O perigo mora ao lado
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Keira só latia por dois motivos: Quando queria que eu brincasse com ela e quando tinha alguém na minha porta.
Ela era como meu sensor e campainha.
Estava adorando ter ela, me distraia, me protegia e eu não poderia pedir algo mais.
Havia colocado todas as proteções nas janelas e no fim de semana o chaveiro veio para trocar minha fechadura.
Eu estava dando a água ao moço quando Dante apareceu atrás de mim.
–Você não precisa fazer isso – Disse com pesar, próximo de mim.
Antes mesmo que eu pudesse me virar, só vi Keira correndo para pegar Dante. Eu me joguei no chão antes que ela o mordesse e a segurei firme.
–Keira não! Não Keira! – Disse tentando segurar ela, mas ela queria morder Dante a todo custo.
O chaveiro olhava tudo assustado e me deu espaço para passar com Keira, eu a prendi e ele disse que havia terminado.
Eu o paguei e ele foi embora, Dante continuava a observar-me enquanto eu testava a nova fechadura, eu evitava seu olhar todo o tempo. Assim que vi que a nova fechadura estava funcionando bati a porta com força e a tranquei, acionando também as travas de segurança.
Soltei Keira e ela foi logo para a porta, e ficou lá rosnando baixinho.
Eu precisava fazer a mala de Dante, entrega-lo a aliança. As roupas dele ainda estavam na minha casa, ele não havia retirado nada. Coloquei tudo em uma mala e pus a aliança na caixinha. Peguei a mala e a coleira de Keira e saí de casa.
Bati na porta de Dante e deixei a mala em sua porta e saí para passear com Keira.
Dois dias depois uma carta foi deixada na minha porta.
Ela sempre será sua,
Dante.
A aliança estava dentro.
Um mês depois...
Keira latia diversas vezes de madrugada e algumas vezes quando eu estava em casa. As vezes que via a sombra de Dante na porta, ele também bateu algumas vezes e me chamou, mas eu não atendi.
Eu não lhe dava a oportunidade de me ver, a última vez que ele me viu estava colocando a fechadura e foi somente este dia.
Houve duas vezes de acordar de madrugada com Keira latindo para as janelas, ambas as janelas tinham escadas de emergências, eu estava tão paranoica que colei adesivos pretos nelas e coloquei várias coisas de vidro em cima do batente caso elas fossem abertas eu seria alertada.
Essas não foram às únicas coisas que eu fiz, agora dormia com uma faca debaixo do meu travesseiro, andava com spray de pimenta na bolsa, só saia de casa sem a Keira quando ia trabalhar... Apesar de que eu não estava saindo.
Eu estava toda enrolada financeiramente. Todas as coisas que comprei no cartão, móveis e eletrodomésticos da nova casa ficaram para eu pagar, não pedi ajuda para Dante, não queria e não podia. Tudo que eu pude cancelar eu fiz, mas muitos eu não consegui cancelar, nem trocar os locais de entrega.
Eu liguei para as empresas para saber o que tinha sido entregue, se alguém recebeu e pelo visto estavam. Dante estava fudendo minha vida recebendo as entregas, ele ia a casa somente para isso! Mas se ele pensou que eu iria falar com ele por isso, reclamar, ele estava muito enganado, não daria esse gostinho a ele. Se fosse me foder, seria em silêncio e sozinha.
Eu estava fazendo cortes de gastos em tudo possível, comprava só o básico de comida, tirava as coisas das tomadas antes de sair, ficava sem aquecedor... Mas estava sobrevivendo.
–Srta. Delacour? – Perguntou o advogado pelo celular.
–Olá senhor MaKenzie, qual são as novidades? – Perguntei me sentando no sofá.
– O Sr. De La Torre finalmente contratou um advogado e fez sua petição pela casa.
–Ah! Então são boas noticias! – Disse animada, tudo estava sendo resolvido.
–Na verdade não... – Respondeu com pesar – O senhor De La Torre não quer comprar a sua parte e está disposto a vender a parte dele por 350 mil dólares.
–O QUE? – Gritei atônica – Mas isso é o dobro do que estava oferecendo!
–Exatamente senhorita, estava dizendo isso ao advogado dele, mas ele tem bons argumentos. A senhorita tem que se lembrar de que a casa já está totalmente construída e que o terreno possuí dois hectares, nessas ultimas semanas os valores dos imóveis tem estado bem valorizados... – Respondeu calmamente.
–Meu Deus... MaKenzie o senhor é o melhor advogado nesta área, precisa fazer com que eles diminuam o preço! Eu só estou querendo comprar a parte da casa dele! Não ela inteira! – Digo exasperada.
–Eu sei, senhorita Delacour. Estou vendo que eles estão cobrando um preço alto demais, a senhora me contou que se separou do Sr. De La Torre, ele deve estar pedindo este preço por raiva e por isso eles estão demorando para agilizar. Trabalhar com ex-casais tem sempre alguma complicação... – Murmurou.
Depois de conversarmos mais eu desliguei.
Mais isso que Dante está atrasando minha vida...
***
–Senhorita Clair! Senhorita Clair! – Gideon gritava me chamando, o porteiro.
– O que houve? – Perguntei entrando no prédio, fechando o guarda-chuva.
–A Keira não parava de latir hoje! Ficou assim o dia inteiro! Nós ficamos preocupados pensando que algo tinha acontecido com a senhora! O Sr. De La Torre entrou no seu apartamento para ver se estava tudo bem com a senhora...
–O QUE? – Gritei – Ele entrou? – Disse e subi correndo até meu apartamento.
Quando cheguei à minha porta ela estava entreaberta, eu a empurrei e ela se abriu vagarosamente, mas não estava arrombada.
Dante estava sentado no meu sofá, totalmente à vontade, olhando para mim.
–Estava esperando você chegar, você demorou hoje... – Disse friamente.
A primeira coisa que vi foi Keira deitada na sua caminha, o focinho dela estava amarrado com a própria coleira e ela estava presa, chorando baixinho.
Eu corri até ela e comecei a tirar a coleira do seu focinho.
–Sua cachorra me irrita... – Disse Dante me observando.
Eu estava chorando, Keira me vendo chorar, começou a me lamber, chorando também.
–Está tudo bem garota, está tudo bem... – Murmurava fazendo carinho nela.
Dante se levantou e se sentou no braço da poltrona perto de mim.
–Nós precisamos conversar – Disse calmamente.
–Nós não precisamos fazer nada! Já deixei tudo claro! – Disse raivosa, segurando Keira.
Dante olhou furioso para a cachorra, depois falou comigo.
–Você poderia me dar atenção? Largue essa cachorra e fale comigo direito – Ordenou.
–Não! Já disse que não quero falar com você! Saia da minha casa agora! – Eu disse furiosa, olhando para ele com nojo.
Dante soltou o ar pesadamente e ajeitou seu cabelo, prendendo seu olhar sobre o meu.
–Clair... Por que não podemos conversar direito? Você sabe que eu ainda te amo mesmo você tendo me abandonado.
–Por que não quero falar com você! Não quero te ver! É um lunático igual ao seu pai! – E olhei dentro de seus olhos – Você sabe apenas como me dominar, não importa o que você faça não me fará ama-lo novamente – Disse firme.
–Você só sabe me ofender, não é? – E se levantou, olhando para mim – Acho bom você não continuar me irritando Clarisse, você não vai me querer como seu inimigo – Disse friamente, usando meu nome original.
Dei um olhar mortal para ele e me levantei, ficando da altura dele.
–Vá embora! – Disse baixo com a voz gélida.
Dante pegou meu queixo e me puxou para frente, me fazendo urrar de dor. Ele lambeu meu rosto e falou contra meu ouvido.
–Você é minha, não vai ser de ninguém – E mordeu meu rosto, pressionando mais ainda meu queixo – É só uma questão de tempo até que eu acabe com essa brincadeira – E me empurrou, me jogando na poltrona.
Peguei o jarro de vidro e lancei contra ele, mas ele bateu no jarro com o braço o lançando para o outro lado. Dante foi até a porta, mas parou e se virou para mim.
–Eu pensei que você fosse uma mulher de palavra... Você disse que me amava e que sempre estaria comigo, mas você é uma mentirosa. Mentirosos devem ser castigados – Disse com o olhar tresloucado de ódio.
Eu que estava tremendo de raiva parei e fiquei boquiaberta com as palavras dele.
Dante saiu batendo a porta e eu me levantei para tranca-la. Corri pela casa vendo se ele havia mexido em algo, mas estava tudo como tinha deixado. Catei o vidro no chão e fui ver Keira, ela ainda estava no canto dela, chorando baixinho.
–O que ele fez com você, Keira? – Sussurrei passando a mão por seu pelo.
***
Naquela noite Keira não latiu.
Durante a manhã ela parecia melhor, correu pela casa, rasgou outra almofada e ficou deitada no sofá me vendo ir para o trabalho.
Na hora do almoço fui até o banco pagar algumas contas e encontrei com Jace Ross, o agente que falou comigo sobre o trabalho e acidente de Dante.
Parecia que anos haviam se passado desde então, tudo havia mudado completamente.
Jace Ross caminhou em minha direção, sorridente e apertou minha mão.
–Clair, como vai? – Disse espontâneo como sempre.
–Ah... Vou bem e você? – Disse gaguejando um pouco, olhando para os lados, não sabia se ele estava me observando.
–Bem... Está procurando por alguém? – Perguntou Jace.
–Não... – Respondi.
Estou vendo se tem alguém me procurando.
–Hum... Ah! Sobre que você e o agente De La Torre vão se casar! Meus parabéns! – Disse animado.
–Ahãm? – Disse arfando bem alto e ele ficou surpreso – É isso que ele anda dizendo? Quando ele te disse isso? – Perguntei quase histérica.
–Semana passada... O que houve?
Eu balancei a cabeça horrorizada e pus a mão na boca.
–Jace Ross eu terminei com ele a mais de um mês! Eu descobri que ele é louco! Ele me perseguia! Me espionava! – Disse sem fôlego.
Jace me puxou para um canto e pediu que eu o explicasse isso direito, assumindo o papel de agente.
Saímos da agência e fomos almoçar em uma lanchonete próxima do banco. Ele me pediu todos os detalhes do que havia aconteceu, ele ficou tão chocado que nem sabia o que dizer.
–Clair... Eu vou relatar isso aos meus superiores, ao psicólogo do FBI, não vai ser fácil, tenho que dizer para você. Dante também é psicólogo e ninguém vai acreditar muito em mim quando eu disser isso... – E suspirou com raiva – Mas é minha obrigação relatar quando um agente está agindo contra um civil, nós temos que ficar atentos aos nossos companheiros... Muitos voltam traumatizados de algumas missões, tem crises de pânico, não conseguem segurar mais uma arma... Ou começam a matar – Comentou seriamente.
Eu engoli a bile.
–Acho que ele está fazendo o mesmo que o pai dele... Pesquise sobre o passado dele! – Respondi.
–Eu vou fazer isso – Comentou e depois me olhou – Clair, você tem uma arma?
–Não...
–Acho que você deveria providenciar uma por via das dúvidas – Disse calmo, mas havia algo frio em sua voz – Também quero ver essa caixa que você pegou, posso mostra-la aos meus superiores.
–Eu vou providenciar isso... – Comento pensando na arma – Eu posso dar a caixa, você se lembra onde é minha casa? Pode ir busca-la?
–Lembro sim, posso passar lá hoje para busca-la?
–Pode! Aqui meu celular... Ligue-me qualquer coisa – Digo anotando meu número em um papel.
Jace pagou a conta, mas antes de sair falou comigo novamente.
–Tome cuidado Clair – Disse sombriamente e saiu.
***
Naquela noite Jace foi à minha casa e ficou chocado com tudo que havia na caixa. Ele pegou seu celular e começou a falar com um amigo dizendo sobre alguns documentos que tinham.
O que me chamou a atenção foi quando ele disse:
“Esse arquivo não é algo que qualquer civil conseguiria, os superiores vão ter que reconhecer isso”.
E desligou o telefone.
–Clair – Me chamou – Guarde bem essa caixa, o dia que eu precisar vou vir busca-la. Meu amigo está me ajudando a montar um documento para uma petição de investigação e averiguação sobre o agente De La Torre e uma análise clínica sobre ele. Hoje depois que você falou comigo eu investiguei sobre os pais de Dante e você tinha razão, ele está agindo igual ao pai.
–Eu sei... – Murmurei e fiz carinho na cabeça de Keira que estava deitada sobre minha perna.
Jace se sentou na minha frente e me olhou com pesar.
–É difícil acreditar que um agente do FBI, alguém que fez psicologia esteja agindo assim, como os psicopatas que investigamos... Ás vezes os filhos seguem os passos dos pais, mesmo sabendo que é errado, ele sendo psicólogo sabe que é errado, mas ele deve ter um trauma por causa da infância, então mesmo com todo estudo isso pouco importa – Comenta Jace.
–Você já olhou para ver se não há nenhuma câmera ou escuta na sua casa? – Perguntou gentil.
–Já... Olho quase todos os dias – Respondi.
–Tudo bem... Não se preocupe Clair, nós vamos cuidar disso, eu e meu amigo sempre notamos algo estranho no Dante... – Comentou – Sinto muito por você ter que passar por isso.
–Eu também... Mas vejo isso como uma lição, logo tudo vai melhorar – Digo e ele sorri se lembrando das minhas palavras no hospital.
Jace colocou a mão no meu ombro com companheirismo e se levantou, fazendo carinho em Keira.
–E você garotona fica de olho em tudo! – Disse Jace para Keira.
Eu o acompanhei até a porta.
–Meu número está em cima da mesa, Clair – Disse Jace olhando para a porta de Dante. O corredor estava em um silêncio mortal – Fique atenta – Disse e saiu.
Fiquei observando ele ir embora e depois fechei a porta, isso não iria terminar nem tão cedo.
***
Jace agora sempre estava me mandando SMS perguntando como eu estava e me avisando sobre o andamento do documento e a conversa com a diretoria.
E cada vez mais eu ficava isolada em casa.
Tinha um medo danado de sair de casa depois da ameaça de Dante.
Eu só saia para ir ao trabalho.
***
Acabei ficando presa no banco, gerentes de outras filiais vieram fazer uma reunião. Sai do banco com muito cuidado, a rua estava coberta pela neve e meus pés estavam congelando.
O senhor Gideon me cumprimentou na portaria totalmente agasalhado, eu acenei de volta e subi correndo as escadas para me aquecer.
Abri as portas e chamei por Keira.
–Keira? Cadê você menina? – Chamei carinhosa, acendendo as luzes – Mamãe trouxe biscoito... Keira? – A chamei novamente e nada.
Será que ela estava fazendo xixi?
Fui até o banheiro e nada, quando cheguei ao cantinho dela na sala comecei a gritar em pânico.
–NÃO! NÃO! KEIRA! – Gritava desesperada, sem parar.
Meus gritos se misturavam as batidas na porta, às chamadas de Dante. Mas eu não conseguia parar de chorar e mexer em Keira tentando que ela se mexesse.
–Clair! Clair! O que houve?! Deixei-me entrar! – Dizia Dante em desespero.
–Não! Não! Deixe-me em paz! Só me deixei em paz... – Murmurei caindo no chão chorando.
***
Demorei muito tempo para conseguir parar de chorar, para raciocinar.
Limpei meu rosto e me inclinei para fechar os olhos de Keira, seu corpo já estava duro, mesmo assim eu beijei sua cabecinha e me levantei.
Estava saindo uma espuma branca da boca dela... Ela não tinha comido nada de diferente para isso, muito menos para morrer com as patas dobradas, cachorros só morrem assim quando tomam veneno... Não fui eu quem deu veneno a ela.
A única coisa que me lembro é de estar batendo na porta de Dante, ele não demorou para atender.
–Foi você, não foi? – Perguntei alucinada assim que ele abriu a porta.
–Clair... – Ele murmurou com pesar – Você estava chorando... – E me puxou para dentro, fechando a porta.
–Foi você, não foi? – Disse novamente, eu estava em choque.
–Eu o que querida? – Disse acariciando meu rosto, mas eu me afastei, mesmo assim ele veio atrás de mim novamente.
–Senti sua falta... – Murmurou beijando minhas lágrimas, limpando-as do meu rosto.
–Você deu veneno a ela, não foi Dante? Por que você fez isso? – Perguntei com a voz chorosa.
Dante respirou profundamente e segurou meu rosto com as mãos.
–Eu disse para você que ela me irritava... – Disse normalmente e meus olhos se arregalaram — Sabe? O que aquela cachorra tinha de irritante ela tinha de gulosa... – Comentou sorrindo – Quando você começou a gritar, você me assustou! Não sabia que você se importava tanto com aquele animal...
Eu me afastei de seu toque e me aproximei da porta, não conseguia respirar direito.
–Eu te avisei para não me irritar, Clair... Colocar minha própria agência para me investigar? Eu não esperava isso de você – E se aproximou de mim, tentando tocar em meu rosto, mas eu desviei – Você precisava entender quando eu digo para você não fazer algo, é para não fazer querida... – E riu amargamente – Eu pensei em deixar aquela cachorra na frente da sua porta! Mas eu achei que teria mais impacto deixa-la morrer no canto dela, não acha? Foi um gesto bondoso meu – Disse Dante firme.
As lágrimas começaram a cair novamente e eu falei com a voz embargada.
–Por que está fazendo isso comigo? Como pode ser tão cruel? – Disse chorosa, todo meu corpo tremia de medo.
–E você não foi comigo? Esqueceu de tudo que já me disse? – E começou a ficar furioso – Você quebrou a promessa de que ficaria comigo! Clair... Se você não vai ficar comigo, você não vai ficar com nada e com ninguém... Eu nunca vou deixar que você consiga comprar a casa e vou matar todos que se aproximarem de você... – Disse simplesmente, suspirando entediado.
–Você está completamente louco! – Digo transtornada, procurando o ar em meus pulmões.
–Sempre fui só você foi tola o suficiente para não perceber – Disse Dante. Foi como tomar um tapa na cara – Estou sendo cruel com você da mesma forma que você foi comigo, querida. Só que eu sou um pouco mais radical que você. Ah, mais uma coisa antes de você sair... Isso tudo vai terminar quando você voltar para mim.
Eu abri a porta e saí apressada daquele inferno, mas Dante não tinha terminado.
–Não se esqueça de por a aliança, querida!
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