O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão
9 Confissões ao Luar e Jogos da Mente
O silêncio do aposento real era constantemente quebrado pelo som seco dos saltos de Claire contra o piso de carvalho maciço. Ela caminhava de um lado para o outro, as saias pesadas do vestido negro e esmeralda esvoaçando com fúria a cada curva brusca que dava. O perfume de rosas do quarto parecia sufocante, e a lembrança do toque de Sebastian na pista de dança — da respiração quente dele em seu ouvido, da audácia de chamá-la de Claire — fazia seu rosto queimar de indignação.
— "Tente a sorte, Sebastian", eu disse! — resmungou ela para o vazio, gesticulando no ar com os braços. — E o que o insolente responde? Que é um péssimo nadador! Que audácia! Que falta de modos! Ele pensa que o Palácio de Hofburg é uma taverna de Londres onde ele pode simplesmente sorrir, soltar frases de efeito e dobrar a rainha da Áustria?!
Nesse momento, as duas portas duplas do quarto abriram-se suavemente. Lana e Beatriz, suas damas de companhia mais próximas e confidentes desde a infância, entraram carregando jarras de água morna e os trajes de dormir.
Lana, com seu olhar observador e refinado, trocou um risinho cúmplice com Beatriz ao ver o estado de sobressalto da soberana.
— Falando sozinha a esta hora, Majestade? — provocou Beatriz, desfazendo a fita do próprio corpete enquanto se aproximava para ajudar Claire. — E, se meus ouvidos não me enganam, ouvi o nome do novo Duque de Suffolk ecoando pelas paredes.
— Ele é insuportável! — esbravejou Claire, parando bruscamente diante do grande espelho de moldura dourada enquanto as damas começavam a desatar os laços de seu vestido. — Um homem arrogante, petulante, de modos duvidosos! Vossas mercês deveriam ter visto como ele se comportou durante a dança. Teve a ousadia de debrochar das minhas obrigações e ainda insinuou que eu estava impressionada com ele!
Lana soltou uma risada abafada enquanto começava a soltar os grampos do cabelo ruivo da rainha, deixando as ondas volumosas caírem livremente pelas costas dela.
— Bem... se me permite a ousadia, Majestade, o lorde Blackwood não é exatamente o tipo de homem que passa despercebido — comentou Lana, os olhos brilhando de malícia. — Desde que pisou em Viena, não se fala em outra coisa nas salas de chá da nobreza.
Claire virou o rosto bruscamente, com as sobrancelhas erguidas em pura perplexidade.
— Como é?
— É a pura verdade, Claire — assentiu Beatriz, rindo enquanto desabotoava os punhos do vestido da rainha. — Lady Helena e as filhas do barão passaram a noite inteira suspirando pelos cantos do salão. Dizem que ele tem o olhar mais perigoso da Inglaterra e o charme de um príncipe de contos... embora todo mundo saiba da fama de devasso que ele carrega. As damas estão praticamente fazendo fila para conseguir um único olhar dele!
Claire soltou uma gargalhada genuína, misturada com absoluto desdém.
— Um príncipe de contos?! Aquele homem é um desastre diplomático com terno sob medida! As damas desta corte devem estar cegas pela falta de ar dos corpetes, só pode ser isso! Ele é fútil, perigoso e só veio para a Áustria para tentar abocanhar pedaços do meu conselho!
— Pode ser tudo isso, Majestade — disse Lana com um tom divertido, entregando a camisola de seda branca para a rainha —, mas a senhora precisa admitir: ele foi o único homem neste castelo que conseguiu fazer seus olhos brilharem de raiva em vez de tristeza desde que os seus pais... bem, desde a tragédia.
O salão silenciou por um breve segundo. Claire parou com a camisola nas mãos, encarando o reflexo de Lana no espelho. A raiva em seu peito deu lugar a um estalo de surpresa. Era verdade. Pela primeira vez em semanas, a dor sufocante do luto fora momentaneamente anestesiada pelo fogo daquela rivalidade.
— Não confunda a minha indignação com admiração, Lana — murmurou Claire, vestindo a camisola macia enquanto tentava conter um sorriso embaraçado. — Eu apenas não vou permitir que um libertino inglês faça da minha corte o seu salão de jogos.
— Claro, Majestade — debochou Beatriz, cobrindo a boca para esconder o riso. — Nós fingimos que acreditamos que a senhora odeia cada segundo das provocações dele.
— Fora do meu quarto! As duas! Já para os seus aposentos! — ordenou Claire, apontando para a porta com falsa severidade, enquanto as duas damas saíam pelo corredor entre risadinhas e cochichos triunfantes.
No outro lado do castelo, na ala destinada aos nobres visitantes e parlamentares, a atmosfera era drasticamente diferente.
O fogo da lareira crepitava no quarto de luxo de Sebastian. Ele estava sentado em uma poltrona de couro macio, com o casaco de gala jogado sobre o encosto e a camisa de linho entreaberta no peito. Em uma das mãos, segurava um copo de cristal com uísque encorpado, girando o líquido com indolência.
Thomas, seu criado de confiança e companheiro de longa data nas peripécias pela Inglaterra, terminava de arrumar as botas de montaria do duque perto da porta.
— O senhor parece bastante satisfeito para quem passou a noite sendo fuzilado pelos olhos da Rainha da Áustria — comentou Thomas, encarando o patrão com uma sobrancelha levantada.
Sebastian soltou uma risada baixa, profunda e aveludada, tomando um gole lento da bebida.
— Você não entende nada de mulheres, Thomas. Especialmente de mulheres como Claire.
— Ah, claro. Eu só sirvo o senhor há dez anos e vi dezenas de damas chorando na sua porta em Suffolk — debochou o criado, guardando as escovas de polimento. — Mas a rainha parecia genuinamente pronta para mandar cortar a sua cabeça durante aquela dança. A farpa dos 'talheres de prata' foi particularmente refinada.
— Foi brilhante — corrigiu Sebastian, os olhos castanhos brilhando sob a luz da lareira com uma intensidade quase predatória. — Uma mulher comum teria se encolhido diante da minha provocação ou corrido para os braços de um conselheiro chorando. Mas Claire? Ela ergueu o queixo, retrucou à altura e usou a minha própria reputação como arma. Ela tem fogo nas veias, Thomas. Um fogo que ela tenta esconder atrás daquele luto estrito e da postura de rainha inabalável.
— E o senhor acha que isso é bom para o nosso plano? — perguntou Thomas, apoiando os braços na mesa. — O Duque Stefan quer que o senhor a seduza para tomar o reino, não que arranje uma inimiga mortal no trono.
Sebastian colocou o copo sobre a mesa e inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Um sorriso lento, malicioso e terrivelmente confiante curvou seus lábios.
— É perfeito, Thomas. O ódio e a indignação são apenas o primeiro estágio da obsessão. Ela passou a noite inteira pensando em mim. Tenho certeza absoluta de que, neste exato momento, enquanto anda de um lado para o outro nos aposentos dela, a única coisa que ocupa a mente da linda rainha ruiva é a minha audácia.
— O senhor é terrivelmente convencido, meu lorde.
— Não é convencimento, é constatação — murmurou Sebastian, baixando a voz e olhando para a lua que brilhava da janela. — Ela acha que me odeia porque eu a meço de igual para igual, porque não me curvo à coroa dela como os velhos do parlamento. Mas a verdade... a deliciosa verdade... é que Claire já começou a me admirar. Ela só não percebeu ainda. E quando perceber, o jogo já estará ganho.
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