O peso de uma escolha.

1 Ela só queria ouvir o som de um elogio.


Notas iniciais
Olá a todos, espero que apreciem essa nova trama que eu estou fazendo. O contexto é diferente e eu espero que possam opinar seriamente sobre ela.

Faltavam poucos segundos para ir a escola, ela respirou fundo, sentiu que seus pulmões fossem explodir. Respirar ficava difícil com o crescente nervosismo que sentia. Olhou no espelho e a roupa preta que sempre usava não era o bastante. Estava gorda. E mesmo que tentasse sorrir ou colocar maquiagem não daria certo. Sentia-se feia e sem atrativos. Os cabelos comuns cacheados, o castanho pálido, a pele parda, os quilos a mais. O nome que achava ridículo. Elisa caminhou até a porta e a encarou como se fosse um monstro. Nunca saia para nada. Não andava com amigos, pois não os tinha. Tentou ignorar os sussurros do irmão que estava em pé atrás dela.

—Vamos Elisa. Eu também preciso passar. — ele dizia sem pressa. Sabia dos problemas que a irmã tinha. Apenas um metro e meio de altura, noventa quilos. Estava no que chamavam de obesidade mórbida. Não queria sair. Não queria encontrar as pessoas maldosas da escola.

Queria se esconder em seu quarto, em seus livros. No seu pequeno mundo ao invés de encarar a realidade dos fatos que se seguiam.

— Vamos Elisa. — ele insistiu, não podia chegar atrasado.

— Seu mundo é perfeito, o meu não. — ela disse por fim abrindo a porta. Sentiu o sol de fevereiro queiram-lhe o rosto. Lágrimas sorrateiras lhe escorriam pouco a pouco. Estava na hora de ir. O irmão passou por ela apressado, deixando-a em seu passo lento e descompassado.

A cada dia era difícil andar, os seus tornozelos pareciam que iriam quebrar a qualquer momento. O peso excessivo trazia condições de tortura a um simples ato que era realizado por qualquer um no dia a dia. Tinha vontade de gritar e parava a cada cinco minutos. A escola não ficava longe. A apenas quatro quarteirões de casa, mas era uma tortura para ela. A dor era crescente e o suor que se seguia por seu corpo a deixava nervosa, olhando para os lados com medo de que alguém a olhasse e achasse que era não era higiênica. Usava uma mochila enorme que insistia em colocar na frente a fim de esconder a aparente gordura do seu abdômen. Por fim chegou ao seu local de destino. Suspirou aliviada, o sinal ainda não tocara. Caminhou até a sala, a ultima cadeira e lá ficou. Sabia que seus dias eram atordoantes, mas tinha de frequentar aquele lugar. Observava as colegas de classe, lindamente arrumadas. Cabelos longos e coloridos. Corpos atléticos e bem estruturados e ela. Apenas aquilo que se podia ver. Apenas uma garota gorda.

Adriana, sua melhor amiga vinha em sua direção alegre, provavelmente iria falar do seu namorado. Sempre era assim. Comentava como ele era lindo, como ele era legal, como ele era magro. Ela sentia muita inveja da garota. Sentia raiva e vontade de manda-la calar a boca, mas como era a única que se aproximava de bom grato ela a mantinha ali. Fingindo sorrir, sempre ouvindo, sempre comentando, sempre aguentando.

Os outros aproveitavam-se da inteligência dela. Pediam os deveres emprestados e ela cedia. Era assim que conseguia algumas conversas habituais. Era assim que conseguia se achar integrada à aquele meio ridículo que se entranhava dia após dia.

— Bom dia Elisa. — Adriana cumprimentava sentando-se logo a frente, cabelos loiros, piercing na orelha, muito gloss, muita soberba escondida.

— Bom dia. Vamos me conta, como foi ontem. — a garota abriu um sorriso enorme. Amava as perguntas mentirosas de Elisa. Parecia precisar daquilo como precisa de oxigênio.

Ali se iniciaria sua narrativa torturante. O rosto permanecia inalterado, naquela mascara que criou para si. Logo a aula começara. Os noventa quilos precisavam ser alimentados, a fome corroía o seu ser.

Queria sair correndo dali e poder enjerir o máximo de comida até que não coubesse mais.

Queria sentir-se saciada. Mesmo que depois chorasse como sempre fazia, mesmo que depois, fosse dormir para esquecer o que sentia. Era um ritual, uma marca. Um maneira ridícula de seguir.

Não adiantava, era sempre o mesmo.

— Está bonita hoje eim? — era Lewis. Ela sempre achava uma mentira descarada os elogios do garoto. Sempre achou.

— Obrigada, não é verdade. — sempre desviava o olhar. Era um dos únicos garotos que falava com ele sem vir pedir alguma coisa. Ela amava o tom da sua voz. Mas não queria dizer, nem muito menos admitir isso.

O garoto tinha uma namorada, uma das mais bonitas garotas que ela já vira. E a mesma não ligava quando ouvia o garoto elogiar a menina. Para ela Elisa não significava nenhuma ameaça. Não significava nada.

Sempre buscava beijar o garoto quando estava perto de Elisa, sempre queria mostrar para ela que não era nem ao menos uma pessoa significante.

Elisa sempre saia de perto. Não por não gostar do rapaz. Mas por se sentir sempre mal por estar em público. Ehtan, seu irmão mais velho odiava o bulling que via a irmã sofrendo. Ele era o garoto popular da escola, sempre acompanhado de garotas bonitas, que muitas vezes, tratavam Elisa como um animalzinho de estimação, com o único intuito de bajular o rapaz. Ele nunca foi burro, ele sabia. Entendia que eles estavam apenas sendo gentis por conveniência. Mas assim sendo procurava brincar com elas. Iriam ver. Iriam pagar. Seu pensamento era sempre o mesmo.

Sentia ódio daquela indústria da perfeição. Quando olhava no espelho se sentia apenas mais um produto dela e olhando para a irmã via o mesmo.

— Vamos embora. — ele dizia arrastando-a pela mão.

Ela respirava com dificuldade, como ele podia fazer isso? Ela estava cansada. Não acompanhava o ritmo dele e ele percebia isso. Pararam. Ele sentia fome, mas não podia apenas comer na frente dela. Isso causaria um sofrimento a mais.

— Ehtan, estou cansada, vou ficar por aqui e descansar um pouco. Pode ir na frente que logo lhe alcanço. — Era sempre a mesma coisa.

— Eu te espero. Não quero chegar em casa e ver aquele bêbado desocupado de novo.

O pai deles bebia constantemente. Estava desempregado a quase um ano, a empresa falira e pusera todos os seus funcionários na rua, sem direitos. Como ela alegou na justiça falência, por lei, não precisava pagar os direitos necessários. Ele entrara em uma depressão por não conseguir mais emprego em sua área. Era cartógrafo. A mãe dos dois trabalhava como corretora de imóveis. Sempre chegava cansada e irritada, brigava com o marido o dia inteiro e quando olhava pra Elisa dizia sempre palavras ríspidas com ela.

Sempre estavam a um fio da separação, mas isso nunca acontecia, Carlos o pai deles nunca deixava.

— Entendi. — ela baixou a cabeça e se sentou ao lado dele.

Notas finais
O episodio de hoje foi mais uma introdução, para que possam conhecer um pouco mais Elisa. No decorrer da história, poderão ver o quanto ela sofre e quem realmente é esse irmão que parece perfeito.