O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão

11 Gotas de Chuva e Máscaras Caídas



​O ar fresco e gélido da noite de Viena parecia o único remédio capaz de despertar Claire do torpor sufocante que se instalara em seu peito. No interior do palácio, a memória de seus pais parecia impregnada em cada parede, mas ali fora, no vasto Jardim Imperial de Hofburg, a brisa fria cortava a sua pele pálida, fazendo-a sentir-se viva.

​Usando apenas um vestido simples de veludo azul-escuro e uma capa fina sobre os ombros, a jovem rainha caminhava devagar entre os canteiros de rosas secas e as estátuas de mármore iluminadas pelo luar. Ela abraçou o próprio corpo, inspirando fundo o ar gélido enquanto os flocos leves de uma névoa noturna tocavam seu rosto.

​— A brisa da noite costuma ser uma companhia excelente, mas pode ser cruel para quem esquece o casaco pesado — ressoou uma voz profunda vinda da sombra de uma das pérgolas.

​Claire deu um leve sobressalto, virando-se para encontrar Sebastian. Ele estava encostado contra uma pilastra de pedra, segurando um copo de cristal e vestindo apenas uma sobrecasaca escura desabotoada.

​— Lorde Suffolk... — murmurou Claire, recuperando a postura rapidamente. — Não sabia que o senhor costumava vagar pelos jardins a estas horas.

​— O mesmo vale para a senhora, Majestade — disse ele, dando passos lentos na direção dela, o som de seus sapatos estalando sobre o pedrisco do caminho. — Embora, no seu caso, eu já imaginasse que a encontraria aqui.

​Claire ergueu uma sobrancelha, curiosa.

​— E como poderia imaginar tal coisa?

​Sebastian parou a uma distância respeitosa, encarando-a com uma expressão suave que poucas vezes mostrara na corte.

​— Porque a senhora sempre corre para os jardins quando o peso das reuniões do conselho se torna insuportável — explicou ele, tom de voz brando e ritmado. — Além disso, quando está pensativa, a senhora costuma dar três voltas completas na anel de rubi do seu dedo indicador esquerdo. E, quando tenta parecer inabalável diante de um nobre petulante, ergue o queixo exatamente dois dedos acima da linha do horizonte.

​Claire piscou, chocada. Involuntariamente, a mão dela parara exatamente sobre o anel de rubi. Ela rapidamente soltou o dedo, o rosto esquentando levemente apesar do frio da noite.

​— Como o senhor... por que acha que me conhece tão bem, Sebastian? — perguntou ela, surpresa pela própria ousadia ao usar o primeiro nome dele sem o habitual tom de deboche. — O senhor mal chegou à Áustria. Passamos a maior parte do tempo trocando ofensas.

​Sebastian soltou uma risada abafada e aveludada, olhando para o líquido em seu copo antes de voltar os olhos castanhos para os dela.

​— Um bom observador não precisa de anos para entender uma obra de arte, Claire. Apenas de atenção aos detalhes. E, para ser sincero... a senhora é infinitamente mais interessante do que qualquer decreto assinado no parlamento.

​Um silêncio agradável e acolhedor instalou-se entre os dois. Não havia agressividade, nem sarcasmo, apenas a cumplicidade de duas almas despertas na quietude da noite. Claire deixou escapar um pequeno sorriso, o olhar perdendo-se na névoa que começava a se adensar.

​Antes que ela pudesse responder, a primeira gota grossa de chuva caiu direto sobre a ponta do seu nariz.

​Claire ergueu o rosto para o céu escuro bem no momento em que um pingo mais forte atingiu sua testa. Sebastian olhou para cima e rindo da mudança repentina do tempo.

​— Pelo visto, a brisa fria resolveu trazer reforços — brincou ele.

​Em poucos segundos, a garoa fina transformou-se em uma chuva torrencial de outono.

​— Vamos! — exclamou Sebastian, pegando a mão de Claire sem hesitar e puxando-a para debaixo do arco de entrada dos aposentos reais.

​Os dois correram pelo corredor coberto, rindo do imprevisto como duas crianças escapando de uma travessura. Chegando à galeria aquecida, pararam para recuperar o fôlego. Os cabelos de Claire estavam levemente umedecidos pelas gotas de chuva, e as bochechas coradas pelo frio e pela corrida.

​Sebastian olhou para ela, o sorriso desfazendo-se lentamente para dar lugar a um olhar denso, aquecido e verdadeiro.

​— É melhor a senhora ir para os seus aposentos antes que pegue um resfriado, Majestade — disse ele baixinho, fazendo uma breve e elegante reverência.

​— O mesmo para o senhor, Lorde Suffolk — respondeu Claire, a voz suave, ajustando a capa molhada. — E... obrigada pela companhia.

​— A honra foi minha, Claire.

​Eles se despediram com um aceno de cabeça, tomando caminhos opostos pelos grandes corredores de Hofburg.

​No quarto de Sebastian, a lareira já estava acesa. Thomas o aguardava com uma toalha seca, mas congelou ao ver o patrão entrar. Sebastian não trazia a habitual aura vitoriosa e calculista; parecia absorto em pensamentos profundos, quase desorientado.

​Ele pegou a toalha de Thomas, secando os ombros da sobrecasaca enquanto caminhava em direção à janela.

​— O senhor demorou — comentou Thomas, observando-o. — Encontrou com a rainha novamente? Conseguimos mais algum progresso no plano do seu pai?

​Sebastian parou de se secar. Ele encarou o próprio reflexo no vidro da janela, onde as gotas de chuva escorriam desenfreadas.

​— O plano do meu pai é um lixo ridículo, Thomas — declarou ele repentinamente, a voz grave e áspera.

​Thomas franziu o cenho, confuso.

​— Como disse, meu lorde? Seu pai e a nobreza de Suffolk planejaram essa aproximação durante meses! O objetivo é conseguir o passe livre no parlamento austríaco através da vulnerabilidade da rainha!

​— Ela não é vulnerável! — esbravejou Sebastian, virando-se bruscamente para o criado, os olhos queimando com uma intensidade que Thomas jamais vira nele. — Ela é uma governante brilhante, leal ao seu povo, que carrega uma dor imensa no peito e ainda assim se levanta todos os dias para proteger este reino!

​Thomas deu um passo para trás, surpreso com a explosão do patrão.

​— Meu lorde... o senhor está...

​— Eu vim para cá achando que jogaria um jogo vulgar de sedução para cumprir ordens de um velho ganancioso — interrompeu Sebastian, passando a mão pelos cabelos escuros e soltando um suspiro frustrado enquanto caminhava de um lado para o outro. — Mas tudo mudou, Thomas. Tudo. Isso não é mais sobre um golpe political ou um interesse fútil de gabinete.

​ele parou diante da lareira, observando as chamas crepitarem.

​— Eu estou fascinado por ela — confessou Sebastian em um tom quase inaudível, admitindo a verdade para si mesmo pela primeira vez. — E a única coisa ridícula aqui é eu ter pensado, por um segundo sequer, que poderia usá-la como uma peça de xadrez.

​Thomas encarou o jovem duque em silêncio por um longo momento, percebendo que a lendária blindagem do libertino de Suffolk fora irremediavelmente destruída pela Rainha da Áustria.