O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão
14 A Tempestade e o Sim
O Salão de Banquetes de Hofburg resplandecia sob a luz das tochas e dos candelabros de cristal, mas a atmosfera entre a nobreza era fria e sussurrada. A ausência de Sebastian na mesa do parlamento não passara despercebida.
Claire ocupava a cabeceira, vestindo um traje escuro e rígido, tentando focar o olhar no prato de prata à sua frente. Contudo, cada garfada parecia de chumbo. A raiva que sentira no gabinete começara a se esvaziar, dando lugar a uma inquietude angustiante que lhe apertava o peito.
Foi então que o Conde von Wertheim, ao lado de Richard, ergueu sua taça e comentou em tom casual:
— É uma pena que o Duque de Suffolk tenha decidido abreviar sua estadia em Viena. Um homem de posições tão firmes... Disseram no pátio que suas carruagens já partiram em direção ao porto imperial e que seu navio zpa de partida para a Inglaterra ainda esta noite.
As palavras do conde atingiram Claire como um raio. O garfo de prata escapou de suas mãos, colidindo contra o prato com um estalo seco que calou as conversas ao redor.
— Como disse? — a voz de Claire saiu num fio trêmulo antes de recuperar a imponência. — Ele está indo embora? Hoje?
— Sim, Majestade — confirmou o conde, surpreso com a reação da soberana. — Suas malas foram despachadas ao entardecer.
Uma onda de indignação, fúria e um pânico avassalador inundou o sangue da rainha. Ele estava fugindo. Aquele libertino arrogante estava simplesmente virando as costas e partindo após ter virado seu mundo de cabeça para baixo!
Claire levantou-se bruscamente, fazendo a cadeira de carvalho arrastar pesadamente contra o piso de mármore.
— Preparem uma carruagem no pátio principal. Agora! — ordenou ela, com a voz ressoando com autoridade absoluta para os guardas da porta.
Richard colocou-se de pé no mesmo instante, o rosto franzido em pura desaprovação. Ele contornou a mesa a passos largos e segurou o braço da irmã antes que ela pudesse dar três passos.
— Ficou louca, Claire?! — sussurrou Richard, a voz baixa, mas carregada de severidade. — Você é a Rainha da Áustria! Não pode abandonar o banquete oficial da corte e sair correndo atrás de um nobre inglês como uma garota inconsequente! Eu não vou permitir que você se humilhe dessa forma!
Claire parou. Ela lentamente virou o rosto para o irmão, os olhos verdes faiscando com uma raiva tão perigosa e soberana que fez o próprio Richard vacilar no aperto.
— Solte o meu braço, Richard — disse ela, a voz num tom perigosamente calmo, mas que cortava como lâmina de aço.
— Claire, eu sou seu irmão mais velho e o rei consorte da Suécia, eu estou tentando proteger a sua...
— Você é o rei da Suécia! — interrompeu ela, aproximando-se a ponto de dar um passo firme contra o espaço dele, colocando-o em seu devido lugar diante de toda a mesa atônita. — E nesta sala, neste castelo e sob este céu, eu sou a única Rainha! Você não dita as minhas ordens, não controla os meus passos e nunca mais ouse colocar as mãos em mim para barrar uma decisão minha! A minha coroa não pertence a você, nem ao parlamento!
Richard congelou, surpreso com a audácia implacável e a força que emanava da irmã. Ele devagar soltou o braço dela, dando um passo para trás e abaixando o olhar.
Sem olhar para trás, Claire ajeitou a capa pesada sobre os ombros e deixou o salão com passos rápidos e majestosos.
A carruagem real cortou as ruas escuras e úmidas de Viena em uma velocidade perigosa. O som dos cascos dos cavalos contra as pedras acompanhava a tempestade que começara a desabar novamente sobre a cidade.
Ao chegar ao cais do rio Danúbio, a chuva caía forte. Claire nem esperou que o cocheiro abrisse a porta; saltou do veículo segurando as saias do vestido, ignorando a lama e o vento gélido que açoitava seu rosto.
A poucos metros de distância, balançando nas águas escuras, a embarcação com a bandeira de Suffolk ainda estava atracada, com os marinheiros recolhendo as últimas cordas no convés.
Claire subiu a prancha de madeira a passos firmes, a capa encharcada pesando em seus ombros.
— SEBASTIAN! — gritou ela, a voz ecoando sobre o barulho do vento e do marulho da água. — SEBASTIAN BLACKWOOD, APAREÇA AGORA!
Os marinheiros pararam o trabalho, entreolhando-se estupefatos ao verem a Rainha da Áustria, sozinha, encharcada e furiosa no meio do convés.
A porta da cabine principal abriu-se com violência. Sebastian surgiu sob a luz da lamparina, vestindo um sobretudo escuro. Seu rosto carregava uma mistura de choque, cansaço e a mesma dor que tentara esconder o dia todo.
— Claire?! — exclamou ele, descendo os degraus de madeira às pressas até parar diante dela. — O que você está fazendo aqui?! Ficou maluca de sair nesse temporal?!
Claire deu um passo à frente, arfando de cansaço e de emoção, a chuva fazendo as ondas de seus cabelos ruivos grudarem em seu pescoço pálido. Ela o encarou da cabeça aos pés, observando cada detalhe que decorara nas últimas semanas.
— Eu passei os últimos dias observando você, Sebastian — começou ela, a voz firme sob a tempestade, preenchendo o espaço entre eles. — Observei o contorno dessa sua cicatriz na sobrancelha que você ganhou aos dez anos por ser teimoso demais. Observei a forma como você cruza os braços no parlamento quando sabe que está certo, e a maneira como seu olhar muda de tom — de um cinismo insuportável para uma intensidade perigosa — toda vez que chega perto de mim.
Sebastian piscou, a mandíbula travada, sem entender onde ela queria chegar.
— Claire, do que você está falando?
— Observei que você tem o hábito irritante de me chamar de Claire quando quer me desarmar, e que atrás de toda essa fama de libertino, de homem devasso e insuportável que a Europa inteira comenta... existe o único homem nesta terra que olhou para mim e não viu apenas uma rainha ou uma coroa para ser usada. Você viu a mim.
Sebastian deu um passo hesitante na direção dela, o peito subindo e descendo aceleradamente sob o sobretudo molhado.
— Claire...
— Sim — disse ela, o tom baixando para uma doçura profunda e inabalável.
Sebastian travou por um segundo, franzindo o cenho em pura confusão.
— "Sim"? Sim o quê?
Claire deu o último passo que os separava, erguendo o rosto para encarar aqueles olhos castanhos que agora transbordavam uma expectativa angustiante.
— Sim, Sebastian — repetiu ela, um sorriso lindo e vitorioso desabrochando em seus lábios no meio da chuva. — Eu aceito me casar com você.
O tempo pareceu parar no convés do navio. A confusão no rosto de Sebastian ruiu em um milésimo de segundo. A surpresa deu lugar a uma onda de alívio e alegria tão avassaladora que ele soltou uma risada baixa e desacreditada antes de avançar.
Sebastian a segurou pela cintura com as duas mãos, erguendo-a levemente do chão, e a puxou para si. Ele selou seus lábios nos dela em um beijo desesperado, faminto e carregado de uma paixão absoluta. Não havia mais espaço para o orgulho, para as dúvidas do passado ou para a política da corte; havia apenas os dois, entregues completamente um ao outro sob a chuva torrencial do porto.
Claire envolveu os braços ao redor do pescoço dele, aprofundando o beijo e entregando-se sem reservas ao calor dos lábios de Sebastian. Quando ele finalmente a colocou no chão, manteve suas testas coladas, a respiração de ambos chocando-se no ar frio.
— Você é a mulher mais louca, impossível e maravilhosa que já pisou nesta terra — sussurrou Sebastian, a voz rouca, enxugando as gotas de chuva do rosto dela com o polegar enquanto sorria de orelha a orelha.
— E você é o devasso mais sortudo do mundo, Lorde Suffolk — rebateu Claire, rindo com o coração transbordando de leveza pela primeira vez em muito tempo. — Agora mande descarregar suas malas. Nós temos um casamento real para organizar.
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