Notas iniciais
Adivinhem quem ganhou outra recomendação? Mim! Eu! Eu! Só eu! MAUAHAHA Sambei, só digo isso. 2 Bejos. Para Isaah Marques

Não sei por quantas horas eu andei.

Também não sei o que me levou a andar até a casa... Mas quando eu olhei para ela eu desabei sobre a grama encharcada, atônica. A casa era o maior símbolo do que eu havia perdido, junto com o equilíbrio da minha vida.

Enquanto eu olhava para ela me permiti ter os piores pensamentos de tudo, geralmente eu evitava pensamentos negativos, pois atraiam coisas negativas, mas agora? Estava tudo ferrado e louco, tudo podia ser possível.

Entender como Dante chegou aquele ponto de loucura é algo que nem consigo compreender, por um lado eu percebia que ele estava fazendo o mesmo que o pai dele, mas como posso dizer... Com um pouco mais de tecnologia e ideias de perseguição?!

Agora tudo ficava claro...

Por que ele sempre me queria perto dele. Não gostava quando eu saia sozinha. Às vezes não se surpreendia quando eu dizia ou contava algo. Não gostava quando eu o surpreendia. Por que ele quis que nossos nomes estivessem na escritura da casa...

Ele queria que eu tivesse no seu controle, sobre sua observação, que ele fosse o único a receber minha atenção e carinho. Ele não se surpreendia por que sempre ouvia minhas ligações, sabia onde eu estava... E quando eu, apesar de todo esse controle, o surpreendia ele surtava! E quando via que eu fiquei magoada com ele fazia de tudo para reverter à situação, e agora tem a questão da casa...

Eu não pude deixar de rir para o céu chuvoso.

Como a vida pode ser tão irônica e perversa!? Eu devo ter feito algo muito ruim na minha vida passada para isso...

Eu investi TODAS minhas economias nesta casa! Todas! Trouxe vários móveis meus, gastei meu cartão, usei minha poupança... Se eu tivesse setenta dólares na poupança seria muito. Nem dinheiro agora eu tenho para conseguir me livrar dele e me mudar para o outro lado do país ou voltar para o meu.

Ele estava morando na minha casa! Sabia todos meus dados, tinha controle por onde eu ando e com quem falo.

Eu estava presa a ele.

Sufocada por ele... Exatamente como Cecília.

O plano perverso dele funcionou, ele entrou em minha vida, fez com que eu perdesse o controle de tudo, está na minha casa, está comigo na escritura da casa, ele queria estar unido a mim em todos os sentidos e conseguiu! Graças a idiota aqui que não percebeu nada antes, que esperava a porra de um final feliz.

Agora vocês imaginam se eu tivesse me casado com ele!

O controle que ele quer sobre mim seria pior, teria vindo mais cedo. Olhei para o anel em meu dedo e vi que estava certa... Aquele anel era um símbolo de prisão, da minha submissão a ele.

–Mas nada disso vai acontecer – Murmurei para mim mesma e a chuva começou a cair.

Corri até a casa e entrei, mas continuei a observar tudo para ver se ele não estava ali.

Assim que entrei me abracei por causa do frio e olhei para casa vazia. A madeira rangia a cada passo que eu dava enquanto passava pelos cômodos. Eu estava cansada, dolorida, com frio e com fome quando cheguei ao quarto principal, abri o tapete felpudo que havia comprado e me deitei sobre ele, encolhendo em posição fetal.

Então me permiti chorar.

Não havia amor ou dor da perda. Apenas a desilusão, a minha própria decepção por tudo, mas principalmente por saber que estava sozinha, que não havia ninguém nesta merda de país que poderia me ajudar. Eu não tinha mais meus pais, meus amigos estavam longe, estava sozinha novamente.

E adormeci sobre minhas lágrimas.

***

Acordei com os sons de trovões, me desvirei e olhei para o céu, não havia como saber que horas eram. Minha pele estava gelada, mas não havia nada que eu pudesse fazer, só tinha que ir embora.

Da casa até a estrada eram cerca de 15 minutos andando, escolhemos a casa em um lugar distante e isolado, agora eu percebia que ele iria me manter presa aqui, isolada do mundo. Abracei-me e saí da casa sem olhar para trás.

Consegui um taxi na estrada e pedi que ele me levasse ao bairro de Dante, o motorista ficou preocupado comigo e me fez várias perguntas, mas eu as respondi vagamente, só pedi que ele ligasse o aquecedor ao máximo.

Para minha sorte meu carro ainda estava ali, com a chave em cima do banco do motorista. Peguei minha bolsa e paguei o taxista, olhando para a casa. Meu corpo estava todo dormente de frio, mesmo assim entrei, precisava pegar aquela caixa.

Assim como ontem eu entrei e fui pegar a caixa, tudo estava no mesmo lugar e graças a Deus nenhum sinal daquela velha.

Coloquei tudo dentro do carro e dirigi de volta ao apartamento. Eu não sabia se Dante ainda estava lá, mas se estivesse eu o colocaria para fora.

Estacionei o carro e peguei daquela caixa a única coisa que eu não queria que ninguém soubesse, que eu nunca quis saber. Coloquei o envelope dentro da blusa e subi pelas escadas.

Quando estava abrindo minha porta, a porta de Dante começou a abrir também e eu entrei correndo, apavorada. Tranquei tudo e coloquei uma cadeira para impedir que ele entrasse, e fiquei olhando a porta. Eu estava tão apavorada que jurava que ele estava ali, atrás da porta, mas ele não bateu ou disse qualquer outra coisa.

Fiquei uns dez minutos esperando algo acontecer, mas não houve nada. Corri para o banheiro tirar minhas roupas molhadas, tomando um choque violento por causa da diferença de temperatura. Coloquei várias peças de roupas, principalmente meias e comi tudo que vi pela frente.

Eu sabia que tinha que ficar de vigilância e acertar algumas coisas, mas eu precisava dormir em um lugar quente.

Passei à tarde do domingo inteiro dormindo e acordei no susto, com a sensação que alguém me observava, mas não havia ninguém. Andei pela casa inteira, olhando as trancas e as janelas e tudo continuava fechado. A porta do meu quarto estava fechada, mesmo assim olhei debaixo da cama e dentro do guarda roupa, talvez eu estivesse ficando louca mesmo.

Verifiquei se meu telefone de casa ainda funcionava e pelo visto sim, também observei se havia alguma câmera pela casa, passei o dia atrás dela, mas nada. Não consegui achar nada e me sentei no sofá frustrada, foi então que vi o envelope.

“Pais biológicos”.

O titulo ainda me assustava, mesmo assim eu precisava ver o que ele encontrou, o porquê dele ter procurado por isso.

Respirei fundo e meus olhos encheram d’água mesmo antes de eu abrir.

–Mãe, pai... Perdoem-me – Sussurrei a abri o envelope.

Li tudo com calma, com atenção, a vontade de vomitar se misturava com a vontade de chorar, mais tarde eu fiz os dois.

Meu nome era para ser Clarisse Dislakvíc, Clair deveria ser um apelido. Eu nasci na Bulgária, minha mãe biológica era da Bulgária, Lydwia, era seu nome, havia uma prisão por prostituição, mas pelos papeis seu emprego era de garçonete; Meu pai biológico era Tcheco, Nicholas, era seu nome, um traficante de drogas medíocre, cheio de passagens pela policia, inclusive por agressão doméstica.

Que belos pais eu tinha!

Pelo menos eles me registraram!

Pelos documentos que eu tinha em mãos, minha mãe biológica me levou para o Canadá quando eu tinha apenas seis meses e ela veio sozinha. Seus registram acabam ali, um ano e meio depois ela morreu por overdose.

Com dois anos eu fui para o orfanato de Montreal e essa história eu conheço. Minha data de nascimento era a mesma, peso, cor de cabelo, olhos, tudo batia com os registros da Bulgária.

Mas o que mais me surpreendeu é que meu pai biológico ainda poderia estar vivo! A ironia do destino que várias vezes eu tinha escutado dos amigos que eu tinha traços das mulheres da Europa oriental e era verdade.

Havia uma foto da minha mãe e do meu pai e... Deus! Como eu parecia com ela! Os mesmo olhos e cabelo de cor inigualável, o nariz aquilino e o rosto quadrado eram como do meu pai.

Estranha essa sensação, não acham? De saber de onde você vem, com que você parece... Apesar de tudo eu fiquei feliz em saber quem eles eram, saber por que sou assim hoje. O reconhecimento, a verdade e o esclarecimento clarearam algo dentro de mim que nunca soube que precisava.

Fiquei horas observando seus rostos, pensando como eram suas vozes, seus sotaques, seus cheiros, o que gostavam de fazer... Assim como qualquer outra criança do orfanato fazia, algo que eu tanto criticava, era incontrolável a vontade de conhecê-los, de imaginar como eles eram.

De toda essa situação a única coisa que poderia tirar de valor era essa informação.

Coloquei as fotos deles em um porta-retratos, os dois podiam estar mortos agora e parecia errado que ninguém se lembrasse deles ou orassem por eles, mesmo eles tendo me abandonado ou serem o que foram, ninguém merecia ser esquecido.

Com as fotos de todos meus pais ao meu lado da cama eu pude dormir em paz naquela noite.

***

Quando estava indo para o trabalho deixei o carro em uma oficina.

–O que a senhorita precisa? – Perguntou o senhor robusto entediado.

–Eu preciso que vocês troquem a fechaduras das portas por outras e preciso que vocês achem um rastreador dentro do carro – Digo em um fôlego só e ele se surpreende.

–Um rastreador?

–Isso. Eu já procurei, mas não encontrei, eu preciso que vocês encontrem! – Digo firme e entrego a chave – Olhem e mexam em tudo, mas, por favor, encontrem – Peço.

–Tudo bem... Isso é tudo?

–Sim – Digo – Estou contando com o senhor, no final do dia o carro estará pronto?

–Sim, mas vai ser mais demorado achar o rastreador – Diz e vê meu semblante – Mas nós vamos encontrar! – Se apressa em dizer.

–Tudo bem – Respondo suavemente e saio.

Aproveitei a manhã tranquila para mandar um e-mail explicando tudo para Julie e pedindo que ela me mandasse o número de seu celular novamente e fiz esse mesmo pedido para todos meus amigos por e-mail, eu precisava dos telefones deles em caso de alguma emergência.

Julie também tinha me enviado um e-mail, ela estava na Coreia do Sul a trabalho e estava aproveitando para rever seus avós, ela só iria voltar daqui a duas semanas, então só Deus sabe quando ela iria me responder.

Na hora do almoço comprei um novo celular e um novo chip. Nunca agradeci tanto na minha vida as empresas de cartões de créditos.

Perguntei ao meu gerente se ele conhecia algum advogado especialista em compras e vendas de imóveis compartilhados e ele me deu um número, tratei de acertar com o advogado naquele mesmo dia e mandei os dados da casa para que ele pudesse fazer o documento.

Estava disposta a vender minha parte para Dante ou comprar a parte dele, seria só por isso que entraríamos em contato.

Eu poderia denuncia-lo por perseguição, pela violação dos meus dados com o poderio público, por espionagem, por utilizar sua posição como funcionário do governo contra um civil... Mas tudo isso eu precisaria denuncia-lo, vê-lo varias vezes, contratar outro advogado, mas eu não estava disposta a vê-lo, nem escutar sua voz e não tinha dinheiro para tal.

Também não poderia pedir uma medida cautelar, pois somos vizinhos e eu não tenho dinheiro para me mudar. Sem contar que ele ficaria com raiva se eu fizesse isso, e estremeço só de pensar o que ele poderia fazer se estivesse com raiva de mim. Além de tudo isso, havia o fato também de ele ser um agente do FBI a lei sempre ficaria mais do lado dele, principalmente por eu não ser americana.

Antes de sair do banco pedi um empréstimo que o banco proporcionava aos funcionários, eu precisava de dinheiro para qualquer eventualidade.

Quando cheguei da oficina o senhor robusto que me atendeu caminhou apressadamente até mim, pude ver de longe que eles estavam colocando as portas novamente.

–Senhorita, nós conseguimos encontrar o rastreador do seu carro quase agora! Tivemos que tirar o capô para acha-lo! Ele estava próximo dos fios do seu carburador – Disse e me entregou uma placa preta de metal, do tamanho da metade do meu dado – Pedi ao meu neto para que pesquisasse o modelo e ele me disse que era uma tecnologia sueca, que envia a localização do carro para o satélite, que envia para o computador ou para uma rede, dependendo de como ele foi configurado – Disse ofegante.

–Ah... Entendo. Muito obrigada – Digo de coração e o senhor assente.

Joguei o rastreador no chão e pisei inúmeras vezes, até não conseguir ver mais as pecinhas.

Paguei uma pequena fortuna ao cara da oficina, mas me sentia cada vez um pouco mais libertada de todo aquela loucura.

Passei em uma loja de ferramentas e comprei vários cadeados e travadores de janelas, o homem da loja ficou me encarando.

–Me mudei para um lugar perigoso... – Joguei conversa fora.

Passei em um chaveiro e marquei um horário para ele no apartamento trocar todas as fechaduras, enquanto saia da loja passei do lado de um pet shop.

–A senhorita não estaria interessada em adotar um cachorro? – Perguntou a moça do pet shop com um olhar carinhoso.

–Ah, não sei... Eu nunca tive um animal – Murmuro com pesar. Tinha um dó de animais, nunca quis um por que sabia que eles um dia morreriam e isso iria acabar comigo.

–Ah, mas dê uma olhadinha na loja! – Disse animada, cara eu odiava vendedoras...

Ela pegou minha mão e fez questão de me levar até os filhotes, mas o que me chamou a atenção foi à cadela grande presa em um canto.

–E ela? É de vocês? – Pergunto.

–Ah... Não... – Disse com dó e fez carinho na cadela – Ela foi abandona pelos donos... Moça? A senhora está chorando?! – Disse espantada.

–Ah! Desculpe... – Digo secando as lágrimas – Ninguém merece ser abandonado – Comento e me agacho – Oi querida... – Digo fazendo carinho na cadela e ela me derruba de bunda no chão, lambendo meu rosto, fazendo eu e a vendedora cairmos na gargalhada.

Eu não saí do pet shop só com ração e uma caminha, também sai com aquela cadelinha.

–Vem garota... – Digo a chamando para sair do carro – Hum... Qual vai ser seu nome, em? Que tal Keira? Você tem uma carinha de Keira – Começo a sacudir seu rosto e ela balança seu rabo para mim.

Segurei bem sua corrente e peguei as bolsas, não pegaria Keira no colo! Ela pesa uns 20 kilos! Ela é um cachorro buldog, de tamanho médio, gordinha, cheia de dobrinha.

Soltei a corrente dela e apostamos quem chegava primeiro, é claro que ela venceu... Eu gostava de como ela sempre olhava para trás para ver se eu estava a acompanhando, não latia e sempre que eu me aproximava ela se inclinava para brincar comigo.

Assim que cheguei ao meu andar, não havia ninguém do corredor.

–Keira você tem que me alertar se tem alguém vindo, okay garota? – Sussurro perto dela e beijo seu focinho.

Ela se sentou no canto onde eu coloquei minhas bolsas e eu peguei o martelo que tinha comprado.

Tive que dar vários pulinhos até conseguir quebrar aquela câmera de vez.

Chega de me espionar! Ele não me viria mais entrando ou saindo de casa.

Depois de pegar a câmera, era questão de segundo até ele aparecer. Então eu e Keira corremos para dentro de casa, tranquei a porta e deslizei por ela rindo.

Era engraçado quebrar as coisas, só não era pela situação.

Coloquei a cadeira na porta e fui ajeitar o cantinho da Keira, que por algum motivo desconhecido fez das minhas almofadas de brinquedo.

–Não Keira! Brinquedo não! – Dizia tentando puxar a almofada da boca dela.

Depois que desisti de tentar competir com força com ela, Keira começou a vasculhar a casa, mas com a almofada na boca, vitoriosa.

Enquanto eu tomava banho ela andava pela casa, só ouvia o som das patinhas dela andando pela casa, era engraçado.

Jantei, coloquei a ração dela e jornal no banheiro para que ela fizesse xixi e fui dormir.

Keira fez questão de se deitar sobre meus pés, mas eu não me importei, fiz carinho no barrigão dela e adormeci logo em seguida.

***

Keira estava latindo e latindo alto.

Aos tropeços levantei e segui o som até a sala, ela estava em frente da porta, latindo e rosnando enlouquecida.

–Xiiii... Está tudo bem garota... – Murmurei baixinho e a puxei para o sofá comigo.

Até quando isso iria durar?

Eu sabia que era ele que estava atrás da minha porta.

Depois de vários minutos Keira parou de rosnar e se deitou sobre minhas pernas, sem tirar os olhos da porta.

–É garota... Parece que somos eu e você agora – Murmuro fazendo carinho em sua cabeça.

Notas finais
Que pais a Clair tinha não acham? Eu gostei de como ela agiu em relação a isso, ela foi muito boa e justa. E detalhista quanto as precauções contra ao Dante. Agora quero fazer uma aposta.... Quem vai acertar o próximo capítulo?