O preço de uma dívida
28 Winds of change
Notas iniciais
“...The future’s in the air;
I can feel it everywhere;
Blowing with the wind of change;
Take me;
To the magic of the moment on a glory night;
Where the children of tomorrow dream away;
In the wind of change….”
Wind Of Change
Scorpions
Residência Merlyn (terça, 5/10 — 17:26 p.m)
Narrador
—Então, vosso avô veio para Starling com o intuito de te libertar? — Caitlin pergunta, encarando o marido, o rosto ainda vermelho devido as carícias trocadas minutos atrás.
—Foi o que deu-me entender — confirma Thomas, apoiando-se em um braço, a mão livre acariciando o braço da esposa.
Permaneciam deitados, ela de barriga para cima, ele lateralmente, cotovelo sobre o colchão, cabeça apoiada a mão espalmada, sorridente.
—E vosso pai ainda não sabe, correto? — questiona ela, mordendo o lábio, pensativa, ante a confirmação dele — Pensas que reagirá bem, mesmo tratando-se de boas novas? — inquere — Porque deram-me entender não terem um bom relacionamento mesmo após tantos anos de distância — completa.
—Quero crer que não, embora tema que sim — Tommy responde, suspirando, enroscando os dedos no trançado frontal do vestido da esposa — E espero ardentemente que possam superar as diferenças entre eles já que meus avós estão mudando-se para a cidade — declara, soltando o laço.
—De fato será bem melhor para todos deem-se bem...O que está fazendo Thomas?? — questiona-o ao percebê-lo afrouxando as fitas de seu vestido.
—Que pensas que faço? — devolve, sorrindo de maneira sugestiva enquanto continua afrouxar o colete sobreposto ao vestido.
— Penso… que talvez devamos aguardar a noite cair… vossos avós…. minhas sogra… qualquer deles…. hão de sentir nossa falta e procurar-nos — tenta argumentar, pulso e respiração acelerando-se na medida em que o sente afastar o colete, fazendo-a erguer o tronco instintivamente, o ajudando na tarefa de despir a peça em tom verde escuro como a saia que compunha sua veste — Thomas….
—Caso dêem por nossa falta, decerto não irão entrar em nosso quarto sem aviso prévio — o moreno argumenta, inclinando-se até beijar-lhe o colo, sorrindo ao escutá-la suspirar — Além do que, meu avô manterá a todos ocupados contando-lhes como venceu o facínora do Chase em seu próprio território — sopra contra a pele alva, arrepiando-a, a mão deslizando pela lateral do corpo da esposa, erguendo lhe a saia lentamente.
—Ao menos… deixe-me banhar-me. Estou suada e pegajosa da arrumação — Cait diz, retendo o ar ao sentir a mão dele insinuando-se sob sua saia, apertando-lhe a coxa — Thomas! — o nome do marido escapa por seus lábios em um sussurro rouco que o incita prosseguir.
—Para que banhar-se se iremos suar? — indaga, insinuando a mão por sob o tecido da blusa, fazendo-o deslizar, cobrindo de beijos cada centímetro de pele revelada — E como afirmei-te a pouco, amo teu cheiro natural e estás linda descabelada!! — reitera, arrancando gemidos ao descobrir-lhe o seio esquerdo, abocanhando-o com avidez, a língua brincando com o bico rijo.
—Thomas… eu.... por favor!! — Cait arfa, as mãos buscando o marido, enroscando-se em seus cabelos enquanto arqueia o corpo em um pedido mudo por mais carícias.
Com agilidade e rapidez, interrompendo temporariamente o contato, Tommy despe a própria camisa, dando atenção o outro seio ao retornar para junto da esposa, sugando e mordiscando a pele sensível que logo avermelha-se ante o contato da barba por fazer e o raspar dos dentes, Cait puxando-lhe os cabelos com força, obrigando-o erguer o rosto para que pudesse tomar-lhe a boca em um beijo sôfrego, aumentando a excitação de ambos, tornando as roupas um empecilho indesejado do qual ajudam-se livrar mutuamente, Cait enrubescendo ao olhar, pela primeira vez, de forma mais direta e demorada, a masculinidade de seu marido, magnificamente ereta, quando este sobe na cama após despi-la.
Delicadamente, Tommy encaixa-se entre as pernas de Cait, sustentando-se nos próprios braços a fim de não pesar sobre ela, penetrando-a devagar, respeitando o ritmo dela, cadenciando seus movimentos, amando-a sem pressa.
Mergulhados um no outro, entre gemidos, sussurros de amor eterno e beijos, não percebem a porta ser aberta, a mulher alta estancando, estupefata ante a cena, girando nos calcanhares, deixando o cômodo da mesma forma como entrou: sem ser notada.
Ainda sob o efeito do choque, Elizabeth Merlyn adentra a cozinha, tomando para si o copo com água que o marido acabara de receber da governanta, sorvendo o líquido em gole único, abanando-se ao término, o vermelho a tingir-lhe o rosto afogueado.
—Algum problema minha querida? — Richard pergunta, observando-a de sobrancelha erguida, mantendo a mão que segurava o copo na mesma posição.
—Parece-me um tanto quanto afogueada minha sogra. Deseja que mande preparar-lhe um banho? Em comparação com o clima de Londres, Starling pode ser bastante sufocante nos primeiros dias — Rebecca oferece, preocupado.
—Meu estado nada tem a ver com o clima da cidade, embora reconheça ser, de fato, bastante úmido aqui — declara ela, agradecendo com um gesto de cabeça o leque entregue-lhe por Annette, abanando-se com mais vigor.
—O que incomoda minha bela esposa, então? — Richard quer saber, apoiando-se a mesa, olhando-a com expressão divertida, como a antecipar o que a esposa diria a seguir.
—Não é que seja exatamente um incômodo já que somos nós as visitas e esta, por hora, tecnicamente, a casa deles, mas seria aconselhável, não, seria prudente pedir a nosso neto ao menos trancar à chave a porta de seu quarto quando resolver procurar a esposa bem no meio da tarde!!! — dispara de um fôlego só, abrindo a boca, estupefata, usando o leque fechado para bater no marido o qual ria-se até às lágrimas ao dar-se conta o significado da reclamação feita pela esposa — Richard Merlyn, não ria de mim!! — ordena, continuando a bater-lhe enquanto as aias abaixavam a cabeça, espremendo os lábios a fim de evitarem fazer o mesmo que ele.
—Perdoe-me, minha amada senhora, mas há de convir que, caso tenha acontecido o que presumi ante vossa queixa, a culpa terá sido mais sua do que do jovem casal! — diz, ainda a rir-se, circulando a mesa, pondo-a entre eles, evitando continuar apanhando -Estão, como acabas de afirmar, em casa. Nem sempre é possível conter os arroubos da juventude, especialmente quando se está apaixonado — acrescenta, piscando.
—Não estou dizendo o contrário, senhor meu marido. Apenas comentei ser recomendável uma porta fechada ainda mais quando se há crianças curiosas por perto — reitera Elizabeth.
—Ou avós que esquecem-se de anunciar sua presença antes de adentrar o quarto do casal! — a provoca Richard, recebendo o olhar duro em resposta.
—Não esqueci-me anunciar — defende-se ela, abrindo o leque com um movimento preciso e gracioso — Só não fiz-me ouvir, somente isto — acresce, erguendo o queixo, altiva — E deveriam fazer essas coisas sob e não sobre os lençóis! Onde já se viu ficarem nus em pêlo em plena luz do dia!!! — reclama, corando fortemente.
—Nus? Eles estavam...n-nus? — Rebecca engasga-se, o rosto em brasa ante a confirmação — Perdoe-me por isso minha sogra. Chamarei atenção a Thomas e minha nora para que não se repita — avisa, voltando-se ao escutar a voz do marido.
—Thomas não repetir o que, minha esposa? Que nosso filho inquieto aprontou e como chegou em casa tão cedo? Acaso Chase está doente ou foi acometido por algum tipo de bondade repentina? — Malcolm questiona, parando junto a esposa.
—Meu neto e sua bela esposa aproveitaram este lindo e aprazível final de tarde para esmerarem-se em providenciar-nos bisnetos e sua mãe, inadvertidamente, invadiu o quarto, pegando-os no flagra — Richard adianta-se responder-lhe, rindo de lado.
—Não invadi coisa nenhuma!! — Elizabeth volta defender-se, assustando a governanta ao tomar-lhe a cebola que fatiava, atirando-a contra o marido — Fui ter com eles para saber se Thomas havia-se agradado da arrumação, dos cobertores e demais objetos de decoração posto estar pensando em encomendar mais alguns a senhora Frommer. E por falar nisso, onde está o enxoval de sua nora? — inquere repentinamente, voltando-se para Rebecca — Nada vi enquanto ajudava-a na arrumação. Nem fronhas e lençóis, toalhas, colchas, nada que remeta um enxoval à espera de bordar-se as iniciais do casal, como de praxe. Além de que, para uma jovem filha do gerente do único banco da cidade, Caitlin possui um guarda roupas bem minguado. Tão poucos vestidos de festa! E mesmo os de uso diário são muito simples — observa — Também não a vejo usando joias além da aliança de casamento e aquele colar. Nenhum anel, tiara, brincos...E onde estão seus perfumes, maquiagem??? — acrescenta, curiosa, as aias e a senhora Stone trocando olhares apreensivos.
—Impressão minha ou, como dizem, o ar ficou mais denso repentinamente? — Richard indaga após alguns minutos aonde ninguém diz nada — Que há por detrás desta escassez de bens pessoais de vossa nora Malcolm? — interroga, apoiando-se a mesa, estreitando os olhos ao encará-lo, o empresário tomando forte respiração antes de voltar falar.
—O que, exatamente, este vosso amigo contou-lhe a respeito do casamento de Thomas? — quer saber, sustentando seu olhar.
—Que havia-se realizado por conta de Thomas ter-se deitado com a menina enquanto estavam desaparecidos, que antes disso Snow o mantinha preso, por assim dizer, a um tipo de servidão em pagamento de dívidas contraídas e não pagas por você e que a mãe da menina opôs-se ao casamento mesmo este sendo para reparar a honra da filha — conta.
—O que demonstra quão rancorosa uma mulher pode ser — Elizabeth comenta, sentando-se — Preferir ter a honra de uma filha maculada a entregá-la em casamento àquele que a maculou por tratar-se do filho de alguém por quem nutre raiva é inaceitável! — acrescenta, voltando-se para Adissa ao escutá-la falar.
—O que a senhora fez a minha senhora Caitlin não foi apenas inaceitável. Foi desumano, frio e cruel….- diz, emocionada, secando uma lágrima discreta — Perdoem-me a intromissão, mas ainda revolta-me a forma como minha senhora foi tratada pela mãe! — justifica-se
—Destratada, quer dizer — corrige-a Rebecca, trincando os dentes e cerrando os punhos — Ainda mais levando-se em consideração ser sua mais nova. O que Carla fez foi indescritível a uma mãe fazer. Jamais o faria a uma de minhas meninas — assegura.
—Devo entender que há algo mais do que me foi levado a conhecimento, então — Richard diz, arqueando a sobrancelha.
—Bem mais — Malcolm confirma, sinalizando a ele sentar-se, ele próprio o fazendo, passando a narrar aos pais os fatos que culminaram com o casamento de Thomas e Caitlin, incluindo, após recomendar as aias e a senhora Stone o teor daquela conversa jamais sair daquelas paredes, as descobertas recentes feitas por ele e Rebecca, deixando até mesmo a senhora Stone, mulher experiente e vivida, de boca aberta — Tão logo descobrimos a verdade, fiz questão chamar Dominique a um particular comigo e Thomas, tornando-o ciente da mentira pregada por nossos filhos, deixando-o livre para contar a esposa bem como exigir qualquer reparação que considerasse devemos-lhe — conclui o empresário.
—Bem, isto explica o fogo do casal! Estão em lua de mel ainda!! — Richard diz, surpreendentemente bem humorado.
—Meu marido está, por um acaso, achando louvável a atitude de nosso neto e sua jovem esposa?? — Elizabeth inquere, não o deixando responder — Devo lembrá-lo que outras consequências tal mentira poderia ter gerado, como por exemplo, Thomas ser morto caso Snow ou qualquer dos pretendentes decidisse lavar a honra da menina com sangue? Sem mencionar que os pais poderiam decidir enviar a menina a um convento, prendendo-a por lá, ou ao estrangeiro, ou qualquer outro gesto tresloucado que se toma em um momento de rai…- cala-se, voltando-se ligeiro para Adissa — O que ela fez? — pergunta, encarando a jovem, essa abaixando a cabeça — Não abaixe a cabeça menina! Olhe-me nos olhos e responda-me: que fez Carla Snow a filha? — reinquere.
—Arrastou-me pelas ruas, atirando-me à porta da senhora Smoak — ouvem, os presentes voltando-se, deparando-se com Tommy e Cait — Isto após haver-me obrigado rejeitar Thomas publicamente, ameaçando contar a meu pai não ser mais pura e fazê-lo exigir que o prendesse ou pior — continua a jovem, levando uma mão ao peito — Na época, julgava ter-mos, meu marido e eu, nos deitado de fato, as manchas de sangue em minhas vestes reforçando a mim este pensamento, o mesmo ocorrendo a minha mãe — revela.
—Mas eu pensei...Malcolm nos contou que não haviam deitado-se, maritalmente falando, até poucos dias atrás — Elizabeth comenta, confusa.
—É verdade — Cait confirma, corando fortemente — Confundi o início de minhas regras como tendo-me entregue a Thomas e minha mãe cometeu o mesmo erro, fazendo uso de meu amor e temor por algo de grave acontecer a Thomas para afastar-me dele — reconhece, abaixando o olhar, envergonhada.
—Havíamos ido um pouco além dos beijos e Cait entendeu erroneamente a situação. Permiti que continuasse pensar assim após nosso regresso — Tommy assume, beijando a mão da esposa carinhosamente — Aproveitei-me de sua inocência para confundi-la, fazendo-a crer tê-la tomado para mim, mas não o fiz — confessa, rindo sem vontade — Não era minha intenção enganar ninguém, especialmente ela, mas vi-me sem escolha — diz, evitando olhar os avós diretamente — Sei que deveria envergonhar-me de meus atos…
—Mas não é o que sente — Richard antecipa-se, olhando-os sério — Então vossa mãe pensou ter-se perdido e expulsou-a de casa largando-a a porta dessa tal senhora Smoak...E depois? Que passou-se? Porque, a julgar pela mágoa contida em vossa voz, prevejo que não foi apenas isto a acontecer. E aonde estava vosso pai? Ele concordou com tal atitude? — interroga.
—E qual o mal em tê-la largado a porta dessa senhora Smoak? A meu ver ela foi mais sensata que vossa mãe!! — Elizabeth opina.
—Mama foi e é maravilhosa — Cait elogia, ficando vermelha — Não que minha sogra não tenha sido igualmente…
—Mas ela a acolheu e protegeu, no que serei eternamente grata — Rebecca diz, voltando-se para a sogra — A casa de madame Smoak é…
—O prostíbulo local? — antecipa-se Richard mais uma vez, Elizabeth abrindo a boca, espantada, ante a confirmação.
—Vossa mãe levou-te ao prostíbulo? Preferia ver-te tornar uma dama da vida a casar-te com meu neto? — intui, Cait acenando afirmativamente — Carla é mais louca que pensei!!! Graças não cometemos o erro em aceitá-la como pretendente a nosso filho! — deixa escapar.
—Como é?? Pretendiam fazer-me casar com ela? — Malcolm inquere, surpreso.
—Os Donahue eram uma família conceituada, ela parecia uma jovem educada e promissora e seria um bom arranjo para ambos os lados — Richard simplifica — Outros tempos, outros interesses. Por sorte conhecestes Rebecca e tudo acertou-se, mesmo com a falência de sua família, minha nora — relembra — Então fostes arrastada até a casa de tolerância e lá ficastes por quanto tempo? — quer saber.
—Algumas horas, a princípio. Alguns dias após termos confessado a Monsenhor…
—Após Eu confessar a Monsenhor haver mentido perante todos, inclusive a ti ! — Tommy a corrige.
—Deixe-me ver se entendi: difamastes uma jovem perante toda uma cidade, mentistes a todos, inclusive vossos pais, colocastes tua vida em perigo e expusestes a jovem que amas ser confundida com uma rameira… nada contra posto prestarem um serviço a comunidade — divaga, encolhendo-se ante o beliscão aplicado pela esposa — O ponto é: te expusestes e àqueles que amas diante de toda uma comunidade. Por mais que reconheça haver uma justificativa válida por detrás, fostes deveras imprudente. E irresponsável — conclui.
—Agora entendo um pouco a reação de algumas pessoas a nossa passagem — Elizabeth pondera — Julgam-te uma perdida, mesmo o suposto mal tendo sido reparado. Como podes aceitar conviver com tamanha alcunha? — indaga, olhando diretamente para Cait, que sorri pequeno.
—Amo a Thomas e ele a mim. Nos confessamos antes de casarmos e mesmo sem ter conhecimento da verdade, meu pai abençoou-nos — lembra — Agora que meus sogros, meu pai e irmã do meio, o senhor e a senhora e também alguns próximos, de confiança, já conhecem a verdade, o que os demais pensam não me importa — enumera, enlaçando seu braço ao do marido.
—Em algum momento, no futuro, pretendo pôr as coisas às claras perante os cidadãos não por medo ou qualquer outro sentimento, mas por minha esposa merecer ser tratada com respeito, embora ninguém atreva-se destratá-la quando em minha companhia — Tommy afirma, olhando-a carinhosamente — Espero que possam-me perdoar as bobagens que fiz — diz, erguendo o olhar para os avós
—A pessoa mais interessada já te perdoou. Quem somos para negar-te perdão? — Richard declara com um sorriso discreto.
—Uma coisa ainda não entendi — Elizabeth diz — Em quê isto contribuiu para não teres teu enxoval? Ou teus pertences particulares? Acaso vossa mãe negou-se devolver-te? — quer saber, curiosa.
—Pior: quebrou e ateou fogo a tudo!! — Rebecca revela, deixando a sogra estupefata — O pouco que vistes foi salvo pela senhorita Olivia, irmã do meio de minha nora, e por Adissa, sua aia na ocasião — indica a jovem — O que escapou à fúria da senhora Snow foi trazido, às escondidas, por esta jovem e corajosa senhorita que hoje nos serve — elogia, deixando a garota sem graça.
—Hummm…- Elizabeth murmurou, encarando o marido — E era esta flor de delicadeza que pretendias nos dar como nora!!! — exclama.
—Não volte remoer este assunto, Liz! Outros tempos. Outros pensamentos. Tudo se resolveu a contento — Richard argumenta.
—Não graças ao senhor, meu marido! — rebate ela, o estapeando — Eu disse, desde o começo, que ela não era boa peça! — insiste, voltando-se para Caitlin — Perdoe-me minha querida, mas vossa mãe nunca me enganou! — pede — Desde que pus os olhos nela, percebi não ser o que pretendia aparentar, embora jamais, nem mesmo em meus mais temerosos anseios, julguei que seria capaz de tamanha maldade com a própria filha — admite.
—Como nunca soube a respeito deste quase compromisso com Carla Snow? — Malcolm pergunta, cruzando os braços a frente do peito.
—Era Donahue na época e cheguei a falar-te a respeito dela, mas descartastes a idéia com veemência — Richard o corrige — E ela e os pais foram jantar em casa uma vez — relembra.
—Sério? Não recordo-me — diz o empresário, enrugando o cenho — A lembrança que tenho dela foi quando me fez Dom e eu discutirmos, não sei bem por qual motivo. Dali em diante fomos nos afastando cada vez mais ao ponto de pararmos de nos falar — relembra, sacudindo a cabeça negativamente — Não entendo. Juro que não entendo.
—Não há o que entender: tentamos firmar compromisso entre ti e ela. A rejeitastes. Pouco tempo depois noivastes e casastes com minha nora. Evidente que ela julgou ter sido preterida e enfureceu-se — Elizabeth deduz — Novamente não entenda-me mal, mas vossa mãe achava-se superior às demais jovens. Nenhum pretendente era bom o suficiente e o único que julgou ser, não a quis!
—Tal mãe, tal filha! — Adissa exclama, não tão baixo quanto gostaria, abaixando a vista, encabulada quando Cait se volta para ela — Perdão senhora — pede.
—Nada há a perdoar. Minha mãe sempre fez questão dizer ser Ivy a filha mais parecida com ela...e sua predileta — diz, entristecida.
—Nisso dou graças por meu neto ter sabido escolher justamente uma das filhas que em nada parece-se com a mãe — Richard declara, vencendo a curta distância entre ele e o jovem casal, tomando-a de surpresa ao beijar-lhe a mão — Não fique triste criança. Vossa mãe arrepender-se-á tê-la tratado tão mal e neste dia espero, honestamente, estar por perto para ver-lhe a expressão arrependida! — exclama, piscando, sorrindo ao vê-la ficar sem graça — E quanto ao senhor, trate de fazer esta jovem feliz — diz, dando atenção a Thomas.
—É exatamente esta minha intenção meu avô — assegura, olhando a esposa, enlevado.
—Ótimo -Richard diz, aproximando-se mais — E fechem a porta a chave...por segurança! — cochicha, deixando ambos boquiabertos.
—Eu...eher...fecharei sim senhor — tranquiliza-o, coçando a nuca.
—Excelente! Agora que tudo está em seus devidos lugares, podemos nos aprontar para a janta. Desbancar Chase abriu meu apetite! — Richard declara, esfregando as mãos.
—Como?? -Malcolm pergunta, surpreso.
—Mais tarde meu marido — Rebecca apressa-se intervir — Mais tarde, após a refeição, falaremos sobre isto. Agora, aprontemo-nos que a janta já esfria!! — apressa-os.
—Minha sogra pode ir aprontar-se. Providenciarei que a mesa seja posta como de vosso agrado — Cait se oferece.
—Grata minha nora — Rebecca agradece, segurando o braço do marido — Vamos meu marido? — convida, um reticente Malcolm acompanhando-a, Richard e Elizabeth seguindo-os de perto.
—Sinto-me melhor agora que …. Ai, ai!! Por que me bate, Cait? — Tommy pergunta, encolhendo-se ao receber mais tapas dela.
—Por que achas Thomas? — devolve ela, continuando a bater-lhe — Bem que tentei te alertar para a porta!! -exclama, ficando brava ao vê-lo rir — Não ria Thomas. Não tem graça — resmunga, ele conseguindo retê-la, prendendo-a em seus braços.
—Perdoe-me minha amada. Tal erro não se repetirá — garante, beijando-lhe o pescoço.
—Thomas, comporte-se!! — ralha, o estapeando novamente — Solte-me. Devo preparar a mesa como prometi a vossa mãe.
—Não por isso jovem senhora. Adissa e eu podemos dar conta de tudo — a senhora Stone diz, sorridente — Vão. Namorem a vontade! — libera, gesticulando a eles saírem do cômodo.
—Obrigado minha boa Judith — Tommy agradece, piscando enquanto puxa a esposa consigo.
—Thomas, a janta...não podemos nos atrasar!! — contesta, tentando não rir
—Não iremos — tranquiliza-a — Ao menos não muito — corrige-se, rindo de forma travessa ao atravessarem a sala em direção ao quarto, trancando a porta após entrarem.
…………………………
Banco de Starling (sexta, 15/10 — 16:00 p.m)
Tommy
Organizo a papelada, organizando nas pastas de couro conforme Stephen me instruíra nos dias anteriores. Meu serviço no banco era relativamente fácil e tranquilo, infinitamente menos cansativo do que tudo que fizera em meus meses de servidão a meu sogro e Adrian Chase.
Digo isto porque, se fisicamente não sou exigido, minha mente, meu cérebro, deve estar em constante alerta para não cometer nenhum erro, tipo misturar informações de clientes, o que acarretaria em aborrecimentos com toda certeza. Logo, devo vigiar-me pois, admito, concentração nunca foi meu ponto forte. Sempre fui, e assim ainda me considero, bastante disperso no que refere-se a tarefas que exijam atenção. Além do mais, os meses de serviço pesado renderam-me não apenas músculos, mas uma fadiga física até então desconhecida.
Desde o dia seguinte ao último em que servi a Chase, venho sentindo um sono crescente, dificultando-me inclusive os momentos de intimidade com minha esposa. E dores. Muitas dores em músculos que sequer sabia ter. E mesmo minha mãe e avó dizendo tratar-se de uma situação passageira (segundo ambas, essa fadiga estava a acontecer como um reflexo por meu corpo relaxar dos esforços aos quais havia sido obrigado nos últimos meses) e de Caitlin não queixar-se, começava sentir-me mal em não cumprir meus deveres de marido de forma satisfatória.
Suspiro, recostando-me ao espaldar da cadeira, afagando a cabeça peluda de guardião, olhando o tempo lá fora. Ele tem-me acompanhado quase que diariamente. No começo, os demais empregados do banco ficaram temerosos, mas logo se habituaram a sua presença, muito embora ele passasse todo o tempo comigo e como eu passo grande parte do tempo em minha salinha, sua circulação é restrita. Ainda assim, eu pequeno protetor ganhará admiradores entre meus colegas, Stephen sendo o maior deles.
—Thomas, posso entrar? — ouço, saindo do devaneio, divisando o rosto jovial de meu patrão no vão da porta entreaberta.
—Claro — respondo de imediato, empertigando-me — Acabei a pouco de separar e embalar a papelada do dia, pondo-as cada qual em sua devida pasta e….
—Não vim aqui cobrar-te ou verificar se estás a fazer teu serviço. Sei que fazes muito — Stephen corta-me, adentrando e recostando-se à mesa — O motivo a trazer-me aqui é outro — diz, silenciando, remexendo meu material de trabalho como a ganhar tempo enquanto escolhia as palavras, o que me deixa tenso.
Conforme ambos prevíramos, Chase não tardou em saber de minha presença no banco e embora não tenha feito estardalhaço, deixou claro a Stephen e seu pai não retirar suas contas, pessoal e do mercado, por não haver outro banco na cidade e não estar disposto deslocar-se a vizinha Central cada vez que precisasse depositar ou sacar dinheiro. Também como haviam dito, nenhum dos dois, pai e filho, deram-lhe maior atenção além da esperada a um cliente que faz uma queixa. Mesmo assim, o sentimento de insegurança perseguia-me e atormentava-me vez ou outra.
—Algo o incomoda senhor Stephen? — questiono ante seu silêncio persistente, rezando intimamente ouvir um Não em resposta. Acabei de adquirir, dois dias atrás, um bom terreno nos arredores da cidade aonde pretendo construir nossa casa e mesmo tendo-nos restado uma quantia substancial após o pagamento, perder o emprego no banco não estava em meus planos.
—Por favor, nada de senhor entre nós. O considero meu amigo e espero também me considere assim — ele pede, novamente parecendo escolher as palavras, tomando respiração antes de finalmente revelar o motivo a trazer-lhe aqui — Thomas…. Que faço para convencer Adissa de minha intenção para com ela ser sincera? — pergunta, me encarando — Mandei-lhe flores. Recusou. Tentei presenteá-la com um corte de tecido quando encontrei-a acompanhando vossa esposa noutro dia e igualmente recusou-se aceitar....Não sei que mais posso fazer sem tornar-me inconveniente. Sei que teve experiências desagradáveis em outros tempos, mas é injusto julgar-me por erros de outrem — reclama.
—Concordo com o que dizes, mas confesso-te não saber o que aconselhar-te quando eu mesmo meti os pés pelas mãos com minha Cait — admito, coçando a barba (a qual, aliás, precisava fazer) refletindo um segundo — Tenho para mim que Adissa sabe de tua sinceridade e mesmo dar-te crédito, porém é insegura devido não apenas mágoas passadas, mas a diferença social existente entre tu e ela — suponho.
—Não importo-me quanto a isto. Nem meu pai — ele afirma — E mesmo que ele desse, o enfrentaria — assegura e rio por enxergar-me nele — Deve haver algo que possa fazer para convencê-la aceitar minha corte — diz, sentando-se na ponta da mesa, guardião levantando-se e o cumprimentando com uma mordida — Quem sabe você, meu amigo peludo, dar-me-á uma pista do que fazer para a dama aceitar-me!! — brinca, afagando-o e rio, encarando-o por um segundo.
—Façamos o seguinte: pedirei ajuda a Cait tão logo chegue em casa e para não deixar-te ansioso todo o final de semana, vamos nos encontrar mais tarde, por volta das vinte e uma horas, no bar, que me diz? — sugiro.
—Acho uma excelente idéia, mas crês que vossa esposa te dirá algo que não saibamos? — questiona, receoso — Ou mesmo que dê-me crédito?
—Cait a conhece desde muito cedo, ao que sei, portanto poderá ajudar e quanto a dar-te crédito, bem, nisto eu posso interceder junto a ela — prontifico-me — Queres Adissa realmente para ti, não é? Como esposa e não como um passatempo ou por estares entediado com a passividade de cidade pequena — interrogo.
—Quando quero divertir-me ou satisfazer meus desejos, sei bem aonde ir Thomas — diz, rindo de canto de boca — Apaixonei-me por Adissa desde o primeiro momento em que a vi descer a escada ao lado de sua Caitlin. Naquela noite ela capturou meu coração — confessa, o brilho em seu olhar me transmitindo confiança.
—Certo. Terei com Cait assim que chegar e então …
—Neste caso melhor ires andando. Assim ganharás tempo — me interrompe, juntando as pastas sobre minha mesa, formando uma pilha.
—Stephen, faltam-me meia hora de expediente ainda. Que o senhor Crumble dirá caso chegue-lhe aos ouvidos que ando deixando meu local de trabalho antes do horário? — inquiro, sério.
—Nada posto ser eu a mandar-te ir e já teres cumprido teus afazeres de hoje — afirma, sinalizando a mim levantar-me, estancando de repente — Cumpristes, não foi? — questiona.
—Sim, mas…
—Então não há problema que saias vinte minutos antes — insiste, praticamente me empurrando porta afora.
—Ao menos deixe-me guardar as pastas e trancar a gaveta — peço, fazendo com que parasse, aguardando-me pacientemente (bem, nem tanto) finalizar a tarefa — Agora podemos ir — digo, batendo em minha perna, gesto que faz guardião manter-se junto a mim.
Caminhamos pelo corredor no segundo andar (aonde minha sala se localizava), fazendo uso da saída lateral, como faço sempre que guardião está comigo para evitar assustar algum cliente retardatário.
Despeço-me de Stephen, seguindo para casa, parando para cumprimentar Eddie, Cisco e Killi, que se encontravam em frente a delegacia.
—Boas tardes meus amigos. Como estão? — pergunto, guardião pulando sobre Cisco com entusiasmo.
—Boas tardes Tommy. Bem, obrigado. Saindo mais cedo? — Eddie nota, afagando o filhote.
—Sim. Vou aconselhar-me com Cait para poder socorrer Stephen — digo, apoiando-me ao alpendre.
—O jovem Crumble, filho do dono do banco? — Killi pergunta e confirmo com um aceno — Que tipo de problema um jovem como ele tem?
—Do coração, meu amigo, do coração — Eddie diz, rindo da expressão de espanto em ambos, Cisco e Killi — Está apaixonado por uma dama e a mesma o rejeita — explica.
—Por que não a rouba? — Cisco inquere.
—Porque não costumamos roubar mulheres por aqui garoto — o delegado Lance diz, surgindo por detrás deles — Ao menos não aqueles que têm um pouco de juízo — acresce, me cumprimentando — Thomas, como está? Vossos pais e avós, como estão? — quer saber.
—Todos bem delegado. Grato por perguntar — agradeço.
—Soube que comprou o terreno vizinho ao do Queen — comenta.
— Sim senhor. Oliver indicou-me e efetuei a compra por um bom valor — confirmo — Agora só começar construir, o que pretendo fazer no final deste mês ainda, se possível — revelo.
Oliver e eu temos planos de iniciar a construção de nossas futuras residências ao mesmo tempo a fim de tentar terminar igual, assim Felicity e Cait terão a companhia uma da outra quando estivermos fora, muito embora minha esposa e a dele também tenham planos junto com algumas das garotas (Laurel e Sara com certeza).
—Muito bem filho. Quem casa quer casa, já dizia minha falecida mãe — o delegado cita, ajustando o chapéu — Nada melhor para um jovem casal do que ter seu próprio lar — acrescenta, sorrindo gentil — Vou-me indo. Se precisarem mandem chamar-me — recomenda, Eddie e Killi acenando afirmativamente — Boas tardes a todos — deseja, fazendo carinho discreto em meu lobinho ao passar por ele, rumando para casa.
—Estão de serviço hoje? — questiono, os três confirmando.
—Uhum. Nosso primeiro plantão oficial juntos — Cisco comemora, orgulhoso.
—Pena. Iria convidá-los uma rodada no bar logo mais — lamento.
—Fica para uma próxima — Eddie diz, enrugando o cenho ao olhar um ponto por cima de minha cabeça — Estranho. Pensei que a última carruagem tivesse chegado alguns minutos atrás — comenta, fazendo-me seguir seu olhar, um tipo de carroça aproximando-se devagar.
—Deve ser algum viajante solitário — suponho, voltando-me para eles — Devo ir. Quero ter com Cait antes da janta. Espero poder levar uma resposta animadora ao pobre Stephen caso contrário acredito irá considerar, de fato, roubar Adissa — brinco, eles rindo — Até mais ver.
—Até mais ver — respondem em uníssono, Killi e Eddie descendo os degraus enquanto me afasto tendo guardião alguns passos a frente.
Ainda os vejo interpelar a carroça antes de a delegacia sair de meu campo de visão.
Sigo meu caminho, retendo o riso ante alguns transeuntes desatentos assustando-se com presença de guardião comigo, uma ou outra senhora benzendo-se quando o lobinho estanca, aguardando-me para andar a meu lado.
Impossível não notar o quanto a cidade estava mudando. A cada dia mais pessoas chegavam atraídas com a promessa de prosperidade trazida pela construção do porto, que iniciaram-se essa semana com as marcações e começo das escavações. Pelo que pude ver no rascunho do projeto (o original encontrava-se de posse do engenheiro que breve chegaria a cidade), o porto de Starling seria inovador. Alguns avanços seriam testados aqui como forma de saber se funcionariam no dia a dia e somente então levados aos demais portos do país. Era quase um privilégio o prefeito Darhk haver conseguido tal proeza.
Como reflexo imediato, já podiam ser vistas várias novas construções por toda a cidade e arredores (este fora, inclusive, o principal motivo que me fizera adquirir o terreno antes que fosse vendido). Em breve contaríamos com um segundo hotel e o existente seria ampliado e os comerciantes locais, incluindo o execrável Chase, estavam atentos para atenderem às solicitações dos muitos novos clientes. Com isto, uma gama de novas mercadorias havia chegado a cidade a fim de suprir as necessidades dos novos cidadãos.
—É meu amiguinho, ventos de progresso sopram em Starling — murmuro, afagando a cabeça de guardião — Em breve não poderemos andar tão tranquilamente pelas ruas — lamento, olhando a agitação de final tarde, quando todos buscavam retornar a seus lares.
Quando atravessava a praça perto de casa, o movimento no alpendre da casa de meu sogro chama-me atenção e estanco, meu olhar dirigindo-se para lá automaticamente. Não consigo divisar quem seja, mas estou certo haver alguém a me observar da janela de baixo ( da sala, suponho), por detrás das cortinas. Estreito os olhos, não importando-me a pessoa perceber que olhava de volta, a figura sumindo segundos depois. Enrugo o cenho, retomando meu caminho, passando pelo portão de casa, dando a volta, como faço quando um dos lobos está comigo, indo direto para o quintal e de lá para a área externa da cozinha, surpreendendo-me ao encontrar Cait ali em companhia das senhoras Frommer e Stone.
—Boas tardes — cumprimento, as três erguendo seus olhares para mim.
—Boas tardes meu marido — Cait vem a meu encontro, beijando-me castamente — Chegastes um pouco mais cedo hoje. Está tudo bem? — pergunta.
—Sim. Apenas recebi a incumbência de auxiliar meu pobre patrão antes que caia de cama! — brinco, entrelaçando nossos dedos.
—O jovem senhor Stephen está doente? — a senhora Stone inquere, estranhamente alto demais e enrugo o cenho, dando atenção minha esposa ao senti-la cutucar-me as costelas
—Hã…não ...ainda não — titubeio, seguindo a indicação de Cait, vislumbrando Adissa a lavar algo na pia, junto à janela — Ainda não, mas temo em breve poderá ocorrer. Parece-me que está a estranhar o clima de nossa cidade — minto, olhando de Cait para a senhora Stone.
—Vossos avós também estranharam o clima, ao que tudo indica. A senhora Elizabeth tem reclamado bastante da garganta e nariz ressecados — nossa governanta comenta.
—Pena não ser meu avô a sentir tais efeitos. Na garganta, quero dizer. Assim o perigo de um atrito entre ele e meu pai inexistiria por um tempo- lamento, recebendo olhares de censura de ambas.
Embora a convivência entre meu pai e meu avô venha sendo pacífica, estava claro que a trégua entre eles a cada dia tornava-se mais e mais frágil. Por que? Simples: meu avô não resistia seus instintos e impulsos naturais em controlar tudo e todos a sua volta. Minha avó igualmente, infelizmente, embora em menor grau. Até mesmo minha mãe, notória por sua paciência quase infinita, andava a impacientar-se com as constantes intromissões de vovó em relação minhas irmãs. A última referia-se ao traje que as pequenas usariam em seu batismo, a acontecer domingo vindouro.
—Thomas! Não diga isso. Devemos ser gratos pela vinda providencial de seus avós, senhor meu marido. Graças ao senhor Richard ficaste livre do execrável senhor Chase sem mencionar o quanto a senhora Elizabeth tem-se dedicado às bisnetas — Cait admoesta-me, e ergo o dedo pronto a contestar, a chegada de minha avó impedindo-me falar.
—Aí está você! Veja minha querida, que linda peça a senhora Frommer confeccionou!! — vovó chama sua atenção, parecendo não notar-me, exibindo o que julgo ser uma roupinha de bebê — E como é neutro serviria a ambos, menino ou menina. Ela presenteou minha nora com algumas destas e outras igualmente lindas!! Fiquei tão apaixonada que encomendei algumas para meus bisnetinhos. Estou ficarão perfeitos neles ou nelas!! — revela, entusiasmada, não notando (ou fingindo não notar) o rubor intenso nas faces de minha esposa, que retivera o ar ao ouvi-la dizer…
—Bisnetos? Plural? — espanto-me, fazendo-a perceber minha presença.
—Thomas, chegou mais cedo? — interroga, não dando chance responder — Veja que lindo! Já imagino um menininho com seus olhos e fartos cabelos negros vestido neste mimo!!! — declara, sonhadora — Ou uma linda menininha com seus olhos, porque, claro, serão da cor dos seus, lindos cachos cor de mel que se formarão na medida em que for crescendo, ou quem sabe dois, um menino e uma menina? Por que não? Se Malcolm e Rebecca conseguiram, mesmo não estando mais no fulgor e vigor da juventude, nada impede um casal jovem e fogoso como são repetir o feito ou até superá-lo!? Imagine três lindos bebês …
—Ok, vovó, acho que já chega!! — corto suas divagações não tão polida ou educadamente quanto deveria, solidário a minha Cait, que atingira naquele momento, acredito eu, o mais alto nível de vermelho ser possível em um ser humano. Até suas orelhas estavam vermelhas! — Cait e eu não estamos com pressa. Temos muito tempo ainda, e tencionamos ir devagar. Um filho por vez — argumento, sentindo meu rosto esquentar ante sua observação seguinte.
—Sério? Porque a julgar pelo entusiasmo demonstrado por vocês diariamente, diria estarem loucos para ter Muitos bebês!! — insinua, tapando a boca com a mão, mal disfarçando o riso e sinto meu rosto e orelhas esquentarem — Mas, se está dizendo…- dá de ombros, erguendo a mão livre — De qualquer forma, nunca é cedo para se preparar o enxoval do bebê não é mesmo? — afirma, sorrindo de forma estranha — E por falar em enxoval, está mais do que na hora de corrigir o erro cometido por vossa mãe. Amanhã iremos comprar o seu — informa tranquilamente.
—Não há…
—Basta de Nãos minha querida! — minha vó a corta com firmeza — Iremos às compras amanhã e se caso não encontrarmos nada que lhe agrade iremos a cidade vizinha — decreta, voltando sua atenção a senhora Stone — Creio que Jarvis tenha avisado sobre o jantar, correto? — inquere.
—Sim senhora. Está quase tudo pronto — informa nossa governanta.
—Perfeito! Espero aplacar os ânimos entre meu marido e filho com isto. Não atravessei o oceano, deixando todo o conforto de minha casa, para estes dois voltarem se estranhar. Definitivamente isto não é uma opção! — bufa, girando nos calcanhares e retornando ao interior da casa, ainda a resmungar.
—O que minha amada esposa dizia sobre ser mal agradecido?? — questiono, ela rindo nervoso.
—Sua avó é uma força da natureza, Tommy! — declara, suspirando profundamente, encarando-me com seus belos olhos castanhos.
—E com forças da natureza há somente uma forma de lidar: adaptando-se, como fazem os bambus ante uma ventania excessivamente forte — declara, sabiamente, a senhora Stone, esticando-se — Adissa, verifique se a massa de pão já cresceu o suficiente para dar finalizarmos o preparo — pede, a aia de Cait surgindo, claramente envergonhada, a soleira da porta.
—Pois não senhora Stone — responde, hesitando um segundo, me encarando com olhos ansiosos — Perdão senhor Thomas, mas não tive como não escutar — pede, baixando e erguendo o olhar com rapidez -O jovem senhor Crumble está acamado? — quer saber.
—Não, mas tem reclamado de sentir desconfortos nos últimos dias — minto, em parte, afinal Stephen andava tão cabisbaixo que não duvido em pouco pararia de alimentar-se adequadamente. Eu o fiz durante alguns dias quando imaginava o motivo pelo qual Cait evitava-me em público — Também tenho notado que anda bastante cabisbaixo. Mas qual razão para tal me é desconhecida — acresço, esticando os lábios em uma linha fina a fim de conter o riso ao vê-la corar forte.
—Hã...decerto por causa dos desconfortos — balbucia.
—O pobre rapaz! Tão longe de casa, praticamente obrigado isolar-se de amigos e familiares e agora o clima afetando-o — a senhora Stone declara de maneira tão dramática que mesmo eu começo penalizar-me com os “desconfortos” de meu patrão.
—Devemos fazer-lhe uma visita assim que possível meu marido — Cait sugere, enlaçando seu braço ao meu — Mas agora devemos nos apressar em preparar-nos para a refeição noturna. Já havia providenciado água para nosso quarto — avisa, olhando em volta — Para onde foi guardião?
—Saiu de fininho, enquanto conversarvamos. Está lá, no galpão com a família Frommer — indico com um gesto displicente — Foi unir-se aos irmãos decerto — concluo, acariciando minha mão — Vamos meu amor. Preciso conversar contigo acerca de algumas idéias que tive para nosso futuro lar, entre outros assuntos — digo, atiçando sua curiosidade.
—Neste caso…- dá atenção a senhora Stone — Volto para ajudá-las com a mesa tão logo meu marido termine seu banho — avisa, adiantando-se para dentro me tendo a seu lado.
Seguimos de mãos dadas até nosso quarto e somente quando tranco a porta (não esqueceria tal gesto nunca mais após a advertência dada por meu pai), e somente então voltamos a falar.
—Acredita ser uma boa tática fazer Adissa se compadecer de Stephen? — questiono enquanto começo despir minha roupa, observando Cait mover-se de um lado para o outro no quarto, providenciando nossas vestes para a janta.
—Um pouco de pena não fará mal e amolecerá o coração daquela teimosa — declara, sorrindo enviesado — Será apenas o primeiro passo em direção ao coração de minha amiga. Adissa precisa perder o temor e permitir receber a corte do senhor Stephen e assim perceber o que todos nós já sabemos: que a ama — comemora, batendo palminhas animadamente — Temos de elaborar tudo com cuidado porque ela é esperta e se perceber algo logo irá afastar-se com o dobro da decisão, logo precisamos….
—Logo …- a interrompi, enlaçando-a e puxando-a de encontro a meu corpo, roubando-lhe um beijo sedento o qual encerro apenas quando o ar nos falta — Iremos discutir quais formas de amolecer o coração de sua aia depois — sopro, deslizando os lábios por seu pescoço, uma urgência em possuí-la me dominando — Cait...ahh, Cait! Minha adorada Cait! — sussurro contra sua pele enquanto minhas mãos buscam os botões de seu vestido, abrindo-os com rapidez, fazendo o tecido deslizar por seu corpo, deixando-a apenas de combinação.
—Tommy… a janta….- arqueja agarrando-se a mim quando puxo a combinação, despindo-a por inteiro.
—Creio que não se importarão nos atrasarmos um pouquinho — ergo-a nos braços, caminhando em direção a nossa cama — Só um pouquinho….
Continua

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