O preço do prazer
29 Bad guy
Notas iniciais
Na Upper West Side, entre a esquina da Broadway e a W 78th St, uma boate noturna se preparava para abrir às portas. Para os íntimos, o lugar era um cabaré. O prédio escuro com apenas as letras neons aguardava para a noite que iria pegar fogo. E eu assistiria de camarote.
Uma regra básica que define as coisas é: Se você tá dentro de um jogo, você tem que entrar pra ganhar. E apostar todas as suas fichas. Mas isso pode lhe custar muito caro. Aprenda que, no jogo da vida, quem ganha nem sempre realmente vence. E então, qual o preço está disposta a pagar pra conseguir seus objetivos? Eu sei o meu.
Bom, dizem que a vingança é um prato que se come frio. Alguém aí está com fome? E mesmo que eu saia como vencedora, eu vou ganhar isso.
Do espelho retrovisor do meu carro, deslizo a ponta dos dedos sob os cantos da boca, só pra ter certeza de que meu batom está perfeito. E ele está sim, assim como tudo em mim. Estou abusando de um vestido escarlate justo e curto, do jeito que eu gosto e que tanto combina com a noite. Meus saltos Gucci eu comprei só pro evento. Camisa branca, agora vermelha, meu nariz está sangrando...
Sinto o aparelho celular vibrar em meu colo, e olho baixo com um meio sorriso permeando meus lábios, conhecendo o número desconhecido.
— Alô!? — atendo, sem muito interesse, ajeitando as mechas do meu cabelo sob o espelho. Semicerrando os olhos:
— Você deve estar louca se acha se acha que vai se dar bem com isso. — ah, me economiza. Reviro os olhos, pretensiosa.
— Loucura!? — respondo, lenta. Saboreando a palavra-chave. — É exatamente isso que eu estava pensando... — digo, fazendo pouco caso. — Prazer falar com você também, Tamaki. — minha expressão muda, de pouco interesse para um olhar desafiador.
Vi esses olhos durante todo o dia no espelho.
— Eu vou destruir a sua vida, Mitsashi. Eu vou a público, e todo mundo vai saber do seu negocinho sujo. — ameaçou-me, baixei os olhos visando indiferente minhas unhas stiletto. Quase suspirando, tediosa.
— Estarei aguardando ansiosa, até lá, vou aproveitar a despedida de solteira da minha cunhada com o meu homem. — digo-lhe.
Desligando a chamada enquanto encarava o letreiro neon com o nome do meu novo negócio, Heaven. Um sorriso voltou a sombrear meus olhos, ela caiu direitinho.
— Vamos ver quem puxa o gatilho primeiro. — digo, pausadamente, sentindo meu riso sádico aumentar minimamente.
Ainda encarando a entrada principal do cabaré, eu deixo o celular cair sob o banco do passageiro, onde coincidentemente uma revista de fofoca flagrava sua última e melhor notícia estampada na capa. Baixo os olhos, vendo a minha foto ao lado de um belíssimo empresário de olhos brancos, conversando dentro do carro. Falso término? ela dizia.
Então voltando a encarar o letreiro luminoso, com um riso maior ainda.
De fato, a vingança é algo perverso e frio, mas quem disse que ela não fica bem num salto alto? Averíguo a hora uma última vez, notando que ela chegou. Dormindo, enquanto você anda na ponta dos pés. Rastejando por aí como se ninguém soubesse. Voltando a encarar minha íris através do espelho, aperto o spray do perfume em meu pescoço e desligo o rádio. Se acha o criminoso.
Pego meu sobretudo no banco de trás e saio do carro batendo a porta, olhando ao redor, observando o movimento que logo começaria. Eu me encarregaria disso. Os faróis piscam quando eu travo o veículo.
Da saída ao local principal, um extenso corredor de luzes vermelhas e cartazes na parede. Tudo continuava na mesma desde a última vez que vim aqui. O longo caminho até o prazer, um passo a menos pra perdição. Tudo igual. Machucados nos meus dois joelhos, e a culpa é sua.
Não me diga obrigado ou por favor. Observo tudo com um olhar rápido, até chegar no centro onde uma sexy música estava tocando. Há um homem no meio do salão com a roupa padrão daqui, ou seja, quase nada além da calça. E eu já o conhecia de outros carnavais. Eu faço o que eu quero e quando quero.
— Desculpe, ainda não abrimos... — ele disse abrindo os braços com um sorriso corrupto ao notar minha presença. Ah, eu aposto que sim.
— Dick, não é!? — questiono, arqueando uma sobrancelha. Ele assente.
— E você é a Mitsashi, não é? A namoradinha do Neji, ele sabe que está aqui? — põe os dedos nos cós da calça, o que faz um pouco a peça baixar e atrair o meu olhar. Mexo a boca, comprimindo os lábios.
Era até gostosinho, e como, eu me lembro de dar uns belos pegas nele pra matar o Neji do coração. E deu certo.
Volto a encará-lo, mais séria:
— Tem mais alguém aqui? — estalo a língua, erguendo um pouco o queixo. Ele arqueia uma sobrancelha, parece curioso.
— Acabei de abrir... mas como eu disse, ainda estamos fechados. — sorrio, satisfeita com a resposta. — Agora, se quiser esperar lá fora...
Ele apontou pra saída, o mesmo corredor que eu vim, e foi a minha vez de arquear uma sobrancelha. Me aproximando lentamente, fixando seus olhos nos meus:
— O Neji não te contou, senhor Williams? — seu riso pretensioso morreu ao me ver chamá-lo por seu verdadeiro nome. Mas eu continuei, próxima e sucinta. — Sou sua nova patroa. — mostro meus dentes brancos, lentamente. — E hoje a festa é particular.
Após sussurrar em seu ouvido, passo por ele deixando-o engolir a notícia. Bato os olhos no resto do ambiente, eu sentiria saudade de tudo isso aqui. Afinal, foi aqui que eu me descobri uma verdadeira vadia, e sinto muito orgulho disso. Rio pequeno e malvado com as lembranças. Doces lembranças. Minha alma é tão cínica.
— O que quer dizer com isso? — ele questiona, virando-se pra mim, e eu o olho por sob o ombro sem muito interesse. Sorrio, maldosa.
— Quero dizer que está despedido. — pisco meus longos cílios. — Agora vaza. — fecho a cara, olhando pra outro canto.
Neji deve ter ficado louco. Eu ouço ele resmungar, enquanto se retirava pelo mesmo caminho que havia me oferecido momentos antes. Porque afinal, uma rainha de verdade ganha até as pequenas batalhas.
Retirei o sobretudo lentamente, deixando-o em qualquer canto, caminhando por ali. Pensando na vida. As luzes escarlates eram um convite ao delírio, e uma entrega a desgraça. Uma vez aqui, você se torna vítima do próprio desejo. Talvez fosse por isso que eu gostasse daqui, deslizei a ponta dos dedos sob o sofá de couro vermelho lentamente, recordando-me dos bons momentos que eu já tive. Sorrio com os olhos, elevando-os até o bar.
Inicio meu percurso atravessando o salão com passos decididos.
Talvez eu fosse um pouco masoquista, ok, eu sou. Talvez eu fosse um pouco sádica, mas no fundo eu sabia no que eu era mesmo boa. E eu sou boa em ser má.
Uma vez minha mãe me disse para tratar bem as pessoas. Ela me disse também que, apesar do mal que elas viessem a me fazer, que eu as perdoasse. Perdão, mamãe, você não sentirá orgulho de mim hoje. Não hoje. E se eu for pro inferno? Quando forem me procurar, estarei dançando tango com o capeta. Um capeta de olhos claros.
— Ótimo. — sussurro com um sorriso devasso delineando meus lábios, olhando ao redor. Bebericando uma taça de gim e comendo uma azeitona. É a minha hora.
Então você é um cara durão? Girei os calcanhares caminhando até atrás do balcão. Um cara que gosta de pegada bruta. Voei meus olhos ao redor, nossa, que pena... Havia uma imensa opção de bebidas que iam de licores à whikys antigos, meus preferidos, constatei pegando um Balvenie de 18 anos. Dezoito longos anos. Um cara que nunca tá satisfeito. Observo o livro com certo interesse, com um sorriso de canto. A ideia era simples, dar uma despedida de solteiro que eles jamais iriam esquecer. Prestes a entornar ele na boca, pensei de novo, balançando a cabeça negativamente olhando pro vidro. Não, melhor não... Ao invés da minha boca, despejo o líquido alcoólico sob o balcão mesmo, lambuzando tudo. Sujando. Um cara que tá sempre com o peito estufado.
Olhei o relógio na parede, rapidamente, sorrindo. Até que a garrafa esvaziou.
Deixei o frasco vazio, logo indo buscar outro, observei com pena o belíssimo Chivas Royal de 21 anos, azul, esse me daria ainda mais pena... penso me abraçando ao frasco. Mas era necessário.
— Me desculpe... — pedi ao belo redondinho, suspirando com pesar. Repeti o processo. Salute, ele era Salute! E o bourbon Jack Daniel's Sinatra? Ah, cara, fala sério! Neji tinha mesmo bom gosto.
Eu sou do tipo malvada! Eu repeti o processo com algumas das bebidas ali, jogando os vidros secos em qualquer canto. O chão já estava molhado e tudo cheirava a álcool, caminhei com meu salto olhando ao redor, que belo estrago! Do tipo que deixa a sua mãe triste.
Do tipo que deixa sua namorada brava. Girei os calcanhares com as mãos na cintura, belíssimo trabalho, Mitsashi Tenten! Contemplo minha obra de arte, caminhando de costas, lentamente. O verdadeiro show ainda vai começar. Vesti meu sobretudo, puxando meus cabelos. Ficando no meio do salão. Deslizei a mão para o bolso esquerdo. Do tipo, que talvez, seduza o seu pai. Risquei o fósforo vendo a chama se acender diante dos meus olhos, soltando-a no chão inflamável. Um rastro de flama riscou o chão até o bar, e o fogo se alastrou como o próprio fogo, consumindo tudo. Apague as evidências. Não há chantagens se não há provas, faça tudo pegar fogo. Afinal, os grandes shows terminam mesmo em chamas.
Inclino a cabeça lentamente, apreciando o show tão quente. Sorrio.
Eu sou a vilã.
Assisti tudo incinerar, lentamente. A dança laranja e vermelha engolindo tudo à sua frente. Como se fosse absoluto. Invencível.
As chamas subiam sem pena, devorando. Em poucos minutos o local se tornou um cenário de horror. Tudo virava cinzas. Tudo virava nada. E eu girei o corpo, mais uma vez, com um sorriso satisfeito. Jogando os cabelos pra trás, pretensiosa. Desfilando pra fora dali.
Quem foi que disse que as vilãs não tem finais felizes? É o que veremos.
Você não sabia? Não há crimes se não há provas. Que bom que lembrei de desligar o alarme de incêndio. Mas, por favor, você acha que acabou? A melhor parte tá só começando.
Quando estiver no palco, não esqueça de sorrir. Quando estiver encenando, não se esqueça de não fraquejar. Monte o circo, e assista-o pegar fogo. Caminhei até a rua e parei pra ver o espetáculo com as mãos nos bolsos. É noite, e está frio. A fumaça escura vinda da boate começava a subir lentamente até os céus. Foi aqui que tudo começou, e era aqui que terminaria.
E eu observava um pouco fascinada com tudo aquilo. Era o meu show, meu espetáculo.
— O-o que tá acontecendo aqui? — olho por sob o ombro, vendo ela ali. Sem esboçar emoção, estudo Tamaki olhar atônita a Heaven queimar, ou que restou dela.
Viro-me lentamente para ela, sem esboçar alguma reação.
— Não devia ter vindo aqui, Tamaki. — disse-lhe, sem mudar minha expressão. Ainda com as mãos no bolso. Ela olhou pra mim, com os olhos arregalados, dividindo a visão entre mim e a boate em chamas. — É o Neji quem está procurando!? — sorrio, mostrando os dentes lentamente. Entendendo minha suposição, ela alterna os olhares mais rápido. Arregalando os olhos ainda mais, movendo a cabeça em negativa, parecendo uma louca. — Pode ir procurá-lo, só não sei se chega a tempo. — jogo a cabeça pro lado, ainda sorrindo cinicamente.
— Não! — me grita, correndo. Ouço sirenes e ambulâncias, e me viro sem pressa pra continuar apreciando o show.
Ela gritava na entrada, querendo entrar, algum tempo se passa nisso. Seu estado tornava-se cada vez mais deplorável. Penoso.
O reflexo da ex-Inuzuka era o reflexo da loucura, os policiais tentavam impedi-la de entrar naquele prédio em chamas, e eu assistia tudo quieta. Ela gritava, esperneava e chorava. Eu deveria sentir dó, como ser humano, mas eu não sinto nada, e não expresso nada também.
Observo tudo inerte, apreciando a cena em câmera lenta. Sinto vontade de sorrir, eu me sinto sádica pra caralho, gostando disso aqui. De ver o mundo acabar. E ser a causa dele, e não disseram que dessa vez o mundo acabaria em fogo? O dela sim. Era gostoso de ver, era satisfatório. As noites de sono que eu perdi por causa dessa mulher, tudo o que ela tentou fazer pra me destruir. E tudo o que ela me deu foi motivos pra mostrá-la que só há lugar pra uma vilã de verdade, e ela sou eu.
Quem diria que seria tão fácil? Tão facilzinho... eu sabia seria questão de tempo pra ela vir pra cima de mim com tudo quando soubesse que eu era a nova dona, e usaria o Neji pra isso, ela não podia me atingir diretamente, mas podia atingir ele. A falsa ideia de dar a ela o controle da situação... pra me proteger, eu sabia que ele cederia às chantagens dela e terminaria comigo. Porém seus planos foram de água abaixo quando uma suposta notícia estampou as revistas de fofocas, e ela aparecer aqui só provava isso.
Ela olhava tudo pegar fogo, caída no chão como se o rumo da sua vida não existisse mais. E eu aproximei-me, lentamente. Despretensiosa.
— Você tinha razão em me odiar. — sussurro, quase sem som, ela ergue os olhos vermelhos pra mim, e ao assistir a forma que eu sorria, surta. Tamaki veio pra cima de mim com tudo, num acesso de fúria incontida, tentando me bater... e eu usava os braços pra me defender como podia.
— EU VOU TE MATAR, MALDITA. — gritava, ensandecida.
Seus olhos afloravam o ódio mortal que sentia, a forma como me atacava, como um animal selvagem. Os guardas tentavam arranca-la de cima de mim, enquanto ela se debatia. Jurando os céus que acabaria com a minha vida. Eu respiro pesado, sentindo alguém me ajudar a levantar. Nervosa.
— Você está bem? — pergunta-me o policial. Eu assinto, demonstrando confusão. Meus olhos miravam perdidos o cenário ao redor, como se eu não soubesse o que havia me atingido.
— ELA MATOU ELE... ELA MATOU O NEJI!! — gritava, aos quatro ventos, apontando na minha direção. — EU VOU TE MATAR! — jurava, e eu abracei meu próprio corpo, respirando pesado. Olhando horrorizada em sua direção. Isso, finja.
— O que ela diz é verdade!? — questiona-me o homem, apontando pra ex-Inuzuka louca. Seu tom é repreensivo, acusativo, prestes a levar-me como culpada. E eu abraço-me ainda mais, encolhendo-me, balançando a cabeça em negativa. Você faz melhor que isso, Tenten... Lembro-me dos meus momentos com Neji, lembro-me do nosso término, e meus olhos se enchem de lágrimas.
— Não... — eu sussurro, espantada. Baixinho. Continue. — Ela... veio pra cima de mim... — uma lágrima escorreu do meu olho esquerdo, olhei pro céu, balançando a mão como se ardesse... e puxava o ar com força para os pulmões, respirando pesado pela boca. Sim, encene.
— MENTIROSA! — ouço seu grito e pulo, assustada, olhando em sua direção. Encolho-me um pouco mais, demonstrando medo ou pavor. Você é a estrela principal dessa peça. — FINGIDA... ELA MATOU MEU NEJI!! E EU VOU MATAR ELA... — ameaça-me, de novo. E eu olho pro chão, comprimindo os lábios numa linha fina, engolindo seco. Não pare.
— Não tinha ninguém lá dentro!! — apontei, defendendo-me, praticamente gritando pro policial. As lágrimas vinham sem esforços, e desciam pela meu rosto. Até meus lábios tremiam, minhas mãos... Que boa atriz, Mitsashi. — Eu vim pra organizar uma despedida de solteiro e então tudo começou a pegar fogo e... — eu gesticulava, fingindo me falta a fala e o ar. Difícil respirar.
— MENTIROSA! ASSASSINA! — fechei os olhos, expulsando as demais lágrimas daqui. Abrindo-os na direção do homem fardado e indeciso:
— Por favor, seu guarda... me prende! — suplico. — Me leva pra delegacia... mas me tira daqui... — eu seguro a farda do homem, implorando, olhando aterrorizada para a sujeita em um acesso de fúria a alguns metros. Como se temesse que ela realmente cumprisse suas promessas. Tremia os braços, segurando o do homem. Ele estava visivelmente perdido também, e apesar do meu estado, ele não poderia ignorar um assassinato, não é? Era a função dele me levar como acusada, afinal. Até que se prove o contrário. Risos.
— Tudo bem... me acompanhe por favor. — falou, parecia se sentir culpado. Assenti, desesperada.
Quando o guarda se virou, eu olhei pra Tamaki passando a língua no canto da boca, onde a lágrima escorria. Piscando pra ela.
— É MENTIRA, OLHA PRA ELA!! — Tamaki já estava vermelha de tanto gritar, algemada a porta de uma das viaturas, eu quis rir mais, eu quis rir muito. Ela continuava a exclamar a plenos pulmões. Olhei pro guarda, antes que este olhasse pra mim, minhas orbes castanhos encaravam o fundo dos olhos do homem. Engoli em seco lentamente, assustada, perdida. Meu cenho franzido:
— Por favor... eu só quero sair daqui. — implorei-o, mais uma vez, num fio de voz. Demonstrando fraqueza. Eu vi pena em seus olhos, e uma certa culpa por levar alguém inocente.
Aja como um anjo, fale como um anjo, mas seja um demônio disfarçado. Não relutei em acompanhá-lo até a viatura, ainda encolhida, bancando a inocente. Tamaki ainda jurava aos céus que eu morreria, ela era o retrato da insanidade, e definhava. Já não era mais algo humano.
Quando tudo para, congela, quando ouço sua voz:
— TENTEN! — foi o grito mais desesperado, angustiante e necessitado que eu já ouvi na minha vida.
Olhei pra trás num rompante, perplexa ao assistir o Hyuuga sair do carro com os olhos expressivos pra mim, seu estado não era muito melhor que o meu. Neji, sibilo, de forma quase inaudível. E eu já não sabia se ainda estava fingindo, porque o que eu sentia era muito real. O que eu senti foi real. Ele não se importou em bater à porta do seu carro e correr na minha direção, nem me agarrar como se sua vida dependesse disso. Mal me deixando respirar.
— Graças a Deus... você tá viva. — sussurrou, me apertando tão forte e tão pra junto de si que parecia querer me guardar dentro dele. Sinto seu calor, seu cheiro e seu abraço, tudo quebrando dentro de mim. É ele, ele tá mesmo aqui. Meu Deus... agora, então, minhas lágrimas são genuínas.
Suas mãos tremiam, sua respiração era pesada. Sinto o cheiro de seu perfume ridiculamente caro, sinto meu peito acelerar demais e me sinto fraca. Sinto minhas pernas fracas, como se eu não pudesse mais me manter de pé, embora ele me segurasse. Ele não me solta, e pela forma que o fazia, parecia não querer fazer isso nunca. Sussurrando que estava com medo, que nunca se perdoaria se eu me machucasse, beijando minha testa, me abraçando enquanto chorava. Ele chorava...
Eu o ouvia chorar, meu Deus... eu ouvia Neji chorar... um choro baixo e sofrido, como se houvesse passado por um grande susto. O maior de sua vida. E estava gelado também.
— Você é Neji? — o mesmo guarda que ia me prender, questiona. Mas eu não olho em sua direção, eu só quero ficar ali, pra sempre. Aninhada nos braços dele.
— Sim, sou. Por quê? — indaga. Eu não sei o que o outro responde. Porque eu não olho. Eu só fico nos braços dele. Só ali, onde eu me sentia segura. Mas ouço o policial se afastar.
— A senhora está presa por ameaça, difamação e tentativa de assassinato. — ela estava de volta, minha vadia interior. Sentindo o mesmo vigor de antes voltar à tona, e aquele sabor na boca que não era doce e nem amargo, mas era delicioso. E só se sentia uma vez. O sabor da vitória.
Girei meu rosto lentamente, com um sorriso pintando minha boca, pra assistir a ex-Inuzuka ser levada algemada pelos dois policiais. Meus olhos se encontraram aos seus, e eu sorri, devagar, saboreando o momento, deitando a cabeça do peito do meu homem. Contemplando, de camarote e em câmera lenta, a loucura interior explodir. Contorcendo-se com a derrota.
Acabou, eu venci.
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