O príncipe
3 Capítulo 3
Notas iniciais
P.O.V Hyoga
O sol se pôs, escondendo-se por trás das grandes colinas e a noite logo chegou, trazendo consigo uma brisa fria, junto com o frio noturno, causando em mim um arrepio estridente na espinha.
As horas foram se passando e nada do Tritão aparecer…
— Onde você está? — Questionei para mim mesmo, fitando o relógio de ouro maciço no meu pulso. Meio apreensivo e ansioso, ainda faltavam alguns minutos para meia-noite e meu coração já não aguentava mais de tanta ansiedade.
Queria ver meu pequeno tritão de novo.
Os olhos esverdeados, numa mistura perfeita de pureza e inocência, vaga meus pensamentos, horas após horas. Aquela voz doce e aveludada, a todo momento penetrava meus ouvidos, me fazendo viajar nos meus doces devaneios.
Sentia desejo, luxúria, por aquele jovem Príncipe, o qual tinha conhecido a poucas horas atrás. Será que ele me enfeitiçou.
Me sinto apaixonado, fascinado e encantado, por aquela criatura linda, de cauda e nadadeiras.
Estava tão perdido nos meus próprios pensamentos, e nem vi algo mergulhando na frente dos meus olhos. Só ouvir o som d’água, causa pelo mergulho.
Logo, fitei a cachoeira, esperando encontrar meu jovem tritão, mas, não vi nada. Além de água e uma grande imensidão azul, por todos os lados.
— Procurando algo, humano? — Uma voz doce soou atrás de mim. Sobressaltei pelo susto, virando rapidamente para o lado e dando de cara com o Príncipe, sentado por cima da calda, numa rocha. Ele estava tão belo e atraente, com os cabelos jogados sobre os ombros, os olhos dele brilhavam, conforme o brilho da Lua, que batia contra sua pele alva e pálida, branca como a neve.
— Talvez você… Pensei que não vinha. — Sorri diante sua beleza, segurando sua pequena e delicada mão, selando os lábios de maneira educada e galanteadora.
Shun corou, suas bochechas ficaram levemente avermelhadas, mordendo o lábio inferior, afastando-se um pouco, até a beirada da Rocha.
Ele tinha medo de mim?
— Nunca descumpro minha palavra. Essa é uma das vantagens de ser um príncipe. — Ele me respondeu, fitando o nada ao nosso redor.
— Desculpe, não queria ofendê-lo… — Tentei dizer constrangido, mas, antes de terminar a frase, ele virou-se para mim, pousando o dedo sobre meus lábios, impedindo-me de prosseguir.
— Shi… Não peça desculpas. Eu que tenho que pedir perdão, por colocar sua vida em risco. — O príncipe resmungou de cabeça baixa. Ele parecia triste, se culpava por algo, não sabia o que.
— Por que estou correndo perigo? Você não me parece perigoso, muito menos tem cara de quem irá me fazer mal. — Questionei segurando seu queixo e o erguendo na minha direção, fitando suas orbes, esmeraldas, vendo meu próprio reflexo, refletido naquele mar de águas verdes.
— Meu irmão é perigoso. Ele é o rei, e está furioso com seu povo. — Respondeu voltando a abaixar a cabeça, brincando com os dedos, evitando-me.
— Porquê? O que fiz de errado? — Ergui as sobrancelhas confuso. Ele percebeu o tom da minha voz aflita e repouso a mão por cima da minha, passando paz e tranquilidade.
— Não é você em si, e sim sua espécie. Antes éramos muitos, os mares e rios eram banhados por sereias e tritões, vivíamos em harmonia com os animais e a natureza, não tínhamos medo e nem precisávamos nos esconder… Até — Fez uma pausa, com os olhos cheios de lágrimas, deixando algumas gotas desceram por suas bochechas. — Até que a matança começou, fomos massacrados, pelo simples motivo de sermos o que somos, seres mitológicos e raros. Perdi toda minha família, meus pais, meus avós, todos… — Ouvir tudo calado, limpando suas lágrimas, que teimavam em descer por seus lábios rosados e entreabertos, que tremia na mesma medida que as palavras saiam de sua boca.
— Os humanos são cruéis, que nos perseguem sem piedade. Por isso meu povo os odeia, assim como eu deveria te odiar… Mas… — Parou de falar, olhando no fundo dos meus olhos. — Mas, você é diferente. Seu coração é puro, não existe maldade. Agora entendes, por que tens que ir embora e nunca mais aparecer por aqui? Sua vida corre perigo… — Completou num tom melancólico, derrubando suas lágrimas grossas.
Agora entendia o motivo de tanto medo da parte dele.
Constrangido, abaixei o olhar, fitando as águas, envergonhado com meu próprio reflexo. Corria nas minhas veias, o sangue do “monstro” que o povo dele tanto temia. Por mais que eu não seja igual ao Camus e todos os outros pescadores/caçadores que acabavam com a vida marinha, ainda sou humano.
— Que foi? Disse algo de errado? — Questionou o Tritão, ao perceber a melancolia transmitida nos meus olhos. — Nem todos os humanos são maus, não precisa se culpar por algo que não fez. — Ele sorriu.
— Então, devo ir embora, para sua própria segurança, já que seu povo considera o meu uma ameaça. — Solucei sentindo as mãos frias e macias do Tritão, segurando cada lado do meu rosto, bem próximo do seu.
— Por favor, perdoe-me pela minha maneira de me expressar. Não deveria ter usado aquelas palavras horríveis, a respeito de seu povo… — Ele corou envergonhado. Aproximando ainda mais o rosto do meu.
Sentir sua respiração leve e suave tocando em mim, deixando-me completamente arrepiado.
— Então, como é ser um príncipe? — Sorri tentando mudar de assunto. Shun também sorriu, era óbvio que aquele assunto não estava lhe fazendo bem.
— Não é como você pensa. Daria tudo para ter uma vida de Tritão normal, sem deveres e obrigações, sem guardas reais me perseguindo por todos os lados.
— Deve ser um saco mesmo essa vida. — Exclamei. Sempre pensei que ser da realeza fosse legal, mas, agora pensando por esse lado, vejo que não é.
— E como é sua vida, humano? — agora foi a vez dele perguntar, de maneira doce e curiosa, aproximando-se ainda mais de mim.
— Mais ou menos… Moro com meu pai e meu irmão, numa chácara a poucos quilômetros daqui. — Respondi dando de ombros, mais interessado na sua calda brilhosa, que se remexia sem parar. Era coberta de escamas esverdeadas e parecia brilhar na luz da Lua.
— Você tem pai? Legal! — Os olhos dele brilharam, mas logo, se entristeceu— Nem cheguei a conhecer os meus. Eles morreram antes de nascer. — Completou de maneira abatida, brincando com as unhas.
— Cá entre nós, eu não queria ter conhecido meu pai. Ele é cruel… — O Tritão chocou-se com o que eu disse, e me fitou curioso, limpando as lágrimas do canto dos olhos.
— E o que seu pai faz?
— Ele é um monstro… — Respondi e senti Shun tremendo ao meu lado, de medo. — Ele queria que eu fosse igual a ele, mas, não sou.
— Ah... — O príncipe já ia dizer alguma coisa, quando o tempo começou a mudar e o céu encheu-se de nuvens negras, pingando de leve sobre nossas cabeças.
Shun arregalou os olhos mergulhando de volta na água.
— Tenho que ir embora, adeus. — Resmungou simplesmente afundando-se nas profundezas, porém, também pulei na água.
A água batia abaixo do meu tórax, mas, na medida em que me afastava da margem, ficava cada vez mais fundo. Agora, a correnteza arrastou-me de leve e alguns pontos, água até chegava na altura do meu pescoço.
— O que faz aqui? É perigoso, volte para terra firme. — O Tritão apareceu do nada, puxando meu braço e nadando de volta até a margem, arrastando-me consigo, até a Rocha, onde me sentei. Agora meu corpo estava encharcado, sentia frio, muito frio, meus dentes até batiam.
— Não vá embora! Por favor… Não me importo em morrer afogado, somente para te ver de novo. — Resmunguei tremendo de frio, abraçando meu próprio corpo. O Tritão ficou estático, sem reação.
— Não diga uma coisa dessa. — Resmungou em voz baixa, novamente dando as costas e se preparando para mergulhar, porém, segurei seu pulso, puxando o tritão contra meu corpo. Sentindo a maciez de sua pele molhada e fria, levemente escamada e seu rosto bem próximo do meu.
Fale com o autor