Notas iniciais
O tempo estava se distorcendo nos barulhos irritantes de um relógio de parede, aquele barulho chato que girava certificando-se o passar das horas, cada minuto não me importava mais, ele não somava e sim subtraia. O destino me questionava, mas eu só estava imóvel em uma cama de hospital. A tensão derretia minhas pernas, como a dor lastimável, o medo e a questão que nunca ia embora, se tudo acabaria bem? Eu não tinha certeza.
- Você é Sally Cardin, não é? Está sozinha? – A enfermeira olhava em meus olhos com pena.
- Sim, estou...
- Vou trazer seu diagnóstico daqui a pouco, tudo bem?
- Sim, claro! – Meu olhar se diria para baixo, ela saiu da sala.
Eu fui tudo, aventureira, exploradora, viva e agora me tornei apenas uma garota, parecida com um brinquedo quebrado imobilizada naquela cama. Devo assentir que eu nunca fui à pessoa mais importante desse mundo, mas me doía na alma ver-me sozinha e abandonada. Onde estavam as pessoas que eu precisava naquele momento? Os meus amigos que me juraram amor e carinho. Era apenas eu contra uma parede branca de hospital.
Agora podia recordar cada lembrança que passava diante de meus olhos, o momento que subimos a doce colina que costumávamos chamar de "lar das flores amarelas". Alma e Neville se posicionavam diante de mim, ela me observava com aqueles claros olhos cor de mel, ele em um estilo mauricinho, com o cabelo arrumado e um suéter.
- Então hoje é o dia que você é liberta, não é mesmo? – Alma tentava dizer essas palavras com a maior seriedade possível.
- Sim, eu quero! – Disse rindo.
- Sério mesmo? Olha, a liberdade exige grandes reponsabilidades e... – Neville tentava atrapalhar.
- Se liberdade exigisse grandes responsabilidades não se chamaria liberdade, seu bobo. – Alma o interrompeu, fazendo-o se calar, ambos não paravam de discutir, mas éramos um trio como nenhum outro.
- Então pronta para fazer seu pedido, Sally?
- Claro!
- Então pegue esse dente de leão, sopre e faça seu pedido!
- Isso funciona mesmo? – Perguntei olhando para os dois, que me observavam como se eu fosse estúpida.
- Se crianças acreditam é porque funciona. – Neville arrebatou.
- Mas crianças acreditam em papai Noel e...
- Você ganhava presentes de natal, como sabe que não era dele? – Alma sempre tinha uma resposta na ponta da língua.
- Tudo bem... – Soprei com toda minha força, dando um longo monólogo a mim mesma, inaudível para os outros, então boa parte do dente de leão voou em direção ao rosto dela. – Fiz!
- O que você pediu? – Ele perguntou.
- Se ela disser não vale, tem que guardar para si mesma e só contar quando se realizar. – Ela respondeu rindo da cara dele.
Foi um dia bom, estava sol, porém, não nos queimando e sim fazendo-nos abrigar debaixo de lindas arvores que se abriam diante da luz, corremos uns atrás dos outros e sentimos algo de nossa infância voltar. Alma e Neville eram meus melhores amigos, eu os amava mais do que tudo, e agora, me estabelecia calmamente olhando para minha perna, minhas lágrimas desciam.
Viajamos muito, lugares que para nós pareciam inatingíveis tivemos o prazer de alcançar, músicas do David Bowie e Come on Eileen tocava no volume máximo a cada vez que entravamos no carro. Meu coração batia ao lado deles, pulamos em cachoeiras e lagos, subíamos em arvores e aproveitávamos suas frutas. Contudo, o que mais me deixava em paz era saber que eu os tinha do meu lado.
- Ei pessoal, querem ver como mergulho bem? – Neville ia para o topo de uma pedra, pronto para se lançar na água.
- Mostre para nós... – Alma dizia rindo.
- Acho que não é uma boa ideia, pois... – Antes que eu pudesse finalizar, ele já tinha pulado, saindo da água gemendo. – Por causa disso!
- Ei Nevi, desde quando você tem essa camisa vermelha? – Alma olhou morrendo de rir da barriga vermelha pelo impacto com a água.
Ambas morremos de rir aquele dia enquanto ele nos olhava torto. Muitas vezes nosso carro nos levava a cidades contínuas, onde dormíamos em barracas em meio a postes e parques infantis, alguns dias apenas estradas de pedras, em meio a fazendas, lugares onde não éramos invisíveis e sim muito bem abrigados. Se eu tinha um sonho, ele estava se realizando.
Foi uma idiotice, eles se importaram tanto comigo e eu falhei com eles, agi feito uma idiota. Subi até lá e disse:
- Se vocês não se importam, eu vou sozinha! – Eles me olharam assustados.
- Pelo amor do pai, Sallly, desça daí! – Alma gritava em desespero.
- Por favor... – Neville completou.
- Não, me deixem em paz! – Estávamos em conflito, alguns dias se passavam e eles pareciam desanimados, não queriam ir para lugar nenhum e só pensavam em dormir, problemas que deixamos para trás pareciam os seguir. Eu estava farta disso. – Escolhi os amigos errados para isso!
- Sally, não fale assim! – Gritou Neville.
- Vocês são um bando de babacas! — Neste momento senti meu pé escorregar, cai e senti a dor na perna, antes de bater a cabeça e desmaiar.
Por isso eu estava ali fadada a ficar naquela cama de hospital, acordei ali, sozinha, meus amigos tinham me deixado, pois os magoei. Eu nunca quis dizer aquelas coisas, foi na hora, eu estava irritada com o mau humor constante, então tudo o que eu podia fazer era observar coisas brancas. Móveis brancos. Paredes brancas. Lençóis brancos. Roupa branca. Culpa escura como uma nuvem de chuva.
- Ei, garota, viemos ver se está tudo bem com você! – Ouvi uma voz masculina dizer.
- Ficamos preocupados! – Uma voz feminina completou.
Era Alma e Neville, eles traziam um sanduíche que esconderam da recepção do hospital, ele entregou para mim e disse:
- Come rápido ou pegam a gente!
- Vocês... – Meus olhos estavam se enchendo de lágrimas. – Não estão bravos comigo?
- Se não tivéssemos agido com má vontade, você não estaria aqui! – Neville disse.
- Sabemos que não disse aquelas coisas por maldade, tudo bem, nós te amamos. – Ela deu um sorriso, enquanto eu dava mais uma mordida em meu sanduíche.
A enfermeira entrou no quarto, fitou meu lanche que fiz um esforço para esconder, e ela fingiu que não viu nada. Então começou:
- Pelo que parece foi só uma torção, em pouco tempo você ficará boa.
- Eu posso te carregar enquanto isso. – Meu amigo disse rindo.
- E eu posso dirigir, sou boa motorista!
- Ah, você é péssima motorista, Alma. – Comentei e todos nós rimos.
Eles me abraçaram, tão apertado como não fizemos desde que partimos para uma longa viagem. Meus amigos estavam ali comigo, não precisava de mais nada.
- Acho que meu pedido que fiz para o dente de leão se realizou...
- Qual?
- Ter vocês do meu lado, como verdadeiros amigos sempre, eu amo vocês...
E senti o abraço ficar mais forte. Eu poderia passar o tempo que quisesse ali, o relógio não me atingiria, a amizade se tornou mais forte do que qualquer outra coisa para mim.
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"Quero minha liberdade. Quero sair no meu carro antigo, quero ver o nascer e o pôr do sol de cima do capô, quero acampar e olhar as estrelas. Quero sair sem destino e sem hora pra voltar. Quero acampar e sentir a brisa fazendo meu cabelo ondular enquanto observo a fogueira ao som de Heroes do David Bowie. Quero pular de paraquedas e mergulhar num mar cristalino. Mas acima de tudo, quero meus amigos sempre juntos a mim pra compartilhar meus sorrisos em cada um desses momentos… E também pra secarem minhas lágrimas quando eu já não puder ser livre" — Yasmin R. Arents
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