Reluto em expressar terríveis acontecimentos em papel triste e branco, mas hoje vos escrevo em memórias insólitas sobre o porquê de minha loucura, enquanto os redijo a palavra minha memória naufraga em um mar de insanidade. Eu acabara de me mudar para as ruas escuras da cidade, se não me falha a memória o lugar teria sido construído em cima de escombros de um velho hospital, a casa branca, era assim que os vizinhos a chamavam, dois andares e o segundo me servia de ateliê; Em geral era um lugar tranquilo, apenas pintores e compradores transitavam por ali, eu na época pintava como um demônio no seu último suspiro de angústia, um quadro por dia – Produção excepcional – Foi o que um jornalista publicou na sua coluna de artes, mas por algum motivo ao me mudar para a casa branca minha produção tinha aumentado, assim como uma criatividade aterradora, toda noite era açoitado por pesadelos terríveis, crianças sendo devoradas por criaturas apavorantes e esposas sem marido que eram estupradas repetidas vezes por demônios sorridentes, mas eu pintava, era o que eu sabia fazer, as tintas pareciam ser mover e formar pouco a pouco uma figura no quadro. Certo dia ao acordar vi dedos pintados com tinta vermelha em um quadro, não me recordava de ter pintado aquilo, me irritei ao pensar que uma das crianças da rua conseguira acesso ao meu ateliê, por razões desconhecidas por mim meus quadros passaram a ser uma coisa melancólica, eu pintava como um estorvo, e agora as cores corriam daquele lugar, era tudo cinza e triste. Azul escuro, um pouco de cinza, pobre homem, pobre homem, escuro, passadas leves. Era tudo abstrato, novamente eu acordei e dessa vez tinha uma mão pintada em vermelho no quadro, desta vez me enfureci e fiz queixa com as mães dos moleques de minha rua, e novamente eu comecei a pintar, tudo ainda jazia preto e branco, jamais pensara que como pintor sentiria tal frustação, queimava uma fornalha infernal de aborrecimento em meu peito. Vermelho-sangue, amarelo, maldita velha, maldita velha, um pouco de cinza, pobre homem, triste iluminação. Ao despertar vi a silhueta de um rosto pintada em vermelho-escuro em um de meus quadros, não poderiam ser as crianças, as pessoas pararam de transitar por ali, tudo soava como um velório e meus passos eram pesados, tão pesados que pareciam afundar no chão; Foi quando meu coração ardeu em chamas e minha cabeça foi tomada por tamanha dor que parecia que tinham aberto os portões do inferno em minha cabeça, senti meus olhos se revirarem para dentro. Cinza-escuro, pobre encapuzado, infernal. Quando acordei percebi que o a luz da lua iluminava o meu ateliê, e um quadro em especial me chamou atenção; um grupo de três pessoas circundavam um cadáver, um homem velho de pele enrugada, era semelhante a um morador de rua, a diferença era que usava uma blusa social azul com botões preto, ao seu lado tinha uma velha com vestido de cetim amarelo, parecia ter sido bela, pois vi a beleza aprofundada com a idade, sua boca estava manchada de sangue, entre os dois estava um homem encapuzado com um sorriso apavorante, e o cadáver, bem...O cadáver era eu, estava hasteado em uma mesa com olhos mortos, em minha mão direita eu ostentava um bilhete com letra arranhada, era uma data. Hoje vos escrevo porque a data se cumpre, e tudo que ouço são batidas em minha porta.

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