O príncipe e a feiticeira
5 Wicked game (part.1)
Notas iniciais
“The world was on fire;
And no one could save me but you;
It’s strange what desire make foolish people do;
I’d never dreamed that I’d meet somebody like you;
And I’d never dreamed that I’d lose somebody like you;
No,I don’t want to fall in love
(This girl is only gonna break your heart);
No,I don’t want to fall in love;
(This girl is only gonna break your heart);
With you...”
Wicked Game
Chris Isaak
Palácio real (quarta, 21:47 p.m)
Narrador
—Que diabos aconteceu aqui? – vocifera o rei, irritado, voltando-se para os guardas atrás de si– Retirem-se todos, à exceção da guarda pessoal – ordena, brusco, os homens obedecendo com rapidez – Que se passou aqui, afinal, Thomas? Por que toda está balburdia?– quer saber, mais calmo, olhando diretamente para o sobrinho.
—Para mim está claro o que houve majestade: a feiticeira atentou contra a vida do herdeiro ao trono! – sir. Wilson, que chegara segundos após Frost e os demais partirem (assim como a rainha e lady Merlyn, Connor, Oliver e Barry) afirma, taxativo – Prova cabal de haver sido um erro não tê-la posto para fora — declara, irritando Thomas.
—A feiticeira foi convidada a vir, sir. Wilson. Não invadiu ou forçou sua entrada, logo deveria e foi tratada com o respeito que os convidados ao palácio merecem – diz o príncipe, esquivando-se de lady Merlyn, que tentava o tocar.
—Como pode defender essa.... essa... criatura depois do que lhe fez, meu filho? Está todo machucado!! Poderia estar morto –dramatiza Rebecca, tentando nova aproximação do filho, ele a evitando novamente.
—Mas não estou minha mãe, e estes ferimentos, além de superficiais, foram única e exclusivamente minha culpa – repete o príncipe, fazendo careta ao tirar um fragmento de gelo encravado em seu antebraço direito.
—Insistes nisto, por que? Acaso fizestes algo que a irritasse? – Malcolm, interroga, encarando o filho mais velho, desconfiado.
—Digamos que tentei uma aproximação um pouco....ousada– responde, misterioso, Oliver e Connor trocando olhares tensos.
—Aproximação ousada??– Malcolm insiste, estreitando os olhos – Seja claro, Thomas. Que tentastes que a fez irritar-se tamanhamente? – quer saber, o princípe demorando-se responder.
—Tentei beijá-la – assume, por fim.
—COMO É???
—VOCÊ O QUE??? – Oliver, Connor e Barry berram ao mesmo tempo enquanto John, Eddie e Paul entreolham-se, preocupados.
—Não está falando sério!?! – sir. Wilson exclama, estarrecendo ante a confirmação dele – Vossa alteza faz idéia do que ter-lhe-ia acontecido caso concretizasse tal gesto? – pergunta, respondendo a si mesmo – Morreria congelado! Instantaneamente! – afirma, deixando lady Merlyn aflita — Há relatos de homens que perderam dedos, mãos e até braços inteiros apenas em tentar retê-la! — conta- Vossa vida seria sugada de seu corpo com tamanha rapidez que sequer dar-lhe-ia tempo sentir dor!!
—Como sabe?? – Connor questiona, fazendo o homem se voltar para ele – Como pode afirmar com tamanha propriedade tais coisas? Baseia-se em relatos ou....
—Relatos apenas meu jovem senhor – o interrompe sir. Wilson, visivelmente tenso – Todos com fontes de alta confiabilidade, vos asseguro. Não há porque, meu senhor, duvidar – garante.
—Há sempre algo a se duvidar ou questionar quando não se conhece a íntegra dos fatos, sir. Wilson – a rainha surpreende ao afirma – Até bem pouco tempo, sequer tinha-se conhecimento qual aparência esta jovem teria. Confiar em relatos de mentes assustadas é uma temeridade – acresce.
—Decerto que sim, minha senhora, mas há de convir que se tais existem, algum fundo de verdade deva existir – insiste o cavaleiro.
—Neste caso deves estar triste eu não ter sido bem-sucedido posto lhe poupar o infortúnio de arriscar-se expor ante o rei e toda a corte! – Thomas insinua, irritado.
—Perdão alteza, mas acho que não entendi – diz Wilson, encarando-o de volta, o rei intervindo antes de uma situação constrangedora se formar.
—Basta de insinuações levianas!! – ordena, calando a todos – Há aqui um único fato a ser discutido e questionado –olha diretamente para Thomas – Ainda está manhã enfrentou-me e a vossos pais. Fez-me voltar atrás em minha decisão ao declarar teres feito tua escolha, que em breve nos apresentaria a dama em questão e já ao anoitecer tentas beijar outra dama? Para onde foi todo aquele sentimento que dizias ter? Esvaiu-se com o vento? Soterrou-se sob a neve? – questiona-o, bravo.
—Existe uma explicação para minha atitude, meu senhor, e garanto-lhe não ter quebrado o acordo firmado com meu rei....
—Não?? Quer mesmo fazer-me crer que, mais uma vez, não se ter deixado levar e tentado nova conquista? – inquere, não dando chance a ele responder – Me dispus pôr em risco uma aliança de muitos anos não concretizando o que propus ao rei Jor-el quando enviei-lhe convite para que mandasse uma comitiva trazendo sua filha única. Pus em risco a vida da jovem princesa, fazendo-a abalar-se de seu lar até aqui em tempos de dúvidas e medos, com o propósito de apresentá-la a ti, não como imposição, mas como opção. Acatei tua decisão de desposá-la apenas se tua escolhida não te aceitasse, e é assim que correspondes a minha confiança? Agindo impulsivamente? — relembra, ficando mais próximo do sobrinho, olhando-o dentro dos olhos – Sete dias, foi isto que combinastes com tua dama misteriosa, correto? – pergunta causando surpresa ao príncipe – Pois bem. Mesmo ante o acontecido hoje, não desfarei o acordado, ainda que mereças o fazer – garante, calmo, prosseguindo — Não moverei um dedo para impedir-te encontrá-la, conforme acordastes com ela – assegura, o brilho em seu olhar deixando Thomas em alerta.
—Mas...??? – inquire o príncipe, prevendo existir um preço a pagar por seu gesto impensado.
—Caso a dama não compareça ou falhes em fazê-la aceitar que tu lhe faças a corte, firmarás compromisso com a princesa Kara, conforme desejo de vosso pai e meu, sem protestar – avisa, erguendo a mão, calando o protesto ensaiado pelo sobrinho – É a condição que te imponho para não o impedir ir a este encontro. Estou sendo mais do que paciente e generoso em permiti-lo acontecer posto vossa atitude de a pouco deixar claro o que diz sentir pela jovem camponesa ser apenas fogo de palha. Não o serei uma segunda vez – alerta, sério — Se não conseguires convencer essa dama misteriosa aceitar-te, se não a apresentares a mim no prazo de um dia, irás, tu mesmo, anuciar teu compromisso com a herdeira do reino de Midiã perante a corte reunida -decreta – Considero-te como a meu próprio filho. Jamais desejei te impor nada, mas estamos vivendo dias dificeis. A antiga ameaça ronda-nos. Mais do que nossa famíla, a liberdade de nosso povo está em jogo. Em breve assumirás o lugar que te pertence por direito. Seras rei e precisas começar agir como tal! Isto inclui abrir mão, em alguns momentos, de seus desejos pessoais em prol de um bem maior – declara, suavizando a expressão, pondo, afetuosamente, uma mão sobre o ombro direito do sobrinho – Sei que ainda duvidas de ti mesmo, que temes o que esta por vir e não te sentes preparado a assumir tamanha responsabilidade. É natural. Teu pai e eu enfrentamos os mesmos receios, os mesmos medos quando estivemos em teu lugar. Mas acredites, te conhecemos, ele e eu, o suficiente para saber que és sim digno de asceder ao trono – afirma, apertando-lhe o ombro levemente, dirigindo o olhar a Oliver e Connor em um convite mudo, ambos atendendo-o, postando-se lateralmente a Thomas – Não estaras sozinho. Laços maiores do que os de sangue te une a teu irmão e a teu primo – pontua, dirigindo agora seu olhar a Wilson, John, Paul, Eddie e Barry – Tens mais do que servidores leias. Tens amigos!! — exclama — Confia neles. Ouve-os. Acate seus conselhos e não te arrependeras – assegura, olhando-o carinhosamente — E acima de tudo teras algo que não tivemos – Malcolm aproxima-se instintivamente, ficando lado a lado com o rei – Tens a teu pai e a mim. Estaremos por perto para apoiar-te em tudo.
—Acalme vosso coração, filho. Tudo ficara bem – Malcolm tranquiliza-o, pousando a mão sobre o outro ombro do filho.
—Eu sei – Thomas murmura, silenciando um segundo, baixando o olhar – Entendo e aceito as condições que meu rei impõe – declara, por fim, trazendo alívio aos presentes – Agora, se meu rei permitir, gostaria de me recolher – pede, erguendo os olhar.
—A tem – libera-o, o jovem fazendo-lhe uma reverência antes de se retirar, Connor e Oliver seguindo-o após breve troca de olhar com Malcolm e Robert, cruzando com um dos servos ao deixarem o local.
—Majestade, os convidados estão inquietos e um pouco temerosos – avisa o serviçal, reverenciando o monarca – Lady Smoak tem mantido taças e pratos cheios e as conversas animadas, mas mesmo ela não está conseguindo mais manter o controle da situação. Muitos estão a perguntar o que se passou e se correm algum risco – diz.
—Já retornaremos a eles– responde o rei, olhando a volta – Providencie que tudo seja limpo – ordena, oferecendo o braço a rainha, que prontamente aceita – Não preciso dizer contar com vossa discrição acerca do que foi discutido a pouco – frisa, voltando-se para sir. Wilson e os demais.
—Decerto que pode contar com nossa discrição majestade – Wilson garante.
—Assim espero Slade – responde o rei, conduzindo a rainha para fora do comôdo, lord e lady Merlyn, o próprio Wilson e os demais seguindo aos soberanos em ordeira e aparente calma.
Enquanto caminham, Malcolm medita internamente se haveria algum modo de tentar influenciar o filho mais velho a tomar a decisão esperada por ele.
*** Cisco Ramon ***
—Cretino! Mentecapito! Idiota!! Atrevido!! – observo Frost xingar enquanto atira pequenas lanças de gelo em várias direções, cravando-as em arvores e tudo o mais a nossa volta, obrigando Ralph e a mim desviarnos de algumas – Quem ele julga ser para se atrever me desafiar??? – protesta, irrtada.
—O futuro rei? – Ralph atreve-se dizer, fazendo-a voltar-se para nós.
—Acaso isto justifica ou dar-lhe direito achar que pode sair por aí fazendo o que bem entende? Dispondo da vida de pessoas a seu bel prazer? Fazendo promessas e as quebrando sem importar-se com quem fere? – questiona, o tom magoado fazendo-me entender ser Cait a perguntar.
—Acaso nosso futuro rei teria, digamos, tentado uma aproximação mais ousada de ti? – cogito, não aguardando resposta – Algo impulsivo e insensato como a beijar, por exemplo?? – suponho, o rubor na tez alva me dando a certeza que acertara em cheio!
—Ele não faria isto, faria? – Ralph indaga, encarando-a, cético – Não!!! Ele não tentou... Por que ele tentou??? – refaz a pergunta no meio da frase, olhando de nossa irmã, que, aparentemente, se acalmava, para mim, abismado – Nosso futuro rei queria matar-se, por acaso? Ou enlouqueceu? O que teoricamente dá no mesmo já que irritar Frost, quer seja tentando beijá-la, quer desafiando-a um duelo, quer magoando Caitlin, obteria igual resultado, ou seja iria...
—Ralph cala a boca!! – peço, impaciente, dando atenção a Cait/Frost (era, neste momento, possível ver um pouco de ambas) – Por que tentou tal gesto, ele disse? – quero saber.
—Porque é um cretino que julga poder ter tudo e todos a seus pés!! – responde ela, brava e espremo os lábios para não rir, o que não lhes passa despercebido – Qual a graça? – inquire, encarando-me.
—Não estou a achar graça irmã, posto o que houve ter-nos deixado mal perante o rei e a corte, decerto, incluindo certa pequena dama responsável por termos nos aproximado do herdeiro ao trono e seus amigos em primeiro lugar– pontuo, sua expressão mudando de imediato– Apenas refletia qual teria sido a motivação do princípe herdeiro em tentar algo tão impensado e arriscado. Loucura é que não pois, até onde sei, goza de ótima saúde mental — pondero- Logo, deve haver outra explicação e, sem querer o justificar, acredito possa ele ter sido motivado por certo sentimento: amor – declaro, ela arqueando a sobrancelha.
—Estas a dizer que ele, agora, ama as duas, Cait e Frost? – Ralph pergunta, respondendo a si mesmo – Se bem que são a mesma pessoa, logo ele não estaria apaixonado por duas e sim por uma, ou seja, por Cait e decerto a reconheceu como Frost... Ou não! ...Acho...E acho que vou tomar uma caneca de cerveja porque estou começando a ficar confuso!! – declara nosso irmão, sacudindo a cabeça, adiantando-se a caminhar em direção a hospedaria de nona Fonzi.
—Nosso irmão falador está correto, não está? Ele a reconheceu, não foi? -questiono, olhando-a atento – Viu a ambas, Cait e Frost e por isto ousou aproximar-se – concluo, estalando a língua – E não é que o herdeiro ao trono é mais esperto do que o julguei ser! – brinco.
—Disto nunca duvidei! – a voz gélida de Frost retruca e arqueio a sobrancelha – Saiba que neguei sermos a mesma pessoa – avisa – Disse-lhe sermos irmãs. Gêmeas. Como ele e o irmão o são – conta, sorrindo de lado.
—Ele deu crédito a ti? – quero saber, curioso.
—Talvez – responde, evasiva, dando de ombros, tomando a direção da hospedaria comigo a seu lado– Independente ter ou não acreditado, o fato é que tentou beijar a outra quando três dias atrás fez-me juras de amor! – relembra, e me volto, encontrando apenas Cait a meu lado.
—Irmã, não se deixe confundir – peço, fazendo-a parar, a encarando – Ele tentou beijar uma única pessoa pois é assim que foi, é e sempre será. Não existem duas de ti – digo, tranquilo.
—Não é bem assim e sabes – rebate, teimosa, encarando-me – Somos....
—São as duas faces de uma única e maravilhosa pessoa: minha irmã de criação, Cait/Frost Snow! – exclamo, arrancando um largo sorriso ao tratá-la como fazia até bem pouco tempo, seus olhos brilhando – Não há duas. Há você, irmã, com sua singularidade, seu jeitinho especial, que pode até ser meio frio e bruto algumas vezes, e nem precisa deixar a feiticeira assumir para tal! – a provoco, vendo-a estreitar os olhos com fingida braveza — Mas o coração é um só e quente, eu garanto — afirmo, sorrindo-lhe — E, de alguma misteriosa maneira, o príncipe conseguiu enxergar isto. Ele a viu além das aparências, assim como tu o vsites, acredito, posto ter-lhe dado chance aproximar-se – argumento, recebendo um sorriso jocoso dela — De que duvidas? Teres um coração quente ou vossa alteza ter-te enxergado como sois ?- questiono
—Ambos — responde, fazendo menção ir-se, mas impeço.
—Então responde-me: por que atendestes ao pedido da pequena? E não refiro-me vir o palácio. Por que ajudastes, como Frost e Cait, salvar a vida do irmão querido aquele dia, no campo? – interrogo, não dando a ela chance retrucar – Frost atendeu a pequena. Frost congelou e protegeu os guardas feridos de modo a salvarem-se. Frost indicou-lhes o caminho de nossa casa para que Cait pudesse evitar a morte do príncipe ferido. E ambas, sentiram ciúmes ao vê-lo abraçado a jovem e bela princesa Kara – alfineto, rindo intimamente ao escutá-la bufar – Admita irmã: o ciúme a fez atender o convite formulado. O mesmo a fez ficar brava quando ele tentou a beijar e ....- silencio, notando a leve mudança em sua expressão – Oh, oh!! Conheço este olhar!! – exclamo, erguendo o indicador – Não!! Nahnaninannão!!! – cantarolo ao decifrá-la –Outra vez não!!- choramingo, batendo o pé, fazendo bico (reconheço) – Não tem graça meninas. Sabem bem o que acontece quando resolvem fazer isto!! – resmungo, cruzando os braços a frente do peito.
—Do que estas reclamando? – questionam (sim, consigo ouvir ambas vozes neste momento) – Se estiveres correto em teu pensar, o príncipe será capaz de discernir entre nós ou, como afirmastes a pouco, saber tratar-se da mesma pessoa! – exclamam, o sorriso aumentando– Se de fato ele tem sentimentos verdadeiros, saberá quem somos. E se o souber e não afastar-se ou amedrontar-se, ganhara meu respeito e, quem sabe, meu coração -dizem – Nosso respeito e nosso coração – corrigem-se, me encarando – Além do mais, será divertido! – é Frost, agora, a dizer, dando de ombros, soprando-me um beijo antes de retomar a caminhada para a hospedaria, mexendo as mãos, fazendo surgir colunas de vento e neve a nossa volta, cantarolando suavemente enquanto o faz.
—Divertido?? Pois sim! Só quero saber para quem. Pra mim é que não. Ou pro Ralph. Menos ainda para certo principe! Deu até dó dele agora – resmungo, a seguindo, me preparando mentalmente para o que viria posto saber que de nada adiantaria tentar chamar Frost a razão. Ela já havia decidido e pelo jeito Cait concordara em perticipar do jogo – Que os deuses nos protejam e dêem a mim e Ralph força, sabedoria, calma e disposição! – desejo, adentrando o ambiente aconchegante um passo atrás dela, nona nos recebendo carinhosamente.
*** Palácio real (sábado – 15:33 p.m)***
Tommy
Suspiro longamente, olhando os jardins lá fora, permitindo um sorriso curto dançar em meus lábios ao visualizar dama Bárbara correndo, desesperada, em meio ao aguaceiro na tentativa de fazer as crianças retornarem ao interior abrigado e seco do palácio.
Até mesmo minha mãe e minha tia (que se encontrava de excelente humor ultimamente) a estavam ajudando (abrigadas sob um dos terraços, óbvio).
Havia exatas vinte e quatro horas que chovia torrencialmente. Primeiro, após a saída tempestiva de Frost e seus amigos, nevara intensamente durante um dia inteiro. Fizera tanto frio que os festejos do solstício foram cancelados. Ninguém encontrava ânimo sair as ruas nem mesmo para se embebedar. Sorte eu não precisar deixar o palácio para tal. Sequer meu quarto, em verdade.
Não houve como não sentir-me responsável pelo acontecido, por mais que Ollie e Connor tivessem tentado convencer-me do contrário. Estava claro aquela nevasca intensa e inesperada ser obra da feiticeira branca. Ao menos para mim o era. Estavámos apenas no início do inverno. Neve e frio intensos como naquele dia ainda custariam ocorrer. Além do mais, já presenciara uma demonstração do poder dela. Vira in loco do que era capaz. Não me restava dúvida alguma ser ela a responsável pela brusca queda de temperatura. Vingança? Zanga? Ambas as coisas? Somente ela e os deuses poderiam responder.
Meu irmão, primo e amigos pensavam o mesmo, mas não o verbalizavam (a fim de aplacar minha culpa, decerto) e tentavam me animar. Aliás, desde o ocorrido no laboratório, se havia algo a me faltar era ânimo.
Daquele dia até hoje, evitei o quanto pude praticamente a todos no palácio. Os únicos a conseguirem alguns minutos de minha atenção haviam sido Minnie, Thea e Paul.
Juntara-me a todos somente quando das refeições. Mal tocara na comida, limitara-me responder o que me era perguntado, ser gentil com os convidados, a princesa Kara em especial, e participar minimamente dos jogos propostos, por lady Laurel Lance após cada refeição apenas para fazer o tempo passar mais ligeiro.
Usando a desculpa (legítima em parte) de estar sentindo-me indisposto, recolhia-me a meus aposentos mais cedo, mas ao contrário do que os fazia pensar, não ia a meu quarto dormir. Queria ficar sozinho para refetir e planejar o que diria a milady Caitlin. Até dispensar os criados que sempre serviam-me, fazendo eu mesmo toda preparação para dormir, incluindo meu banho, o que não agradou minha mãe.
Deixava meu quarto sempre as escuras, quando lá dentro e não respondia quando chamado, dando força meu argumento, fazendo quem procurava-me pensar estar de fato a dormir tranquilamente. Mas se há algo que não tenho feito ultimamente é dormir tranquilo.
Noite após noite venho sentando-me no beiral, longe da vista da guarda nos muros, ali permanecendo, enrolado a um cobertor, tendo algumas garrafas de bebida como companhia, até praticamente amanhecer. Presenciara a primeira noite ir-se levando consigo a neve. Vira o dia raiar, sem o sol, a chuva substituindo a nevasca. E assim permanecia.
O tempo apenas piorara desde ontem, a chuva tornando-se mais e mais intensa a cada minuto, trazendo-me sensação de opressão ao peito. Sabia que a permanecer desta maneira, meu encontro com milady Caitlin estaria ameaçado.
Não fazia a mínima idéia do que faria caso não pudesse ter com ela. Nem como o rei, meu tio, reagiria a tal fato. Permitir-me-ia ele uma nova chance ou obrigar-me-ia cumprir o acordado e comprometer-me com a princesa? Levaria em conta as condições climáticas ou a desprezaria? A julgar pelo que ouvira nos corredores, a segunda seria a opção para a qual deveria me preparar.
‘Alteza, posso entrar?’ – o questionamento acompanhado da batida a porta tira-me do devaneio e me volto.
—Pode -respondo, Paul Harley adentrando logo a seguir.
—Mandou-me chamar alteza? – inquere.
—Sim – confirmo – Entre e feche a porta – ordeno, sendo prontamente obedecido – Serei direto – aviso, indo sentar-me na borda de minha cama, ficando o mais próximo a ele possível – Como já deve estar ciente, amanhã completa-se o tempo combinado entre mim e milady Caitlin para nos revermos no bosque – lembro, ele anuindo com um meneio de cabeça – Também finda-se o prazo dado a mim pelo rei para firmar compromisso com a princesa Kara, logo deve imaginar o tamanho de meu desespero ante as últimas vinte e quatro horas, especificamente – digo, recebendo novo meneio – Mandei-o chamar porque fostes designado como meu guarda pessoal e quero, doravante, fazer as coisas direito. Não pretendo ou desejo causar mais desavenças ou problemas a meu pai ou meu rei – discurso, o encarando, demorando-me alguns minutos para voltar a falar -Quero que estejas pronto amanhã, antes do raiar do dia, estando o tempo firme ou não – aviso, vendo-o franzir o cenho.
—Vossa alteza pretende manter o acordado e ir ao bosque mesmo em caso de o tempo não estar firme e sem a certeza de que milady compareça? – interroga e sorrio de lado.
—Sim – confirmo, erguendo o indicador – Mas isto não deve sair deste quarto. Iremos apenas tu e eu ao bosque aguardar minha dama – determino – Não guardarei a dúvida em minha mente. Refleti bastante nas últimas horas e decidi cumprir minha parte. Se milady decidir comparecer a nosso encontro, mesmo debaixo d’água, não quero que seja a única fazê-lo. Estarei presente, a espera dela, mesmo que não vá. Não desistirei sem ao menos lutar – asseguro, vendo, para meu espanto, um sorriso formar-se no rosto do homem a minha frente – Oriente, antes do cair da noite, os cavalariços a deixarem nossos cavalos preparados. Quero a menor perda de tempo possivel – ordeno.
—Assim farei alteza – afirma – Mais alguma recomendação? – questiona-me.
—Não. Está dispensado – libero-o, ele fazendo uma reverência antes de retirar-se, ambos, ele e eu, tendo um sobressalto quando abre a porta, ninguém menos do que a princesa Kara encontrando-se parada diante desta– Vossa alteza – Paul a cumprimenta, pondo-se de lado de modo a permitir-lhe passar, ela o fazendo seguida de perto por suas servas, mantendo aporta aberta, postando-se no corredor, em frente.
—Alteza – cumprimento-a, como manda a boa etiqueta, beijando-lhe o dorso da mão, dirigindo cumprimentos curtos a suas aias – O que a traz a meus aposentos? -pergunto, curioso, não nego, posto ser bastante incomum uma dama, sendo ela nobre ou não, adentrar os aposentos de um homem solteiro. Mesmo estando acompanhada de suas aias.
—Poderia lhe falar um minuto? – pergunta, apertando as mãos, claro sinal de nervosismo.
—Claro milady. Sente-se por favor – convido, indicando a poltrona a direita de minha cama, junto a janela, aguardando-a sentar-se para postar-me de frente a ela, permanecendo de pé.
—Serei breve – avisa, alisando a saia de seu vestido (outro sinal claro de nervosismo), respirando fundo, erguendo o olhar de um azul acinzentado para mim, deixando-me paralisado momentaneamente.
Era, de fato, uma bela mulher. O sorriso franco, olhar meigo e doce, o jeito puro de menina, contribuiam para aumentar seu encanto natural. Confesso: não tivesse eu conhecido Caitlin antes, me encantaria facilmente por ela.
—Importar-se se pedir não me olhar desta maneira? Encabula-me ....- pede, corando de imediato – E dificulta-me o que tenho a dizer-lhe – completa, abaixando a vista, minha curiosidade elevando-se consideravelmente.
—Perdoe-me milady. Tão somente admirava vossa beleza – admito, deixando-a ainda mais sem graça – Perdoe-me – reitero, admoestando-me mentalmente a cessar os galateios, ainda mais em se tratando da jovem que estava prestes rejeitar – Deseja falar-me?
—Sim – confirma, emitindo um suspiro pesaroso – Como deve saber, minha vinda aqui não foi à toa. Nossos pais e vosso rei tencionavam firmamos compromisso ao final dos festejos – diz, me parecendo desanimada.
—Tenho conhecimento sim – digo, sustentando seu olhar, aguardando-a prosseguir.
—Devo admitir não ter agradado-me em nada tal fato – confessa, para minha surpresa – Não entenda-me mal. Vossa alteza é um belo homem. E interessante– diz, sorrindo encabulada.
—Grato – agradeço, voltando a calar-me.
—E certamente senti-me atraída ao conhecê-lo – admite e me preparo para o “Mas” que decerto viria – Mas...- não falei!!! – Já tenho alguém a ocupar meu coração – revela, me encarando, a tristeza em seu olhar tocando-me profundamente – Não é algo novo. Crescemos juntos, ele e eu. Somos primos e tinha certeza iriamos nos casar. E até vosso rei enviar emissários acredito ser este o intento de meu pais. Mas ante o estreitamento da aliança entre nossos reinos, me vi obrigada obedecer ao desejo de meu rei, e novamente peço-lhe não me entendas mal posto que aprendi gostar de vossa alteza. És bem diferente do que ouvi dizer a vosso respeito, o que dificulta-me pedir o que pretendo pedir-te, e caso me negues tal pedido, saibas que aceitarei meu destino e ser-te-ei fiel todo o tempo, mas agora, neste momento, eu.... eu....- titubeia, após haver desabafado e sorrio, complacente.
—Queres que te rejeite – completo, vendo-a abrir os olhos, espantada, a resposta vindo-me através de um meneio timido.
—Não te preocupes quanto um possível revide de meu pai. Ele tem plena ciencia de meus sentimentos – revela, corando intensamente – Na verdade, fez-me jurar ter comportamento adequado e não buscar irritar-te d’alguma forma com a finalidade de me odiares! – declara e abro a boca, pasmo, não conseguindo reter a gargalhada que a deixa surpresa.
—Perdoe-me princesa, mas prometi o mesmo ante meu soberano e meus pais – revelo, ela rindo junto comigo– Quanto a teu pedido.... – suspiro curto – Nada me traria mais alegria do que atender-te – afirmo, olhando dentro de sues olhos – Conheci alguém recentemente, uma dama, cuja beleza, equivalente a tua – acho prudente frisar — Arrematou-me o coração. Mas ao contrário de ti, se não entendi erronêamente, deixou-me a dúvida se sou correspondido – admito, desviando o olhar para a janela um segundo, dando-lhe atenção outra vez -Fizemos, ela e eu, um acordo. Nos encontrariamos dentro de sete dias e se ainda tivesse sentimentos por ela, aceitaria fazer-lhe a corte. O prazo vence amanhã. Meus sentimentos permanecem. Até mais fortes, diria – digo, fazendo careta – Porém cometi um deslize e meu rei fez-me firma um acordo: caso ela não aceite-me, terei de firmar compromisso contigo – conto, sorrindo amarelo, sua expressão dizendo mais do que qualquer palavra– Sendo-te sincero, não é o que desejo igualmente, mas neste momento, não enxergo saída para tal dilema a menos que minha dama aceite-me – confesso.
—Entendo – sopra, desanimada – Então resta-me torcer para o tempo ajudar e que consigas encontrar e convencer a dama em questão sobre teus sentimentos ou ambos seremos obrigados a um compromisso que não desejamos – conclui, pesarosa.
—Ou não – a afirmação pega-nos de surpresa, sobressaltando-nos.
—Pelos deuses Thea!! – exclamo, encarando-a bravo – Acaso queria matar-nos de susto? – questiono vendo-a rolar os olhos enquanto ergue a saia do vestido, aproximando-se de nós, suas aias aguardando junto as de Kara.
—Não me culpem por estarem desatentos a ponto de não me notar – argumenta, olhando de mim para a princesa – Quanto ao dilema que os aflige, posso dar-lhes a solução – garante, rindo de forma travessa.
—Dirá o que pensou ou teremos de advinhar?? -inquiro ante seu silêncio, recebendo novo e maior sorriso.
—Shiii! Deixe-me saborear a sensação de ter algo do qual precisas!! – me provoca e bufo – Pronto! – exclama, unindo as mãos, ainda a sorrir – Ambos não desejam este compromisso, o que pode significar, no minimo, um mal-estar enorme entre nossos reinos, correto? – questiona, não nos deixando responder – E para ti, meu primo, quebrar o acordado pode trazer ainda outras consequências já que nossos pais andam impacientes contigo – comenta e abro a boca para protestar, mas novamente não dar-me chance – Meu conselho é que, caso a dama misteriosa não te aceite, finjam firmar compromisso – diz, a princesa e eu arqueando as sobrancelhas – Veja: podem fingir acatar o desejo de ambos reis, ganhando tempo para arrumarem uma desculpa válida que os permita romper o noivado, tipo incompatibilidade de gênios, coisa que soaria falso e ridiculo até para mim se usado neste momento – argumenta – Finjam aceitar, dêem um tempo e rompam o noivado sem causar nenhum estrago – conclui.
—É uma idéia tão maluca que pode dar certo -pondero.
—Não é maluca. É sensata – ouço e olho por sobre a cabeça de minha prima, deparando-me com lady Sara Lance a porta – E a única que tens – acresce.
—Acaso as duas andam a vigiar-me? – pergunto, não escondendo a irritação.
—Meio que.... Sim. Eu, ao menos, ando sim – Thea assume na cara dura – Queria certificar-me de que meu primo lindo e fofo não faria nenhuma outra bobagem, tipo a que tentou durante a abertura dos festejos – relembra e é minha vez de rolar os olhos – Agora digam-me, porão em prática minha idéia? – pergunta, ansiosa.
—Caso seja necessário – dou de ombros, sentando-me sobre o colchão, cruzando meus braços – Meu temor é perdermos o controle da situação, o que facilmente pode ocorrer caso minha mãe se empolgue – admito.
—Basta manterem o foco e nada saira do controle – Sara simplifica e mordo a lingua, engolindo a observação malcriada que me vinha a boca. Não queria estender aquela discurssão por mais tempo do que o necessário.
—Muito bem. Se concordar princesa Kara, faremos uso do plano sugerido por minha prima, apenas e tão somente se fizer-se necessário -friso, levantando-me – Algo mais a ser discutido? – questiono, olhando as mulheres presentes uma a uma.
—Não – um coro responde e sorrio discretamente.
—Neste caso, peço as damas que me deem licença. Gostaria de ter com com meu irmão e primo antes do lanche da tarde – digo, Kara levantando-se com uma rapidez invejavel a uma dama usando vestido como o que usava.
—Decerto que sim – diz, sorrindo de maneira encantadora – Agradeço-lhe a atenção e compreensão. Temi vossa alteza não entender o que se passa comigo – confessa.
—Como poderia não a entender se padeço do mesmo mal, por assim dizer? – inquiro, sinalizando a ela, suas aias e minha prima irem a frente, as seguindo para fora de meus aposentos, Sara e Paul, um de cada lado da porta, unindo-se a nós quando seguimos pelo corredor.
Acompanho as damas até bem perto do jardim interno, aonde o lanche da tarde seria servido, deixando-as em companhia de dama Barbára e as crianças para ir a procura não somente de meu irmão e primo, mas d’algum dos alquimistas. Precisa saber deles em que pé estava a pesquisa sobre a qual Connor falara-me e, principalmente, se haviam falado com o rei acerca de permitir a feiticeira adentrar ao palácio.
Encontro Connor e Oliver, por coincidência, a fala com sir. Stein e sir. Goodwing. Descubro o rei ter permitido, com reservas, a presença da feiticeira no palácio com a única finalidade de tentar salvar a vida de minha tia e apesar de não ter dado ordens para manterem-me afastado quando ela estiver presente, sabia que todos fariam o possível para isto ocorrer.
Sendo honesto, a depender do que ocorreria amanhã, não precisariam preocupar-se em afastar-me de mais ninguém. Isto, claro, se ela aceitar-me, caso contrário.... melhor não pensar a respeito.
O restante da tarde transcorre relativamente tranquila. Nos juntamos ao rei e a rainha, a meus pais, as damas e alguns dos convidados em um dos terraços onde tomamos um farto e saboroso lanche, a chuva continuando cair insesantemente.
O cair da noite não traz novidades. Durante a madrugada o panorama continua idêntico:chuva intensa. Acordo diversas vezes. Em todas o que vejo pela janela se não chega desanimar-me, faz-me questionar se minha dama compareceria a nosso encontro.
—Se não for, será mais do que justificavél – murmuro enquanto termino de vestir-me – Você sim tem o dever de se fazer presente e convencê-la de seus sentimentos – admoesto-me, calçando as botas – Rezo para que não tenha falado com a feiticeira. Se bem que....- respiro fundo, olhando a chuva cair – Se estiver correto, terei posto tudo a perder – lamento-me, pegando luvas e capa, mais grossa, que pudesse-me proteger.
Dirijo-me a porta, abrindo-a o mais silenciosamente possível, o corredor silencioso recebendo-me.
Caminho a passos largos em direção a escadaria que levaria-me ao pátio interno e de lá para as estribarias, onde Paul já aguardava-me, a postos para partir.
—Bom dia – cumrpimento-o e ao cavalariço, calçando as luvas.
—Bom dia alteza – Paul responde, o jovem a seu lado limitando-se fazer-me uma reverência exagerada – Vossa alteza pretende manter o planejado? Iremos ao bosque?– inquere, segurando ambas redéas, de seu e do meu animal.
—Pretendo – confirmo, vestindo a capa – Assumo o risco de ela não ir, mas eu preciso, melhor dizendo, Devo comparecer ao compromisso marcado. Não irei desistir antes de haver tentado. Está culpa não carregarei na mente -declaro, não importando-me com o que pensariam -Sinto ter de obrigar-te envolver. Dependesse de minha vontade, iria sozinho – digo, sincero, ele surpreendendo-me com um sorriso franco.
—Ainda que não fosse obrigação minha, jamais deixaria meu futuro rei arriscar-se, ainda que por motivo justo -declara e rio.
—Não esperaria menos de ti – admito, montando meu cavalo – Se meus pais, meu irmão, o rei ou qualquer outra pessoa acorde antes de regressarmos, diga-lhes apenas que sai a cavalgar em companhia de meu guarda pessoal. Nada além disto – recomendo.
—Pois não alteza – o rapaz responde, fazendo-me nova reverência.
—Vamos. Desejo voltar antes de o palácio acordar – convido, dando um leve toque nas ancas do animal, este pondo-se em movimento imediatamente, Paul seguindo-me de pronto.
Opto por utilizar o portão lateral ao invés do principal para deixar o palácio, cavalgando sob a chuva, carregando em meu coração a esperança de que tal gesto não seria em vão.
*** Bosque (três horas e meia depois) ****
Narrador
Cabisbaixo, Thomas olha em volta mais uma vez, esperançoso em vê-la surgir d’algum ponto, vindo a seu encontro, mas tudo que vê é a grossa cortina formada pela chuva torrencial.
—Alteza, quanto tempo mais pretende aguardá-la? – Paul questiona, fazendo o mesmo que ele – A chuva só tem aumentado desde nossa chegada. Apesar de abrigados, os animais começam ficar indóceis com os trovões– alerta, dirigindo seu olhar ao princípe – E vossa alteza está ensopado. Decerto afetar-lhe-a a saúde permanecer muito tempo sob essas condições. Devemos regressar – aconselha, o silencio do jovem herdeiro lhe servindo como resposta -Há muito amanheceu. Ainda que meus soberanos ou lord Merlyn estejam a dormir, em breve despertarão e hão de sentir vossa ausência durante a refeição matinal – pondera, respirando fundo antes de sentar-se ao lado de Thomas, silenciando alguns segundos – Fez o que era esperado alteza. Tentou e sequer pode considerar um fracasso ante a intemperie – argumenta, entrelaçando os dedos, cotovelos apoiados aos joelhos – Talvez, apenas não fosse para ser – diz, calando-se, permanecendo, solidário, ao lado do princípe.
Apesar de concordar com cada palavra dita, Thomas simplesmente não conseguia mover-se. Sentia-se desanimado, oprimido, sem forças até para discutir.
Tinha plena consciência de que deveria retornar ao palácio e honrar o acordado com o rei e nem mesmo a recente descoberta em relação a princesa Kara o fazia sentir-se melhor.
Por um breve momento fantasiara ter a chance de viver uma vida feliz ao lado da mulher que escolhera, que ela dar-lhe-ia uma chance de explicar-se, o perdoaria a falta e aceitaria o acompanhar ao palácio para ser apresentada ao rei e depois a corte como sua futura rainha. Que reinariam juntos em um futuro não muito distante.
—Alteza...!?!? – a voz prudente de Paul o traz de volta a realidade, fazendo-o voltar o rosto para o guarda e amigo.
—Traga os cavalos. Vamos partir – pede, permanecendo sentado enquanto o outro atendia-lhe, segurando a cabeça entre as mãos, olhos fechados – Por que não veio Caitlin? Por que não deu-me ao menos a chance de pedir-lhe perdão? De tentar explicar-te meu comportamento? – murmura, desanimado.
—Que poderias dizer-me para justificar teres tentado beijar outra antes mesmo de completo o prazo combinado? – a voz doce inquere, fazendo-o erguer o rosto ligeiro, encarando a jovem parada alguns passos de onde ele se encontrava, as gotas grossas escorrendo pela capa de um tom que ele não lembrava ter visto antes.
—Milady, não a vi chegar -Thomas diz, pondo-se rapidamente de pé, hesitando aproximar-se – Eu...- começa, sustentando o olhar dela, a mágoa visivel neles entristecendo-o pois sabia ser o responsável por tal sentimento – Não há, de fato, justificativa ao que tentei fazer – diz, dando em passo a frente – Mas se me deres a chance, prometo-te não repeti-lo. Jamais. Seja com quem for – assegura, dando outro passo, mais longo, eliminando a distância entre eles, alegrando-se por ela não haver recuado.
—E por que deveria fazer isto? – quesitona-o, calma -Se já na primeira oportunidade deixastes em dúvida o que dizes sentir por mim. E não com qualquer uma – diz, notando o jovem reter o ar -Por que ela? – inquire – De tantas jovens que se acercam de ti, tendo uma pretendente a teu lado, favorita do rei e de teus pais, fostes tentar algo justamente com a feiticeira – enumera – Por que? Acaso te sentitstes atraido por ela quando o salvou? – quer saber, não recuando ou oferecendo resistência quando ele lhe segura as mãos.
—Acreditarias se dissesse ter a certeza de serem, tu e ela, uma mesma pessoa? – Thomas deixa escapar – Quando olhei a feiticeira, vi-te e foi impossível manter-me distante – acresce, atento as reações da jovem – Frost falou-me que são irmãs, é verdade? – pergunta, não disfarçando a ansiedade.
—E se for? Que diferença faria? – devolve ela, suspirando, não dando a ele tempo responder – Temos sim uma ligação intima e direta. Além disto, Frost salvou-me e a meus irmãos em diversas ocasiões. Tenho com ela uma divída de gratidão, assim como, quero crer, tu tens igualmente – declara.
—Tenho – assume o princípe, baixando o olhar para as mãos unidas – Sinto-me ainda pior em saber o quão próxima sois dela – confessa, erguendo o olhar novamente – Mas dou-te minha palavra, se é que ainda a considere válida, unicamente a semelhança entre vós fez-me aproximar mais de Frost –aproxima-se um pouco mais — Meus sentimentos por ti são sinceros e apenas teem-se fortalecido com o passar dos dias e sei bem ser um contraste afirmar isto após ter tentado um contato maior com Frost. Repito, o fiz tão somente por ver-te nela – reitera, examinando minuciosamente o rosto da jovem – Não pergunte-me como, mas quando nossos olhares, dela e meu, se encontraram no palácio, foram os teus que vi. Quando a olhei mais de perto, foram teu traços delicados que enxerguei – declara, atrevendo-se acariciar a pele delicada e molhada com o dorso da mão, encantado -Ainda agora, estando assim, tão perto de ti, sinto como se ela também estivesse por perto – diz.
—Esta – Caitlin o surpreende, afastando-se sem, no entanto, quebrar o contato entre eles – Frost preocupa-se comigo. Protege-me. E eu a ela – revela, sorrindo pequeno – Se estou aqui, agora, se não te deixei esperando em vão, deves isto apenas a ela – afirma.
—Devo crer que irás me dar uma chance? Perdoaras minha atitude impensada e me permitiras te cortejar? -Thomas interroga, a esperança acendendo-se em seu peito.
—Não exatamente – responde, soltando-se dele, afastando-se um passo – Sustentas ser sincero teus sentimentos, mesmo tendo demonstrado interesse por ela, correto? – inquere, outra vez não o deixando responder – Pois bem, faço-te novo desafio – avisa, deixando-o tenso – Um mês – diz- Se dentro de um mês teus sentimentos forem os mesmos, se mantiveres o firme propósito em ter-me como tua rainha, aceitarei tua corte – decreta – Não achas justo a oferta? – pergunta ao notar o desapontamento estampado no rosto dele.
—Nada daria-me satisfação maior do que provar a milady o quanto já a amo – responde Thomas, fazendo-a baixar o olhar, encabulada – No entanto, não disponho tanto tempo – diz, ela o encarando de cenho franzido – Após o incidente envolvendo a feiticeira e a mim, o rei impôs-me uma condição para não me impedir vir a teu encontro – começa deizer, tentando segurar-lhe as mãos uma segunda vez, ela evitando, aguardando-o continuar sem nada dizer -Devo apresentar-me, perante ele e meus pais a princípio, contigo a meu lado, no prazo de um dia, caso contrário deverei firmar compromisso com a princesa Kara – completa, fazendo menção se aproximar, ela novamente o retendo com um erguer de mão.
Durante alguns segundos apenas se olham, perguntas mudas sendo feitas de ambas partes.
—Devo, então, relevar tua atitude e te acompanhar, cordatamente, ao palácio? Devo aceitar expor-me mesmo não tendo plena certeza do que sentes? – questiona, visivelmente magoada – Tu fostes inconstante, incapaz de abster-se uma nova conquista mesmo após fazer-me juras e devo ser eu a pagar por tal gesto? – indaga, recuando mais um pouco – Diga-me príncipe Thomas, não fosse Frost a envolvida, contar-me-ias o que fizestes? Devo, de fato, confiar em ti, no que dizes?
—Milady, eu não....
—Tens minha resposta – Caitlin o interrompe, assumindo uma postura distante, quase fria -Não mudarei uma vírgula sequer no que disse tampouco comparecerei perante o rei ou quem quer que seja com uma mentira em meus lábios! – exclama, elevando levemente a voz posto a chuvar, que amenizara um tempo, ganhar força novamente, o som da água chocando-se contra o solo e outros elementos ecoando ruidosamente – Não vejo motivos para crêr no que dizes. Não confio no que sentes por mim e não direi diferente ante vosso rei apenas para evitar que te comprometas com a escolhida por ele – reforça.
—Milady...- Thomas tenta nova argumentação, ela o cortando outra vez.
—Foram tuas ações a te porem neste dilema! Não servirei de fuga para que não sejas punido. Se não fostes capaz resistir uma dama, sendo ela parecida comigo ou não, em tão pouco tempo, então decerto estás enganado no sentimento que dizes nutrir....
—Não tenho dúvida alguma minha senhora – ele a corta, vencendo a distância entre eles com rapidez, surpreendendo-a ao segurá-la em seus braços – Milady...Caitlin, acredite em mim, vos rogo! -implora – Cometi um erro, admito, mas estou disposto a provar-te e a quem mais duvidar ser verdadeiro o que sinto....
—Prove!! – Cait desafia, apoiando as mãos em seu peito, empurrando-o sem muita convicção – Aceite o que lhe proponho e então veremos o quão verdadeiro é teu sentimento por mim! – sustenta – Um mês! Mantem-te fiel por um mês e aceitarei tua corte. Mais: apresentar-me-ei perante o rei sem que precises pedir. Irei por vontade própria tão logo nos reencontremos. Direi, perante toda a corte, se necessário for, estarmos comprometidos – promete, desistindo de lutar, aquietando-se entre os braços de Thomas, que a encara, sério.
—Não quero que faças isto por obrigação ou para cumprir um maldito acordo! – rebate, demorando-se um segundo a examiná-la antes de voltar a falar – Aceito o desafio — declara, por fim, os olhos brilhantes – Mas teremos um novo encontro antes que se finde o prazo. Vinte dias, a contar de amanhã. Nos reencontraremos aqui em vinte dias – determina, sem a soltar – E irás me procurar caso ouças algo a meu respeito. Não te deixarás influenciar por boatos e intrigas, seja lá quem os leve a teu conhecimento. É a minha condição. Aceitas? – que saber, ela anuindo com um aceno.
—Solta-me – pede, a voz saindo abafada e falha devido estar a sentir os efeitos da proximidade entre eles – Solta-me – repete, estremecendo quando o sente apertá-la mais em seus braços, entreabrindo a boca em um convite inconsciente ao buscar por ar.
—Soltarei, milady – ele diz, sem conseguir desviar o olhar da boca convidativa – Mas antes....- sopra, inclinando-se lentamente até tocar-lher os lábios trêmulos suavemente, nada além de um roçar, mas que tem o poder de fazer ambos estremecerem – Milady...Cait ...- sopra uma segunda vez, buscando permissão em seu olhar antes de tomar posse de sua boca.
O beijo, que começara lento e suave, rapidamente evolui para algo mais intenso, sedento, transportando-os a um mundo só deles. Logo, o bosque enche-se de uma névoa fina, fria ao mesmo tempo em que a jovem nos braços do princípe começa mudar a aparência.
Sem que perceba ou controle, Caitlin se deixa levar, baixando a barreira erguida e ao fazê-lo, dar espaço a Frost vir à tona.
Em um primeiro momento, Thomas nada percebe de diferente. Até que, repentinamente, sente como se todo seu ser esfriasse a começar pelos lábios. Era como se o calor lhe fosse sendo tirado aos poucos, dando lugar um frio intenso, porém antes que este se tonasse incômodo, sente-se aquecer outra vez para logo em seguida sentir-se gelar novamente.
Confuso, abre os olhos o suficiente para certificar-se ser Caitlin a quem beijava, um misto de medo e satisfação o tomando ao visualizar mechas brancas no cabelo da jovem, o brilho estranho por detras das palpebras dela lhe trazendo confirmação.
Inebriado pela descoberta, aperta-a mais contra si, aprofundando o beijo que segue alternando momentos quentos e frios.
Perdidos em novas e deliciosas sensações, sobressaltam-se quando o estrondo mais forte seguido de intenso clarão anuncia que a chuva forte tomava a forma de uma tempestade perigosa.
—Alteza! Temos de ir! – o chamado distante repete-se até, por fim, se fazer ouvir por ambos – Alteza! Precisamos partir. Agora! – Paul conclama, segurando as redéas dos animais, olhando em volta, tenso.
Devagar, separam-se, mantendo o contato visual até novo e mais forte relâmpago clarear todo o bosque, revelando duas figuras do outro lado da clareira, tentando, em vão, abrigar-se do aguaceiro.
—Alteza, por favor. Vos imploro. Precisamos partir o quanto antes! – Paul insiste, indo até Thomas, segurando-o e puxando-lhe o braço – Aconselho milady fazer o mesmo. É perigoso aqui – alerta, aumentando a voz de forma se fazer ouvir por Cisco e Ralph, estes vindo ligeiro ao encontro dela.
—Cait, temos de ir! – Ralph diz por entre o rugido dos trovões, puxando-a pela mão, conduzindo-a para uma pequena saliencia próxima, onde abrigam-se precariamente.
—Espere – Cisco pede ao ver ambos, Thomas e Paul, montarem, indo até eles –Sigam por ali – indica uma trilha a esquerda – Encontrarão um pouco mais de proteção e chegarão mais rápido ao palácio – afirma.
—Grato – Thomas agradece, dirigindo um último olhar a Caitlin antes de instigar seu cavalo mover-se na direção orientada por Cisco, este correndo ao encontro de Cait e Ralph.
—Irmã, tudo bem? – pergunta, preocupado, recebendo um olhar choroso e confuso em resposta – Foi o que pensei. Vamos. Precisamos de roupa seca e algo quente para beber – diz, abrindo um portal – Nona nos aguarda – avisa, fazendo-a entrar, ele e Ralph a seguindo em silencio.
Enquanto isso, Thomas e Paul cavalgam sob a tempestade, o segundo agradecendo mentalmente terem seguido o conselho dado pelo jovem camponês que os leva, seguros e rapidamente, de volta a muralha, fazendo uso do mesmo portão por onde saíram pela manhã, adentrando sem maiores problemas, o cavalariço os recepcionando com alegria.
—Graças aos deuses voltaram em segurança! – exclama o rapaz, aliviado, segurando as rédeas do cavalo de Thomas após este apear.
—O rei??? Meus pais???– Tommy pergunta, descalçando as luvas, olhar fixo nas janelas do palácio
—Todos dormem, até onde sei alteza – relata o cavalariço –Apenas a princesa Thereza surgiu a janela, a pouco, mas logo sumiu por detrás das cortinas – acresce — Nenhum outro vi quer seja nas janelas, quer no pátio — completa, segurando as rédeas do cavalo de Paul.
—Obrigado – Thomas agradece, caminhando em direção a edificação, Paul seguindo-o de perto.
—Alteza, como pretende cumpri o prometido a milady? – questiona o guarda, adiantando-se em abrir a porta, o príncipe estancando em meio a porta, o encarando.
—Não faço a mínima idéia, meu amigo – responde, sincero – Mas preciso e devo pensar em algo. E rápido — diz — Não posso e não vou perdê-la! Não agora que descobri me corresponder! – afirma, sorridente.
—Tenho para mim que vossa alteza descobriu um pouco mais neste encontro – Paul insinua, estreitando os olhos ao encarar o nobre, este levando o dedo aos lábios, sorrindo misterioso.
—Shiiii! – é a resposta dada pelo jovem antes de lançar-se rumo a seus aposentos.
—Resta-nos saber se tal descoberta trará bem ou mal para vossa alteza... E para nós – Paul murmura consigo mesmo, tomando a direção de seus próprios aposentos em reflexivo silencio.
Continua...

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