O pequeno gigantesco
1 Capítulo único
Descendo sobre o telhado, pode ouvir o barulho insistente dos dedos pesando sobre o teclado de um computador velho. Tão vívido, porém, em um tom tão fúnebre. Assim pode observar pela janela o homem sentado de pernas abertas, sua barba estava por fazer, cabelos bagunçados e entre uma infinidade de papéis criava um documento. Atravessou a janela e se aproximou:
- Olá, você está aqui de novo? – A coisa comentou enquanto passava seus finos dedos em seu nariz. – Espero que esteja criando algo criativo, você não ia escrever aquele livro que tanto queria fazer?
- Eu não tenho tempo para isso, preciso entregar isso no trabalho amanhã e mal comecei.
- Por qual motivo se no fim ele vai ser queimado em uma fogueira com diversos outros documentos esquecidos? – A criatura começou a pular sobre a cama, o homem mal se virou para olhar em seus olhos. – Você sabe que o mundo acaba amanhã, meia noite em ponto e está tudo terminado, todo seu trabalho até então terá sido inútil.
- Creio que tudo isso é só uma alucinação criada pela minha mente pelo trabalho horas a fio, você não é real, e quando eu for promovido isso desaparece.
- Desaparecer? Ser promovido demora séculos... Oras, se você realmente faz as coisas por dinheiro e não por prazer, qual o sentido disso? Crescer é uma falsa projeção, o pior que nem está em sua mente, e sim na dos outros.
- Se você diz ser a morte como tanto comenta, por que fala com um mísero humano como eu?
- Em primeiro lugar, eu não sou só a morte. Sou a vida, sou o tempo, sou Deus, sou o diabo, sou o bem, sou o mal, sou tudo e absolutamente nada. – Sua respiração estava ofegante, deslizou para frente da tela e repousou sobre a mesa como se tivesse o peso de uma pena. – Segundo, não estou falando apenas com você, posso estar em qualquer lugar à hora que quiser, a maioria nem percebe que sou, posso me tornar animais, pessoas e se tiver uma grande imaginação como no seu caso... Também posso ser seu amigo imaginário!
- Então prove!
Os pixels congelados na tela se tornaram por uma fração de segundos, luzes coloridas, cintilando e brilhando. Sem que seu amigo imaginário tivesse que mandar, ele olhou mais a fundo e pode ver um túnel se abrir logo a sua frente.
- O que eu devo fazer?
- Continue, vá para onde sua intuição mandar!
Então se sentiu puxado de sua cadeira, a maciez do assento se tornou a sensação de flutuar, assustadora e simplesmente amável. Estrelas piscavam a sua volta, enquanto a sua frente apenas podia ver o preto e branco, e isso iluminava a sua mente. Uma tontura começou a dominar sua mente, seus olhos começavam a ficar cada vez mais sensíveis a luz, contudo, pode sentir seus pés firmes sobre o solo.
Abrir os olhos no início foi algo complicado, mas pode se ver de pé em frente a um grupo de adolescentes, tinham vinte e poucos anos e não pareciam perceber sua presença. Estavam em rochas misturadas com terra, três barracas e um único telescópio mirado em direção ao céu. Eram amigos com toda certeza, eles riam e jogavam cartas.
- Os vê? – A morte disse. – Tem aproximadamente sua idade e estão vivendo, aqui fora, aproveitando o mundo deixado para eles, sem ligar para se terão um amontoado de papéis verdes com moedas feias em cima, eles só precisam de uma nova descoberta dia após dia, assim tudo ficará bem.
- Em poucos anos eles estarão perdidos sem ter para onde ir, eles não esculpem um futuro, estão se importando com o agora apenas. Não posso dizer o mesmo sobre mim, estava tentando criar um amanhã bom e seguro até você me interromper.
- Quem disse que você tem um amanhã? – A vida dançou a sua volta. – Você é muito egoísta se acha que tem um futuro e eles não, afinal, você pode estar morto, o mundo está acabando, querido, quero te salvar.
- O mundo acabando?
- Sim, está... – A morte se entristeceu dizendo que o fim daquela pequena criatura tão insignificante e tão grande estava próximo. – Acho que ainda não me entendeu...
Agora ele se sentia lançado para o espaço, a escuridão e a luz itinerante que o cegava do modo mais doce possível. Os planetas se deslocando, pedras voando e céu aberto e a terra aos seus pés.
- Olhe a grandeza desse universo, como se sente?
- Pequeno... Muito pequeno!
- E isso que você é de verdade, uma coisa tão insignificante em um universo gigantesco. Sempre que se sentir pequeno, saiba que não é uma mentira, contudo, não é uma verdade indiscutível, pois veremos que para bactérias você é um universo, para as pessoas que te amam você é quase como um mundo. A escala de tamanho é só um detalhe, mas não pensa em explorar isso, e sabe o que conhece? – Então eles retornaram, o quarto com as paredes brancas e sujas, papéis e um computador encostado no canto. – Isso é tudo o que conhece, tudo o que precisa fazer é sair pela porta...
O nada e o tudo tinham sumido, o inominável não estava mais em seu quarto e o homem podia ficar sozinho com seus pensamentos. Ele teria que estar em uma alucinação muito profunda para ter visto tudo aquilo, então pode olhar para a saída e passou por ela. Naquela noite olhou apenas para o céu, foi a uma livraria que ficava aberta até tarde e comprou o livro que estava apaixonado fazia séculos. Ele não teria emprego pela manhã, pois o mundo estaria acabado. O relógio batia meia noite e ele tomava o cappuccino mais delicioso da cidade, que nunca tomou antes pela questão do dinheiro. Enfim, o mundo não tinha acabado e ele achou que tinha sido apenas um pequeno atraso, não foi trabalhar no outro dia e tentou aproveitar a vida ao máximo, criou novos amigos e subiu em arvores como fazia quando criança, no fim do dia olhava para o relógio na parede, um minuto para bater meia noite, deitou-se na cama e fechou os olhos, pronto para esperar.
- Então pronto para o mundo acabar? – A criatura reapareceu em seu quarto.
- Sim, está no tempo limite, o mundo vai acabar agora!
- Ah, sim...
O barulho ecoou, dos ponteiros do relógio indo em direção a aquele número. Meia noite estava ali pronta para rejuvenescer sua pele.
- Espere... – O homem se levantou com um impulso. – O mundo não acabou...
- Acabou sim!
- Não acabou, ainda estou vivo.
- O mundo acabou, ele está terminado, não vê? – Um sorriso gigantesco se abriu em sua face. – Eu não disse que o mundo acabaria para todos, ele acabou para você, o mundo como você conhecia acabou e está terminado para sempre. Não é um fim, é só um novo início e um novo dia.
Então ela partiu com uma risada que ecoou em seus ouvidos por segundos, até enfim cessar.
Fale com o autor