"Well, you only need the light when it's burning low
Only miss the sun when it starts to snow
Only know you love her when you let her go
Only know you've been high when you're feeling low
Only hate the road when you're missin' home
Only know you love her when you let her go
And you let her go"

Let her go- Passager

Estou em um parque. Ela corre e ri, sorrio do seu sorriso é contagiante. Ela corre e vem até mim.

—Mamãe

Ela sorri, eu amo seu sorriso.

—Você é tão linda

—Igual a você mamãe.

—Não princesa, você é a cara do papai.

—Eu acho que sou linda igual a você.

Sorri, o mesmo sorriso que o do Edu, beijo suas bochechas de bebê, passo a mão no seu cabelo, sinto seu cheirinho de bebê. Meu bebê, minha princesa.

—Te amo, princesa.

—Eu também mamãe, muito e eu te perdoo, tá. Eu sempre vou estar com você.

Me beija e sai correndo a chamo.

—Princesa.

Ela some, não a vejo mais. Ela se foi.

—Xiu, pronto meu amor. Pronto.

Minha mãe está com minha cabeça no seu colo, eu choro descontroladamente. Devo a ter acordado com meus gritos e sempre assim. Minha cabeça doí, minha garganta está seca. A claridade entra pelo vidro da sacada, alguém fecha as cortinas acabando com a luz. Continuo chorando no colo da minha mãe. Ela passa as mãos no meu cabelo.

—Está tudo bem, querida.

Levanto e sento na cama ficando de frente para mamãe.

—Não está, nunca vai estar.

Limpa minhas lágrimas.

—Eu sinto muito, juro que se pudesse eu diminuiria sua dor.

Seus olhos estão cheios de lágrimas, minha dor e sua dor.

—Eu sei, ela disse que me perdoava. Por que eu fiz? Doí tanto, mamãe.

Mamãe puxa me para seus braços. Embala me como quando era apenas uma criança.

—Hey.

Meu irmão entra no quarto, senta do meu outro lado. Saio dos braços de mamãe e vou para o colo do meu irmão.

—Tome isso.

Alcança me um comprimido.

—Não quero dormir, não vou perder seu noivado.

—É um remédio para a ressaca. Você é uma bêbada terrível.

—Sou nada, até fiz uma amiga. Aliás preciso ligar e conferir se o cara não era um serial killer.

Pego o comprimido, engulo o e mamãe me estende água.

—Estou lá embaixo qualquer coisa.

Mamãe vem até nós, beija nossas testas e saí.

—Edu disse que o cara era o melhor amigo dela.

Edu, suas últimas palavras flutuam na minha mente.

—Eu também, garotinha.

—Depois que eu apaguei, o que aconteceu?

—Eu te trouxe para a casa e a coloquei para dormir.

Ok, sem mais vexames então. Amém.

—Que horas são?

—Dez.

Sem chances de correr essa hora.

—Que horas é para os convidados chegar?

—Marcamos para meio dia. Está melhor?

Daniel pergunta e seca as últimas lágrimas.

—Vai passar.

—Hoje foi pior?

—Eu sonhei com a ela.

Olho para cima para não voltar a chorar.

—Eu sei, você gritava princesa.

—Ela disse que me perdoava.

—Você precisa conversar com Edu sobre isso.

Edu e eu nunca conversámos sobre o assunto, foi apenas duas mensagens. Ele foi embora e eu fiquei, eu me arrependi e ele nunca soube.

—Não sei se consigo.

—Emy, ele está acabando o curso. Vai voltar, cuidar da empresa do avô.

Eu imaginei que ele estivesse no fim do curso, afinal fazem cinco anos.

—Eu estive pensando em fazer um curso fora.

—Emy, você precisa parar de fugir.

—Não suporto o ver com aquela chata.

— Mary?

Aceno.

—Ele não está com ela.

—Não!?

Sou uma boba, mas fico aliviada, muito aliviada.

—Não, é uma amiga. Ela o ajudou e ele se sente agradecido, ela quer mais e ele não. Algo assim.

—Daniel, eu preciso fazer algo da vida. Não gostei de nada que comecei, e o Dr. Joseph acha que é um bom começo, talvez um mês fora.

Nos últimos cinco anos comecei faculdade de direito, odontologia, administração e fiz vários minicursos, nada me interessou. Nada conseguiu atrair minha atenção.

—Isso não era/é uma consequência da depressão?

—Sim, mas ele acha que já estou pronta para esse passo.

Dr. Joseph era meu psicólogo, o único que gostei e que consegui ir mais que cinco sessões, foram um número significativo de psicólogos nos últimos cinco anos.

—Depois de hoje não sei se ele está certo, você precisa conversar com Edu.

—Eu sei.

—Estou entrando.

Ally entra, ela realmente não gosta de bater na porta.

—Pode entrar. As pessoas costumam esperar o "pode entrar", sabe, antes de entrar no quarto dos outros.

—Dos outros sim, no da minha melhor amiga entro sim. Estou gata?

Ela gira, usa um vestido vermelho rodado, o contraste com a sua pele fica lindo.

—Até que está bonitinha.

—Está linda, boneca.

—Obrigada, príncipe.

Ally beija Daniel e senta do meu lado.

—Eca vocês dois.

Ally me aponta a língua, super adulta.

—Está tudo bem?

—Está. Agora vazem daqui, vão esperar seus convidados, enquanto a madrinha aqui, fica linda.

Os dois deixam um beijo na minha testa e saem, eu amo e odeio essa preocupação toda. Odeio que no dia do noivado de duas das pessoas mais importantes para mim, estejam preocupados comigo. Vou para o banho tento relaxar e esquecer a cena do sonho. Ponho um vestido azul quase do mesmo modelo que o de Ally, compramos os três vestidos parecidos com cores diferentes, as que mais realçam nossa beleza. Belle comprou um na cor rosa, ficou lindo na sua pele branca e cabelos ruivos. Sim, uma morena, ruiva e loira bem clichê. Verifico se realmente salvei o nome de Andy no celular, parece que sim, vou acreditar no meu talento de saber digitar mesmo bêbada e vou ligar. Poderia mandar uma mensagem no WhatsApp, ou Snapchat, quem sabe no facebook, porque eu a adicione em tudo mesmo, mas morreria esperando a resposta. Ligo.

—Alô.

Acho que alguém estava dormindo.

—Andy!?

—Quem é?

Pela voz é ela mesmo.

—Bêbada seu humor é melhor, hein.

—Emy!?

—Eu mesma, só liguei para saber se o gostoso não era um serial Killer.

— Ai porra, eu estou nua na cama do meu melhor amigo.

—Sério?

—Ai cristo, muito sério.

Escuto os barulhos e o som de uma porta fechando.

—Vim para o banheiro, eu fiz besteira Emy, socorro.

—O que você fez?

—Parece que ontem eu não tinha bebido o suficiente com você é fui beber com o Pietro e nós transamos, pelo que lembro. Ele é meu melhor amigo, o gostoso que me socorreu.

Ela parece chorar.

—Calma Andy, vocês beberam. Acontece.

—Ele é casado, ou quase isso. Socorro.

—Eita, mas se acalma. Conta essa história direito.

—Nós sempre tivemos uma quedinha um pelo outro, mas nunca deu em nada. Ele casou com uma vaca, puta, desgraçada filha da mãe. Estão se separando, mas ela está usando o filho e eu estava namorando até o pinto pequeno me trair. Eu sou uma amante.

Ela chora.

—Andy calma garota, vai achar uma solução.

—Obrigada, você é uma ótima amiga e bêbada.

—De nada, bora se encontrar amanhã? Preciso saber mais dessa história, mas hoje é noivado do meu irmão então amanhã.

—Isso, depois que sair do trabalho. Quero saber do seu príncipe, ele é lindo menina. No café shopping, do Iguatemi, ás seis é meia?

—Da manhã?

Poderia correr e ir para lá, mas acho que esse horário shopping ainda não abriu.

—Não sua tapada, tinha que ser loira. Da tarde.

—Ok, esperta.

—Então tchau, preciso resolver essa situação. Beijos buzz.

—Buzz?

—Já que eu sou o Andy você é o buzz.

Rio, essa garota é maluca.

—Bye Andy.

Desligo o telefone, termino de me arrumar e quando enfim desço já tem alguns parentes e amigos da Ally e Daniel pela sala, aonde seria recepção. Segundo eles era um almoço para a família, acho que é família era maior que nas minhas contas. Vou até Belle.

—É aí como vai a resseca?

Belle fala rindo

—E o primo da Ally, tem pegada?

Belle fica vermelha.

—Você está vermelha, o que fizeram para que fique vermelha?

Começo rir da minha amiga que cada vez fica mais vermelha.

—O que está acontecendo para nossa "eu nunca fico vermelha" estar vermelha?

Allyssa chega tão surpresa quanto eu.

—Parece que tem a ver com seu primo bad boy.

—Não acredito.

—Seria lindo, assim minhas duas melhores amigas seriam minha parente. Shippo, super shippo, shippo muito. Ai meu Deus.

Ally parece com alguém que recebeu um doce.

—Menos vocês duas por favor, a noite só foi bem interessante.

Belle sempre foi a que mais fala, conta detalhes, sem papa na língua e agora está estranha, quieta demais.

—Emy olha o pescoço dela, tem base no pescoço. Está escondendo o que, hein? A noite de alguém foi caliente.

Começamos a rir descontroladamente.

—Posso saber o que as donzelas estão rindo tanto e Belle você está bem?

Daniel chega com Luís e Edu, começamos a rir mais ainda. Belle está quase em pânico. Depois de muito tentar e voltar a rir conseguimos se recompor.

—Meu bem nem tente saber, papo de mulheres.

Allly diz ao meu irmão. Eu e Ally olhamos de Luís para Belle e voltamos a rir. Paramos quando Mary chega.

—Oi meninas.

—Hey Mary.

Comprimento, Ally faz o mesmo.

—Como está a ressaca Emy? Parecia bem mal ontem.

—Estou legal, obrigado pela preocupação.

—De nada. Edu, querido, me apresenta a seu pai e sua mãe?

—Pra quê Mary?

—Quero só os conhecer.

Edu parece meio contrariado, mas sai com a vaca. Daniel e Ally saem para recepcionar alguns convidados, Belle e Luís sussurram e Belle fica vermelha, esses dois. Recebo uma mensagem.

Andy: Pílulas do dia seguinte funcionam?

Fecho os olhos, não acredito que ela me perguntou isso. Não sei o que responder, não consigo pensar em nada a não ser na garotinha que eu matei. No aborto que eu fiz, no meu arrependimento. Não que a situação fosse a mesma, ela só ia ingerir uma pílula nada comparado ao que eu fiz, mas não consigo não relacionar.

Eu: Acho que sim.

—Filha, está tudo bem?

Minha mãe está linda em um vestido longo florido.

—Está sim, está linda.

—Certeza? Parecia meio perdida e está maravilhosa também.

—Sim mamãe.

Dona Bianca se aproxima, beija minha mãe e me beija.

—Saudades querida.

Bianca é tão linda quanto o filho. O mesmo sorriso. Melhor sogra que alguém poderia ter, sinto sua falta.

—Também sinto.

—Você sabe quem é essa Mary?

Fala enrugando o nariz, falei que era a melhor.

—Não, parece que uma amiga do Edu.

—Sei, sabe né vocês poderiam voltar.

Para os pais de Edu apenas terminamos nunca souberam o porquê, no início nem meus pais sabiam até aquele dia. Minhas amigas, Dan e Edu sabiam, apenas eles e apenas eles sabiam do que fiz. As vezes sonho com o olhar de decepção que meu irmão me olhou quando o contei, foi muito mais que por achar que não deveria ter feito, foi como fiz. Sorrio.

—Sem esperanças, vou ao banheiro, licença.

Preciso de ar, ficar longe de todos. Vou até o jardim e sento na espreguiçadeira perto da piscina, mesmo que sorria, que brinque, nada impede do que do nada a dor me domine, que as lembranças e arrependimento tomem conta de mim. Eu fiz um aborto, eu não pensei apenas fui e fiz, não contei para meu namorado, nem família, achava que era a melhor decisão, eu só não pensei que pudesse se arrepender.

—Eu sei do que aconteceu.

Viro para a voz irritante. Mary.

—Quer um prêmio?

—Você não o merece, é um monstro sabe né?

Levanto, ela se aproxima, ficamos frente a frente do lado da piscina. Quem essa garota pensa que é?

—O que você quer, Mary?

—Edu, eu o quero, E você deveria o deixar em paz, teve sua chance.

—Pegue o então, vai fundo, pelo que eu soube ele não quer você.

—Questão de tempo, queridinha.

Garota chata, não vou responder pelos meus atos.

—Boa sorte.

—Aliás obrigada por ser uma assassina, sabe. Ter matado seu filho. Deu me uma chance com o Edu e garanto não vou desperdiçar.

—Qual seu problema, hein?

Ela sorri.

—Só porque estou dizendo a verdade? Ou não acha que é isso que todos pensam de você? Uma criminosa, assassina, um monstro. Acha que Edu não sente nojo de você? Caí na real, Emili, você é uma pessoa horrível.

Lágrimas querem descer, eu sei que Mary está tentando atingir e não deveria a deixar conseguir, mas ela está jogando na minha cara tudo aquilo que eu mesmo penso. Recuso a deixar que veja minhas lágrimas. Seu olhar é de vitória. Respiro fundo.

—Recado dado, queridinha.

Ela vira se para sair.

—Espere, Mary.

—O que foi?

Então a empurro a na piscina, não importa o quão as palavras dela tenham me afetado, ela não vai saber o quão concordo com ela.

—Opa, desculpa queridinha.

Tradução- A deixou ir, Passager

Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol, quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixar ir
Só sabe que estava bem quando está se sentindo pra baixo
Só odeia a estrada quando está com saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixar ir
E você a deixa ir

Notas finais
BJS