O peso de uma escolha.

9 Reflexão de mudanças.


Notas iniciais
Espero que estejam gostando.

A noite fria revelava que poderia haver uma manhã chuvosa no dia seguinte, por sorte Elisa não iria à aula. Detestava ter de usar um guarda chuva, sempre se molhava toda e sentia-se uma pessoa desastrada com tal objeto em mãos. Respirou um pouco aliviada. Era tarde e o irmão dormia. Seu estômago a impedia de fazer o mesmo. Somente naquele dia ela se deitou no lado oposto que geralmente dormia. Já que como a cama ficava encostada na parede, o irmão a prendia entre ele e a mesma. Até nisso ele a incomodava. Só que naquela noite estava livre para se levantar e caminhar tranquilamente sem ser notada. E assim o fez. Quando chegou à sala se surpreendeu com o pai ainda acordado, sentado na mesa da sala de jantar devorando um bolo, que outrora, ficara na geladeira.

— Elisa, junte-se a mim. — ele pediu quando avistou a filha. Carlos havia tomado um ânimo novo, estava mais jovial e menos distraído. Um fio de esperança lampejou na mente da menina. Que sorrindo aceitou o convite.

Sentou-se do lado do pai na mesa e lhe foi servido um pedaço pequeno de bolo e um copo de leite morno.

— Eu coloquei pouco. Já que se seu irmão souber é capaz de brigar conosco. — ele disse em tom de brincadeira.

— Realmente ele brigaria. — completou pegando um garfo a esmo. — Está feliz com o emprego?

— Demais, eu quero parar de beber. Essa depressão em que eu entrei me destruiu e eu sinto que perdi vocês. — ele estava realmente sendo sincero. Tanto que parou de comer e olhou nos olhos da filha. Que não desviava o olhar já que buscava no fundo do seu coração o amor e alegria que sentia quando as coisas iam bem.

— Fico muito contente com isso pai. Eu tenho de admitir. — ela disse cortando o bolo. — Sinto falta dos dias em que nossa família era unida. Não tínhamos essa desunião ou esse descontentamento que temos hoje em dia.

— Eu sei Elisa. Querendo ou não eu fui o culpado de tudo. — ela o fitou novamente surpresa. — Não adianta eu querer omitir isso ou jogar a culpa na sua mãe. Quando eu perdi o meu emprego, eu perdi a minha vitalidade, a minha alegria e a força de vontade que me impulsionava. Fui fraco e deixei nosso mundo cair.

Elisa não quis interromper o pai, no fundo ela sabia que ele precisava dizer tudo aquilo para se sentir melhor, para lavar a sua alma e conseguir rumar adiante.

— Nunca é tarde para se mudar. Os sonhos estão sempre ali. Bastar ter fé neles novamente. — a garota disse sem desviar os olhos do bolo que cortara em pedaços.

Carlos ficou olhando a filha. Como ela amadurecera. Não era mais a sua garotinha. Esses anos fizeram dela uma mulher precoce. Ele se arrependia em parte. Mas sabia que podia contar com Elisa para o seu progresso, contando Ehtan era quem o preocupava. A atitude do rapaz mudava constantemente deixando-o a cada dia mais nervoso em relação a isso.

— Elisa é tarde, você devia estar dormindo e não comendo coisas que não devia. — o silencio da noite e a tranquilidade da conversa foi interrompida pelo garoto que fitava os dois em seu lanche noturno.

— Isso não tem problema, Ehtan, venha se juntar a nós também. — o homem disse com um sorriso.

O garoto apensas deu uma risada ironicamente baixa e balançou a cabeça em tom negativo.

— Não obrigado, eu não estou com fome e nem com disposição de aturar as suas crises de bom pai.

— Veja como fala comigo garoto. — Carlos se sentiu ofendido, porém não tinha raiva do filho, muito pelo contrário. Sabia que o caminho até o coração dele seria o mais difícil possível.

— Vamos Elisa, eu não vou chamar novamente.

A garota olhou para o prato intocado, estava um pouco cansada de sentir medo do irmão, mas ao mesmo tempo tinha o peso da gratidão caindo sobre suas costas. Procurou as palavras necessárias para sair daquele impasse.

— Ehtan eu estou com fome. Dessa vez eu quero comer isso, mas prometo a você que assim que terminar eu subo e vamos dormir. Quando você melhorar vamos retomar as nossas caminhadas ou tentar alguns outros exercícios, mas por enquanto eu...

— Tá. — ele interrompeu se virando e indo embora. Ela sabia que ele não brigaria com ela sem um bom motivo, sabia também que precisaria mimar o irmão um pouco.

— Obrigada Ehtan, você sabe que eu amo você. — ela disse por fim enquanto o garoto já estava no meio das escadas.

Ele sorriu e subiu mais tranquilo. Aquelas palavras eram mágicas e tinham poder.

A sós novamente, Carlos soltou um suspiro de alivio.

— Eu percebi o quanto esse rapaz é controlador, tem certeza de que está tudo bem? Se precisar eu posso tentar falar com ele.

— Pai, por enquanto, deixa que eu cuide do meu irmão. Não é por toda vida que eu vou poder fugir disso. Como também do meu corpo. Eu sei que vai ser doloroso e eu não tenho estima alguma para conseguir, mas eu pelo menos vou tentar...

— Semana que vem vamos a uma nutricionista. Creio que com a orientação de um profissional tudo vai ficar mais fácil.

— Eu agradeço.

Depois de comerem o bolo a menina deixou os pratos na pia a pedido do pai, que prometeu que iria lavar. Ela ainda perguntou se ele realmente faria o ato, pois sabia que se a mãe visse a louça suja pela manhã ela seria castigada. Ele garantiu que faria.

Já no quarto Ehtan não estava dormindo, mas sim deitado de bruços.

—Você demorou muito. Sabe que eu não consigo dormir sem você. — ele disse sem olhar a menina.

— Desculpe, eu realmente precisava comer alguma coisa. — ela disse sentando-se ao lado dele. Novamente acariciou os cabelos do irmão que ficou quieto.

— Não faça mais isso, por favor. — ele tossiu um pouco e virou-se para o lado da parede. Ela por sua vez deitou ao lado do rapaz e em pouco tempo dormiu.

O dia seguinte era esperado pelo garoto. Ficaria o dia sozinho com a irmã.

O pai acordou bem cedo e antes de sair, chamou a filha, que por coincidência estava descendo as escadas. Ele trazia presentes para a filha.

— Elisa vem aqui. — ele chamou mostrando o que estava encostado na parede.

Ela não ofereceu nenhuma objeção e sentou-se na cadeira na mesa que lhe foi puxada para tal proposito.

— Eu lhe comprei uma balança e um espelho novo.

— Para que tudo isso pai?

Carlos sorriu e começou sua explicação.

— A balança é pra você acompanhar o seu peso semanalmente e o espelho, esse é bem maior do que o que você possui no seu quarto. Assim você vai poder se olhar inteira e ver em você o que precisa mudar. Creio que quando estamos a par da situação fica mais fácil corrigir o que tem de ser corrigido. — ele levantou e pegou os presentes. Elisa recebeu com um sorriso e logo subiu para guarda-los.

Quando estava nas escadas o pai a chamou:

— Seu café da manhã esta pronto coma com seu irmão. — ele disse apontando pra mesa, que havia dois pratos cobertos.

— Obrigada pai. — ela sorriu e continuou sua caminhada. No seu íntimo ela queria seriamente que o pai continuasse com a sua mudança, ele estava cada dia melhor, cada dia mais amoroso. E isso era muito importante. Aos poucos ela sentia que as nuvens que cobriam o seu mundo poderiam por fim se dissipar. Assim ela pensava inocentemente.

— O que é tudo isso? — o irmão a surpreendeu quando ela entrou no quarto.

— Uma balança e um espelho novo. — ela disse colocando a balança em cima da cama, que ainda estava bagunçada. O espelho ela estava começando a desembalar sobre o olhar vigilante do irmão. Era lindo. Parecia de princesa, com lindos adornos e tinha mais ou menos um metro e oitenta. Por ser pesado deixou a garota ofegante, pelo esforço que fizera de subir aqueles pertences ao andar de cima.

Ela colocou o objeto em um canto especifico. Ele tinha apoio, então ficou na posição correta rapidamente.

— É lindo. — ela disse podendo se mirar.

Logo sua alegria minguou. Ela pode analisar a si mesma. Sempre evitava espelhos ou qualquer superfície que a refletisse. Fechava os olhos ou não olhava para elas. Tinha uma sensação péssima ao se ver refletida, porém naquele instante, quando notou no que se transformara se sentiu deformada. Lembrou-se de quando era mais magra, das roupas que usava. Ela se sentiu mal. As memórias de como ela era ativa, mais alegre e confiante a socaram no estômago com força. Quis desviar o olhar, mas não o fez. Era uma realidade que ela precisava encarar.

Notas finais
Opiniões?