O preço de uma dívida

26 Cidade animada esta, não?


Notas iniciais
Olá flores! Voltando depois de um longo e tenebroso inverno...SQN! kkkkk Aqui tá é um calor daqueles de fritar ovo no asfalto! Sério. Há momentos em que até a brisa é morna, misericórdia! Mas vamos ao que interessa. Tommy e Cait receberão novidades (não, ainda não é um babie. É muito cedo gente!!). Umas boas, outras que merecem atenção, outras que deixarão nosso mocinho tenso por demais. A cidade de Starling começa "sofrer" as consequências do progresso iminente. Muitos negócios a vista. Pra terminar, figuras ilustres chegam para abalar as estruturas das famílias Merlyn e Snow. E uma não tão ilustre vem averiguar o estado das coisas. Grata por todas as rewiews passadas.... Aguardo mais rewiews.... Boa leitura.... Bjinhos flores. LEIAM AS NOTAS FINAIS

“First time I met you;

Knew I never could forget you, girl;;

You always saw the blue skies;

Past the rain clouds in my eyes;

There’s music in your laughter;

From the floor up the rafters;

You’re that happy ever I’ve been after my whole life;

Who knows where I’d be without you?

No, I just couldn’t be without you;

I’ll just say Amen…”

Blessings

Florida Georgia In Line

Residência Merlyn (segunda, 4/10 – 6:00 a.m)

Thomas

Desço as escadas de mãos dadas com Cait, o cheiro de pão quentinho invadindo nossas narinas.

—Humm! Adoro pão fresco! – exclamo.

—Também gosto – Cait anui, a nota tom triste em sua voz não me passando despercebido, fazendo-me parar na metade da descida, obrigando-a fazer o mesmo – Que há? – pergunta, me olhando confusa.

—Devolvo-te a pergunta: que há, amor? Algo a incomoda? – quero saber, a mordida leve que dá em seu lábio inferior dando-me a certeza de minha desconfiança – Cait, pode falar. Algo a entristeceu repentinamente e quero saber o quê – insisto.

—É bobagem sentir ciúmes por não poder preparar o desjejum de meu marido? Ou seu almoço? Ou pôr a casa a seu jeito, seu gosto? – questiona, respondendo a si mesma – É bobagem sim! – suspira longamente – Deveria sentir-me grata por minha sogra ser tão boa para mim. Ouvi tantas histórias no internato sobre sogras que tornam as vidas de suas noras um inferno, criticando-as e dizendo não serem dignas de seus filhos, além de outras histórias assustadoras – conta, estremecendo levemente e não há como não rir – Está a rir-se de mim! Como sou boba! — diz, fazendo um muxoxo gracioso.

—Do contrário meu amor. Nada de bobo há em querermos ter nossa intimidade, em queremos dormir até mais tarde aos finais de semana ou mesmo ficarmos na cama, juntinhos, em uma manhã chuvosa – enumero, me incluindo propositadamente.

—Também pensa assim? – pergunta, sorrindo pequeno.

—Evidente– confirmo, tocando a ponta de seu nariz – E sabe o que mais? Também quero preparar-te um café da manhã especial em datas especiais ou simplesmente para expressar o quanto a amo – declaro, vendo-a abrir a boca, surpresa – Sim, seu marido sabe cozinhar! – digo, roubando um beijo rápido – Nada sofisticado ou muito elaborado, claro, mas não passaria fome em caso de minha esposa não poder cozinhar, por alguma razão, e não termos condição em ter serviçais – afirmo, retomando a descida juntamente com ela.

—Por que aprendeu cozinhar? Vosso pai sabe? – pergunta, curiosa e rio.

—Sim, ele sabe e ficou tão chocado quanto é possível um pai ficar vendo o filho varão às voltas com panelas! — revelo — Mas acabou por relevar a situação, não dando-lhe exagerada importância – digo, fazendo-a parar no sopé da escada – Minha mãe ficou doente certa ocasião, pouco após meu tio morrer. Precisou ficar alguns dias interna. Nossa governanta, na época, ficou a fazer-lhe companhia. Meu pai trabalhava ferrenhamente àquela época e mesmo estando em casa de meus avós passava algum tempo sozinho – conto, pondo uma mecha de seu cabelo para trás – Acabei por fazer amizade com os serviçais da cozinha e foi lá que aprendi algumas coisinhas – faço uma careta, minha esposa rindo divertida.

—Meu marido é mesmo cheio de surpresas! – exclama, ficando na ponta dos pés, tocando meus lábios com delicadeza – Que sortuda eu sou – comemora.

—Posso dizer o mesmo de ti, minha doce e linda esposa – elogio, enlaçando-a pela cintura, mas quando ia tomar seus lábios, escuto o limpar de garganta a minhas costas seguido do chamado de meu pai.

—Bons dias Thomas, minha nora – cumprimenta.

—Bons dias meu pai – retribuo, soltando Cait lentamente, indo até ele – Sua benção – peço, beijando-lhe o dorso da mão.

—A tem – responde.

—Bons dias senhor meu sogro – Cait o cumprimenta, fazendo uma curta reverência, como manda a regra da boa etiqueta.

—Bons dias, minha nora –retribui, sorrindo-lhe – Está cada dia mais bela. Não é de admirar meu filho ter-se apaixonado – elogia fazendo-a corando intensamente — Decerto dar-nos-ão belos netos – acresce, Cait atingindo o mais alto tom de vermelho que já vi em alguém. Por sorte, meu pai já havia desviado sua atenção para mim novamente – Vosso sogro enviou-nos um recado. Deseja ver-nos. Pediu-nos comparecermos, os dois, antes de o banco abrir – avisa, olhando-me de alto a baixo – Seria bom usar algo mais formal – aconselha, sua expressão retorcendo-se ao ver a munhequeira de couro em meu punho – Precisa mesmo pôr isto? Não está dispensado até amanhã? – inquire.

—Melhor não arriscar um encontro com Chase ou qualquer dos seus pelas ruas – justifico-me – Tomarei o desjejum e subirei para me trocar. Acaso adiantou qual o assunto, meu pai? – quero saber, dirigindo meu olhar a Cait, passando-lhe calma. Ou tentando.

—Não, mas desconfio – responde, tranquilo – Ontem, quando o convidei vir almoçar conosco, confidenciou-me estar a alguns dias matutando algo em sua mente referente a bendita dívida – revela, me deixando tenso – Acho que tem uma proposta a fazer-me – supõe, pondo a mão em meu ombro – Tranquilize-se filho. Dom assegurou-me não pretender fazer-te voltar servi-lo – volta seu olhar para Cait – Acalmem vossos corações – pede, tocando gentilmente o rosto de minha esposa com o dorso da mão – Agora vamos a cozinha antes que Davi nos deixe sem o pão fresquinho feito pela senhora Stone – me surpreende com a brincadeira.

—Parece admirado meu amor – Cait comenta quando ele se afasta, enlaçando seu braço ao meu.

—Há tempos não via meu pai de tão bom humor – admito, pensativo.

—E isto não é bom? – quer saber.

—É. Só não estou habituado. Ele sempre foi tão sério e compenetrado — respondo, sorrindo-lhe — Venha. Vamos a refeição — convido, a conduzindo a cozinha, aonde já se encontram meus pais, Adissa e Annette com as gêmeas e Davi, a senhora Stone e o senhor Miller, mais afastado, como era seu costume — Bons dias a todos — cumprimento, indo até minha mãe — Sua benção -peço, beijando a mão que me estendia.

—A tem meu querido — diz, afagando meu rosto antes de voltar-se para Cait -Minha nora, como está? Parece-me cada dia mais formosa e disposta, não achas Judith? -pergunta.

—Sim senhora — nossa governanta corrobora, pondo mais dois pratos a mesa.

—Obrigada — Cait agradece, encabulada — Minha sogra parece-me igualmente bem disposta hoje — comenta, servindo-me — Desejas pão, bolo? — quer saber.

—Ambos, por favor — digo, sentando-me.

—De fato, sinto-me renovada! — minha mãe assume, voltando seu rosto para meu pai — Voltar a tocar, dar aulas, realmente estava a fazer-me falta. Obrigada, senhor meu marido, permitir-me o fazer novamente, mesmo sendo com a jovem senhorita Wilson — agradece, ele segurando-lhe a mão, levando-a aos lábios.

—Também ganho com isto, minha querida. Ouvi-la tocar muito me agrada — diz, sincero, deixando mais um beijo em sua mão — E minha nora poderá brindar-nos com este seu dote — sugere.

—Decerto que sim. Adorarei ouvi-la tocar — mamãe corrobora, sorrindo gentil.

—Não tenho muita prática, mas o farei se assim agradar meus sogros e meu marido — Cait responde, terminando de servir-me, dispensando gentilmente a senhora Stone, servindo-se a si mesma.

—Agradar-me-ia muito ouvi-la tocar novamente — declaro, tomando e beijando-lhe a mão, ganhando um de seus sorrisos doces que tanto amo.

Tomamos a refeição em tranquilo silêncio, quebrado apenas pelo riso de Davi ao mexer com minhas irmãs e alguma ou outra observação feita por minha mãe, a senhora Stone, meu pai e o senhor Miller, que relata termos tido nova noite tranquila, sem nenhum visitante inesperado. Preocupava-me e muito a possibilidade de serem nossos filhotes a estarem causando balbúrdia pelas noites da cidade, o que os poria em perigo.

Ao término da refeição, subo em companhia de Cait, ela aprontando-me uma muda de roupa mais formal enquanto tomo um banho rápido, espantando calor. O clima andava seco e abafado por estes dias na cidade.

—Não deixe de avisar-me o que meu pai quer contigo, por favor, senhor meu marido, caso não vá retornar para casa após conversarem — pede, alisando vincos imaginários em minha camisa e sorrio, segurando-lhe as mãos.

—Avisarei — prometo — Não te aflijas. Vosso pai está a nosso lado — afirmo, roubando um beijo — Agora deixe-me ir antes que meu pai exaspere-se. Não convém abusar de seu bom humor — brinco, fazendo-a rir.

—Decerto que não — concorda, enlaçando o braço ao meu — Ajudarei minha sogra preparar a aula para a senhorita Wilson. Assim poderei também aprender com ela e, caso precise algum momento, a substituir — pondera, feliz.

—Se desejas ter alguma ocupação, não te acanhes em dizer. Não incomoda-me que tenhas ocupações fora de casa, ainda mais que tens tão pouco a fazer aqui — libero, acariciando lhe o braço — Sei que te ressentes mais atividades além de cuidar de nosso quarto e ajudar, ocasionalmente, minha mãe e a senhora Stone nos afazeres domésticos. Lembro-me de haveres comentado algo sobre isto com a governanta em casa de vosso pai — relembro, conduzindo-a para fora de nosso quarto.

—No colégio interno tínhamos diversas atividades para nunca estarmos ociosas — confirma, pondo a outra mão por sobre a minha — A madre costumava dizer que mente vazia é território do diabo — relembra, fazendo careta — Não sei se concordo, porém é inegável que estar ocupada evitar devaneios e pensamentos inadequados ou maldosos — admite e rio.

—Minha avó paterna costumava dizer o mesmo. Eis uma das razões não ter-se importado de o neto homem estar a lidar com panelas e temperos — relembro.

—Tens primos? Primas? Não te eram próximos? — questiona-me quando já estamos na metade da escadaria.

—Tenho — respondi, buscando meu pai com o olhar — Todos mais velhos e pouco amistosos posto que meu pai não dar-se muito bem com os irmãos — abaixo o tom da voz — Lembra-me de contar-te noutro momento, se quiseres — digo.

—Quero. E também contar-te-ei sobre meus parentes. Os que tenho conhecimento. Quem sabe descobrimos o por quê de nossos pais haverem rompido o que me pareceu uma bela amizade, a julgar pela forma cordial com que se trataram ontem — comenta.

—E porque vossa mãe parece sentir verdadeiro ódio de meu pai — acresço, ambos silenciando ao aproximar-nos de meus pais, que nos aguardavam em meio a sala.

—Pronto? — pergunta a me ver e aceno afirmativamente — Vamo-nos indo. Tenho reunião com o prefeito e o engenheiro que chamou para o projeto do porto — diz, deixando um beijo casto na fronte de minha mãe — Até o almoço, minha senhora — despede-se.

—Até meu senhor — mamãe responde, se voltando para mim e Cait — Virá para casa após ter com vosso sogro filho? — quer saber.

—Acho que sim. A menos que meu pai vá precisar de mim — condiciono, olhando-o.

—Vejamos o que vosso sogro tem a dizer primeiro — propõe, dirigindo-se a porta tendo minha mãe a seu lado.

Cait e eu fazemos o mesmo, despedindo-nos com um beijo casto.

Seguimos, meu pai e eu, pela rua principal, que já começava agitar-se até um pouco além do costumeiro. Parecia haver bem mais pessoas que o normal. Especialmente defronte a delegacia, o que faz-nos parar um segundo em busca de informações.

Meu pai preocupava-se se tratar de novas invasões misteriosas, porém Eddie tranquiliza-nos informando tratar-se de pessoas vindas em busca de emprego no futuro porto.

—Mas já? — admiro-me, observando o que me parece ser uma família inteira.

—Parece que alguém espalhou o boato de que iriam começar contratar e o resultado é este — meu amigo abre os braços — Partindo da primeira carruagem regular, a carroças individuais, não parou de chegar gente desde o amanhecer — constata, indicando outra carroça a aproximar-se com um gesto de cabeça — Estão indicando virem a delegacia para que os antecedentes possam ser checados. Ordens do prefeito — elucida, descendo os degraus, indo de encontro da nova carroça.

—Sensato — meu pai observa — Vamos deixá-lo trabalhar senhor Thawne — diz, despedindo-se com um toque na aba de seu chapéu (o que lembra-me precisar comprar um para mim).

—Até mais ver Eddie — despeço-me.

—Até mais ver — retribui, sinalizando ao condutor da carroça descer.

—Essas coisas espalham-se como rastilho de pólvora — comenta quando nos afastamos — Decerto Chase deve estar por conta não poder abrir as portas hoje — supõe e olho em direção o armazém de meu algoz, vendo-o a porta com mais dois homens — Darhk está correto em tentar saber os antecedentes deste povo. Não devemos arriscar receber pessoas de má índole, mesmo arriscando-nos ser mal vistos por estes — pondera, cumprimento o senhores Queen e Palmer, bem como a Oliver e Ray, que se aproximavam — Bons dias meus amigos.

—Bons dias Malcolm — Palmer retribui, olhando por sobre nossas cabeças — Parece que os tempos de tranquilidade em Star estão findando — comenta, enrugando o cenho.

—É o que parece — papai anui.

—É o curso natural de toda cidade que pretenda evoluir — o senhor Queen diz — Rezemos para que ao menos possamos ter pessoas de bem vindas para nosso meio — deseja.

—O prefeito está tentando garantir isto dando trabalho extra ao delegado Lance. Todos recém chegados estão sendo orientados a irem primeiro lá, identificar-se — papai informa.

—Bom. Ao menos é uma tentativa de minimizar o perigo — o senhor Palmer declara.

—Isto não é, meio… sei lá… Preconceituoso? — Ray pondera, inseguro.

—Um pouco, porém é o preço a pagar pela segurança de nossas famílias meus jovem. A segurança de vocês — Robert Queen aponta dele para Oliver e depois para mim — Não estamos a dizer que iremos enxotar ninguém de nossa cidade, mas sim que sabemos quem é quem e o quanto de confiança iremos depositar nesta pessoa — exemplifica.

—E mostrando que não somos ingênuos — meu pai acresce — Senhores, gostaria de poder conversar mais um pouco sobre o assunto, mas temos um compromisso — comunica — Se nos dão licença.

—Toda meu caro, Merlyn — o senhor Queen diz, pondo-se de lado de forma a permitir-nos passar — Em outra hora falamos — sugere.

Quando passava por Oliver, este retém-me, pelo braço um segundo.

—Podemos conversar? Ao final da tarde, talvez? — pergunta, a urgência em sua voz deixando-me preocupado.

—Algo errado? — pergunto usando o mesmo tom baixo dele.

—Nada sério, mas quero sua ajuda em algo — diz, liberando-me quando meu pai começa afastar-se — À noite? — insiste e confirmo com um aceno, apressando-me a fim de alcançá-lo.

Oliver não era de marcar reuniões, logo deveria ser algo urgente ou que o estivesse incomodando. Seja lá o que fosse, à noite saberia. Por hora precisava focar na reunião com meu sogro.

Chegamos ao banco e logo que nos identificamos o funcionário nos coloca para dentro, conduzindo-nos ao recém inaugurado segundo andar do prédio. Lá em cima, somos conduzidos a uma das poucas salas já mobiliada (havia outras em fase de acabamento), onde nos encontramos não apenas com meu sogro, mas com os Crumble, pai e filho.

—Bons dias Merlyn, Thomas — meu sogro cumprimenta, apertando nossas mãos quando adentramos — Já conhecem meu patrão, o senhor William Crumble e seu filho, Stephen — indica-os.

—Prazer revê-los — papai cumprimenta enquanto me limito acenar-lhes com a cabeça. Agora que estávamos ali, o nervosismo me tomara — Desculpe-me a sinceridade, mas julgava sermos apenas nós três Dominique — admite, sentando-se e faço o mesmo, Stephen Crumble tomando lugar ao lado do pai, de pé, enquanto meu sogro senta-se um pouco mais a direita.

—De fato, a princípio era esta minha intenção — admite meu sogro — Mas achei que já estava na hora de pôr as coisas em pratos limpos. Ontem mesmo fui ter com o senhor Crumble e esclareci o que ele sabia a respeito do pagamento de vossa dívida comigo e com o banco — conta.

—O que foi bom posto que pudemos esclarecer minhas dúvidas em relação a posição de Snow sobre essa pena inusitada aplicada a vosso filho — William Crumble comenta, sério — Não nego ter ficado surpreso ao saber dos fatos, mas agora que conheço os envolvidos, pude entender o que se passou — declara, empertigando-se — Como deve saber, estamos a ampliar nossos serviços e logo iremos precisar de mais funcionários — Crumble prossegue — Também não é segredo que deixarei meu filho a administrar essa filial — indica-o — Com isto, coloquei Dominique ao lado de Stephen, como seu braço direito — comunica — Como disse a pouco, precisaremos de mais funcionários e vosso sogro o indicou ocupar um cargo — comunica, direto, encarando-me.

—Como?? — gaguejo, olhando de um para outro, confuso.

—A idéia formara-se em minha mente desde seu casamento com minha filha, mas ainda não tinha tido a chance de expô-la e por qual motivo a meu patrão — meu sogro explica, voltando-se para meu pai — Minha proposta é que Thomas passe trabalhar aqui, com salário fixo e outros adicionais a que tiver direito de acordo com o cargo ocupado — diz, me deixando surpreso — Quanto a vossa dívida comigo, proponho quitá-la, caso ambos concordem, com o dote o qual Caitlin tem direito — sugere e desta é meu pai a surpreender-se — Jamais pensei negar a minha filha o que lhe é de direito, assim como jamais o negarei a nenhuma das outras duas. Aguardava a poeira baixar para tal. Acho que agora é uma boa hora -confidencia — Que me diz Malcolm? — questiona-o.

—Eu….Honestamente, não tenho palavras Dom — papai responde, olhando-me — Que me diz filho? — repassa para mim, fazendo todos me olharem.

—Acho…. — pondero um segundo — Acho que seria mais justo usar o dote de minha esposa pagar vossa dívida com o banco — sugiro, não dando chance qualquer deles contestar — Com o porto atraindo tantos novos moradores a cidade, decerto iremos precisar de moradia a estes novos habitantes de Starling e o senhor necessita mais capital para compra de material e contratação de pessoal. Quitado seu débito, poderá dispor de nova linha de crédito, acredito eu, para futuros investimentos — prossigo, dando atenção a meu sogro — Quanto a dívida com o senhor meu sogro, me proponho pagá-la com parte de meu salário — disponho-me, aguardando-os responder, ansioso.

—Sensato vosso filho meu caro Merlyn — Will Crumble elogia e baixo o olhar, coçando a cabeça, sem graça.

—Às vezes ele o é, de fato — papai concorda — Quando não se deixa guiar somente pelas emoções — completa — Agora sou eu a perguntar: que me diz Dom? Aceita? — questiona-o.

—De bom grado — meu sogro anui, inclinando levemente a cabeça — E saiba que o dote de minha filha é grande o suficiente para quitar o débito de vosso pai e ainda lhes sobrará algum, o qual sugiro, deposite em uma conta — aconselha e enrugo o cenho, confuso. Julgava o dote de Cait ser alto, mas não tanto assim — Minhas filhas têm dotes generosos graças seus avós maternos e paternos — revela — Além do separado por mim para cada uma, receberam heranças quando do falecimento dos avós. Está tudo aqui, em contas privadas sob minha responsabilidade. Asseguro-lhe que mesmo após quitar a dívida com o banco, terão o bastante para adquirir um terreno ou uma casa, meu genro. Acredito que desejem isto, não? — pergunta-me.

—Sim — confirmo, emocionado.

—Já que estamos todos de acordo, podemos assinar os papéis — Will Crumble declara, causando novo espanto a mim e meu pai — Depois que Dominique me procurou ontem, tratei eu mesmo de agilizar o que me era possível. Tenho aqui o contrato de Thomas, restando-nos apenas especificar seus dias de trabalho já que Chase não irá liberá-lo, suponho eu — diz, estendendo uma pasta para mim — Leia, por favor — pede, voltando-se para meu pai — Seria recomendável buscar um novo acordo junto a ele a fim de que possamos organizar os horários de Thomas aqui no banco.

—Ou posso simplesmente dizer-lhe que mudei de idéia novamente e exigir meu tempo de serviço devido. Assim não precisaria dar satisfações a ninguém — meu sogro sugere — Nosso antigo acordo determinava um mês para cada. Como o dispensei após o regresso de ambos em segurança, estou com um mínimo de dois meses em atraso, por assim dizer — prossegue.

—É uma opção, muito embora acredite que ele irá contestar quando souber de que forma e onde meu filho irá servi-lo, Dominique — meu pai pondera.

—Como disponho do serviço de Thomas e onde não diz respeito a Adrian — meu sogro bufa.

—Não sei, não Dom. Chase é bem capaz de liderar algum tipo de boicote ao banco caso veja Thomas trabalhando aqui — teoriza.

—Sério? — Crumble inquire, e por um segundo penso que mudaria de idéia — Problema dele! Meu banco oferecerá aos cidadãos de Starling serviços compatíveis apenas com os bancos na Europa. Nem mesmo o banco na vizinha Central terá o que iremos oferecer — garante, orgulhoso.

—Se o problema consiste em que veja a Thomas, isto pode ser evitado — Stephen se pronuncia — Podemos colocá-lo para fazer serviço interno. Não precisará aparecer no saguão principal a menos que se faça necessário — diz, me encarando — Pode parecer que estaria se escondendo… Bem, estaria mesmo, mas somente no começo. Estou certo de que com o passar do tempo o senhor Chase deixará de ser um pé no saco! — afirma e ambos rimos.

—Não sou tão otimista, mas quem sabe — digo, devolvendo os papéis após os haver lido.

—Meu filho está certo. E de qualquer maneira, os novos funcionários sempre começam internamente — o senhor Crumble diz, entrelaçando os dedos — Quanto a dívida, peço-lhe que cuide disso pessoalmente já a partir de amanhã pela manhã, Snow. Assim o senhor Merlyn poderá ter seu nome limpo rapidamente — pede.

—Farei melhor. Até o final do dia providenciarei os recibos de quitação e a transferência da quantia referente ao restante de sua dívida para com o banco. O que sobrar, deixarei no cofre a disposição de meu genro — prontifica-se — Amanhã pela manhã, no mais tardar, Malcolm pode vir assinar e receber os recibos -avisa.

—Esta é, sem sombra de dúvidas, a terceira melhor notícia que recebi nos últimos meses — meu pai declara.

—Terceira? — Crumble pergunta, curioso.

—Depois do nascimento de minhas filhas e do retorno de Thomas e minha nora em segurança — diz, tocando meu ombro.

—São realmente notícias muito melhores em ordem de importância — meu sogro declara, sorridente.

—Concordo — Crumble anui — Bem, acredito que tenhamos acertado tudo — diz, unindo as mãos — Stephen, leve Thomas a conhecer o setor interno do banco, onde irá trabalhar — ordena e ambos nos levantamos.

—Seguirei para a empresa, caso deseje unir-se a mim após ver o local, filho — meu pai avisa e anuo com um menear de cabeça.

Por cerca de uma hora, Stephen me mostrar as áreas internas do banco, explicando o funcionamento de cada setor. Também me mostra a expansão já em andamento, justificando não terem contratado meu pai para tal, por ser responsabilidade de uma empresa na Inglaterra cujo contrato ainda vigorava. Por fim, explicou-me o que seria meu futuro trabalho.

Agradeço-lhe, ao final, despedindo-me e indo ao encontro de meu pai, na empresa, surpreendendo-me como o movimento aumentara na cidade. Havia pelo menos uma dúzia de carroças enfileiradas ao lado do galpão da marcenaria. Pessoas desconhecidas andavam para cima e para baixo, entrando e saindo do pequeno armazém do senhor Blair, bem mais modesto do que o de Chase, mas por hoje a única opção da cidade.

Me pego sorrindo de forma mordaz ao imaginar Chase se contorcendo em cólicas de raiva por estar deixando de lucrar.

Também percebo a senhora Holloway fazendo entrar no consultório de seu marido dois casais com filhos pequenos, descobrindo, através de Barry, com quem encontro no caminho, que estava dando abrigo aos mesmos posto que a hospedaria e o hotel já não tinham vagas. Outras famílias com casas espaçosas estavam a fazer o mesmo bem como a igreja, garantindo que ao menos por aquela noite ninguém dormiria ao relento já que se os dias eram quentes, as noites eram mais frias. Não fiquei admirado ao saber que meus pais haviam hospedado uma família em nossa casa.

Chegando ao galpão da empresa de meu pai, me deparo com uma movimentação ainda maior, Harper e outro funcionário assoberbados em anotações e distribuição de tarefas.

Sem pestanejar, arregaço as mangas, me unindo a eles, auxiliando na organização de tudo, descobrindo que o prefeito e outros membros do conselho estavam reunidos a meu pai naquele momento a fim de providenciar acomodações com rapidez e o mínimo de conforto aos recém chegados.

Os engenheiros contratados para construção do porto também estavam ali. Henry Allen estava ali discutindo políticas de saúde e como proteger a todos, especialmente as crianças. Monsenhor estava ali para garantir o auxílio espiritual. Até Mama Smoak estava ali. Todos que de alguma forma se preocupavam com o futuro da cidade estavam ali. Até Wilson. Todos a exceção de Adrian Chase.

—Definitivamente, ele é estranho — murmuro, terminando de organizar a última prateleira junto com um dos funcionários no exato momento em que o grupo deixava o escritório.

—Thomas. Chegou a muito tempo? — meu pai pergunta, mas não tenho tempo responder posto que uma voz familiar chamar, melhor dizendo, berra!

—MERLYN! — o berro de Quentin Lance reverbera pelo ambiente, sobressaltando a todos, meu pai e eu nos voltando para ele — Thomas — específica, apontando em minha direção — Comigo. Agora! — ordena, sinalizando com a mão.

—Quentin, que há? Por que Thomas deve acompanhá-lo? — inquire meu pai, aproximando-se, trazendo uma verdadeira comitiva consigo.

—Nada grave, porém apenas ele pode ajudar-me resolver — diz, completando — Aqueles seus filhotes estão aprontando na delegacia e como precisei enviar Thawne em uma diligência, terá de resolver — explica, me deixando preocupado.

—Que fizeram? — pergunto enquanto desenrolo as mangas da camisa.

—Além de amedrontar meus ajudantes e todos que estavam nas proximidades?!? — devolve e preciso me controlar para não rir.

Apesar de estarem maiores a cada vez que os vemos (que são mais do que deveríamos, admito), os filhotes não têm demonstrado agressividade excessiva com os cidadãos de Starling. Ao menos não aqueles de boa índole.

—Thomas — novo chamado me faz erguer o olhar — Poderia apressar-se, sim? Pretendo resolver a questão antes da meia noite! — resmunga o delegado e aceno afirmativamente.

—Irei com vocês — meu pai avisa, dando atenção aos funcionários — Pausa para o almoço. Harper, providencie alimentação a todos na conta da empresa — ordena — Aos que tiverem interesse em trabalhar comigo, deixem seus nomes com o senhor Harper. Como perceberam, trabalho não vos faltará tampouco acomodações adequadas — assegura, pondo seu chapéu — Vemo-nos às quinze posto já se haver passado em muito o horário de almoço. Encerraremos as atividades de hoje às dezoito em ponto — avisa, fazendo uma curta reverência em direção ao grupo que o escutava, caminhando a meu encontro, o prefeito, senhor Queen e demais que participaram da reunião o seguindo a certa distância — Podemos ir — diz, pondo a mão em meu ombro.

—Os seguiremos parte do caminho — Robert Queen anuncia, pondo-se entre meu pai e o delegado, o prefeito e os senhores Palmer e Allen logo atrás, seguido dos demais.

O grupo (relativamente grande), segue junto até quase metade do trajeto, a exceção de Monsenhor, que dirigir-se para a igreja a fim de verificar se as famílias ali abrigadas estavam sendo alimentadas.

Aos poucos, separamo-nos restando apenas meu pai o delegado e eu. Ao passarmos defronte o armazém de Chase, noto as portas fechadas e ausência de movimento, mesmo dos desratizadores, o que causa-me certa estranheza.

Ao chegarmos na delegacia, descubro que os filhotes estavam a cercar quatro dos recém chegados, mantendo-o em um canto, mostrando-lhes ostensivamente os dentes, não permitindo-lhes sair nem a outros aproximarem-se.

—Prateada, Guardião, Recruta, venham aqui — chamo, os três voltando-se ligeiro, porém hesitando obedecer-me — Venham agora!! -reforço de maneira mais enérgica, Guardião tomando a iniciativa de vir a mim, os outros dois o seguindo — Isso. Bons meninos e menina — elogio, agachando-me e afagando um a um — Fiquem — ordeno quando tencionam impedir o quarteto sair — Guardião, obedeça — ordeno, o segurando pelo pescoço, fazendo-o aquietar-se, Recruta e Prateada ladeando-me, os três mostrando todos os dentes, assumindo uma postura agressiva quando eles passam perto, os pêlos eriçados confirmando o que suspeitava: não confiavam nos sujeitos. E eu também não.

—Pode-se passar meses e até anos, sempre irei admirar-me a conduta destes bichos convosco e com vossa esposa, senhor Thomas — o subdelegado Ferris comenta, massageando o queixo, olhando dos filhotes, bem mais tranquilos depois de os sujeitos se irem, para mim.

—Digo o mesmo — meu pai e o delegado fazem coro.

—Como isto se deu Lance? De onde os filhotes surgiram e por que cercaram os pobres coitados? — papai verbaliza o que pensava em meu íntimo.

—Eles vieram na penúltima leva de forasteiros, a cavalo, sozinhos e cruzaram com os lobos na lateral da delegacia, onde o trio se achava, bebendo a água que pus para eles — é Ferris a responder — De certa forma, receberam o que pediram posto que os ouvi provocá-los julgando serem cachorros — conta, fazendo-me antipatizar mais com eles — Daí a serem acuados foi questão de segundos — relata.

—Foi até gozado ver os valentões se borrando ao perceberem ter cutucado o bicho errado! — um dos presos com os quais havia dividido a cela quando da noite do jantar em casa de meu sogro declara, apoiado a grade da cela, rindo-se divertido, Ferris abaixando a cabeça, disfarçando estar fazendo o mesmo.

—Thomas, sabe o que penso acerca destes lobos circulando pela cidade, mas como tem-se mostrado até mais tranquilos do que os cães de rua, nada tenho feito contra eles — o delegado diz, sentando-se na ponta de sua mesa — Mas com a chegada destes novos pretensos cidadãos, terei de pedir-lhe falar com seus amigos índios os levarem para a tribo. Não quero ter-me de preocupar com mais este problema em tantos — sugere, meu pai o encarando de cenho franzido — Não tenho a ilusão de que todos os recém chegados saber-se-ão se comportar adequadamente quando sob o efeito catalisador da bebida — acresce.

—Mas deve reconhecer que os filhotes tem-se comportado extremamente bem delegado, mesmo ante o aumento de movimento na cidade — Jeremy comenta — Ontem mesmo estavam a passear tranquilamente ao final da tarde — revela, me deixando surpreso.

—Estavam na cidade ontem? — inquiro, segurando o focinho de Guardião — E não foi a nossa busca, ham? Por qual motivo? — questiono-o, fazendo careta ao receber uma lambida caspenta e generosa — Nada adiantará a ti bajular-me agora! — brinco, perdendo o equilíbrio quando atirar-se sobre meu corpo, ganhando reforços dos irmãos.

—Killy está correto: estes filhotes nasceram em cativeiro -ouço, buscando o dono da voz, que postava-se entre os dormentes da porta, rindo-se — E se não foram a ti, a culpa foi minha. Os detive preocupado que estava com as carroças e carruagens que chegavam em caravana — Eddie justifica-se.

—Mas estavam a comportar-se, segundo o subdelegado aqui — digo, sentando-me no chão — Apenas reagiram a provocação dos sujeitos e cá para nós, não gostei deles -confesso, encarando o delegado.

—Também antipatizei com as fuças dos sujeitos — Jeremy corrobora.

—Idem para mim — o preso opina — Embora minha opinião de nada valha — rir amarelo.

—Temos uma unanimidade — Lance me surpreende ao dizer, indo sentar-se atrás de sua mesa — Ficarei de olho nestes quatro. Pegou os nomes e origem deles? -questiona, olhando para Ferris, que acena afirmativamente — Bom. Ainda hoje envio para a capital pedindo maiores informações — avisa, olhando-me — Poderia levá-los? Desejo tomar a refeição com minhas filhas — pede.

—Decerto que sim — respondi, pondo-me de pé — Sinto qualquer problema que possam ter causando-lhe — me desculpo.

—Não por isso — diz, erguendo a mão — Dêem meus cumprimentos a suas senhoras — pede.

—Daremos — meu pai adianta-se responder — Vamos — convida-me, já deixando o lugar e apresso-me segui-lo, parando ao passar por Eddie.

—Obrigado por tomar conta deles — agradeço, meu amigo sorrindo.

—Sempre as ordens- respondeu-me, afagando a cabeça de Recruta, claramente seu preferido.

—Até mais ver — despeço-me, assobiando a fim de fazer os filhotes seguirem-me, eles o fazendo sem hesitar desta feita.

Era divertido, não nego, observar a reação das pessoas na medida em que passamos, meu pai, eu e os lobos, muitos apontando-nos entre surpresos e indignados. Algumas crianças mais ousadas nos interceptando, pedindo afagá-los, deixando as mães apavoradas a distância, em todas o trio tendo comportamento exemplar.

Em casa, nova e demorada festa deles e com eles acontece, primeiro com Cait, a seguir com Davi e depois com as três crianças do casal que meus pais haviam abrigado, os pais destes surpreendendo-me com a calma demonstrada pela interação dos filhos com os lobinhos.

Após a surpresa inicial quando aviso ficariam conosco, mamãe relaxa, intimando-nos, meu pai e eu, nos lavarmos para tomar a refeição, que transcorre em serena calmaria.

Ao final, meu pai pede a mim ficar em casa ajudando acomodar o casal Frommer, controlar os filhotes, bem como receber o senhor Wilson, que certamente faria questão acompanhar a filha nesta primeira aula com mamãe, dizendo que assim ficaria mais tranquilo.

Obedeço não apenas pelas razões citadas por ele, mas por querer contar as novidades a Cait. Minha esposa alegra-se ante a atitude do pai. Também junto com ela, refletimos em uma forma de manter nossos filhotes seguros, sabendo não poder prende-los como a cães.

Pontualmente às quinze horas, Slade Wilson chega trazendo sua filha e uma aia, fazendo, conforme meu pai suspeitava, questão acompanhar a primeira aula da filha, surpreendendo-se com minha presença e do trio de lobos. Estes estiveram todo o tempo em alerta. Calmos, sem uivos ou ameaças, porém visivelmente atentos. O mesmo digo de mim mesmo.

Confiava naquele homem tanto quanto em Chase e o flagrar olhando cobiçosamente minha esposa apenas reforçou essa antipatia. Apenas quando retiraram-se, uma hora depois, consigo relaxar.

—Que faremos, meu marido? — a pergunta me faz voltar atenção a Cait.

—Quanto aos lobos? — devolvo, ela acenando que sim — Por hoje os deixamos aqui. Amanhã vejo que providências tomar — pondero, esquecendo-me momentaneamente que estaria de volta ao armazém.

—Se ao menos comportarem-se semelhante a quando estávamos na caverna — suspira, afagando a cabeça de Prateada sobre seu colo.

—Talvez voltem a ter se ficarem conosco — pondero, observando Guardião e Recruta rolarem sobre o tapete, a brincar. Mesmo tendo crescido bastante, mantinham o comportamento de quando os encontramos — Cait, estive a pensar. Que acha de usarmos o que sobrar de seu dote para comprarmos uma propriedade? Quem sabe algo já pronto ou precisando de pequenos reparos? — sugiro — Talvez um pouco afastada do centro para que eles possam ficar conosco — acresço, erguendo as pernas quando os dois rolam para junto de mim.

—Acho uma excelente idéia, senhor meu marido — diz, sorridente.

—Devo lembrá-lo apenas que vossa esposa irá ficar sozinha grande parte do dia, senhor Thomas e isto não é aconselhável a uma jovem e bela senhora como a vossa é — a senhora Stone comenta, chamando nossa atenção — Perdoem-me a intromissão, mas não pude deixar de ouvir o que diziam e me achei no direito de o aconselhar. Espero não se zangue menino Thomas — diz e sorrio-lhe.

—De forma alguma — respondi, sorrindo-lhe- De fato, não havia-me atentado a este detalhe. Ainda que os lobos fiquem conosco, estará sozinha. Melhor repensar — pondero.

—Talvez Adissa possa fazer-me companhia parte do dia — sugere ela.

—Ainda assim. Não é aconselhável duas mulheres sozinhas grande parte do dia — ratifico — Não. Por hora deixemos este plano de lado — decido, erguendo-me — Muito bem, parem de bagunça! — ralho, separando os dois filhotes, acabando por ser envolvido no rolo dos dois, fazendo Cait rir-se.

Durante um tempo impreciso, rolo no chão com os dois em uma “briga” amistosa. Bem, nem tanto posto que seus dentes acabaram por arranhar-me algumas vezes.

Perto do final da tarde, os conduzi para fora a fim de permitir minha mãe, que temia se aproximarem de minha irmãs, descer com elas para tomarem a fresca da tarde, Cait a acompanhando no passeio vespertino.

Aproveito para ajudar Miller e Rafael Frommer, o chefe da família acolhida por meus pais, a organizarem o quartinho anexo ao estábulo onde passariam a noite, os lobos acercando-se de nós todo o tempo, sem nunca os ameaçar. O que me dá ainda mais certeza de que os quatro sujeitos de mais cedo não deveriam ser gente boa.

—Animais pressentem não somente o perigo, mas gente perigosa também — Rafael comenta, tranquilo, montando a beliche comigo.

—Não os temeu em momento algum. Por que? — quero saber, não escondendo a curiosidade.

—Meu último emprego antes de vir para cá, foi em um circo, tratando dos animais — conta -Mesmo temendo-os, não podia demonstrar sob pena de ser hostilizado. Meus filhos e esposa viviam comigo, logo também estão acostumados a presença de fera, muito embora estes filhotes não me pareçam ferozes — comenta, observando-os um segundo — Onde os encontrou? — pergunta, pondo o colchão na cama de cima.

—Na verdade eles nos encontraram — digo, contando-lhe, de forma breve, como os lobos haviam entrado em minha vida e de minha esposa, acrescendo a opinião de Killi.

—Seu amigo está correto. Eles devem ter nascido e vivido em cativeiro, por isto são mais tranquilos do que lobos comuns — opina, limpando as mãos — A pergunta é como foram parar na natureza novamente e por que — diz.

—Talvez nunca venhamos a saber disto — digo, observando-os andarem pelo terreno lado a lado com os meninos Frommer — O que me preocupa é andarem pela cidade, especialmente a noite. Temo as pessoas os ferirem por terem medo ser atacados — admito.

—Nisso acho que posso ajudá-lo — Rafael diz, indo a sua carroça, pegando um tipo de arca pequena de onde retira um saco — Isto pertencia aos cães que meus filhos criavam. Infelizmente morreram meses antes de partirmos — conta, exibindo quatro coleiras feitas de um material desconhecido para mim — Minha esposa teceu com algodão e tecido — revela, entregando-me uma — É leve e não machuca — assegura — Resta saber se aceitarão.

—Vejamos — digo, fazendo-os vir a mim com um assobio, me agachando, pondo-as em seus pescoços com cuidado, somente então notando as plaquinhas de couro — São os nomes deles? — quero saber, rindo quando Recruta morde a coleira de Guardião, levando a devida “bronca” deste.

—Não, apenas desenhos geométricos — explica — Parece que irão aceitar — comenta, a mesura educada que realiza chamando minha atenção — Senhora — cumprimenta e me volto, vendo Cait aproximar-se.

—Coleiras? — inquire tão logo para junto a nós, acariciando o tecido trançado — Que lindas! — elogia.

—São artesanais. A senhora Frommer quem fez — informo, pondo-me de pé — Gosta? — pergunto.

—Sim — responde, rindo pequeno — Vossa esposa é muito talentosa — elogiou.

—Sim, ela é — Frommer diz, sem falsa modéstia — Sugiro-lhes dar um passeio com eles para que os cidadãos possam ver que são tranquilos e passar os identificar pelas coleiras. Inclusive, se desejarem, meus filhos os acompanhar seria interessante — sugere

—Acho uma excelente idéia — Cait anima-se, enlaçando seu braço ao meu — Estava a pensar se podíamos visitar a senhora Felicity antes da janta. Ouvi, durante o passeio com minha sogra, que sentiu-se mal à tarde — pede.

—Claro — anuo ligeiro, assobiando, os lobos aquietando-se, atentos — Vamos. Quietinhos — ordeno.

—Meninos, acompanhem o jovem casal — Rafael ordena, os dois garotos mais Davi vindo a nosso encontro.

—Também posso ir Thomas? — meu primo pergunta.

—Sim, caso mamãe o libere. Vá ter com ela. Te esperamos no portão lateral — mando, ele correndo de volta a casa — Até já e obrigado — agradeço, me encaminhando juntamente com Cait, os garotos Frommer e os filhotes, para a lateral do terreno da casa de meus pais.

Conforme prometera, aguardamos por Davi junto ao portão, ele surgindo acompanhado de Adissa segundos depois.

—A senhora disse que deveria os acompanhar — explica a aia.

—Ok — digo, simplesmente, abrindo o portão, deixando-as passar primeiro.

Caminhamos pela rua principal, Cait a meu lado, braços enlaçados, Adissa dois passos à nossa frente mantendo os pequenos sempre perto enquanto os lobos nos acompanham, ora frente, ora de lado, ora atrás, nunca se afastando demais. Nossa passagem chamando atenção de todos. Alguns param, espantados, comentando o quão estranha a situação era. Outros pareciam divertir-se. Outros ainda nos apontavam, parecendo xingar a presença dos filhotes (ou seria a nossa?). Em sua maioria, os cidadãos antigos e novos pareceram aceitar a presença de nossos filhotes.

Thea foi a primeira a perceber nossa aproximação da residência Queen, pondo-se de pé, parecendo bem mais animada do que na manhã de ontem, recebendo-nos com festa, nos conduzindo a varanda, onde Oliver, Felicity, Sara, Laurel, Ray, Kara e Barry já se encontravam.

—Boas tardes a todos — cumprimento, apertando as mãos de meu amigos, fazendo reverência as damas presentes.

—Passeando com a família Tommy? — Ray brinca, contorcendo-se ante o beliscão aplicado por Sara.

—Acho que sim — respondi, rindo divertido, indo sentar-me junto a Oliver.

—Como está senhora Felicity? Ouvi comentários que sentira-se mal quando passeava com minha sogra e sobrinhas — Cait pergunta, sentando-se na cadeira indicada pela esposa de Ollie.

—Não foi nada. Apenas este calor sufocante e toda agitação incomodaram-me um pouco — tranquiliza ela.

—Detalhe: apenas ela sente-se acalorada! — Sara frisa, dando atenção às crianças — Quem são? — quer saber.

—Diego e Artur Frommer — os apresento — Meus pais acolheram a família deles por hoje.

—Ah. Também acolhemos uma família. Estão lá dentro, com papai e mamãe — Thea conta.

—Em casa também teremos hóspedes — Laurel conta — Acho que praticamente todas as famílias da cidade estão a receber alguma família em seu seio — acresce.

—A cidade não estava pronta para receber tantos novos moradores repentinamente — Ollie comenta.

—Não mesmo. O prefeito está de cabelo em pé! — Barry diz, nos fazendo rir — Mas, por sorte, temos entre eles diverso carpinteiros e logo erguerão casas para si próprios — afirma, segurando-se no alpendre para não cair quando um dos filhotes pula sobre ele — Hei! Para com isso! — protesta ao receber lambidas no rosto.

—Eles te amam Allen — Ollie brinca.

—São uns fofos! -Kara elogia, sentada em um degrau, Prateada recebendo seu afago de bom grado — Como podem ser tão dóceis? Nem parecem selvagens?

—É porque não o são — afirmo — Estou cada vez mais certo de que Killi está com a razão. Devem ter nascido e sido criados em cativeiro até bem perto de quando nos encontraram — digo.

—Quem terá feito tamanha maldade? — Laurel inquire.

—A qual delas se refere: separá-los da mãe ou largá-los de volta à natureza? — Sara questiona, acarinhando Guardião.

—A pergunta é com que finalidade fizeram ambas coisas — Ollie pondera, nossa atenção sendo chamada pela chegada de duas carruagens — Acho que estas são as últimas de hoje.

—Tomara ou nosso pai enfarta, com toda certeza! — Laurel exclama, acenando para alguém — Ele adivinhou ou estava a nos espiar da janela de cima no banco do pai? — indaga, nos fazendo dar atenção a pessoa que se aproximava.

—Diria que veio no faro do perfume da senhorita Adissa — Ray brinca — O quê? Está mais do que evidente que deseja cortejá-la — argumenta ante o olhar bravo de Sara

—Verdade — dizemos, Barry, Ollie e eu, em coro, fazendo a aia de Cait corar.

—Boas tardes senhores, senhoras- Stephen cumprimenta-nos, voltando-se para Adissa -senhorita.

—Boas tarde jovem senhor Crumble. Que bons ventos o trazem aqui? Ou deveria dizer, quem o traz aqui? — Thea pergunta, claramente o provocando.

—Vejo que se recuperou plenamente do que quer que a tenha aborrecido ontem, Thea. Fico feliz — digo, ela enrugando o nariz em uma careta graciosa.

—Recuperar não é bem o termo. Apenas decidi não deixar me abater — rebate ela, completando — Além do que, preciso estar forte e inteira se quiser pôr a correr qualquer ridículo pretendente que mamãe porventura queira impor-me. Por falar nisso, me empresta seus lobos Tommy. Devolvo rapidinho. Prometo — diz, espantando a todos.

—Como é?? Claro que não! — apresso-me dizer.

—Vossos pais apresentar-lhe-ão um pretendente Thea? -Sara quer saber.

—Eles querem. Eu não — frisa — Logo, é bom nenhum infeliz se candidatar ao posto ou farei com que arrependa-se!- ameaça, olhando diretamente para Stephen.

—Ainda gozo de meu juízo perfeito senhorita e, como todos, incluindo meu pai, sabem, já tenho uma dama a ocupar-me pensamento e coração — pontua, Adissa ficando vermelha novamente.

—Ele não desiste, não é mesmo? — Ray cochicha.

—Mas não será nada fácil conquistá-la — sussurro — Adissa é muito desconfiada, pelo que Cait contou-me. E justiça seja feita, com razão — acrescento.

—Que tal mudarmos um pouco de assunto? — Felicity sugere de repente, sinalizando a janela da varanda com a cabeça — Vosso pai tem alguma pista acerca das invasões ocorridas noites atrás? Não foram os lobos, correto? — questiona.

—Não. No dia estavam na tribo com Killi e Cisco. O senhor Thawne nos garantiu — Cait assegura e corroboro.

—Sim. E a julgar pelo que vi em nosso terreno na manhã seguinte, não foram animais a fazer tal coisa — digo.

—Papai não tem pistas e se não desejam irritá-lo sugiro não tocar neste assunto — Sara sugere.

—Ferris está encarregado de investigar, mas com todo este movimento agora, teve de parar com as buscas — Laurel completa.

—Podíamos ajudá-los nisso!! — Ray sugere, animado — Já provamos sermos capazes quando os encontramos — aponta de mim para Cait.

—Pensei ter sido o delegado a resgatá-los — Stephen comenta.

—Também — Ray diz — Nós estávamos no caminho certo bem antes deles — sustenta nosso amigo.

—É algo a se pensar — Barry opina, esfregando as mãos — Confesso ter gostado de bancar o detetive. Tirando as noites ao relento. E o frio. E a comida. E…

—Já entendemos Allen! — o cortamos, em coro, o riso tomando a todos ante a expressão de indignação feita por nosso amigo.

Dali em diante a conversa gira em torno dos recém chegados, do prefeito e seus planos, do porto e tudo que representaria para a cidade, entre outros temas mais pessoais.

Apenas quando a senhora Queen manda avisar que a janta está pronta nos retiramos, Barry e Ray encarregando-se de acompanharem Laurel e Sara em casa.

Após nos despedirmos de todos (inclusive Stephen), tomamos o caminho de volta para casa da mesma forma como virámos. Pelo caminho, escuto novos comentários sobre nós e outros sobre a cidade vindos dos recém chegados dando conta do quão movimentada é…. Não até bem pouco tempo...penso, olhando em volta, satisfeito pelos filhotes estarem se comportando bem.

Opto por adentramos o terreno de casa pelo portão dos fundos, deixando os meninos Frommer com seus pais, os filhotes seguindo-nos até a entrada da cozinha, deitando-se pelo cimento frio após terem bebido a água deixada pelo senhor Miller.

Entramos e a primeira coisa que noto é o relativo silêncio, mas guardo para mim o pensamento a fim de não assustar minha esposa ou Adissa.

Quando nos aproximamos da sala principal, começo ouvir vozes, uma delas fazendo meu sangue gelar.

—Parece que temos visitas — Cait comenta e limito-me anuir com um aceno, rezando mentalmente para estar enganado, minha esperança indo por água abaixo tão logo adentramos o ambiente.

—Ah, finalmente chegou! — a voz aguda anuncia, o abraço forte seguido do puxão fazendo-me soltar a mão de Cait — Como senti sua falta!!! — exclama, afastando-me o suficiente para ver-lhe as feições — Não vai dar as boas-vindas meu querido? — cobra ante meu silêncio.

—Claro — respondo, tenso — Bem-vinda vovó… — cumprimento-a, olhando por sobre sua cabeça — Senhor meu avô — acresço, a expressão taciturna dele e de meu pai fazendo-me relembrar coisas que preferia esquecer.

—Thomas — responde, frio, seu olhar recaindo sobre Cait — E esta, suponho, seja sua jovem esposa… cujo pai o mantém preso a uma ridícula penalidade! — ataca e tudo que consigo pensar é por que eles tinham de aparecer justo agora!

“... I’d say we’re a lucky farm;

I’m thankful to be with you;

A little house on a little land;

Couple kids, two or three;

Same old song that we’ll always sing…”

*****Alpendre saloon Starling (22:23 p.m) ***

Narrador

—Seu whisky senhor — o jovem atendente avisa, parando alguns passos do homem que, recostado ao lastro principal do alpendre, observava o vai e vem de pessoas na rua a sua frente, estendendo-lhe o copo com a bebida — Caso queira adentrar, temos mesas vagas — oferece.

—Depois — declina o sujeito, encarando o rapaz — Animada sua cidade não? — comenta, não dando chance ao jovem responder, olhando a rua novamente — Bastante animada — reitera, tomando um gole da bebida, um sorriso estranho dançando em seus lábios.

Notas finais
ALERTA, SPOILER: teremos uma morte importante no próximo capitulo. E um regresso. Até breve flores. Bjinhos