Noite, 22:47, Mansão Wayne

— O que está sentindo, Mestre Bruce? — Abordou o mordomo após passar por um dos corredores e avistá-lo ainda de pé e encostado no parapeito de uma das janelas do salão de jogos. Mantinha dois dados aprisionados em uma das mãos e os jogava para o alto, pegando-os no ar antes que caíssem. A seriedade no semblante do jovem denunciava uma aguda preocupação, o que vinha acontecendo com mais frequência do que gostaria de admitir. — Posso ajudá-lo em alguma coisa? — Insistiu se aproximando com as mãos às costas até tornar impossível para Bruce lhe ignorar.

— Não, Al, obrigado. — Restringiu o máximo que pôde sua resposta para não envolvê-lo no caos que eram seus pensamentos das últimas semanas. Em vão, é claro, pois tudo o que conseguiu foi um suspiro exageradamente longo do outro. — Sei que só quer o meu bem… — Disse com carinho e forçou um daqueles sorrisos que Alfred odiava, porém era o único que poderia oferecer no momento. — As probabilidades de algo péssimo acontecer tem me tomado as poucas horas de sono. — Revelou em seu tom mais abatido e voltou sua atenção para o dado o girando nos dedos. Fitava-o como se pudesse ver através do que sua condição humana permitia. Era um gênio, mas nem mesmo o melhor dos detetives era capaz de fugir de eventos aleatórios. A única opção que existia era prever cada um deles e estar sempre à frente com uma solução. O custo para abranger aquele mar de possibilidades era alto e apenas ele estava disposto a pagar.

— O senhor realmente esqueceu que tem um amigo ou escolheu acreditar de novo que está sozinho? — Não era sua intenção esfregar o dedo na ferida, mas não tinha paciência com aquela atitude “nobre” dele em afastar os outros. Foi tão irônico que Bruce riu. Não desejava ofendê-lo, só achou divertido. O velho sorriu discreto e feliz por “quebrar o gelo” entre os dois. — Deveria ser óbvio também que não dá para brincar de Deus. Diga-me exatamente o que tem te dado insônia. Não sou completamente inútil, posso colocar um sonífero em seu café se nada mais der certo. — O mais assustador por trás daquelas palavras é que eram verdadeiras. Alfred o colocaria para dormir nem que precisasse trapacear para isso.

— Às vezes me esqueço do quão afiada é sua língua. — O brilho triste dos belos olhos azuis se apagou ao sentir aquele conforto paternal.

— É sempre um prazer relembrá-lo da verdade, Mestre Bruce. — Caminhou até uma das poltronas de luxo do salão, retirou uma manta xadrez que a cobria e indicou para que o outro se sentasse.

— Claro. — Murmurou com um sarcasmo amigável e o obedeceu. O corpo afundou no assento e sentiu cada músculo agradecer o descanso. — Só quero me defender num ponto de suas acusações. — Ergueu a destra e exibiu os dados. Eram vermelhos e os números pintados de bolinhas negras. — Não estou brincando de Deus. Estudei muito para conhecer todas as probabilidades. A verdade é que…

— … Está sendo um idiota. — Curto e grosso. A expressão perplexa do menor alargou seu sorrisinho de outrora. — A vida não é uma ciência exata, Bruce. Pessoas não são números.

— Pessoas são previsíveis. — Retrucou com firmeza, entretanto desviou o olhar após alguns instantes. — Exceto… Ele.

— Coringa? — Questionou retoricamente e jogou a manta sobre os joelhos do rapaz. Dirigiu-se até uma adega ao lado de uma mesa de bilhar e escolheu um vinho suave. O silêncio foi pesado, por isso decidiu prosseguir com suas considerações. — Ele se intitula agente do caos e, sinceramente, o que esperava de um psicopata obcecado pelo Batman? — Serviu-o com a bebida numa taça e se acomodou diante do rapaz num sofá de três lugares. Cruzou as pernas e alisava o bigode enquanto aguardava Bruce esclarecer até onde queria chegar.

— Harley é a psiquiatra responsável pelo tratamento do Coringa. Prometi não me intrometer no trabalho dela, mas da última vez que fechei meus olhos para o que acontecia em Arkham, Victor a fez de refém. Não quero cometer o mesmo erro novamente. — Bebeu metade da taça de vinho num único gole e inspirou fundo com os olhos fechados. — Posso tirá-lo dos cuidados dela, mas aí darei motivos sólidos para a doutora me odiar e… No fundo… No fundo… Acredito que Coringa tem salvação. Se há alguém lá dentro hábil para conseguir é ela, mas Alfred… Qual a probabilidade dele machucá-la e manipulá-la?

A expressão do mordomo se fechou e encarou o rapaz com pesar, pois não existia no mundo qualquer palavra consoladora que pudesse dizer.

— As chances são grandes. — Respondeu sincero e ergueu a mão no ar para que não fosse interrompido. — Lembre-se que o sonho da senhorita Quinzel é tratar pacientes perdidos como Coringa, pois acredita que é capaz de trazê-los de volta. Em minha humilde opinião é impossível, mas sou um velho ranzinza e devo ser ignorado. — Respirou fundo e mudou o rumo da conversa, pois suas crenças fariam com que Bruce se sentisse pior. — Ela sabe dos riscos e não é de sua competência julgá-la apta ou não para o trabalho. Vale o cuidado, mas não interfira. Confie.

— Confiar? — Mexia a taça elegantemente fazendo o líquido rubro circular até a borda, mas sem derrubar uma única gota. — Sabe que não posso. Harley é uma ótima profissional, mas Coringa é ainda melhor no que faz. Nunca irei depender de sorte, pois meu trabalho é estar preparado para o pior.

— Certo, então o que fará se ele causar mal à senhorita Quinzel? — O tom foi mais duro, ofendido pela postura do rapaz. — Prendê-lo novamente e tirar-lhe o direito de receber tratamento?

— Alfred… — Notou a revolta do outro e deixou a taça de lado em uma mesinha. Sentou-se ereto e repousou as mãos no colo. — Não é nela em quem não confio, mas nele. Quero uma rota segura para colocar em prática caso algo dê errado e tudo será feito sem magoá-la, porém se a minha relação com ela precisar ser sacrificada, assim será feito. Não irei permitir que a vida de Harley esteja nas mãos do Coringa.

— Algo ainda não está claro para mim, Mestre Bruce. O que foi que descobriu quando acessou as informações do Asilo para começar a divagar esse tipo de tragédia?

— Direto ao ponto, como sempre. — Sentia-se mal e a consciência pesava, mas já estava acostumado àquela sensação. — O novo sistema de segurança exige que as informações sejam digitalizadas, já que dessa forma é ainda mais difícil de roubá-las, alterá-las ou acessá-las sem autorização. A tecnologia é da Wayne Enterprises, então é claro que Lucius facilitou uma porta para mim. — Enfiou a cabeça entre as mãos e bagunçou os próprios cabelos numa tentativa de fazer suas preocupações irem embora. — Eu li as anotações de cada profissional envolvido com o Coringa e ouvi os áudios de algumas das sessões, mas as dirigidas por Harley não foram gravadas e no lugar há sempre alguma justificativa. — Volveu o olhar na direção do outro e deixou transparecer todas as suas dúvidas. — Para quem valoriza tanto as regras, Harley está quebrando várias.

— Não é do feitio da senhorita Quinzel passar por cima do departamento em que trabalha. — A voz mais baixa e o olhar arreliado esboçavam agora a mesma apreensão de Bruce.

— A principal razão para as sessões serem gravadas é para ajudar em estudos da área, avaliação geral e investigação de crimes. Tudo isso foi silenciado em busca da confiança do Coringa. Nenhum tratamento psiquiátrico do mundo permite que o paciente tome o controle ou dite o certo e o errado. Esse papel é do médico. — Os olhos azuis tornavam-se gradativamente acinzentados. Um indício fisiológico de extremo cansaço e um sinal que alertou o mordomo para a condição de seu protegido. — Ele está tramando alguma coisa!

— Acredita que ele esteja tentando dominar a própria psiquiatra?

— Não seria a primeira vez. Lembra do que aconteceu com a Dra. Thompkins?

— Como poderia esquecer? — Condoeu o britânico cheio de melancolia. — Lee quase… Quase morreu. — Leslie foi o primeiro amor da vida de Alfred quando ainda estava na marinha e se formou na mesma turma que Thomas Wayne. Uma das fundadoras do Hospital Público de Gotham e ativista no tratamento gratuito às classes baixas. — Depois daquele deplorável psicopata pendurá-la na própria cela implorei para que nunca mais pisasse em Blackgate. — Entendia melhor a origem de toda a aflição de seu tutelado e buscou em suas experiências algo útil para dizer. — Já buscou esclarecer o assunto com a senhorita Quinzel?

— Sim, mas Harley não aceita minhas opiniões. Do ponto de vista dela o que um empresário que “nunca” abriu um livro de psicologia tem a dizer? — Expressou com enorme descontentamento e voltou a se afundar na poltrona. — Se eu insistir…

— … Ela poderá desconfiar da identidade do Batman. — Completou numa voz ponderada e após uma pequena pausa decidiu questionar. — Sei dos riscos, senhor, mas não é mais seguro conhecer seu alter ego se isso der crédito aos alertas sobre o Coringa?

— Está sugerindo que eu revele meu segredo à ela? — Interpelou surpreso, pois Alfred era sempre o primeiro a impedi-lo de fazer isso.

— O que vale mais, Mestre Bruce? A vida dela ou a máscara? — A pergunta deixou-o ainda mais assombrado. — Tê-la sob sua capa ou nas mãos dele?

O todo poderoso Senhor Wayne estava deveras apreensivo e com uma difícil decisão em mãos. A única maneira de surpreender Coringa era improvisando e o vilão jamais esperaria que Batman revelasse a própria identidade à Dra. Quinzel, então qual a probabilidade de deixá-la a salvo com essa atitude? Qual a extensão dos danos no relacionamento entre os dois?

— É o rei quem se sacrifica se não há saída e não estou disposto em deixar a rainha sofrer um cheque-mate. — Determinou apertando os dados na mão em um símbolo de que voltaria a ter controle sobre as circunstâncias. O caos em sua mente se dissipou como névoa e restou apenas a fadiga de muitas semanas de insônia.

— Não se esqueça de que a rainha pode estar do outro lado do tabuleiro, Bruce. — Alertou o velho amigo em uma infeliz profecia.

— Neste caso vencerei a mão que a controla. — A expressão se fechou até deixá-lo intimidador e trocou olhares com Alfred por vários minutos.

— Desde quanto está acordado, senhor? — Interrogou repentino igual um pai que recrimina más atitudes de um filho. Estendeu o indicador na altura de seu nariz e esclareceu. — O ajudei a expor suas conclusões e dei uma solução. Agora precisa descansar ou não terá condições de desempenhá-la. — Era um ultimato e Bruce sabia que o outro não arredaria o pé enquanto não o cumprisse. — Se recomponha enquanto pode. Por favor.

— Tudo bem, tudo bem. — Ergueu as mãos para cima sinalizando se render e jogou a manta para o lado ao ficar de pé. Os dados foram devolvidos à mesa de apostas e Alfred o acompanhou até a saída.

Caminharam em direção à uma longa escadaria que interligava os quatro andares em absoluto silêncio. Era incrível o quão conservada estava a mansão após vários séculos desde que fora construída em 1792. Suspeitava que o principal motivo era a família que servia os Wayne desde o começo: Pennyworth.

— Deveria lembrar com mais frequência do preço de ser um vigilante. — Lamentou numa voz profunda e triste. — Porque se eu não pagar, alguém vai.

— Mestre Bruce…

— Não me console Alfred! — Cortou agressivo e se arrependeu logo em seguida. — Perdoe-me… É que nunca tomei uma decisão tão difícil.

— O senhor não tem outra escolha se quiser o bem da senhorita Quinzel.

— É exatamente esse, Al, o erro. Eu tive escolha.

O rapaz então virou a cabeça e encarou o amigo sobre o ombro. Havia um abismo refletido em seu olhar. Tão profundo que o mordomo interrompeu os passos para prender toda a sua atenção nele.

— Agora preciso agir antes que não tenha mais nenhuma.

Notas finais
Obrigada à quem leu! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!