindo. Mas não estava. Ele continua olhando pra mim, e eu pra ele. Parecia um adolescente bobo. Já não existe nem o certo, nem o errado. Só o amor que por encanto, aconteceu.
— Eu te amo. — disse pra mim. Mais uma vez meu coração acelerou, palpitando. Continuei a olhá-lo, sua expressão tranquila dizia que não precisava dizê-lo em palavras, que ele sabia o que eu sentia.
— Eu sei... você disse quando estava dormindo. — deduro, ele arqueia uma sobrancelha e ri. Naquela manhã de sábado, eu finalmente me senti realmente completa. Se é que você me entende.
***
— Eu preciso que o Neji assuma o controle de tudo para que eu possa apagar meus rastros da Heaven. — disse-me, olhando em meus olhos. Seus olhos azuis não mentiam, a situação estava tirando o sono de Naruto também. Ao mesmo tempo que eu queria criticá-lo por agir como um covarde, eu o entendia também. Tinha muita coisa envolvida, muita gente podia se machucar com essa história. Uma delas era a própria Hinata, e eu, como amiga, não queria que isso acontecesse.
Bebi mais um gole do meu suco.
— Acha que pode fazer isso? — indago. Eu o havia chamado, queria conversar. A preocupação do Uzumaki com o desenrolar dessa situação era nítida em seus olhos e suas ações. Ele era mais expressivo que Neji.
— Conheço alguém que pode. — ele disse, recostando-se na cadeira. Estamos num restaurante, e apesar de ser início de semana, estou em horário de almoço. — Alguém que pode deletar do mapa quaisquer laços que eu tenha com aquele cabaré.
Semicerrei os olhos, pouco convicta. Embora tendesse a acreditar. Ele parecia muito ciente e certo do que dizia.
— Como!? — quero saber. Ele me olha.
— A Heaven está sem dono, desde que o Kiba morreu, nem eu e nem Neji tomamos parte disso. E é esse o problema, alguém tem que se responsabilizar. Assumir a parte física do negócio. — fecho o cenho. Negócio. Era isso que era pra ele, negócios.
— Se não... — digo, deixando a pergunta no ar.
— Vai tudo por água abaixo, Tamaki tem o que precisa pra afundar todo mundo com ela. — inclusive o ex-marido. Porque se entregar o Hyuuga e o Uzumaki, ela também entrega o Inuzuka e até ela própria. Que mulher sem escrúpulos, tsc. Ele respirou fundo. — Se o Neji assumir a Heaven, eu posso desaparecer... como se eu não nunca estivesse existido nisso.
— Se ele não assumir...? — arqueio uma sobrancelha, imaginando a resposta.
— Todo mundo se ferra. — ele se aproximou, com as mãos dadas sobre a mesa, sussurrando.
— Não tem como assumir e passar impune!? — minha pergunta era óbvia e até burra, mas eu a fiz. Ele riu com escárnio, com uma mão na boca, negando.
— Não tem como ser um fantasma no mundo dos negócios, Tenten. Você existe em algum lugar, não importa o quão bom seja. — responde.
— E por que não fecham!?
— Porque temos que prestar conta disso também, e não dá pra fechar algo que não tem um dono. — um dono, tudo voltava pra isso. E ele queria que fosse Neji, que o Hyuuga colocasse o dele na reta.
Mas parecia certo, Uzumaki Naruto tinha respostas para todas as minhas perguntas, o que significava que ele próprio já tinha tentando buscar todas as soluções. Engoli seco, pensando.
Ótimo. Que assim seja:
— Três dias. Me dê três dias pra encontrar uma solução. — peço-lhe. Ele me olha confuso, talvez não entendendo o que eu tinha a ver com isso. Eu tinha tudo a ver com isso. Era o meu homem na linha de frente.
Levantei-me.
— Como assim!? — questiona-me, com os olhos acompanhando meu movimento. — O que quer dizer com isso!? — ele apoia as mãos na mesa, seus olhos possuem temor. Desconfiado.
— Três dias. Eu dou um jeito. — digo-lhe, sussurrando, pegando minha bolsa. Encaro suas orbes azuis celestes, ele ainda parecia desconfiado e confuso. Quando uma preocupação finita atravessou aquele olhar.
— Dar um jeito!? — a sombra de um sorriso brinca em meus lábios, quase como em câmera lenta ao mesmo instante que colocava a bolsa em meu ombro e girava os calcanhares, sem desviar meus olhos dos seus. — Tenten, o que está pensando em fazer!? — indaga-me, apavorado. Seu tom dizia isso. Porém já caminhava em direção a saída.
— Eu já disse... Eu dou um jeito. — repeti, num sussurro.
A partir de agora, eu tinha até às 12:35hrs da quinta pra encontrar uma solução. Caminhava entre a multidão de pessoas nas ruas, cada uma com seus problemas particulares. Será que algum deles tinha um problema do tamanho do meu? Eu duvidava muito. Já fazia parte de mim estar nesses saltos altos, andar sobre eles me deixava um pouco mais perto do céu. Não tão perto quanto Neji, que me levava diretamente pra lá. E como me levou nesses últimos dois dias... hm.
O fim de semana foi entre os piores e o melhor da minha vida, eu tinha a cruz e a espada em minhas mãos, e não tinha a menor ideia do que fazer com tudo isso. Mas sei que saberia. Eu precisava. Conheci um lado do Hyuuga que eu nunca imaginei que estivesse ali, Neji tinha uma pegada de romantismo e safadeza que fez minhas pernas tremerem e passar isso por todo o meu corpo. E só de lembrar, hmm, elas estão moles outra vez. Lembrar daquele pau veiudo escorregando pela minha pele toda, sujando-me com o líquido salgado, ou daquelas mãos grandes segurando meu maxilar. De como ele me comeu de lado... sinto uma deliciosa pancadinha em meu ventre quando tudo abaixo da minha cintura se contrai com o pensamento.
Ao mesmo tempo que parecia haver um fantasma entre a gente. Um fantasma de alguém que ainda estava vivo. Ou melhor, viva. A preocupação sobre os estragos que Tamaki poderia causar tirava o sono do Hyuuga, mas a maior preocupação dele era comigo. Comigo. Se era pelo que eu podia fazer ou pelo que ela podia fazer comigo, eu não sei. Percebo que estou parada no meio da multidão que aos poucos se dissipa, uma brisa gelada demais pra o horário mais quente do dia atravessa o ar, me atingindo em cheio, como o prelúdio de algo ruim. O cenário ao redor passa mais devagar à medida que me viro, meus pés fazem um movimento em 90º até o outro lado da rua, mas não há ninguém lá. Pisco.
Volto a realidade, assim como o curso do tempo parece reorganizar. O sol volta a aquecer após a saída da nuvem que lhe escondia, as pessoas voltarem a andar rapidamente e eu ainda estava parada no meio da extensa calçada. Respiro fundo, fechando os olhos. Talvez eu já estivesse perturbada o suficiente.
Nos próximos três dias, isso tudo tiraria o meu sono também.
De volta à NY:News!, eu não tinha a menor ideia do que fazer. Poderia dizer que agi por impulso, mas a verdade é que eu só tentei ganhar mais tempo. Eu vi em seus olhos a pressa, a ânsia de acabar logo com isso, ele estava visivelmente nervoso, no limite. Assim como Neji. Eu precisava passar isso, que resolveria o problema. Tirar um pouco do peso das costas dele, mesmo que isso significasse que esse peso recaísse sobre as minhas próprias.
Eu encontraria a resposta, Tamaki não ia, de novo, tirar Neji de mim. Não ia. E nenhuma das pessoas que eu amo sairiam machucadas nisso. Isso seria entre eu e você, Inuzuka.
— Senhorita Hyuuga, deseja um chá ou um café!? — tenho minha atenção atraída pelo nome. Olho na direção da voz enxergando Hyuuga Hinata sentada em um dos bancos da sala de espera. Hinata, aqui!?
— Não, obrigada. Já me ofereceram. — respondeu, nervosa. Colocando uma mecha de cabelo atrás.
Respiro fundo, mais uma vez, o som dos meus saltos ecoam no piso de porcelanato branco quando me aproximo, tentando tirar aqueles urubus de cima da garota que estava visivelmente desconfortável.
Invejosos interesseiros... tsc.
— Tayuya, pode ir, eu cuido da situação. — pronuncio-me, dizendo pra ruiva invasiva que praticamente ocupava o mesmo lugar da Hyuuga. Hinata se levanta ao me ver, embora eu ainda olhasse na direção da outra.
A secretária curiosa e atrevida do Sai me olha com cara de poucos amigos, ela provavelmente queria conversar com Hinata até que ela soltasse algo que ela pudesse usar em uma de suas matérias tendenciosas. Infelizmente Hinata ainda era uma presa fácil, e eu, como amiga, tinha que protegê-la. Principalmente quando eu vivia no meio disso.
A garota de cabelos vermelhos me olhava com um ódio palpável, mantendo o meu próprio sorriso cínico.
— Vai... vaza. — apontei a saída com a cabeça. Com as mãos na cintura. Eu não mandava nela, mas Sai sim. Talvez na cabeça dela eu iria fazer a cabeça dele pra destruir a vida dela, tsc. Como se eu tivesse tempo pra isso. Suspiro fundo, bem fundo, fechando os olhos. Haja paciência e estômago.
— Tenten. — Hinata me chama, mas ainda olhava na direção da ruiva que se afastava cada vez mais. Eu não conseguia captar o motivo de ter trazido a Hyuuga até aqui. E eu já tinha tantos problemas... Um deles era a irmãzinha adorável que ela tinha, será que Hanabi havia dito alguma coisa? Ela havia me visto numa sala com o Uzumaki. E embora não tenhamos feito nada, eu não confiava naquela criazinha de cobra. Isso fez um frio percorrer minha espinha, céus, eu estava com Naruto há poucos minutos atrás. Será que ela viu?
— Oi, Hinata. — digo-lhe, fingindo um sorriso. Vejo o dela morrer enquanto baixava a cabeça, logo erguendo-a outra vez e fingindo um, como eu. Talvez o motivo disso tenha sido por eu tratá-la pelo primeiro nome, completo. E não Hina, como vinha chamando-a recentemente.
— Desculpe atrapalhar. — pediu, com um tique de estalar os dedos que me agoniava o cérebro. — Eu vim mais cedo, só que você tinha saído pra almoçar e eu fiquei esperando... não quero atrapalhar seu trabalho. — franzi o cenho. Hinata tinha me esperado por quase uma hora!? Agora estou realmente preocupada. — Eu... só... queria falar com você. — disse pausadamente, respirando fundo enquanto olhava pros lados. Assenti.
— Bom, eu tenho mais dez minutos. — toquei com a unha do indicador, o vidro do meu relógio de pulso, indicando que faltava aquele tempo pra voltar ao trabalho. Ela olhou pra mim e sorriu, não parecia falsidade e nem a cara de alguém que ia me acusar de ser amante do noivo dela. Ah, droga. Será que eu tô tão louca assim!? O pior de tudo, era que se Hanabi realmente tivesse infectado Hinata contra mim, eu não poderia fazer nada. Não poderia explicar sem ter que falar a verdade. Então era só esperar pelo melhor.
— Ótimo, não vou demorar... — ela afirmou, sorrindo. Sorri também, eu definitivamente estava imaginando coisas, Hinata sorria pra mim animada e inocente. Do jeito que deveria permanecer. Do jeito que eu lutaria pra preservar.
— Ótimo. — repeti sua fala. — Vamos pra minha sala. — apontei com a mão direita a direção do elevador.
Levei-a até lá. Temari ainda estava em horário de almoço. Fechei a porta de vidro e me sentei na borda da mesa, com os braços cruzados. Enquanto Hinata descansava em minha cadeira.
— Então!? — questiono-lhe. Eu não queria parecer ansiosa, mas estava num momento terrível pra fazer suposições. Era só metade de uma segunda-feira, e eu já estava exausta física e psicologicamente. Tudo culpa sua, Hyuuga. Hinata, me ajuda, por favor. Pedia em pensamentos.
Ela respirou fundo, e sorriu.
— Eu pensei no que você me disse... passei o fim de semana todo pensando nisso... e não quero ninguém interferindo no meu casamento. Vai ser do meu jeito! — jogou de uma vez. Convicta. É a minha garota, sorrio.
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