O preço do prazer
28 When i was your woman
Notas iniciais
Já passavam das cinco da manhã, mas ainda não amanhecia. Estava nublado, e eu poderia contar todas as batidas do meu coração até agora desde que descobri sobre o desaparecimento de Neji.
Eu tentava não me preocupar, eu precisava. Mas isso é tão impossível quanto não saber que nos próximos dez segundos, meu coração bateria por mais vinte vezes, acelerado.
Com as mãos dadas sob os lábios, eu me deparo rezando mais uma vez, em silêncio, pedindo aos céus ou a qualquer força superior para que o meu homem estivesse bem. Controlando-me para não escorregar até o chão enquanto aguardo uma ligação de Naruto encostada sob a mesa de mármore.
O Uzumaki iria usar sua influência para entrar em contato com a empresa aérea responsável pelo voo de Neji, de acordo com as notícias nenhum avião havia caído ou desaparecido — graças a Deus —, o que só restava a única opção do mesmo não ter embarcado, seria possível?
Não... mas e o celular? Por que até agora a minha mensagem não chegou? Quero chorar, sentindo uma angústia terrível e uma sensação ruim. Calma, Tenten, calma. Peço a mim mesma. Engulo seco, aguardando qualquer notícia que fosse.
Ino se ofereceu pra ficar comigo, ela havia vindo porque achava que eu estava aqui, mas infelizmente eu não estava e não queria estar. Eu não queria ter que receber essa notícia, não, Neji, não... penso com os olhos cheios d'água. Só pode ser alguma maldição. Porque a cada segundo que o relógio avança os ponteiros, uma parte da minha alma parece se reduzir a nada até desaparecer. Restando lentamente uma mulher insana.
Neji... entoo um mantra, pensando em seu nome.
Uma pequena e leve taquicardia e a imensa vontade de chorar, meu Deus.
Menos de um segundo foi o tempo que levei entre sentir o telefone vibrar sob o mármore frio até o momento em que me virei, buscando-o:
— Alô!? — percebi que minhas mãos tremiam, e minha voz saiu mais desesperada que o normal, eu sabia que era Naruto, tinha seu nome na chamada. — Então, conseguiu? — a preocupação misturada a angustia aumentaram minha pressão, fazendo-me sentir tonta. Apoio-me sob a mesa.
— Tenten, eu... falei com um responsável da Finnair, e os dados que eles tem é que o Neji desembarcou em Nova York às 20:47 da noite. — por um segundo jurei que iria soltar o celular, pois perdi a sensibilidade das mãos. — É só isso... — um gosto amargo e um nó em minha garganta me impediram de respirar, sinto meus lábios tremerem.
— Ele tá aqui!? — gesticulo, parecia difícil conseguir falar. — O que mais?
— Sim, eu estou entrando com uma liminar pra conseguir as imagens da câmera de segurança, mas isso leva tempo.
— Nós não temos tempo! — retorqui, se ele já estava em Nova York quer dizer que estava mais perto, e que eu podia alcançá-lo.
— Preciso da assinatura de um juiz e a essa hora é difícil, estou fazendo tudo o que posso...
— Faz mais! — cortei-o, gritando. Ele se cala. — Não está fazendo o suficiente... — engulo seco, eu sabia que Naruto também estava no limite, ele tinha que lidar com a Hinata que sem dúvidas estava desesperada, as mil ligações dela me diziam isso. Mas eu não tinha condições, não tinha... eu não conseguia atendê-la, eu ia dizer o que? Que o amor da minha vida desapareceu? Que ele podia estar em perigo... ou morto!? Eu não podia, não conseguiria.
— Vou até o procurador-geral, tentarei conseguir algo... — é tudo o que ele diz, me apoio na mesa, sentindo o peito arder.
— Obrigada... — sussurro, mas ele só desliga.
Deixo o aparelho sob a peça de mármore, vendo a tela apagar. Minha visão está embaçada e meus nervos à flor da pele, tenho a sensação de que a qualquer momento meu coração irá entrar em exaustão e desistir, tamanha a força que bate. Não tenho controle sobre minhas emoções, ou muito menos sob a tremedeira irritante nas mãos.
Neji... sibilo outra vez, sentindo o peito esquerdo doer.
Viro-me com uma mão na testa, isso não podia estar acontecendo, não mesmo. Estou prestes a me deixar ir ao chão quando todos os meus sentidos congelam ao ouvir a porta abrir, instintivamente olhando naquela direção, correndo.
Pego-me surpresa ao vê-lo despreocupado jogando a pequena mala de viagem no sofá, ah meu Deus, ele está bem... sinto meu peito desacelerar lentamente, para então ser tomado por outra dose de adrenalina. Seus olhos vem em minha direção, e ele está bem... ele está.
— Neji... — dou-me conta de que estou agarrada a ele, como uma criança assustada. Tudo bem, ele está bem... — Neji. — sibilo, com a cabeça afundada em seu terno caro, sinto seu cheiro... e sua mão tocar minha cabeça. Fazendo uma incrível sensação de torpor e moleza se abater do meu corpo, ele está bem, Tenten.
Engulo seco, mais tranquila. Uma imensa vontade de chorar sobe por minha garganta, mas eu me impeço, era um choro de alívio. Afasto-me dele, tocando seu rosto, eu preciso saber de que isso é mesmo real e que ele está bem. Ele está bem, ele está bem... repito mais uma vez, pra minha sanidade.
— Você tá bem... — sibilo, inclinando um pouco o rosto pra olhá-lo melhor, sem soltar o seu. Não sei se ele vê ao certo as lágrimas que de mim queriam fugir, mas ele me olha quieto, e eu poderia distinguir milhões de sentimentos naqueles olhos brancos. Um deles era descrença, será que era tão difícil assim pra Neji entender que eu me importava com ele, de verdade?
Retirou minhas mãos de seu rosto, ainda perplexo:
— Estou. — responde, se virando. Porém...
Já sentiu uma sensação de vazio? Uma coisa ruim no peito mesmo quando deveria estar feliz? Eu me sentia assim agora, Neji estava bem, mas estava estranho. Lembro-me de anos atrás...
— Neji!? — chamei-o, sentindo algo ruim corroer meu peito. Ele se vira outra vez, olhando pra mim. Respiro fundo, tentando respirar. — Onde esteve? Por que não ligou ou respondeu minha mensagem? — alguém me disse que eu deveria ter cuidado quando se trata de amor...
— Acabou a bateria. — foi tudo o que disse, e eu ergui o corpo um pouco, respirando fundo outra vez, assentindo.
— E então!? — questiono, vejo seu cenho se franzir.
— Então o que? — pergunta de volta, é minha vez de franzir o cenho, ignorando a estranheza com a qual ele agia, engoli seco.
— Onde você estava? — ...eu tive.
— Por aí. — põe as mãos no bolso da calça, evitando olhar pra mim.
Travei por alguns segundos, ignorando a clemencia da minha alma em estar me iludindo, não era... ele realmente estava estranho. “Ignore a dor, ou sua preocupação, Tenten, seja forte.”
— E por aí não tem tomada? — cuspo as palavras, com os dentes trincados, minha voz é ácida. Eu o sinto mentir pra mim, como se eu fosse trouxa. E isso me enfurece.
Ele finalmente volta a me olhar.
— Por que queria tanto que eu respondesse sua mensagem!? — faz pouco caso. — O que tinha de importante? — devolve, quase no mesmo tom. E isso é como se alguém me desse um soco forte, fazendo-me quase perder o equilíbrio. Não era como se não tivéssemos brigado antes, mas dessa vez era diferente, eu sentia isso em mim... E você foi tão forte e eu não, minha ilusão, meu erro. Baixo um pouco os olhos, perdida. Ele respira fundo. — Tenten... a gente precisa conversar...
Torno a olhar para ele, perdida, eu conseguia ver um rumo pra isso e não gostava nenhum pouco de como se desenrolava.
— Vai dormir... — eu fui descuidado, eu esqueci. Viro-me pra sair dali, mas ele me intercepta, falando:
— Eu não tenho o direito de te envolver em nada disso, Tenten. E meu maior erro foi não ter feito nada pra impedir essa porra de ideia maluca que você teve... — seu tom é ameno, e ele cospe ódio ao xingar. Viro-me outra vez, vendo seus olhos e sua respiração, pesada.
— É isso que te assusta? — indago, comprimindo os lábios. — Eu tenho um plano, tá? — gesticulei. — Não precisa se preocupar... — eu esqueci.
Ele se calou, olhando de lado ainda com as mãos nos bolsos. Não estava com seu rolex, o que era estranho. A verdade é que Neji parecia cansado, assim como eu.
— Foi por isso que sumiu? — me aproximo dele, tentando olhá-lo nos olhos, mas ele não retribui o olhar. — Estava preocupado comigo? — questiono. Quando ele volta a olhar-me, está mais sério que antes, e um frio percorre minha espinha:
— Não, eu sumi porque não quero mais isso... não quero mais esse relacionamento. — joga, como um balde de água gelada. Sua voz possuía tanto nojo que parecia ter asco em falar. E eu travei, olhando pra cara dele. O que?
Sinto uma parte de mim se quebrar, eu me sinto quebrar. Com o coração partido e uma desilusão terrível, os olhos que pareciam ganhar vida quando lacrimejavam mesmo que eu tentasse impedi-los. O que mais doía era a forma que ele falou, como se não me suportasse mais. Ele tentou se virar, mas eu puxei seu braço.
— Para de mentir! — eu tentei soar convicta, confiante, mas falhei miseravelmente. Minha voz saiu sôfrega, e falha. Eu nem conseguia olhá-lo nos olhos. As curtas vezes que eu respirava ficavam nítidas no subir e descer do meu tórax. Sentia seus olhos sobre mim, mas não conseguia retribui-lo. — Não pode... — é tudo o que digo, com um fio de voz, olhando em outra direção.
— Por que!? — ele se inclina um pouco, e ao erguer o queixo os meus olhos então se encontram aos seus. Não tinha sentimento naqueles olhos brancos, só desgosto... e descrença. — Isso nem é um relacionamento de verdade. — esnoba, e se vira. Eu odiava quando ele dizia isso...
Respirar era difícil, sobreviver era. Onde estava a minha vadia interior quando eu precisava dela? Onde estava o meu orgulho? Uma parte de mim se reduzia a pó, uma parte da minha alma. Meu peito batia tão rápido que parecia querer fugir da minha caixa torácica, o que mais doía era seu deboche. Se nada disso era suficiente, o que eu fui pra ele? Então, como um sopro de uma bala, algo passou por minha cabeça, e eu ergui os olhos:
— É ela, não é? Estava com ela... — afirmei, encontrando alívio nas minhas próprias palavras. Ah sim, meu Deus, como eu pude ser tão idiota? Como eu quase caí nessa ilusão? Aquela onda de alívio me atravessa outra vez, e ele se vira, com as mesmas mãos nos bolsos, me olhando. — Eu já disse, Neji... eu tenho um plano... vamos sair vitoriosos. — ele estava preocupado comigo. Sem dúvidas aquela maldita havia feito algo que o fez perder as esperanças, ela deveria tê-lo colocado entre a cruz e a espada ao meu ameaçar. Por isso a ligação, ela queria saber se eu estava com ele... provavelmente após conversarem, ele se isolou até criar coragem pra voltar pra mim. Mas tudo bem, meu amor, eu estou aqui. E eu consigo enxergar além da sua dor.
Tentei aproximar-me, tocar sua face, mas ele intercepta-me segurando meus pulsos outra vez. Vejo fraqueza em seus olhos, evitando me encarar. Eu sabia. Ele achava que estava me protegendo.
— Neji...
— Não! — corta-me, seu respirar é sofrido, seu peito sobe e desce na mesma proporção que o meu segundos atrás. Parecia doer pra ele respirar. — Independente disso, Tenten, eu não quero mais... — o que!?
— O que? — pronuncio as palavras. Ele respira fundo, e as repete outra vez. — Não! — exclamo de volta. — Você... você tá ficando louco, Hyuuga? — explodo, me afastando. — Depois de toda a merda que a gente passou cê quer simplesmente desistir? — eu não estava mais triste, estava com ódio. Quem esse filho da puta pensa que é? Tudo o que eu tô fazendo, tudo o que fiz... foi por ele. Por ele.
— Exatamente, Tenten! — brigou de volta, me surpreendendo. — Não vê que desde o início tudo o que envolve a gente é uma merda? A gente só chama desgraça e nem pra ter um relacionamento de verdade a gente serve... — seu discurso foi bem potente no início, mas perdeu a força no fim. Suas palavras morreram lentamente. Tocando a nossa ferida.
Eu me vi perdida. Completamente.
Baixei a cabeça, desacreditando que depois de tudo o que havíamos vivido, ele queria simplesmente desistir. E ainda não acreditava que isso era um relacionamento de verdade, por que não era? Por que ele não me deu flores ou se ajoelhou pra me pedir em namoro? Por que a gente não seguia o politicamente correto? A gente se amar não era suficiente? Embora parecesse mesmo ele não saber disso... e tô arrasada, e eu só quero chorar.
Ele realmente queria desistir da gente.
— Ótimo... é o caminho que você escolheu. — proclamei, vencida, sentindo um misto de raiva e desgosto. — Mas saiba, Hyuuga, que eu vou seguir com meu plano! — afirmei, entredentes, girando os calcanhares e seguindo com rapidez até o quarto pra buscar minhas coisas. E agora, quando tudo está feito, não há nada a dizer...
...Você se foi e tão sem esforço você ganhou, você pode ir em frente, diga a eles. Troquei de roupa rapidamente, estava com uma maldita camisola de seda preta que ele havia me dado, dizendo que eu ficava bem com ela. Fecho os olhos evitando lembrar como ele sorria me dizendo isso, ou como havia se tornado bom me afundar nos braços dele depois de um dia inteiro de trabalho. Era verdade, a vida da gente às vezes pareciam serem dois positivos que tendiam a irem pra lados opostos e nunca estarem juntos, mas a gente se agarrava mesmo assim, porque a gente queria ficar junto. Isso já não é mais possível, que pena.
Antes de voltar, passei na cozinha e peguei meu celular que estava sob a mesa de mármore. O relógio digital do aparelho marcava apenas 05:30hrs. O som dos meus saltos indicaram que eu estava chegando, usando a mesma roupa de ontem porque não trouxe outra. Ele estava com as mãos na cintura, e andava de um lado pro outro, eu respirei fundo. Você consegue, Tenten, você viveu a vida toda sem ele. Você precisa!
Passei por ele veloz, eu queria precisar encará-lo mais uma vez, não quando tudo em mim estava desmoronando... num passo um tanto quanto apressado, quase correndo.
— Você deve tá louca se pensa que eu vou deixar você sair sozinha a essa hora... — ele me grita, vindo atrás de mim.
— Não! — grito de volta, num rompante, fazendo-o parar no meio do caminho. Meus olhos cheios d’água, um silêncio tomou conta do local, enquanto minha visão para ele era embaçada de lágrimas. Eu mal conseguia respirar. Sentindo-me presa em mim mesma. — Não somos mais namorados, lembra? — completei, ignorando seu olhar doído e girando os calcanhares pra abrir a porta e sair dali. Enfim.
“Diga a eles tudo o que eu sei agora, grite isso de cima dos telhados, escreva no horizonte... Tudo o que tínhamos agora se foi, mas diga a eles que eu era feliz, e que meu coração está partido. Todas as minhas cicatrizes estão abertas...
...Diga a eles que o que eu esperava seria impossível.”
No caminho para o elevador, eu só quis pensar em como fugir dali. Desaparecer. Eu o havia deixado prostrado, e a última coisa que eu me lembro é de ver seus olhos brancos se perderem com as minhas palavras, como se eu pisasse com meu salto fino em sua ferida exposta.
Já perdeu a sensibilidade dos pés e teve a nítida sensação de que seus joelhos vacilariam? Pois é. Nunca foi tão triste perder alguém, porque eu o amava, o amava mesmo. E mesmo assim Neji optou ir pelo caminho mais fácil. Agora eu entendia aquela frase que dizia: nem sempre ficamos com o amor de nossas vidas.
Sentindo meu coração em frangalhos, eu me deparo com a maior decepção e dor da minha vida, o início de um pesadelo do qual eu não poderia acordar, porque eu vivia ele.
Quando finalmente passei pelo enorme hall de entrada daquele prédio, eu pude respirar com o ar matutino e nublado do céu nova-iorquino. Apoiando-me nas enormes portas de vidro como se a minha vida dependesse disso, sem forças, e talvez dependesse. Senti as gotas da chuva molharem meu rosto, escorregando lentamente pela minha face, mas não estava chovendo. Era eu, chorando.
Escorreguei naquele lugar olhando de um lado pro outro na rua, não havia movimento àquela hora. Levantei-me ao avistar um veículo amarelo que vinha na minha direção:
— Táxi! — chamei, com o rosto banhado em lágrimas. Era um homem idoso, e aparentemente simpático, ele me sorriu gentilmente apesar de ver que eu desmoronava. — Pro Queens, por favor. — ele me ofereceu ajuda, preocupado, perguntou se era necessário chamar a polícia e eu disse que: não, tá tudo bem, é só um término.
Ligo o celular outra vez, vendo finalmente a mensagem ser entregue e lida. Meu coração se parte de novo, porque aquelas palavras não fazem mais sentido. Ele havia visto a minha mensagem, afinal de contas.
Apoio minha cabeça na janela, encolhendo-me no banco, o silêncio da manhã da cidade ajudava a não pensar em nada.
É só um término, você vai superar... eu tentava me convencer.
***
Os primeiros dias após a separação foram os piores, a sensação é terrível, parece que teu coração vai explodir e tudo o que você faz te faz refletir em: como seria se eu tivesse feito diferente? Mas você sobrevive, sobrevive. A dor se torna sua melhor amiga e apesar dos altos e baixos, você fica feliz por saber que foi real. Real?
Isso nem é um relacionamento de verdade. Não é, né? Talvez eu tenha um pouco de culpa nisso, por não tê-lo dito antes como eu me sentia, mas eu também tentava pensar: não tem como mudar seu passado. E já acabou.
Não importa se seu peito quer explodir, não importa se você sente fraqueza porque simplesmente não sentir vontade de comer, ou se seu cérebro está em exaustão... o mundo continua girando, e ele não para. As pessoas comentam no início, vira notícia, e depois esquecem.
E você vai vivendo, com um sorriso que não é seu porque não quer preocupar seus amigos, e uma falsa ideia de que vai ficar tudo bem.
Faltava menos de uma semana do casamento da Hyuuga quando Neji e eu terminamos, agora faltavam menos de quarenta e oito horas, eu ainda precisava encontrar o presente perfeito, porque o que eu comprei ficou com ele. Ainda era madrinha, e tinha que dar algo descente. Já revirei Nova York do avesso e não achei nada que me agradasse. Ou talvez eu não esteja me contentando com nada, nada é suficiente. Mas você vai vivendo.
Parei no meio da Times Square olhando pro céu, os enormes letreiros de publicidade piscavam em constantes mudanças, nem mesmo meu vestido eu tinha escolhido ainda. E eu me perguntava o que estava fazendo da minha vida. Consegui evitar meus amigos com a desculpa de estar muito ocupada no trabalho, mas não poderia fazer isso pra sempre, Hinata precisava de mim. E não importava se meu coração estava partido, o mundo continuava girando.
Eu cansei de tentar pensar em como seria ou onde eu errei, um relacionamento que começa errado não termina certo, porque os erros sempre voltam pra te atormentar. E o nosso erro foi termos nos conhecido.
Com as mãos no interior do sobretudo, eu respirei fundo, inalando um pouco do ar puro da cidade, eu havia me afundando tanto pra dentro de mim, que esqueci que existem outras coisas. E eu vou ficar bem. Aquela voz repetia as palavras dentro da minha cabeça, era minha consciência me impedindo de desmoronar. Nunca foi tão ruim estar longe de alguém, ainda mais quando esse alguém sequer lutou pra ficar com você. Ele sequer pensou em desistir na primeira vez que tropeçou.
Hyuuga Neji achava que estava me protegendo? Eu não precisava de proteção. Eu só estou quebrada agora, mas vou ficar bem. Estou trabalhando pra isso. Já não dói tanto como da primeira, talvez dois por cento menos.
Olhei ao redor, tem um mundo aqui fora, mas parece que quando sofremos com algo ficamos cegos, parece que toda a cor do universo desaparece. Girando os calcanhares lentamente, eu me permito chorar mais uma vez, vendo as enormes telas embaçarem em minha visão. Só mais uma vez, Tenten, amanhã vai ser mais fácil. Eu tento me convencer, de novo.
Olho meu celular, não há mensagens.
Que pena, eu queria esperar por ele, queria acreditar que ele ia voltar, que me ligaria bêbado e arrependido, dizendo que acreditava em mim, que confiava em mim... mas o mundo continua girando, e o relógio não para por nem um segundo. Porque pra que ele o tempo é o mais importante.
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A mesma cama, mas parece um pouco maior agora. Ouço Ino falar meu nome, enquanto planeja os últimos detalhes sobre o casamento. Hinata fez bem em convidá-los para serem madrinhas e “madrinho” — como Sai se denominava —, afinal eu não daria conta de tudo sozinha. Nossa canção no rádio, mas ela não soa como antes...
— Você comprou!? — ouço o albino sussurrar, olhando pra mim.
— Não. — respondo em negação, balançando a cabeça. Combinamos de juntar os quatro e darmos um “megapresente”, e como eles estavam se encarregando de todo o resto, eu fiquei com essa parte. Ele suspira.
A Yamanaka ainda explicava a Hyuuga como seriam os minutos pós-cerimônia e pré-festa, ela planejou todos os detalhes. Eu mantinha-me quieta, pensando.
— ...E você, Tenten? — ouço-a pronunciar meu nome, mas ainda estou distante. — Você vai entrar com quem? — ah droga... suspiro.
— A gente pode ir junto, se quiser... eu estava planejando convidar o cara gato da Jeffrey, mas você é prioridade. — Sai falou, e eu sorri pequeno. Segurando sua mão.
— É, até melhor, já que não vai mais com o Neji...
— Ino! — ouço Temari sussurrar em tom repreensivo, mas não olho em sua direção.
Estamos em um restaurante discreto, é noite, e eu vim direto da Times Square pra cá. “Quando nossos amigos falam sobre você, tudo o que isso faz é me arruinar. Porque meu coração se parte um pouco quando ouço seu nome.” Peço licença, e saio. Não importava se minha visão estava embaçada, de novo, eu iria ficar bem.
Que bom que o banheiro está vazio, assim posso chorar em paz. Céus, a minha maior decepção não foi no emprego, ou em qualquer parte da minha vida profissional, foi no amor. Foi dedicar demais de mim por alguém que desistiu no primeiro obstáculo. E isso me fazia me perguntar: até onde foi real?
Eu queria poder culpá-lo por tudo, por ser fraco, mas eu me pego pensando em como reagiria na situação dele. E não tenho uma resposta. Só que tá tudo bem, você vai ficar bem...
Ergo os olhos, encarando a minha imagem no espelho. As mãos apoiadas sob a porcelana fria da pia, eu sou digna de pena de mim mesma. Mas eu preciso superar, eu tenho um orgulho pra recuperar. Uma vida.
“Meu orgulho, meu ego, minhas necessidades e meu jeito egoísta fizeram um homem bom e forte como você sair da minha vida.” Ergo a mão lentamente, tocando a imagem daquele lapso de mulher sob a penumbra da luz fraca do ambiente, deslizando os dedos ali. O que eu fiz comigo? O que eu fiz com a gente? Me vejo ruir lentamente, chorando em silêncio. “Agora nunca, nunca conseguirei limpar a bagunça em que eu me meti, e isso me assombra sempre que fecho os olhos.” Eu queria poder culpar a Tamaki por tudo, mas eu também tinha culpa, eu também tinha... o que eu sou agora, é só a sombra de uma mulher forte e independente a qual eu fui um dia, é só um reflexo.
Meu corpo se curva pra frente, e as lágrimas pingam na porcelana branca, meus lábios tremem e minha cabeça dói, de novo. Eu já não tenho forças pra chorar, sequer me manter de pé. Não usava mais maquiagem, porque eu poderia borrá-la em qualquer recaída como essa. Até meus saltos diminuíram, porque eu nunca sabia quando meus pés perderiam a força do piso.
Ele não acabou só por não ter esperanças, ele acabou por não ter amor.
Apesar de doer, serei a primeira a dizer que eu estava errada. Ergo-me mais uma vez, tocando o espelho uma última vez. Meus olhos estavam um pouco avermelhados e minha garganta seca, mas eu vou ficar bem. Abri a torneira passando água em meu rosto, e secando-o. Ah, sei que provavelmente eu estou muito atrasada pra tentar me desculpar pelos meus erros, mas eu só quero que você saiba, Neji...
Da minha pequena bolsa eu tirei o meu batom vermelho, fitei meu rosto sem expressão, inclinando-me sob a pia enquanto passava-os nos lábios, com uma lágrima a escorrer pelo meu olho esquerdo. Eu vou concertar tudo, mas talvez você não esteja aqui pra ver...
“Quando você se apaixonar de novo... eu espero que ela cuide de você, espero que ela te mostre que há coisas mais importantes na vida do que o sexo, espero que ela possa ser tudo o que eu não consegui ser, mas, principalmente, eu espero que ela possa te dizer todos os dias... que te ama."
Tudo o que eu devia ter feito, quando eu era sua mulher.
— Me desculpe não ter sido suficiente. — sibilo, pro meu reflexo no espelho, como se pudesse vê-lo também, através de mim.
Limpei a última lágrima, e sai.
Eu guardaria a minha dor pra mim, enterraria meus sentimentos e seguiria adiante, afinal, o mundo gira... e ele não para. Só havia mais uma coisa a fazer, a coisa pela qual eu perdi o amor da minha vida.
Retornei à mesa sem resquícios de como me senti naquele banheiro, de longe eu até parecia aquela mulher que eu costumava ser, pois o som dos meus saltos eram sonoros. E minha face não expressava nada.
— Ótimo, você pensou mesmo em tudo, né... — ouvi Sai debochar da Ino, tomando uma taça de champanhe, quis rir. Fazendo a sombra de um sorriso permear meus lábios.
Sentei-me, observando a loura faiscar pro albino.
— É... e falta o que, meu bem!? — falou, irritadiça. Ui.
O moreno olhou pra mim, e eu entendi o recado. Olhamos de volta pro trio, um bom casamento não é um casamento de verdade sem:
— Despedida de solteiro... — gritamos, em uníssono. Jogando as mãos pra cima, isso vai ser de arromba. E como vai...
A Hyuuga ficou mais vermelha que um tomate, ah meu Deus, será que ela imaginou vários gogoboys e caras de sunga sarrando nela? Ela não sabe o quão certa está, vários deles, que são pagos pra isso.
— E eu já tenho o lugar perfeito... — disse com ar de mistério, pegando a taça das mãos de Sai e trazendo pra próximo a boca, sorrindo enigmática. Afinal, eu sou a vilã.
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