O preço de uma amizade
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Dedicado à minha amiga Thais. Amo você, girl! ♥
Que moeda você usa para calcular o valor de uma amizade?
Quando o sol está quase no meio do céu, a tia abre os portões do Centro Educacional Arco-Íris e sacode o grande sino com força. Tão ordenadamente quanto possível, as professoras liberam suas turmas. É o fim da aula e o começo de uma tarde ensolarada e quente no sertão de Goiás.
Um bom número de crianças atravessa outro portão, uma pequena entrada na cerca verde que dá acesso à Vila dos Sargentos. Cada uma daquelas pequenas vidas saltita por aí cheia de histórias para contar. Mas hoje, vamos nos limitar a acompanhar duas delas, que atravessam muito juntas o caminhozinho pisoteado em meio ao vasto gramado, subindo em direção à imensa caixa d’água que abastece todas as 522 casas da vila.
As duas meninas são amigas há quase dois anos, o que é muito tempo considerando que elas têm, cada uma, oito anos de idade. Isso significa que estiveram juntas durante ¼ de suas vidas e que nem se lembram direito de como era antes de se conhecerem.
A mais branquinha, de bochechas rosadas e com uma franjinha mal aparada pela mãe, se chama Andressa. A moreninha, de cabelo preso e olhar esperto, é a Thais. Juntas, elas arrastam as mochilas de rodinha e conversam alegremente, vestidas em seus uniformes azuis com arco-íris desenhados nas camisetas.
É numa das decidas do caminho que Thais vê aquele minúsculo pedaço de terra de formato suspeitamente arredondado. Ela se abaixa e o pega entre os dedinhos, fazendo com que a amiga pare de andar e olhe para trás.
— O que é isso?
— Parece uma moeda.
Se você já foi criança, caro leitor, sabe que o valor de uma moeda é aproximadamente dez vezes mais apreciado por uma criança do que pela média dos adultos.
Naturalmente, a descoberta do pequeno objeto fez com que as duas meninas se apressassem até em casa, indo tão rápido quanto o peso das mochilas permitia que elas fossem, sem correr.
Após duas breves paradas, uma na casa de cada uma, já tendo tirado os uniformes que ainda tinham que durar limpos a semana inteira, elas se agacharam animadas diante da velha torneira manchada de tinta da reforma e começaram a limpar a moedinha. Teimosa, a terra endurecida se agarrava ao níquel como se determinada a ocultá-lo dos pares de olhos curiosos. Mas nada que a insistência infantil e algumas unhadas não resolvessem. Depois de terem gastado pelo menos dois litros de água a mais do que deveriam, as pequenas finalmente se deram por satisfeitas com o estado de limpeza de seu mais novo tesouro.
A surpresa! Não eram cinco centavos, e nem mesmo um real que elas tinham em mãos. Eram cinco cruzeiros. Cruzeiros! As meninas, nascidas já em pleno Plano Real, nunca tinham visto uma daquelas. A inscrição na moeda dizia que ela tinha sido fabricada em 1980. As cabecinhas, mesmo jurando que odiavam Matemática, fizeram as contas rapidinho: a moeda era mais velha que elas duas juntas! Bom, não exatamente. Mas quase.
De repente, a moeda parecia infinitamente mais preciosa que seu verdadeiro valor. Era uma relíquia. Um pedaço do passado, de uma era perdida, bem ali, entre o polegar e o indicador da Andressa, que o analisava contra a luz.
— Eu vou guardar ela com muito cuidado. — Ela sorriu.
— Como assim? — Thais, muito esperta, não tardou em contestar. — Eu é que vou ficar com ela!
— Não, ela vai ficar mais protegida na minha casa.
— Mas fui eu que achei!
Verdade seja dita, Thais tinha razão. Se “ver primeiro” for indicativo de propriedade (e se o leitor já foi criança, sabe muito bem que é), então a moeda pertencia à Thais. Sabendo disso, ela não tardou em pegar o objeto da mão da amiga, que desavisada, o deixou escapar.
— Mas eu sou mais velha!
— Que é que tem?
— Quer dizer que eu sou mais cuidadosa.
— Nada a ver!
— Me dá aqui, Thais! Você vai acabar perdendo ela!
Vários minutos se passaram nessa discussão, enquanto Thais segurava a moedinha bem fechada em seu punho, e tentava mantê-la longe do alcance da Andressa. Esse tempo todo, as duas passaram se equilibrando sobre as grossas raízes de uma árvore alta que convenientemente, ficava exatamente no meio da distância entre as casas delas. Era um ponto estratégico, perfeito para que ouvissem seja lá qual mãe gritasse primeiro, chamando para o almoço.
Até que Andressa teve uma ideia maquiavélica:
— Tá bom, você ganhou. Pode ficar com a moeda. Mas deixa eu ver ela de novo? — Ela estendeu a mão aberta.
Temerosa, Thais apenas negou com a cabeça.
— Que é isso! Deixa eu ver a moeda, Thais!
— Não. Você não vai querer me devolver depois. — Verdade seja dita, Thais conhecia Andressa muuuuito bem.
— Vou sim! O que você acha que eu vou fazer? Pegar e sair correndo? — Era exatamente isso que ela ia fazer.
— É!
— Larga de ser boba! Me dá essa moeda!
— Não!
— Você está com medo?
— Não!
— Então, me dá a moeda!
— Não!
— Ela tá com medo! Hahaha! — Andressa forçou uma risadinha malvada. E começou a cantarolar: — Medrosa, medrosa, medrosa!
Todo mundo sabe que nada é pior do que ter sua melhor amiga cantarolando na sua cara que você é medrosa, especialmente quando você sabe que ela está tentando te enganar. Aquilo foi demais para a Thais, como seria para qualquer um. Os olhinhos dela imediatamente se encheram de água, e ela deu as costas para a amiga e saiu correndo para casa.
Foi então que Andressa percebeu, tarde demais, que tinha passado dos limites.
— Thais? Espera! — Ela começou a correr atrás da amiga. — Você está chorando? Thais! Thais!
Sem dar ouvidos aos apelos da amiga traidora, Thais abriu o portãozinho verde que dava acesso a seu quintal, passou, e depois o bateu com força, sem olhar para trás. E desapareceu.
— Thais! Espera! Volta aqui! Desculpa! Eu não queria dizer que você é medrosa! Thais! Thais!
Conforme os segundos se passaram, deixando evidente que Thais não ia voltar, foi a vez de Andressa ficar com os olhos marejados e correr para casa.
Assim que ela chegou, correu para o banheiro, desesperada para esconder as lágrimas da mãe. É claro que não funcionou. Afinal, ela tinha entrado em casa muito antes de ser chamada para o almoço. Alguma coisa tinha que estar errada. E a mãe, ainda com o avental da cozinha, foi ver o que tinha acontecido.
— Não foi nada. — Andressa tentou mentir, contendo um soluço. — É que às vezes, quando eu bocejo, saem lágrimas dos meus olhos.
Era verdade. Vai dizer que nunca aconteceu com você?
— Minha filha, eu conheço você. Eu sei que aconteceu alguma coisa. O que foi?
Então, a menina desistiu de fingir e abraçou a mãe, começando a chorar de novo:
— Eu briguei com a Thais! — Ela se apressou em contar a história toda, desde o momento em que tinham encontrado o precioso objeto, até quando a Thais tinha batido o portão na cara dela. — E agora ela não vai mais querer ser minha amiga!
A mãe devia estar se esforçando para conter um sorriso ao se abaixar e falar:
— Claro que vai, Andressa! A Thais é muito sua amiga. Ela não vai deixar uma bobeira dessas estragar a amizade de vocês! Olha, depois do almoço, você faz a tarefa, e depois vai lá na casa dela chamar ela. Aposto que vocês vão fazer as pazes rapidinho!
Andressa duvidava muito. Ninguém faz as pazes depois de ter sido chamada de medrosa. Mas para consolar a mãe, ela concordou com a cabeça e foi para o quarto desabafar com os bichinhos de pelúcia.
Depois do almoço, e já com o dever feito, ela saiu de casa nervosa. Ela não era boa nisso de pedir desculpas. Até porque ela e a Thais nunca tinham brigado de verdade. Ela estava ainda se perguntando se ia ter coragem de bater na porta, quando viu a Thais vindo naquela direção.
— Thais! Thais, me desculpa! Eu não queria ter te chamado de medrosa!
Thais apenas olhou para ela e estendeu a mão aberta. Lá estava ela, a moeda.
— Pode ficar com você. Eu não quero mais.
— Tem certeza?
— É. Eu não quero brigar por isso.
Andressa mal podia acreditar.
— Mas não é justo, foi você que encontrou!
— Foi, mas já que você quer tanto ficar com ela...
— E se a gente dividisse? Ela fica um dia na sua casa e um dia na minha.
— Pode ser!
— Mas você me desculpa?
— Desculpo!
— Você pode brincar?
— Posso!
E assim, a maior briga das vidas das duas amigas estava resolvida. Quem me dera todos soubessem brigar como crianças! Na hora de fazer os tratados de paz durante as guerras, tudo seria muito mais simples. Os dois lados não iam querer mais nada além da paz. E tudo terminaria num convite para uma boa diversão. Sem complicações.
Em algum momento, as duas decidiram brincar de achar moedas. O que era um pouco complicado, porque elas só tinham uma moeda, e todo mundo sabe que não é todo dia que se encontram cruzeiros perdidos por aí.
Mas só para reviver o gostinho de encontrar o objeto tão precioso, elas inventaram um novo jogo. Uma delas ficava com a moeda na mão. As duas fechavam os olhos e rodopiavam algumas vezes, até que alguém desse o sinal: “Já!” A que estava segurando o pequeno círculo de níquel o jogava para o alto, e elas ficavam atentas para ouvir a direção em que ele tinha caído. Depois, era abrir os olhos para ver quem a encontrava primeiro, em meio à grama alta.
Brincaram assim a tarde inteira, até se esquecerem de contar quem tinha encontrado a moeda mais vezes.
Mas chegou uma hora em que nenhuma das duas conseguiu achar a moedinha. Elas nem concordavam para que lado ela tinha caído. Procuraram por toda a parte, e nada. Foram até quase de noite procurando, até o relógio da Thais apitar dizendo que era hora de voltar para casa.
As meninas ainda voltaram a procurar no dia seguinte, e nem sinal da moedinha. Sua existência tinha sido completamente apagada, quase como se ela tivesse sido produto da imaginação das crianças.
Andressa e Thais? Bom, elas continuam amigas até hoje, quase quinze anos depois. Andressa agora tem uma coleção de moedas antigas, que ganhou da avó. Já a Thais, bom, ela encontrou outros tesouros. E elas nunca mais brigaram.
A moeda? Nunca soubemos o que realmente aconteceu com ela. Eu suspeito que ela tenha sido encontrada por alguma outra criança, pois eram muitas as que brincavam pelos gramados daquela vila. Ou talvez ela ainda esteja lá. Lá, em algum lugar na litosfera terrestre. Enterrada pelas chuvas, e indo cada vez mais fundo sob a grama. Sinceramente? Não me importa. E acho que à Thais também não.
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