O preço da Coroa

20 O Cisma de Mackenzie


A reviravolta de Dhorwack abalou as estruturas de Mackenzie como um terremoto. O Rei passou noites em claro, cercado por pergaminhos empoeirados e tomos de leis esquecidas, até encontrar a brecha que precisava: o precedente de Henrique VIII. Se a Igreja de Roma era o obstáculo, ele simplesmente removeria a Igreja de seu caminho.


​O dia do casamento amanheceu cinzento, com os sinos da catedral dobrando em um tom que parecia mais um funeral do que uma celebração. A Baronesa Genevieve estava radiante em seu vestido de brocado de ouro, aguardando no altar ao lado do Arcebispo, que segurava as escrituras com mãos triunfantes.

​As portas da catedral se abriram. Dhorwack entrou, mas não usava as vestes cerimoniais de noivo. Ele vestia sua armadura de guerra, a capa vermelha arrastando-se pelo chão, e trazia Malya pela mão — desta vez, não como uma prisioneira, mas com uma autoridade que fez o salão silenciar.

​— Majestade, chegas atrasado para o seu compromisso com Deus — declarou o Arcebispo, a voz ecoando pelas naves.

​Dhorwack parou diante do altar e desembainhou sua espada, cravando a ponta entre as pedras do solo sagrado.

​— O Deus que eu sirvo não habita em Roma, e o meu trono não pertence ao Papa — sua voz trovejou, fazendo Genevieve recuar um passo. — A partir deste momento, Mackenzie segue o exemplo do Rei Henrique Tudor. Eu me declaro o Chefe Supremo da Igreja nestas terras. As leis de Roma não têm mais poder sobre o meu sangue ou sobre os meus desejos.

​O Arcebispo empalideceu, levantando o cajado.

— Isso é heresia! Você será excomungado! O povo se voltará contra você!

​— O povo quer pão, paz e um Rei que não se curva a estrangeiros — retrucou Dhorwack, olhando para Malya. — O contrato com a Baronesa de Valois está anulado, pois foi assinado sob a sombra de uma autoridade que eu não reconheço mais.

​Ele se voltou para a multidão de nobres e camponeses que lotavam a catedral.

— Eu não me casarei com uma linhagem de ouro e ambição. Eu me casarei com a mulher que me ensinou a ser homem. Eu me casarei com a terra e com a verdade.

​Ele se ajoelhou ali mesmo, no chão de pedra, e pegou a mão de Malya. A jovem, que passara dias em um turbilhão de ódio e medo, olhou para o homem à sua frente. Ele acabara de declarar guerra ao mundo inteiro por ela. Ele acabara de destruir alianças de séculos para não perdê-la.

​— Malya do Oeste — disse ele, com uma sinceridade que a desarmou —, você disse que eu era um prisioneiro do trono. Hoje, eu quebro as correntes. Você aceita ser a Rainha de um reino que acaba de desafiar o mundo?

​Malya olhou para Genevieve, que tremia de humilhação, e para o Arcebispo, que parecia prestes a amaldiçoar o chão que pisavam. Depois, olhou para Dhorwack. O ódio ainda estava lá, mas fora misturado a um respeito profundo pela audácia dele.

​— O senhor é um louco, Dhorwack Mackenzie — sussurrou ela, audível apenas para ele. — Mas é o meu louco. Se o mundo vai queimar por nossa causa, que pelo menos dancemos nas cinzas.

​Ela se ajoelhou ao lado dele. Sem padre, sem benção de Roma, apenas sob o olhar atônito de Mackenzie, Dhorwack colocou o colar de âmbar no pescoço de sua nova Rainha.