O preço de uma dívida
10 Um longo caminho de volta para casa (II)
Notas iniciais
“ We’ve been trying for a long time;
To say what we want to say;
Bur felings don’t came easy;
To express in a simple way;
But we all have feelings, we all need loving;
And who would be the fool to say, that if you;
Hold e in your arms I won’t feel better;
If you hold me in your arms;
We can brave this storm together...”
Hold Me In Your Arms
Ricky Astley

** Planície do homem morto (domingo, 25/7 — 05:05 a.m) **
Caitlin
O suspiro forte faz-me desviar o olhar do descampado lá fora para o homem adormecido próximo a mim.
Tentáramos permanecer acordados, atentos aos filhotes, conversando sobre assuntos diversos (ainda impressionava-me a facilidade como a conversa fluía entre nós sem que precisemos forçar), no entanto acabáramos sucumbindo ao sono. Talvez estivéssemos ficando fracos devido a privação de água e comida decente mesmo que há pouco tempo.
O som do trovão e o frio despertaram-me fazendo com que sentasse rápido, olhando a volta, assustada. Por sorte os filhotes permaneciam no mesmo local que antes, alguns metros de onde estávamos deitados.
Um novo gemido tira-me do devaneio e o olho novamente. A respiração tranquila contrastava com a expressão em seu rosto. Não sabia com o que sonhava, mas deveria ser algo muito sério visto que pouco depois começou a contorcer-se como a sentir dores.
Preocupo-me, pois seus ferimentos ainda eram muito recentes e mal haviam cicatrizado, apesar de terem sido bem tratados, o que me levou a conjecturar quem teria lhe prestado socorro. Tenho para mim que sua mãe não fora caso contrário o senhor Merlyn teria ido ter com o senhor Chase e coisa boa não resultaria de tal encontro.
Novamente a conversa que escutara acidentalmente entre as meninas da casa de mama Smoak me vem à mente. Haviam tecido elogios diversos a Thomas ressaltando como era gentil e ao mesmo tempo fogoso na cama, como as tratava com respeito apesar de estar pagando por seus serviços (uma delas chegara a dizer que após ter-se deitado com ele, o faria mesmo sem pagamento) e como invejavam alguém chamada Camille por ser sua predileta.
Inspiro profundamente soltando o ar devagar enquanto corro os olhos por seu corpo, cenas nada pudicas formando-se em minha mente, arrepiando-me inteira ao pensar na possibilidade de conhecer os tais prazeres do sexo através de seus beijos, toques e caricias. Apenas em imaginar sentir seu corpo pesando sobre o meu, sua virilidade rompendo a frágil barreira de minha pureza faz-me estremecer e não pelo frio!
— Oh, Céus, irmã Agatha estava certa. Fiz mal em ler aquele bendito livro! – relembro, deslizando as mãos por meu colo, seios e ventre, envolvendo a mim mesma num abraço apertado a fim de conter os tremores, meu instinto gritando-me para ter cuidado com tais sensações – Pare com isto agora mesmo Caitlin! Deveria estar pensando em como sair viva desta situação e não em fornicar com alguém que não tem interesse em você! Não é decente uma senhorita cultivar certos tipos de pensamentos – admoesto-me.... Por que não? Ele a deseja sim e será uma tola se não aproveitar a oportunidade!, uma voz nada angelical soando em minha mente — Serei mesmo não é? – sussurro em resposta, apoiando-me em meus joelhos, aproximando-me de Thomas o máximo possível sem acordá-lo. Estico o braço lentamente, minha mão aberta, a palma para baixo seguindo o contorno de seu corpo numa distância que julguei segura a começar do peito, descendo – Afinal, não sabemos se iremos regressar e se o fizermos serei obrigada a aceitar o pretendente que minha família determinar, que certamente não será você! – suspiro, olhando seu rosto rapidamente, certificando-me que ainda dormia, continuando meu “passeio”. Vacilo ao chegar a seu quadril, o volume visível sob sua calça indicando que seja lá com o que estivesse sonhando agora, deveria ser agradável. Coro violentamente imaginando se por acaso eu faria parte de seus sonhos, distraindo-me o suficiente para aproximar minha mão mais do que deveria tocando-o de forma não muito delicada justamente no ponto sensível, sobressaltando-me quando desperta de repente.
— O que...?? – indaga, sentando-se tão rápido quanto afasto-me, olhando-me confuso.
— Um....inseto – minto, apontando um ponto qualquer a seu lado – Havia um inseto enorme sobre seu corpo – sustento, o calor em minha face dando-me a certeza de estar ainda mais rubra – Não sabia tratar-se de algo venenoso então resolvi espantar. Perdoe-me se o assustei – peço, baixando os olhos, não conseguindo sustentar seu olhar penetrante.
— Grato – ouço-o dizer após alguns instantes – Há quanto tempo despertou? – quer saber.
— A pouco – respondo com voz falha, ainda sem conseguir encará-lo – Parece-me que a chuva irá cessar – anuncio após haver limpado a garganta, sua movimentação fazendo-me erguer os olhos para ele, que levanta-se com agilidade.
— De fato – concorda, de pé a entrada da caverna – Se as nuvens dissiparem saberemos se é dia ou noite – comenta, massageando o queixo, a sombra da barba por fazer insinuando-se em sua pele.
— Qual dia estamos? – pergunto na tentativa de distrair minha mente com outros pensamentos que não Thomas nas vestes do personagem do tal livro. Melhor dizendo, sem elas! – Era uma sexta quando deixamos Starling não era? Há quanto tempo...
— Domingo – interrompe meu raciocínio – Madrugada do sábado, talvez. Estamos fora a um dia inteiro – elucida, voltando-se para mim – A esta altura nossa ausência foi percebida e grupos de busca devem estar sendo organizados. Será questão de horas nos encontrarem – afirma, seguro.
— Será? – questiono, duvidosa – Parece-me que estamos em meio ao nada! Será que virão procurar-nos por estas bandas? – indago mordendo o lábio receosa.
— Quando não nos encontrarem no caminho usual estenderão as buscas e....
— Então podem não ser horas e sim dias! – corto-o, preocupada.
— Ainda podem ser horas, senhorita, dependendo apenas da distância que estamos da rota principal e da quantidade de grupos formados com a finalidade de nos procurar – contesta, seguro – Ok, podem vir a ser dias – reconhece ante meu olhar dubio – Não nos preocupemos com isto agora. Primeiramente precisamos encontrar água e alimento e nisto nossos amiguinhos podem ser uteis – afirma, dirigindo seu olhar ao filhotes.
— Será que demoram acordar? – indago seguido seu olhar.
— Por certo que não – diz, vindo sentar-se ao meu lado — Assim como nós também têm suas necessidades ainda mais em se tratando de filhotes. Se forem parecidos com cães e gatos, sentem fome a cada meia hora! – conta, rindo com o canto da boca, o que chama minha atenção para esta parte de seu corpo.
—Tínhamos uma cadela no colégio que deu filhote certa vez – divago, desviando o olhar de seus lábios — As irmãs não nos deixavam aproximar-nos por conta das pulgas que a haviam infestado. Apenas quando estavam maiores do que os lobinhos estão conseguimos pegar um deles no colo – conto, a observação seguinte escapando-me antes que pudesse impedir – Perguntávamos na época, como os filhotes eram concebidos – solto, fechando os olhos com força.
— Como senhorita? – interroga, surpreso.
— É que eu..... Hã...eu...nós...na época... Minhas colegas e eu pensamos...- aperto as mãos nervosamente após haver aberto os olhos, tentando entender o que raios o assunto tinha a ver com nossa situação! – Esqueça Thomas. Foi um pensamento estupido – declaro, sacudindo a cabeça negativamente, irritando-me comigo mesma por ter dito tamanha besteira – Veja, parece-me que as nuvens começaram a dissipar – aponto o céu lá fora fazendo-o voltar o rosto naquela direção, desviando a atenção de minha pessoa e todas as bobagens que saiam de minha boca nos últimos minutos – Parece-me ser madrugada realmente – pondero notando o céu escuro em pontos onde as nuvens começavam a dissipar.
— Parece – anui, pondo-se de pé novamente e faço o mesmo notando o quanto estava infinitamente melhor mover-me após ter cortado os forros, retirado a crinolina e os saltos de minha bota – Assim que clarear subirei a encosta a fim de ter uma visão ampla de onde nos encontramos – avisa, voltando o rosto em minha direção – Enquanto estiver lá em cima, fique atenta aos filhotes para que não saiam sem que vejamos – pede e anuo com a cabeça.
— O que espera ver Thomas? – pergunto, sustentando seu olhar.
— Uma rota que seja utilizada, um riacho ou rio, alguma outra fonte de alimento que não amoras silvestres...um rancho ou pequena propriedade, quem sabe, a alguns quilômetros, se tivermos sorte – enumera, dando de ombros – Qualquer coisa que indique se devemos permanecer acampados aqui ou se o melhor é mover-nos – conclui.
— Como iremos caminhar sem algo para transportarmos água? Porque mesmo que haja uma fonte por perto não temos nada para armazená-la – questiono, esfregando os braços ao sentir uma lufada de vento atingir-nos.
— Um problema por vez senhorita – diz, surpreendendo-me ao puxar-me para junto de si, abraçando-me protetoramente – Vejamos o que descubro e a partir daí decidimos o que fazer – sugere e sorrio.
— Decidimos? Você e eu? Juntos?– interrogo, sentindo sua pele vibrar quando ri.
— Bom, não pretendo impor-lhe minha vontade posto que sua vida está igualmente em jogo. Nada mais justo do que ouvir o que tem a dizer – declara, completando a seguir – O que não significa que farei o que disser. Apenas não quero ouvi-la queixar-se que não a escutei – conclui.
— Humpf! Estava bom demais para ser verdade! – resmungo, estapeando-o ao escutá-lo rir outra vez –Algum dia homens e mulheres decidirão de um tudo juntos –profetizo, aninhando-me mais a seu corpo ao sentir o vento frio novamente, seu calor transmitindo-me a sensação de aconchego e proteção.
— Quem sabe um dia. Talvez nossos filhos e netos o façam – declara causando-me um arrepio gostoso.
*** Grupo de busca (manhã de domingo, 25/7- 05:45 a.m)***
Narrador
— Não era bem isso que esperava – Raymond declara apoiando o braço na sela de seu cavalo, erguendo a aba do chapéu com o dedo.
— E o que exatamente esperava Ray? Porque a mim parece-me exatamente da forma como Eddie descreveu-nos ontem à noite – Barry afirma, olhando a volta – Por falar nele, onde está? – pergunta.
— Foi verificar algo lá atrás – Oliver informa, olhando a vastidão a sua frente, coçando a barba, preocupado.
— É muito chão para cobrimos – Roy verbaliza o pensamento de ambos – Para que lado Thawne pretende guiar-nos? – questiona.
— Para lá – Oliver responde, indicando a região a oeste – Mais precisamente a região desértica ao final do desfiladeiro que os índios e colonos chamam de planície do homem morto – específica.
— Além de bastante amplo, o nome não inspira esperança – Harper comenta, olhando a vastidão quilômetros à frente — Acredita que os levariam assim, tão longe? – questiona, sobressaltando-se ao escutar a voz de Thawne as suas costas.
— Se nossas suposições estiverem corretas sim – reforça o rapaz, aproximando-se do grupo acompanhado por outro cavaleiro – Não apenas para diminuir as chances de sobrevivência, mas para evitar deixar rastros – acresce, fazendo o cavalo estancar ao lado de Oliver.
— Isto partindo do pressuposto que não estão mortos! – Raymond exclama.
— Se pensa assim, que faz neste grupo senhor Palmer?– o recém-chegado questiona-o.
— Lance?? Senhorita Sara Lance? – devolve o rapaz, espantando-se quando a jovem ergue a cabeça revelando o rosto oculto pelo imenso chapéu – Como? Quando? Por quê?.... Que roupas são estas? O delegado???– dispara, olhando em volta, nervoso.
— Evidente que não estou em companhia de meu pai e não esperava que cavalgasse de vestido esperava? – responde a garota, erguendo o queixo, atrevida.
— Devo presumir ser ela o cavaleiro misterioso a seguir-nos desde a saída da cidade, correto? – Oliver questiona, encarando o amigo.
— Desde que saímos? Ela nos segue desde que saímos? – Allen espanta-se.
— Por que não disseram-nos nada? – Harper protesta.
— Por não sabermos tratar-se de amigo ou inimigo. Poderia ser um dos homens de Chase. Precisava certificar-me que não corríamos perigo, por isto fiquei gradativamente para trás a fim de investigar – Eddie explica.
— E agora, que faremos? – Ray pergunta.
— Não é seguro fazê-la retornar sozinha, logo um dos cavaleiros terá que o fazer com ela e....
— De jeito nenhum! – dizem em coro Sara, Ray, Roy e Barry, abrindo uma sequência de protestos que fazem os dois loiros rolarem os olhos, Oliver passando a mão pelo rosto, bufando.
— Não podemos nos dar ao luxo de perdemos um homem sequer. Trata-se de uma área vasta a ser coberta, além do que perderíamos um tempo considerável decidindo qual de nós a acompanharia de volta à cidade – argumenta Harper ganhando o apoio imediato de Sara.
— Não retornarei com ou sem um dos senhores. Quero e vou ajudar e nada nem ninguém irá impedir-me! – assegura a jovem, empertigando-se sobre a cela.
—Por certo que não senhorita, visto que nem mesmo o senhor seu pai, delegado da cidade, conseguiu fazê-lo! – Raymond exclama, sacudindo a cabeça negativamente – Foi imprudente senhorita. Muito imprudente – ralha.
— Não serei um estorvo, se é isto que o preocupa senhor Palmer – garante ela, empinando o nariz – Sei atirar além de cavalgar bem melhor do que alguns dos senhores aqui presentes – assegura, os olhos verdes brilhando em desafio.
— Disto não tenho a menor dúvida senhorita – Eddie anui, rindo divertido.
— Então concordamos que a senhorita Lance permanecera conosco comprometendo-se não atrapalhar-nos, correto senhorita? – Oliver declara, encarando-a por sobre o aro dos óculos escuros, sobrancelha arqueada.
— Já disse e repito, não serei um estorvo – reitera a jovem, seus atentos olhos verdes voltando-se para a amplidão a frente – É para lá que iremos? – aponta.
— Sim – Thawne confirma – E já perdemos um tempo precioso. A descida é íngreme. Aconselho àqueles que não têm muita segurança fazê-la desmontado – sugere, dirigindo um olhar de advertência a Barry.
— O quê? Não vou cair ou deixar meu cavalo disparar. Confie em mim – declara o rapaz, sorrindo, puxando a rédea bruscamente fazendo o animal retesar-se levemente – OOOA! Calma ai amigo, calma – pede, alisando o pescoço do animal – Foi apenas um leve vacilo – garante o rapaz, aprumando-se sobre a cela.
— Onde estava com a cabeça quando permiti nos acompanhar Allen, honestamente não sei! – Eddie exclama, sacudindo-a com veemência.
— Sigamos então. Como Harper bem lembrou, temos uma vastidão a ser vasculhada e cada minuto conta – Oliver reforça encerrando a discussão acerca da permanência de Sara– Como faremos Eddie? – pergunta, encarando o amigo.
— Irei a frente posto que conheço a área melhor do que vocês – diz, aprumando o cavalo em direção a trilha – Melhor que vá ao final da fila Oliver, por ser o cavaleiro mais experiente depois de mim – coordena, pondo-se em movimento sem esperar resposta.
— Ele é sempre tão mandão? – Sara questiona.
— Só noventa e nove vírgula noventa e nove por cento do tempo – Raymond afirma sinalizando para a jovem seguir a sua frente — Tomara o senhor delegado não queira matar-nos ao regressarmos por permitirmos sua filha embrenhar-se nesta aventura em companhia de cinco homens! – murmura o rapaz, seguindo-a.
— Como se nos tivesse sido dada escolha diferente!! – Barry resmunga seguindo logo atrás dos dois.
— Algo me diz que o prezado delegado Lance quererá comer nosso fígado com cebola independente do que digamos – Roy comenta, olhando para Oliver.
— Na melhor das hipóteses – retruca o loiro, sinalizando ao rapaz pôr-se em movimento – Contanto que sejamos bem sucedidos, doarei meu fígado ao delegado de bom grado – murmura, dando uma última olhada em direção a vasta área a frente antes de pôr-se em movimento.
***Residência dos Lance ( domingo, 06:20 a.m)***
Quentin Lance
— Já acordada? – pergunto fazendo minha filha mais velha sobressaltar-se – Algo errado Laurel? – interrogo, arqueando a sobrancelha.
— Hã...não, não. Nada errado meu pai – titubeia, pondo-me em alerta — Apenas preocupação de irmã, nada mais – completa, mas antes que possa perguntar o porquê da observação, nossa conversa é interrompida pelo som de palmas a frente de casa.
— Delegado, os senhores Snow e Merlyn encontram-se defronte querendo falar-lhe – a governanta avisa.
— Estou indo – digo, estancando, voltando-me para minha filha mais uma vez – Sua irmã, onde está? – pergunto.
— Hã...acredito que no quintal ajudando Abgail nas tarefas antes de irmos....
— Chame-a – ordeno – Quero as duas aqui quando retornar para tomarmos o desjejum juntos – aviso, dirigindo-me a frente de minha residência, o som de vozes levemente alteradas chegando a meus ouvidos tão logo me aproximo da porta – O que está acontecendo aqui? – questiono adentrando a varanda, correndo os olhos pelo grupo formado por meu subdelegado, Henry Allen, Malcom Merlyn e Dominique Snow – Senhores, muito bom dia – cumprimento-os.
— Tenho dúvidas quanto a ser bom Quentin – Allen rebate, estendendo-me a mão com uma folha de papel nela.
— O que é isto? – pergunto, indo até ele, segurando o papel em minhas mãos.
— Um bilhete deixado por meu filho avisando-me que iria em busca de Thomas e da senhorita Caitlin – adianta-se fazendo-me erguer os olhos do papel – Minha esposa foi chamá-lo para o desjejum e encontrou isto pregado na parte interna da porta de seu quarto — conta, passando a mão pelo cabelo, tenso – A princípio pensei tratar-se de alguma brincadeira de Barry, porém ao constatar a falta de meu cavalo além de minha maleta de trabalho, tomei por verdade – afirma, encarando-me – Barry diz que outros iriam com ele – avisa.
— Está sugerindo que seu filho supostamente esteja participando de um grupo de busca por conta própria Allen? – questiono.
—Ao menos é o que me deu entender delegado – responde o homem, agitado – Resta saber quem mais estaria envolvido nesta maluquice.
— Tenho para mim que sei de um nome ao certo – Merlyn diz, chamando nossa atenção para si — Harper, meu braço direito na empresa, também ausentou-se da cidade deixando-me um recado dizendo não saber informar a data na qual retornaria e seu subdelegado estava a nos contar que Eddie Thawne fez o mesmo quando Henry chegou – Merlyn revela, Ferris, meu subdelegado, confirmando.
— Verdade. O velho Oakley estava por conta, xingando Thawne de toda sorte palavrões quando passei pelo saloon a pouco – acresce.
— Será mesmo possível os três terem ido à busca de nossos filhos? – Snow interroga, surpreso.
— Os quatro – corrige-o Robert Queen, abrindo passagem entre eles – Oliver está com eles – revela, parando a minha frente – Partiram antes do amanhecer. Pelo que minha nora contou-me planejaram tudo ontem à noite, aqui em sua residência, enquanto estávamos reunidos no conselho – conta.
— Neste caso é quase certo que ao menos um dos Palmer também esteja no grupo posto que estão sempre juntos – Ferris supõe fazendo uma sirene de alertar soar em minha mente.
— Dê-me licença – peço, retornando ao interior de minha casa, a sirene soando mais e mais alto – Laurel? – chamo não obtendo resposta — Laurel venha já aqui! – ordeno, parado em meio a sala, uma das criadas aparecendo em seu lugar.
— A senhorita Laurel pediu-me para avisá-lo que foi mais cedo a igreja posto que comprometera-se ajudar na escolinha dominical enquanto a senhorita...
— Onde está Sara? – interrompo-a, irritado – Nem pense em mentir para mim, mulher!– alerto, dando um passo em sua direção, fazendo-a recuar – Diga, onde ela está? – repito, avançando devagar, vendo o pânico em seu olhar na medida em que me aproximo – Senhorita Flores, tem dois segundos para dizer-me onde Sara...
— A senhorita partiu antes do amanhecer tarjando roupas masculinas e chapéu, levando um dos cavalos e alguns alimentos além de uma de suas armas – solta, encostando-se num canto de parede, acuada – Tentei detê-la patrão, juro que tentei! Mas a senhorita enganou-me e prendeu-me no armário da área, lá fora. Não fosse a senhorita Laurel ainda estaria presa. Desculpe-me patrão – pede, chorosa.
— Tudo bem senhorita, tudo bem– digo, passando a mão pelo cabelo, respirando fundo, dispensando-a antes de retornar a frente de casa – Senhores — chamo fazendo-os silenciar e voltarem-se para mim – Qual a novidade agora? – pergunto ao notar a presença de Harold Palmer, tio do jovem Raymond.
— Na verdade uma confirmação Quentin – Robert Queen diz – Conforme desconfiáramos, um dos irmãos Palmer faz parte do grupo.
— Qual? – quero saber.
— Raymond – Merlyn informa e fecho os olhos puxando o ar para meus pulmões com força, cerrando o punho – Algo errado Quentin? – ouço-o perguntar, abrindo-os, encarando o grupo a minha frente.
— Há alguém que possa contar-nos os planos do grupo? – questiono, não respondendo Malcom a princípio.
— Minha nora e filha – Robert diz, acrescentando cuidadoso – E talvez suas filhas.
— Certamente minhas filhas – anuo respirando fundo mais uma vez, encarando Snow – Não é o único a preocupar-se com a virtude de sua filha Dominique– digo, lembrando a questão levantada por ele no conselho (influenciado pela esposa com toda certeza) que por muito pouco não provocou uma briga com o Merlyn.
— O que quer dizer com isto delegado? – Malcom questiona, tenso.
— Minha filha mais nova partiu com o bendito grupo de busca – revelo, irritado, deixando-os boquiabertos – Mudança de planos Ferris. Irá ficar e assumir tudo por aqui. Partirei imediatamente – decreto, calçando as luvas enquanto caminho em direção a meu cavalo, Robert Queen barrando minha passagem – Saia da frente Queen – ordeno, não escondendo minha irritação.
— Não pode ir sozinho Quentin. Não foi o combinado – cobra, prosseguindo sem dar-me chance retrucar – Além do mais, minha nora e filha nos dirão qual direção tomaram e quais planos tinham em mente a fim de que possamos interceptá-los mais rapidamente – argumenta.
— Robert está certo – Merlyn corrobora, parando a meu lado juntamente com Snow – De certa forma, estamos todos no mesmo barco – diz, girando o indicador – Nossos filhos estão em algum lugar nessa imensidão afora, por escolha própria ou não. Devemos unir forças a fim de encontrá-los antes que o pior aconteça – discursa.
— Merlyn está certo – Snow anui, surpreendendo a todos – Unamos forças em prol do bem maior – filosofa e arqueio a sobrancelha.
— Queen – volto-me lentamente na direção do homem – Traga sua nora e filha que irei buscar Laurel. Encontramo-nos aqui, em vinte minutos. Partiremos tão logo saibamos a direção tomada pelo grupo. Ferris, organize os homens para receber a diligencia com o tal prisioneiro federal que irá pernoitar na cidade. Cuide para que tudo corra conforme o esperado – oriento, ele apressando-se me obedecer – Senhores, até já – despeço-me, dirigindo-me a igreja.
**** Planície do homem morto( domingo, 07:59 a.m) *****
“...We both know there’s a problem;
A problem that we’ve got to face;
So put your trust in me, lover;
No one’s ever gonna take your place...”
Thomas
Respiro lenta e profundamente a fim de conter nova interjeição de raiva enquanto miro o horizonte mais uma vez.
Como e por que fomos trazidos tão longe? Como não despertei a tempo de impedir tal desastre? E o mais importante: como diabos iria nos tirar desta situação? O chute dado em meu rosto pelo cocheiro, por mais forte que houvesse sido, não era o suficiente para manter-me inconsciente por tanto tempo. Só posso ter sido, de alguma forma, em algum momento, drogado...
— Thomas, vê algo? – a voz doce ecoa pelo vale cortando minha linha de pensamento e olho para baixo comtemplando seu rosto tenso e ansioso.
— Não. Nada – respondo, sincero, suspirando – Nada a não ser rocha, areia e vegetação rasteira – acresço, passando a mão por minha boca, limpando o suor ali acumulado.
—Rios, construções? Nada? – interroga novamente e nego com um gesto de cabeça.
—Nada – repito, descendo meu olhar até ela – Os filhotes, onde estão? – questiono-a. Tinha quase certeza tratar-se da área denominada pelos indígenas da tribo a qual a mãe de Eddie pertencia, cocheiros e alguns moradores mais antigos em Starling, como Planície do homem morto. Por que? A imensa quantidade de assassinatos cometidos no local, os corpos sendo deixados a céu aberto sem qualquer preocupação ou temor. Ouvira diversas historias a respeito do lugar quando mudáramos. Nenhuma com final feliz.
—Estão brincando próximo a entrada da caverna – ouço-a responder – Parece-me que começam a ficar mais ativos. Melhor que desça Thomas, não quero que saiam sem que esteja aqui embaixo – pede.
—Já estou indo senhorita. Quero apenas certificar-me de uma coisa – digo, erguendo os olhos para a amplidão a minha frente, tentando divisar se a pequena linha quilômetros a minha esquerda tratava-se de uma estrada, uma trilha ou mera ilusão de ótica, a voz de Caitlin chamando-me atenção.
—Thomas estão saindo! – exclama, a voz saindo estridente – Thomas! – chama mais uma vez.
—Estou indo senhorita – aviso, dirigindo-me a encosta – Não aguarde-me. Siga-os, estarei logo atrás da senhorita – garanto, franzindo o cenho ao escutar o que acabara de dizer-lhe – Isto pareceu-me terrivelmente estranho – murmuro, buscando apoio nas mesmas bases que usara para subir – Não os perca de vista – recomendo mal escutando sua resposta, concentrando-me em não cair posto que a descida estava revelando-se mais difícil do que a subida o fora.
Quando atinjo o solo, volto-me em direção a entrada da caverna não vendo-a nem aos filhotes.
—SENHORITA? CAITILIN? – chamo em voz alta escutando-a responder.
—A SUA DIREITA THOMAS. VENHA RÁPIDO! – solicita e me ponho a correr na direção da qual vinha sua voz avistando-a segundos depois – Estão logo ali – aponta quando a alcanço.
Seguro a mão que me estendia lhe dando apoio para seguir em frente, ora parando, ora andando a passos rápidos, quase correndo, seguindo o ritmo determinado pelos filhotes sem prestar atenção aonde íamos, o que infelizmente teve seu custo quando finalmente paramos. Toda a alegria que senti por saber que acertara no que dizia respeito a fonte de água esvai-se ao perceber que não fazia a menor ideia de qual direção deveríamos tomar para retornarmos a caverna na qual nos abrigáramos.
—Oh, droga! – xingo, socando o ar, irritado comigo mesmo.
—O que foi Thomas? Não está feliz por termos encontrado água conforme previra? – Caitlin questiona, estancando, voltando-se para mim, surpresa.
—Estou, porém não me dei ao trabalho de prestar atenção no caminho. Não sei como voltar a caverna – confesso, contrafeito, olhando os filhotes – Novamente teremos que nos deixar guiar por eles se decidirem retornar para lá – admito.
—Então o faremos – diz e sorrio de sua ingenuidade – Por que ri? Falei alguma tolice? – questiona-me, franzindo o cenho.
—Não senhorita, não falou – tranquilizo-a – O problema consiste no fato de que antes eles retornavam talvez por nossa causa. Agora não haverá esta necessidade visto que os seguimos – explico vendo-a morder o lábio inferior, insegura.
—Oh, droga! – parafraseia-me e rio mais, acabando por contagia-la.
—Estava tão ansioso por encontrar água que sequer cogitei esta possibilidade. Agora terei que pensar numa maneira de nos levar de volta ou faze-los nos levar posto que não vejo nada que possa nos servir de abrigo a exceção dessas poucas arvores – relato, indicando o pequeno aglomerado mais à esquerda, algo próximo a uma delas chamando minha atenção.
—Daremos um jeito – ouço-a dizer e volto minha atenção para ela novamente – Juntos pensaremos numa maneira de voltar, se aceitar a opinião e ajuda de uma mulher, claro – provoca-me, segurando e erguendo a saia de seu vestido, caminhando para junto do pequeno lago a nossa frente.
Balanço a cabeça negativamente, rindo de sua provocação, deixando momentaneamente de lado minhas preocupações. Sigo-a, sentando a seu lado, me inclinando a fim de beber água fresca, o liquido descendo por minha garganta suavemente, trazendo alivio.
—Será que há mais daquelas frutinhas por aqui? – Caitlin questiona, ajuntando um punhado de água em suas mãos, atirando-a sobre rosto e pescoço.
—Talvez – respondo, incapaz de desviar meus olhos dela quando repete o gesto, acompanhando com o olhar o caminho traçado pelo liquido em seu corpo, “mergulhando” no decote quadrado de seu vestido, minha imaginação levando-me a um campo perigoso...Controle-se Tommy! Controle-se! Pensamentos como este são perigosos ainda mais na situação que nos encontramos... advirto-me mentalmente, me inclinando, imitando-a.
—Podemos procurar? – pergunta, tocando meu ombro quando demoro responder.
—Sim, podemos – respondo, olhando a volta a procura dos filhotes, visualizando os três comendo algo alguns metros a nossa direita – Parece que andaram caçando – comento, ela voltando-se para eles.
—Oh!! Pobre bichinho! – exclama levando uma mão a boca, compadecida.
—É o instinto deles senhorita, não fazem por maldade ou esporte como nós humanos – digo, erguendo-me – Na verdade, adoraria um bom assado neste exato momento – admito, observando o lago mais atentamente – Ou um peixe frito – pondero, notando o movimento mais ao fundo, me animando, buscando algo que pudesse me servir de arma, encontrando um galho relativamente forte.
Pego-o, sentando, retirando o punhal da bainha presa a minha bota, limpando-o, fazendo uma ponta afiada.
—Que pretende fazer com isto Thomas? – pergunta, soltando as tiras de suas botas.
—Uma arma, por assim dizer, com a qual posso pescar – respondo, atento a seus movimentos – Que esta fazendo senhorita? – pergunto.
—Não parece obvio? – responde, descalçando as botas uma por vez, erguendo o vestido o suficiente para expor os tornozelos, deslizando até a borda do laguinho, mergulhando os pés – Ahhhh! Delicia! – suspira, apoiando o peso do corpo nos braços esticados, fechando os olhos, sorrindo deliciada enquanto mexe os pés delicadamente dentro da água.
Por alguns minutos me distraio com a visão, a bagunça dos filhotes tirando-me do transe.
Lentamente desvio o olhar para os lobinhos vendo-os correr de um lado para o outro numa espécie de briga amigável pelo restante de sua presa. Rio pelo nariz, voltando minha atenção para o lago mais uma vez, me afastando de Caitlin.
—Tente não agitar muito a água senhorita ou irá espantar os peixes, se houver algum – peço, abaixando a voz no final da frase, caminhando até uma saliência no lado esquerdo, próxima ao agrupado de arvores.
—Ficarei quietinha aqui Thomas, pode deixar – garante e levo um dedo a meus lábios pedindo-lhe silencio – Ok, ficarei calada também. Não atrapalharei o grande caçador! — cochicha e torço o nariz dirigindo-lhe um olhar magoado.
Nos minutos seguinte me concentro na água a minha frente, visualizando alguns peixes sob ela. Me agacho devagar posicionando o “arpão” que improvisara de forma a ficar pronto para atira-lo assim que julgasse ter uma presa na mira. Retenho o ar nos pulmões quando dois se aproximam de minha posição, mirando e atirando quando sinto que estão perto o suficiente, errando o alvo por pouco.
Volto a minha posição inicial ficando alerta mais uma vez, observando, atirando com tanta vontade que acabo por perder o equilíbrio caindo no lago, irritando-me ao escutar a risada melodiosa de Caitlin, não por ela estar rindo mas por não ter-me sentido ofendido diante do fato.
—Desculpa Thomas – ouço-a dizer enquanto nado de volta a margem e ergo a mão em sinal de aceitação a seu pedido.
Respiro fundo saindo da água, retornando para cima da saliência me concentrando novamente à espera dos peixes, rezando intimamente para que não os tivesse espantado, vendo, para meu alivio, que isto não ocorrerá. Mais uma vez me concentro, caprichando ao atirar o arpão improvisado, acertando meu alvo desta feita.
—Yes! – vibro, erguendo minha presa, orgulhoso, olhando em direção a Cait ao escuta-la bater palmas. Sorrio sem graça – Agora só preciso fazer fogo para que não sejamos obrigados a come-lo cru! – murmuro, caminhando de volta aonde ela se encontrava ainda sentada com os pés dentro d’água – Senhorita, importa-se em limpar o peixe enquanto tento fazer fogo? – pergunto, hesitante.
—Certamente – responde de pronto, me surpreendendo – Devo lembra-lo que cozinhar é algo que Devemos aprender desde cedo Thomas? – inquire ao levantar-se ante minha expressão de espanto suponho) — Mulher que não sabe lavar, passar e cozinhar para seu marido não é mulher que preste! – fala, amarga, e a encaro pensativo – Dê-me aqui e ao punhal que irei prepara-lo – pede, estendendo a mão.
Entrego-lhe o que pedia, voltando-me a procura de gravetos que pudessem servir para que fizesse fogo. Caminho pelo terreno irregular, recolhendo pedaços de madeira secos, sobressaltando-me ao erguer a cabeça e ver a sombra de alguém recostado numa arvore ao longe.
Estanco, tenso, dirigindo um olhar rápido em direção a Caitlin certificando-me que estava distraída na tarefa que lhe dera, dando atenção a figura alguns metros a minha frente outra vez.
Deixo o que havia recolhido num canto escolhendo o mais forte e grosso pedaço que encontrara, caminhando lateralmente em direção a figura misteriosa com o coração disparado. Confesso que me sentia inseguro. Jamais havia agredido alguém fisicamente. Digo, não tendo a responsabilidade em proteger outra pessoa, ciente de que talvez precise mais do que nocautear o intruso, o simples pensamento me dando ânsia de vomito.
Pelo canto do olho vejo um dos filhotes me seguindo, enquanto os outros dois se aproximam de Cait, sentando próximos a ela como que a guardá-la e não sei bem porque relaxo um pouco.
Respiro fundo prosseguindo meu caminho, me aproximando gradativamente da figura que permanece imóvel. Uma sensação ruim começa a me dominar na medida em que tomo ciência de que o intruso provavelmente já se encontra sem vida o que se, por um lado iria poupar-me uma luta corporal, por outro indicaria que aquele local não era seguro para que permanecêssemos por longo tempo.
Admito: fiquei aliviado ao constatar que realmente estava morto. Apoio as mãos no tronco da arvore respirando normalmente, abrindo os olhos ao escutar o som de algo quebrando.
—Não amiguinho, não mexa nisso – ralho, o filhote afastando-se relutante, sentando-se de frente para mim – Ele não representa mais nenhuma ameaça, mas como minha avó me ensinou, devemos respeitar os mortos portanto deixe-o em paz – acrescento, tocando sua cabeça inadvertidamente, recolhendo a mão rapidamente quando me dou conta do gesto- Ora, ora, mão e dedos intactos! – admiro-me, olhando o filhote, que me encara virando a cabeça de um lado para o outro – Deixa pra lá – digo, sacudindo a mão – Senhor, desculpe-me por isto mas vejo que possui um cantil e uma garrafa em seu cinto. Como não ira mais precisar e nós sim, irei retira-los – falo, benzendo-me antes de tocar os objetos, retirando-os da cintura do finado – Seu chapéu também pode-nos ser útil...esquece! – digo, soltando a peça ao ver o buraco no crânio – Não sei se me sinto tão mais aliviado agora que vi a forma como morreu amigo – declaro, olhando em direção a Caitlin ao ouvi-la chamar-me – Hora de ir – sussurro, avaliando o esqueleto em busca de algo mais que poderia nos ser útil – ESTOU INDO SENHORITA – respondo ao escutá-la me chamar outra vez.
Decido esconde-lo a fim de evitar que Caitlin o visse. Deito-o com cuidado cobrindo-o com folhas e galhos próximos levantando assim que termino minha tarefa.
Quando estou voltando noto a toca alguns metros presumindo ter sido ali que os filhotes nasceram. Paro junto a pilha de madeira que havia ajuntado, recolhendo-a antes de seguir caminhando até Caitlin.
—Thomas, honestamente, gostaria que parasse de sumir de minha vista! Fico nervosa em ficar sozinha – reclama mal me aproximo, mãos na cintura, fazendo um lindo biquinho – Não que tema abandonar-me, sei que não o fara, mas não tê-lo por perto me enerva, tira-me do sério – afirma, suspirando.
Posso dizer o mesmo....Não sei se pelas mesmas razões!— Perdoe-me senhorita, mas algo chamou minha atenção e fui verificar do que se tratava. Veja o que encontrei – exibo meus achados após colocar a lenha no chão a nossos pés – Devem ter pertencido algum viajante distraído, para nossa sorte – minto, olhando por sobre sua cabeça – Que fez com nosso peixe? – pergunto, franzindo o cenho.
—Como estava demorando devolvi para o lago – responde, pegando cantil e garrafa de minhas mãos, examinando-os.
—Está brincando não está? – indago tenso, ela acenando negativamente.
— Não – reitera e abro a boca espantado.
—Cait...Senhorita....Tive um trabalhão para pegá-lo e ... Hei, isto não é para você! – ralho ao vê-la abrir a garrafa tomando um gole generoso antes que a impedisse, a pele alva assumindo uma coloração vermelha de imediato– Dê-me isto – confisco-a de suas mãos.
—Que é isto? Que coisa ruim – reclama, pondo a língua para fora, esfregando-a com a mão ao mesmo tempo em que faz uma careta engraçada.
—É rum senhorita e se não tem costume obvio que irá estranhar – explico tentando ignorar a sensação de formigamento em todo meu corpo provocadas por seu gesto despretensioso – Jogou realmente o peixe na água senhorita? – reinquiro, desanimado.
—Evidente que não – afirma, cuspindo – Argh! Que torço ruim! – resmunga, me dando as costas, caminhando em direção ao lago.
—Mas acabou de dizer que o havia feito – contesto, seguindo-a mal humorado.
—Disse que o havia posto no lago e não atirado nele – corrige-me e arqueio a sobrancelha – Não podia deixa-lo sobre a pedra porque nossos amiguinhos estavam de olho, logo...- para, agachando-se junto a margem – Lembra da crinolina? – pergunta sem me olhar, respondendo a si mesma – Enrolei-o num pedaço após cortar e lavar, obvio, o prendi e pendurei bem aqui – conta, puxando um cordão, exibindo o peixe devidamente tratado – Minha parte – diz, entregando-me.
—Ok – anuo, aliviado – Poderia lavar e encher este cantil por favor? Não é muito grande, eu sei, mas para quem não tinha nada...
—Por certo que sim – prontifica-se.
Entrego-lhe o cantil afastando-me com a garrafa de bebida (algo dizia-me para não deixa-la perto de Cait) escolhendo um canto protegido do sol, que surgira forte, esquentando e deixando tudo abafado e sufocante. Apoio o peixe sobre alguns galhos cruzados, arrumo outros de forma a montar uma pequena fogueira conforme vira Eddie fazer anos atrás. Em seguida amontoo-o grama seca sob eles, pego um pedaço de madeira e um graveto começando a gira-lo entre as mãos, uma ponta sobre o pedaço de madeira, soprando ocasionalmente.
Durante o que me pareceu uma eternidade, repito o processo até finalmente algo acontecer. Primeiro uma fumaça discreta anuncia que estava no caminho certo. Mais alguns minutos de movimentos repetidos e vigorosos e uma pequena fagulha da inicio as chamas me fazendo vibrar.
—Você conseguiu de fato – ouço-a elogiar e ergo os olhos encontrando os seus pela segunda vez hoje – Lavei e enchi o cantil. Posso fazer o mesmo com a garrafa – se oferece estendendo a mão.
—Por hora o rum irá nos ser útil de outra maneira – afirmo, despejando um pouco da bebida sobre a lenha fazendo a chama aumentar.
—Humm, o álcool ajuda com o fogo! Boa ideia Thomas – elogia, sentando-se de frente para mim, os filhotes logo atrás dela – Vai por o peixe direto sobre o fogo? – questiona.
—Não. O porei num espeto que porei sobre estas duas traves aqui – explico, pegando os galhos que escolhera para cada finalidade, usando o punhal para prepara-los.
Sob seu olhar atento, enfio o peixe no espeto, as duas traves no chão junto ao fogo, ponho o espeto sobre os ganchos que fizera nas traves evitando que fosse atingido pelas chamas ou que precisasse pô-lo sobre o fogo diretamente. Na hora seguinte permanecemos em silencio apenas observando o peixe assando lentamente, nossa atenção desviando-se vez ou outra para os filhotes que haviam saído da inercia e agora corriam e brincavam feito loucos por todo terreno a nossa volta.
—Está pronto – anuncio depois de provar um pedaço – Prove – peço, oferecendo-lhe um naco, satisfeito ao notar que aprovara.
—Mesmo não tendo tempero algum está bom – diz, servindo-se de outro pedaço. Faço o mesmo.
Após uns cinco minutos havíamos consumido todo o peixe, tomáramos parte da água (eu atrevera-me um gole de rum bem pequeno) e agora estávamos sentados junto ao fogo apenas relaxando em silencio, o qual é quebrado por ela após alguns minutos.
—Permaneceremos aqui ou tentaremos retornar a caverna Thomas? – questiona fazendo-me recordar o esqueleto.
—Devemos tentar retornar – falo, finalmente – Ainda pode chover e aqui não temos abrigo. Recolheremos mais lenha, tentarei pegar outro peixe e completaremos o cantil antes de partimos. Caso não chova, amanhã viremos aqui novamente para passarmos o dia – concluo.
—Então não iremos andar em busca de socorro? – inquire.
—Por hora melhor ficarmos quietos, acumularmos energia enquanto pensamos numa forma de levar alimento conosco e qual direção seguir – pondero, erguendo-me – Devemos cuidar nisto agora para não sairmos com escuro visto que ainda precisamos acertar o caminho para a caverna.
—Estive pensando enquanto pescava – Caitlin diz, levantando-se – Acredito que se começarmos a caminhar reto por esta trilha – indica o ponto a nossa esquerda – Iremos encontrar a caverna com certa facilidade. Não fizemos mais do que uma curva quando os seguíamos até aqui – lembra, caminhando a meu lado para o lago – E ai nossos amiguinhos por certo farão o resto por nós visto que, ao que me parece, eles também gostaram da caverna para se proteger. O que acha?
—Pode dar certo – concluo, pensativo – De qualquer forma devemos tentar. Não podemos ficar ao relento. Além do risco de chover há o frio também – justifico, segurando o arpão de madeira – Melhor calçar suas botas senhorita, assim que pegar algo partiremos – aviso.
—Não seria melhor prepararmos aqui e levar o que conseguir já pronto? – sugere.
—É...pode ser – concordo, caminhando em direção a saliência novamente tendo-a bem perto – Aonde está indo?
—Quero vê-lo pescar. Prometo não atrapalhar – diz, beijando os dedos cruzados e rio.
—Duvido, mas pode vir – libero, parando no mesmo ponto de antes, me concentrando dentro do possível posto que ela se encontrava tão perto que sentia seu perfume sempre que o vento soprava (como um perfume pode durar tanto tempo assim?).
Após alguns minutos nossa espera é recompensada. Desta vez acerto os dois alvos sem grandes dificuldades.
A beira do lago, ajudo-a limpa-los retornando ainda a seu lado para junto da fogueira, reacendendo-a. Ponho os peixes pra fritar enquanto Caitlin calça suas botas indo encher o cantil ao terminar.
Envolvo os peixes em um pedaço de tecido que lavamos mantendo-os úmidos, apago a fogueira deixando apenas um pedaço de madeira com brasa acessa.
—Leve os peixes senhorita, enquanto me encarrego da lenha – peço, entregando-os antes de recolher o máximo de madeira que consigo – Vamos indo? – convido, ela acenando afirmativamente.
Seguimos a trilha sugerida por ela, os filhotes surgindo após alguns minutos, correndo a nossa frente e lado. Peço a Caitlin que tente fazer marcações pelo caminho usando um graveto longo e forte. Na medida em que andamos reconheço parte dos locais por onde havíamos passado seguindo os filhotes, o que me traz alivio e segurança.
Caminhávamos por cerca de uma hora quando avistamos o descampado onde ficava a caverna. Trocamos um olhar de alivio e cumplicidade antes de aumentarmos o passo chegando a caverna em poucos minutos.
Sentamos lado a lado no interior do lugar, organizamos a fogueira. Por um milagre consegui manter um pouco da brasa acessa o que ajudou e muito na feitura da nova. Preparo novas trave e espetos, colocamos os peixes. Enquanto esquentam, decido ir colher mais amoras silvestres para comermos junto com o que trouxéramos retornando a caverna quando a noite começava a cair.
Sento-me junto a Caitlin entregando-lhe uma folha com algumas amoras. Comemos o peixe e as amoras conversando sobre os acontecimentos do dia, decidindo que voltaríamos ao pequeno lago no dia seguinte, exploraríamos o lugar um pouco mais detalhadamente (faço uma nota mental para evitar o local aonde o esqueleto estava) e somente depois decidiríamos o que fazer, o vento frio e a chuva fina que começa a cair convidando-nos a deitar juntinhos perto do fogo, observando os filhotes fazerem o mesmo um pouco mais distantes.
Tendo-a junto a meu corpo, abraçando-a, sentindo suas mãos acariciando meus braços delicadamente faz-me desejar que o tempo parasse naquele exato instante, por mais errado que isto fosse, seu suspiro sendo o ultimo som que ouço antes de adormecer.
“...You only have to hold me;
Touch me to make me feel so good;
You only have to hold me, feel me;
To make me feel the way you know I should;
Hold me in your arms;
Hold me in your arms...”
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