O preço do prazer
13 Blood gloves
Notas iniciais

O p r e ç o d o p r a z e r.
Se já foi exposto a um acontecimento que constitui um trauma psicológico é possível que tenha desenvolvido um problema de ansiedade relacionado com essa situação. Habitualmente, trata-se de um acontecimento que foi uma ameaça à sua segurança ou à sua vida, em que terá sentido medo, desespero, falta de ajuda ou horror intenso.
Pessoas, quantas pessoas. Havia uma multidão de pessoas ali, eu nunca tinha visto tanta gente aglomerada como formigas, ou talvez seja apenas minha percepção falha e dormente. Pessoas normais, curiosos, repórteres de noticiários e gente que fazia plantão na porta da delegacia para obter a máxima informação possível. Fora meus amigos, os Hyuuga's e claro, o Uchiha.
Era incrível como notícia ruim se espalhava rápido. Pelo que ouvi durante a conversa de dois policiais, estávamos em todos os noticiários e revistas de plantão. Eles descobriram o que houve conosco através das câmeras de segurança do prédio. E nos rastrearam através do GPS do carro de Kiba.
O estardalhaço fora da casa começou quando eu ainda tentava processar o que tinha acontecido. Havia um homem morto bem a minha frente com dois tiros em pontos distintos do corpo, um na perna e outro no tórax, respectivamente. Os capangas do Inuzuka foram capturados e vão ser julgados por cúmplice de sequestro e tortura. Já Kiba... Bem, é os Estados Unidos, aqui é olho por olho e dente por dente. Não sei o que vai acontecer, mas alguém sempre paga depois. É por isso que estamos caminhando para a delegacia e não para o hospital como seria mais indicado. Neji ainda tinha escoriações pelo corpo e eu... Bem, eu estou bem na medida do possível, levando em consideração que no momento eu poderia estar no mínimo morta. Se desse sorte.
Tem tanta gente ao meu redor, o Hyuuga vem mais atrás. Ainda estava suja, com o rosto marcado e os cabelos assanhados. Quem era eu? Um dos policiais pareceu se compadecer do meu estado e me emprestou sua jaqueta. Recebi de bom grado, ou melhor, eu não tinha reação a nada. Meu corpo se movia, apenas, mas meus olhos estavam fixos no chão e minha mente ainda não conseguia processar o que eu presenciei mais cedo.
— Senhora, senhora, pode nos contar um pouco do que houve? Pode nos dizer os motivos que levaram a Inuzuka Kiba a cometer tal delito? — uma jornalista falava, atropelando os outros em meio ao abafado de pessoas. Mas já não estavam tão próximos, isso parecia desesperá-los, a sede por informações. Eles não sabem o que é passar por um desespero de verdade, se soubesse valorizariam o silêncio dos outros. Como eu sempre valorizei, apesar de tudo.
Um horda de policiais faziam nossa segurança. Segurança?
Mantenho meus olhos firmes no chão a minha frente, a sensação de indolência e o torpor cerebral pareciam que não iam cessar nunca. E, apesar da minha falta de ação visual, por dentro eu estava gritando, quebrando tudo. Um ataque de histerismo onde a única vítima das consequências era eu. Ao mesmo tempo que estava vazia, oca.
— Senhorita Mitsashi, ele chegou a violenta-la? — meu mundo parou por incontáveis segundos. Girei o pescoço lentamente com os olhos arregalados na direção de quem havia feito a pergunta. Era um homem, insensível por sinal. Ansiava por minha resposta, pisquei lentamente baixando a cabeça, minha mente tentando processar o que poderia ter acontecido lá.
— Por favor, por favor, mantenham distância. — ouvi um dos guardas falar. Estava estática, parada, absorta em meio a entrada da delegacia.
— Parem de fazer perguntas a ela, não ofendam a moral crítica de minha cliente. — uma voz conhecida me trouxe a realidade, ergui os olhos e vi a imagem de Itachi se aproximando e passando pelos guardas.
— Itachi... — sussurrei, mas minha voz foi inaudível até para ele que se aproximava. Parecia pesado falar, difícil.
— Ah meu Deus, que bom que está bem! — disse colocando as duas mãos em meu rosto e fazendo um carinho em minha bochecha com os polegares. Mirava os olhos negros que me fitavam intensamente, mas sentia-me aérea. Perdida. Itachi então me abraçou. — Fiquei preocupado com você quando recebi a ligação de Sasuke informando seu sumiço. — pisquei algumas vezes. O olhando de soslaio, intrigada, acho que ele percebeu minha confusão. — Os jornais, Tenten. Vocês estão em todos os jornais! — completou novamente afagando meu rosto, baixei a cabeça. Minha mente se recusava a tentar processar tudo, pois sempre que eu tentava a imagem do homem sem vida jazia diante de meus olhos, como num pesadelo.
Inconscientemente sinto minhas mãos tremerem e uma indolência nas pernas, escondendo as palmas nas mangas longas do casaco policial.
— Ai meu Deus amiga, ficamos tão preocupados! — alguém me abraça de lado, e embora eu esteja com a cabeça baixa, reconheço de longe a voz de Ino que sussurra palavras em meu ouvido, como se tentasse me reconfortar. Apenas assinto. Agradecida pela receptividade, por sentir todo esse carinho.
— Estou bem. — é a primeira vez que falo algo audível, tenho mais espaço para respirar, embora uma fraca palpitação no peito me faça temer. — Eu tô bem... — já não era tão convincente assim.
— Eu fiquei chocada, amiga. Nunca que eu ia imaginar que o Neji era... — Ino calou-se após receber uma cotovelada de Temari que a fez se contorcer. Ri da cena apesar do desanimo. Era bom estar nesse meio outra vez, ainda mais quando por um momento achei que não veria a próxima lua cheia nascer.
— Fico feliz que esteja de volta! — Temari afirma me dando um abraço de mãe e é o primeiro que retribuo também. Apesar da moleza e pendência a não esquecer disso nunca mais. A sensação é que um corpo morto estava jogado nas minhas costas, amarrado em mim. Penso me afastando. Corpo morto, droga.
Novamente braços firmes me circundaram, me puxando um pouco do transe que minha mente mergulhava. Senti o cheiro do perfume caro do Uchiha enquanto meu queixo repousava em seu ombro, meu corpo sendo esmagado em um abraço protetor. Alguém passou ao nosso lado e vi Neji nos olhando de canto.
Embora eu tenha o pressentimento que, apesar de ver tudo acontecer na minha frente, estou perplexa demais para fazer algo. Uma dose cavalar de marasmo e melancolia estão presentes em meu cérebro.
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Frio. Frio. Fria. A água fria bate contra minhas costas em um jato d'água contínuo. Estou em um dos banheiros da delegacia, vários chuveiros lado a lado em um espaço de quase dez metro de comprimento. Sinto a água gelada descendo por meu corpo e se espalhando no chão até o ralo, mas me detenho em manter apenas manter-me abraça. Meu cabelo longo molhado, colando em minha pele. Estou nua, e apesar da água com baixa temperatura, não sinto frio.
Estou só nesse espaço. Olhando atentamente o azulejo branco da parede. A água percorre toda a extensão de meu rosto, caindo por meu corpo retraído. Uma inércia toma conta de mim, como se estivesse absorta demais para pensar em algo.
E estou. Pela primeira vez desde que fomos resgatados, eu estou só. Gradativamente sinto-me mais distante de tudo e todos, como se me perdesse dentro de mim mesma. Aperto os dedos com nós esbranquiçados contra minha carne até sentir a unha firmando-se em minha pele, trazendo-me um pouco de volta a realidade.
Fecho os olhos erguendo a cabeça e me deliciando com o banho sem espuma. Apenas água, estragando e aproveitando daquela fonte de vida. Exalei o ar dos pulmões, baixando a cabeça lentamente e afastando um pouco o rosto para fora da água corrente para poder abrir os olhos. Mirei meus pés por alguns instantes e tamborilei os mesmos no chão a medida em que a água fazia uma pequena poça ali antes de descer o ralo metálico.
Pisquei mantendo a visão escurecida. Haviam tantas perguntas sem resposta rondando minha cabeça. Como seria agora? O que iria acontecer? Céus, aquele homem. Aquela arma. Tudo foi tão rápido... Suspirei cansada, quanto tempo se leva pra compreender tudo? É fácil quando estamos no controle, mas então nosso cérebro nos prega peça e nos faz entender que isso é apenas uma mera ilusão. Isso também passa, Tenten. Também passa. Tento me convencer, mesmo que haja um buraco no meu peito que jamais será preenchido novamente. É o buraco da culpa e o seu vazio representa a inocência que não tenho mais. E isso vai muito além do que podemos compreender.
Meus cílios lentamente se abriram a medida que as pálpebras se separavam, ainda estava com a cabeça baixa. Arregalei os olhos assustada sentindo o coração acelerar no choque ao ver pingos de sangue começarem a cair no chão. Cada vez maiores, cada vez mais intenso até o ponto que o chão se tornou um mar vermelho. Olhei para meu corpo desesperada procurado a fonte do rio escarlate que aumentava cada vez mais, ergui as mãos. Não havia cortes nela, mas havia sangue. Muito sangue. Era como se eu houvesse enfiado-as em um balde do líquido espesso. Estava vestida com luvas de sangue. Um grunhido de pavor grave ressonou de minha garganta. Meus olhos lacrimejaram e meus lábios tremiam, não, essa sensação de novo não.
Desliguei o chuveiro desesperada vendo meu corpo cada vez mais sujo, a água que jorrava dali já não era mais límpida e sim vermelha. Vermelho sangue. Senti meu corpo tremer e a maldita taquicardia atacar novamente, comecei a chorar copiosamente me perdendo na direção para qual seria fechar o fluxo escarlate.
Girei para o lado errado e fui ainda mais banhada com aquele sangue todo. Como um balde d'água jogado bem na minha cabeça. O banheiro estava todo sujo e quando a intensidade aumentou, girei para o outro e com o chuveiro ainda pingando uma quantidade razoável, girei os calcanhares para correr para fora dali. Completamente desesperada, chorando.
— AHHH! — meu grito desesperado ecoou quando virei esbarrando com o homem de cabelos castanhos curtos. Ele estava com as mãos no bolso e um olhar fixo em mim, os quais pareciam sem vida. A calça manchada de sangue em um lugar na coxa que recebeu o tiro, e no tórax também. O líquido escarlate escorria dele como uma torneira aberta.
— Você... Você me matou!! — gritou e fechei os olhos revivendo tudo outra vez; As ameaças; A briga; A navalha; O tiro e a morte. Gritei ainda mais com a visão totalmente embaçada. Escorreguei no chão molhado e bati a cabeça contra o azulejo, escorregando até o chão com os braços abertos e chorando compulsivamente. — Foi culpa sua, você sabe disso. — a voz ressonou em meu ouvido, como se ele estivesse ao meu lado. Girei a cabeça negativamente num movimento rápido e desesperado, suando frio e imponente. De novo. Gritei outra vez. Recuso-me a abrir os olhos, recuso-me a vê-lo outra vez. Sua vida não existe mais. Ele agora é só um dado, sua morte virou número.
Abracei minhas pernas em posição fetal, já sentada no chão, desesperada perante qualquer iniciativa.
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— Tenten. — tocou-me.
— NÃO! — gritei me esperneando, mexi os braços e as pernas sentindo minha cabeça explodir por causa da intensidade do meu choro. — VOCÊ TÁ MORTO! — gritei outra vez batendo na sua mão fria e escorreguei um pouco mais para o lado, afastando-me do desgraçado que voltava do inferno pra me atormentar. — Me deixa em paz... — minha voz dessa vez foi um sussurro, implorei. Minha garganta doía, assim como minha cabeça. Estou fraca físico e mentalmente, eu só quero que tudo isso acabe.
— Tenten, amiga. Somos nós... Sou eu, Temari. — uma voz me trouxe de volta a realidade e senti por um momento uma vaga e passageira paz, abri os olhos lentamente na direção da mesma, buscando minha válvula de escape para todo aquela tormento. Tentei compreender o que se passava.
Temari estava agachada ao meu lado, Ino de pé segurando uma toalha grande e marrom, e Neji parado com os olhos perplexos e arregalados em minha direção. Ele estava com outra roupa e os cabelos molhados, o que indicava que havia acabado de tomar banho também. Aos poucos começava a retornar a realidade, saindo daquele torpor causado pela iminente sensação de culpa e medo.
Olhei para os lados tentando buscar alguma pista do recente acontecido. Procurando todo aquele sangue, mas só havia água. Límpida e transparente. Assim como ele, que havia sumido. O que houve? Eu tive uma alucinação? Estou ficando louca!?
Abracei o corpo novamente e apoiei a cabeça de lado nos joelhos, voltada para eles, voltando a chorar de novo. Senti a garganta tapar um ou dois soluços e minha visão embaçar. Itachi então chegou pegando a toalha das mãos de Ino, ela parecia perplexa, todos estavam. Mas o que eu poderia esperar? Havia acabado de dar um show dentro da delegacia. Céus, eu tô ruindo.
O pano macio adornou minha pele, cobrindo-me junto do abraço apertado do Uchiha. Ergui um pouco o olhar apenas para que eles se cruzassem com os Neji, novamente buscando algum conforto. De todos aqui, foi ele quem passou por tudo isso comigo. Só ele pode me entender... Não pode?
O Hyuuga estava estático, sem reação, me olhando assombrado na mesma proporção em que me sinto assombrada. E os seus olhos? Ah seus olhos, me fitavam de um jeito... Havia algo nos olhos brancos, eles pareciam tão... tristes. Céus, será que ele está tendo alguma alucinação também ou apenas eu enlouqueci de vez? Solucei, então ele se virou para sair dali, mantendo o contato visual comigo até ser quebrado pelo movimento.
Deus, ajude-nos.
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Erva-cidreira, camomila e alguns comprimidos me ajudaram a voltar um pouco a realidade. Sinto meu estado deplorável apesar do banho. Estou cansada físico e mentalmente, meus pés se movem apenas no automático. Eu indo em direção a sala do delegado prestar meu depoimento, finalmente. Já é noite e ainda não tivemos tempo para fazer nada.
Soube através de cochichos que o corpo de Kiba foi enviado para o programa responsável, só depois de ser atestada sua morte e de todo o procedimento que se segue que ele poderia ir para casa e de lá para seu ponto final, o cemitério. Sinto em meu corpo um calafrio me atravessar e tremo um pouco me abraçando ainda mais com o pensamento.
Um alvoroço se concentra do lado de fora da delegacia, mas apenas autorizados podem entrar. Os policiais e detetives que investigam o caso, assim como a perícia, estão em ação. Não sei ao certo o que descobriram até agora, mas temo saber.
Abraçada ao próprio corpo, sentia meus cabelos quase secos caírem ao redor de meu rosto, meu olhar pesado e cansado, eu desmaiei um bom tempo quando fui raptada, mas isso não quer dizer que meu cérebro descansou. É como ser induzida ao sono forçado.
Cheguei no local e logo franzi o cenho ao notar as pessoas estranhas que haviam ali fora o Hyuuga. Os demais ficaram do lado de fora. Neji estava parado logo na entrada, e virou-se para mim quando cheguei. Suas mãos como sempre em seu bolso, os cabelos estavam secos e soltos, ficamos lado a lado quando parei próxima a ele, lhe encarando. Parecia tentar buscar algo que ele se recusava em dizer com os olhos. Ninguém é forte sempre, Neji, pare de tentar ser você também. Pensei.
— Como você está? — questionou num tom brando e baixei os olhos pensativa, ele era consideravelmente mais alto que eu. Me percebi olhando para seu tórax coberto pela blusa social, sempre apresentável, Hyuuga? Então desviei meu olhar para o chão. Suspirei dando de ombros.
— Bem, e você? — votei a erguer a cabeça e nos encaramos de novo, ele deu de ombros. Recebi aquilo como um: é, poderia estar melhor. Assenti.
Sentindo todos nos olharem curiosos, alguns olhares em especial pareciam nos queimar. Um deles era o do delegado que parecia muito interessado no nosso tipo de relação. Droga. E o outro de uma morena sentada em uma dos lugares a frente do mesmo. Quem é essa?
— Eles querem saber... Não precisar de preocupar. — o Hyuuga sussurrou no meu ouvido me trazendo de volta a realidade e pulei assustada ao sentir a aproximação, não sei se foi algo bom ou ruim o que senti. Ando em alerta máximo, isso tá exaurindo meu cérebro como nunca. — Já passou. — disse e por um momento senti-me mais calma. Vi seus olhos transparentes bem próximos aos meus, lembrei como um flash de como Neji foi corajoso indo pra cima dele. É burrice contra-atacar um cara armado? Sim, mas ele só tava tentando me proteger. Talvez a culpa tenha lhe consumido naquela hora, mas ele estava disposto a qualquer coisa. Suas escoriações faciais denotaram isso. Sorri agradecida. Foi ele quem esteve lá comigo.
Sim, apesar de todo o conforto que recebemos no momento, só quem sabe como foi é exatamente quem passa. Neji passou por tudo isso comigo, e apesar de qualquer coisa ele ainda é humano, ele sabe a sensação de estar entre a vida e a morte. E diretamente a tentativa dele me acalmar, acalmou-me.
Assenti respirando fundo, surpreendendo-me pela primeira vez ao não sentir nenhum tipo de perfume de Neji. A não ser, talvez, dos cabelos lavados. E era em pequenos sinais assim, que eu notava que ele estava tão abalado com isso como eu. Só pessoas que se prezam demais notam diferenças nas outras, mesmo que elas tendam a esconder como estão se sentindo.
Não tá fácil pra nenhum de nós, Neji. Eu sei. Disse em pensamento, mas minha boca não se moveu.
Ao nos separamos, olhei na direção do delegado e vi inconscientemente a mulher que me encarava. Seus olhos vermelhos demonstravam que havia chorado muito, os cabelos eram castanhos e provavelmente longos, presos em um coque alto. Ela parecia ser uma pessoa bem de vida, apesar do estado deplorável. Quem seria? Sem contar que ela me olhava com um nítido ódio no olhar. Deboche, superioridade. Em condições normais eu agiria como se ela fosse nada, mas de certa forma a maneira que ela me fitava pesou em meu peito.
— Quem é... — cheguei a virar um pouco o rosto e indagar Neji. Apesar de minha pergunta ser alta o suficiente para que ela ouvisse, e então ela se levantou voltada para mim, interrompendo-me.
— Eu sou Inuzuka Tamaki. — falou e arregalei minimamente os olhos, piscando. Uma Inuzuka? — Sou a mulher do homem que vocês assassinaram! — ela acusou cerrando os punhos e entrei em colapso interno. Minha visão escureceu por breves segundos e a imagem do Inuzuka morto passou perante meus olhos, assim como a culpa. Balancei a cabeça de um lado para o outro ao ouvir a voz de Neji responde-la:
— Seu marido sequestrou, torturou e nos ameaçou de morte. — ele tentava parecer tranquilo, e talvez estivesse, mas algo denunciava em sua voz um peso em sua alma. Por que Neji? Do que está se sentindo culpado agora? Não se sinta... Foi tudo culpa minha. — Isso é autodefesa. — com a fala fria a mulher voltou a chorar colocando uma mão sob o peito e a outra serviu de apoio na mesa do delegado.
Uma outra com traços semelhantes ao assassinado se aproximou e segurou seus ombros, sussurrando algo em seu ouvido talvez na tentativa de acalma-la. A tal Tamaki então assentiu soluçando e após me enviar um outro olhar hostil, voltou a se sentar.
Passado o momento conturbado, nos voltamos na direção do delegado que estava com alguns papéis em mãos, pareciam provas e fatos que apuraram do ocorrido. Aquilo me deixou nervosa. Céus, por que eu estou com esse mal pressentimento?
— Certo, nós não temos muito tempo a perder. Há várias perguntas que rondam o que houve e principalmente o porquê desse sequestro seguido de tortura e tentativa de assassinato. Porém, no momento, o que realmente precisamos saber é... Quem matou Inuzuka Kiba? — ele completa olhando fixamente em nossa direção, senti minha taquicardia atacar quando pela enésima vez a imagem do homem se passou por meus olhos, fazendo-me ter uma crise e uma imensa vontade de chorar sentindo o corpo amolecer. Minha visão rapidamente embaçou.
Através do canto do olho vi Neji abrir a boca prestes para falar algo, mas me antecipei.
— Eu! — acusei-me e os olhos brancos se voltaram em minha direção, devolvi o olhar mais fraco, ele me fitava horrorizado. — Eu quem matei ele. — completei com os olhos cheios d'água, minha voz vacilou por um momento.
Tamaki levantou-se furiosa tentando avançar contra mim, eu a entendo, apesar de tudo. Fiquei estática observando Neji e um guarda segurarem a mulher histérica que desferia todos os tipos de palavrões contra mim, chorando copiosamente. Talvez mais de ódio que de tristeza mesmo, via isso em seus olhos. Céus, triste estava eu, por um homem que nem conhecia. Como a própria esposa reagia diferente? Que tipo de ser humano ela é?
Ela continuou a desferir xingamentos e ofensas, mas nenhum deles doeu mais que o:
— ASSASSINA! — gritou. Tremi.
Eu sou um assassina. As lágrimas jorraram com vontade de meus olhos e meu mundo desabou em câmera lenta. De novo.
***
Um mês em casa é o que ele preveem. Meu regime não é fechado, mas não sinto vontade de sair. Não quero socializar. Esse é o tempo que a médica me deu até que o meu tratamento em particular fizesse total efeito.
Mais de uma semana se passou. Fui diagnosticada como vítima de um Transtorno do estresse pós-traumático. Meu tratamento se tornou intensivo com a ajuda de uma psiquiatra, os remédios vão de tarja vermelha à preta, dependendo do nível do meu trauma.
Os sintomas? Ah, os sintomas. Bem, não tenho tido mais alucinações acordadas, deve ser efeito das medicações para manter-me lúcida. Em compensação, meu sono é pesado e acordo de duas a três vezes na noite, sempre revivendo a mesma coisa, a mesma cena. A psiquiatra responsável pelo caso disse que foi o trauma inicial, que seguindo as recomendações afinco, logo melhoraria.
Confessei um crime, assumi a culpa. Estou sendo mantida em prisão domiciliar até que o julgamento ocorra e meu veredito seja dado. Itachi se ofereceu para ser meu advogado, tudo bem, estou tão aérea para algumas coisas que agradeço por não precisar mais sair do meu apartamento e muito menos me preocupar com algo. Ele disse que cuidaria de tudo. Obrigada, Itachi.
Estou na sala voltada para a televisão desligada, aérea outra vez. Vez ou outra sempre me lembro de olhar para a porta e lembrar de Neji caindo diante de meus pés. Neji, não tenho o visto mais. Ele foi proibido de se aproximar de mim, não pela polícia e sim por minha médica. Diferente do que eu acreditava, ele passou por tudo aquilo comigo, mas diretamente era alguém que me lembrava do ocorrido. Ela disse que qualquer coisa que possa me trazer a sensação de perigo outra vez, é prejudicial a minha saúde mental. Por isso deveríamos manter distância pelo menos até que eu melhorasse. Mas poxa, foi ele quem me salvou. Só estou retribuindo o favor, Neji. Somente.
Por outro lado tenho recebido tanta visita das mesmas pessoas que sinto-me mais sufocada que o normal. Sakura vem aqui antes e depois do trabalho, Ino conseguiu uma liminar na justiça para poder dormir comigo, talvez na tentativa de me ajudar a não enlouquecer durante a noite. Temari está cobrindo minha parte na empresa e estou ganhando por ficar em casa, mas sei que ela tá exausta. Eu também ficava.
Já Hinata vem aqui uma ou duas vezes por semana, apenas para assegurar de que não estava me faltando nada, como ela mesma dizia. Embora eu soubesse, no âmago, que ela queria respostas para suas dúvidas. Porém era educada demais para perguntar e principalmente falar algo que me leve de volta a sensação de imponência e me faça reviver o trauma. Hinata é um amor. Sei que ela quer saber o que Neji estava fazendo aqui quando tudo aconteceu, assim como sei que ela sabe que eu tenho conhecimento do motivo que levou Kiba a cometer tal loucura. Mas não vou falar, não quero falar. E ela respeita isso.
Tenho plena consciência do que fiz e do que está acontecendo. Mas estou com raiva. Estou com raiva por parecer tão fraca na frente dos outros. Sinto que sempre que me olham seus olhos transmitem pena, não quero que sintam pena de mim. Eu sou Mitsashi Tenten, eu sempre me ergo de qualquer buraco.
Trinco os dentes com raiva e pego uma almofada ao meu lado, jogando-a contra a parede na vã tentativa de exalar um pouco do estresse. Tem um guarda do lado de fora da minha porta controlado todos os meus passos. Ele é um dos motivos do qual eu não quero sair. Não quero que continuem me olhando como uma coitada ou uma criminosa. Meu processo está andando mais rápido do que normalmente aconteceria, Itachi me disse que tentaria adiar até pelo menos mês que vem, já que quem tentava adiantar tudo não era a senhora Inuzuka Tamaki. Respiro fundo.
E bem, por que eu estou passando por tudo isso se perante os olhos de todos, e até da própria lei, eu apenas me defendi? É simples! Esse é o mundo que a gente vive. Eu sou de classe média, o Inuzuka era de classe alta e sua família não iria deixar sua morte impune, mesmo que ele quem tenha errado.
É assim, os fracos se submetem às vontades de quem é mais forte. Talvez, se não fosse pela competência do Uchiha, provavelmente eu teria sido sentenciada a morte na cadeira elétrica no dia seguinte do sequestro.
Porém, Inuzuka Tamaki, você vai descobrir que eu não sou fraca. Apenas estou passando por um momento difícil me sentindo culpada pela morte do homem que você deveria amar e respeitar, ao contrário de você que pareceu mais irritada com a minha aproximação de Neji do que com realmente a morte de Kiba. Penso.
Era verdade e eu não me conformava. Como alguém poderia chegar a esse ponto? Não estou dizendo que ela não está sofrendo, apenas parece mais interessada em me destruir pelo que eu e o Hyuuga tivemos do que por de fato seu marido ter sido assassinado. Que tipo de ser humano é tão fria com a morte de seu companheiro? Isso é obsessão? Sem dúvidas!
Olhei de canto para a porta aberta da minha varanda, assim como as janelas. Tudo de vidro, eu sempre gostei de admirar a paisagem enquanto trabalho aqui na sala, mas nos últimos dias a minha intenção é apenas fugir da escuridão que parece sempre tentar me alcançar. Eu não quero voltar pra lá. Eu não sou inocente e tenho culpa no cartório, eu sei disso, mas de certa forma aos poucos a realidade começa a bater em minha porta.
Se eu não tivesse agido, teria havido uma morte ali de qualquer jeito e muito provavelmente seria a de Neji. Suspiro baixando a cabeça e os olhos, apesar de ser um cretino eu não queria vê-lo morto. Ele era um cretino que fodia deliciosamente bem. Céus, o que eu tô pensando? Estapeio a testa exalando o ar dos pulmões de uma única vez. Tenten, falta de sexo e preocupação excessiva tá te fazendo mal. Penso.
E quanto ao caso? As investigações não param nem por um minuto. Eles querem descobrir o que levou ao Inuzuka cometer tal crime e eu já cansei de repetir a mesma coisa. Não sei. Como explicar que eu nunca havia visto o homem antes? Estava difícil mentir para a polícia e eu sabia que hora ou outra a verdade viria à tona.
Olhei com tédio na direção do alarme do celular que soava insistentemente, ótimo Tenten, hora do seu remédio pra doida. Levanto-me pegando minha xícara da chá — que estava pela metade e não mais tão quente —, bebida cada vez mais frequente pra mim, e caminho em direção ao meu quarto pegando os comprimidos dados na receita. Eu não gostava disso, mas não era uma opção. Ou talvez fosse, se eu quisesse ser assombrada outra vez por um homem morto.
Caminhei de volta pra sala bebericando um pouco do líquido quase frio e adocicado. Tomando um susto e quase derramando o chá quando fui pega de surpresa por aquela criatura que era minha assombração viva. Viva, ainda bem.
— Qual o seu problema, Neji? — bradei olhando para o moreno que estava com os braços segurando os meus, estávamos na entrada do corredor dos quartos e banheiro. Olhei na direção da porta procurando qualquer anomalia causada pelo mesmo.
— Precisava falar com você! — ele disse e voltei a mirá-lo com vontade de jogar chá naquela cara bonita. Cansada e bonita. Neji tava um caco, quase ou pior que eu. Ele parecia um pouco mais magro ou talvez fosse impressão minha por não estar acostumada a vê-lo tão... Estranho. Os ombros estavam baixos, o olhar que sempre exalou perversão se encontravam cansados e símbolos de suas noites mal dormidas. Neji também estava tomando remédio controlado? Ele era uma perfeita versão masculina de mim. Mas também parecia lúcido.
— Como entrou aqui? — indaguei e ele me soltou virando a cara, tá fazendo birra seu desgraçado? — O que você aprontou?... Ah, não me diga que você nocauteou o guarda! — apontei na direção da porta com a mão livre.
— Não! Mas nesse mundo não tem nada que dinheiro não compre... — colocou as mãos no bolso e pela primeira vez notei que ele não estava com suas roupas típicas de um empresário.
A única vez que havia visto Neji tão informal foi em nosso primeiro encontro. Delicioso primeiro encontro, por sinal. Foco, Tenten, no momento você está irritada com essa cara de rapariga que ele tá fazendo. No momento ele vestia uma blusa branca de tecido fino e mangas curtas, assim como uma calça de moletom cinza. Por que cinza é tão erótico? Meu Deus, o que eu tô pensando... Arregalei os olhos e abri a boca perplexa.
— Meu Deus você subordinou o guarda!? — indaguei notoriamente fula e tentando ter raiva dele ao invés de desejo. Ele parece ser o brinquedo perfeito pra quebrar minha sanidade. Esse cara é doente? — Neji, da última vez que você burlou a segurança do meu prédio nós acabamos com uma arma apontada pra gente! — exclamei. E o porteiro perdeu o emprego. Ele revirou os olhos, girando os calcanhares em minha direção, parecia nervoso, irritado. Não sei ao certo.
Ele revirou os olhos e eu quis dar um soco naquela cara cansada e bonita.
— Eu precisava falar com você. — se aproximou perigosamente novamente segurando meus braços com o corpo inclinado pra frente, involuntariamente inclinei o meu pra trás. Sua voz soava piedosamente desesperada. Pisquei o olhando desconfiada. — Não te vejo desde nosso depoimento na delegacia e... Fiquei preocupado você. — disse e meu cenho se franziu ainda mais, desconfiada. — Tô me sentindo péssimo por estar passando por tudo isso e agora esse julgamento... — sua voz se perdeu e ele baixou os olhos ainda segurando meus braços, aquilo me deixou em alerta.
— O que é? — questiono com firmeza, mas quando seus olhos voltaram a me fitar. Senti-me horrível. Eles eram tão tristes e culpados... Ele parecia carregar mais culpa do que conseguia suportar. Suspirei formulando uma maneira de maneirar meu tom. Evitei olhar e sentir aquela dor. — Neji eu...
— Por que fez aquilo, Tenten? — indagou me interrompendo de uma única vez e voltei a fitá-lo. — Fui eu quem matei ele.
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