O pedido de Pax.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Morrer no passado e não ter um futuro. Encarar de frente todas as vidas que ceifou durante milhões de anos. Quase ser morto em uma armadilha pelos próprios companheiros de viagem. Nenhum desses momentos, como tripulante da Lost Light, havia feito Megatron se sentir tão impotente, tão destruído e com tanto medo quanto o agora.
Megatron soube que Optimus pediria alguém da Luz Perdida para ser seu conjunx naquela noite. Acordou sentindo seu tanque de ingestão afundar. Ignorou a porcaria do energon mal filtrado que estava sobre sua cabeceira. Ficou deitado, tentando pensar em nada o máximo de tempo que pode, até Revenge lhe fazer o favor de atormentá-lo da pior forma possível.
— Vamos lá Megatron, não pode evitá-lo para sempre; nunca pode.
— Não sei do que está falando – Megatron se virou na mesa de recarga e ignorou a gata mecânica – E vê se me deixa em paz, ainda tenho alguns nano-ciclos para dormir.
— Tudo bem, então fique ai emburrado o dia todo e deixe os outros, inclusive ele, saber o quanto o ex Senhor da Guerra é patético.
— Acha mesmo que eu ligo para a opinião dele?
— Não sei, mas mostre a ele que não.
Megatron se levantou e engoliu seu energon fazendo uma careta. Talvez Ratchet tivesse mentido, porque aquela coisa desceu amarga como energon de tolo. Ignorou seu tanque revoltoso e saiu de sua cabine, em direção a sala de comando.
Um grupinho animado de autobots se dispersou rapidamente, assim que ele entrou. Sabia que falavam sobre a tal noite, pois passaram a olhar estranho para ele o tempo todo.
— E ai, Megs. Uhm, você gostaria de escolher a cor de alguns itens de decoração?
Rodimus tentou soar amigável, mas Megatron pareceu ver aquilo como uma provocação. O ex Senhor da Guerra saiu da sala, batendo a porta com força.
Megatron percebeu que todos dentro da nave só falavam nisso nos últimos dias. Mas nunca falavam com ele, para ele, ou próximo dele. Claro, Megatron não fazia parte do grupo de autobots, principalmente dos autoboths mais próximos ao Prime, como Ratchet, Ultra Magnus ou Rodimus. Ele era excluído, em todos os sentidos.
A verdade, é que Megatron só soube da notícia porque Swerve, dono do bar da Luz Perdida, era um tagarela nato, inclusive, mais do que Megatron ou qualquer um a bordo gostaria. Megatron se lembrava de ter ouvido Swerve falar sobre o que exatamente Prime poderia querer em um possível conjunx. O que deixou Megatron ainda mais enjoado, foi o fato de que alguns bots pareciam bastante interessados nisso.
Infelizmente, durante todo o dia, Megatron não conseguiu pensar em outra coisa a não ser nisso: o que Optimus Prime gostaria em um conjunx?
Optimus gostava de autobots úteis e determinados, mas também, sensíveis e preocupados com coisas fúteis, como a vida dos malditos humanos, por exemplo. Provavelmente Optimus também optaria por autobots pequenos, que remetessem mais a toda essa sensibilidade. Megatron sentiu vontade vomitar e riu. Isso parecia bem as preferências do Prime. Gente fraca.
Pensando bem agora, Optimus nunca teve um conjunx. Cybertronianos, bem mais jovens, já haviam tido até mesmo mais de um ou dois conjunx, como Chromedome, que tinha fama de namorador. Ou Prowl, que era um autobot relativamente novo ainda, e muito insuportável, não só na opinião de Megatron.
Então, como Optimus nunca havia escolhido alguém especial antes?
Megatron sentiu um gosto desagradável de fool’s energon na boca ao se lembrar de Elita-I. Como pode esquecer daquela femme insuportável que vivia grudada no Prime. Muitos falavam que Optimus também nutria fortes sentimentos pela femme e que eles até chegaram a, como os humanos diziam mesmo “namorar”. Sim, sim, talvez os dois até tivessem trocado alguns beijos ou outras coisas a mais, as quais Megatron preferia fingir que não sabia agora. Mas o fato é que nunca chegaram a se tornar conjunx. Aliás, se tivessem chegado a esse ponto, Optimus teria sofrido bem mais que só lamentar a morte da femme, coisa que nem isso fez tanto assim, na opinião de Megatron.
Uma outra grande possibilidade de Prime nunca ter tido um conjunx é que isso o deixaria bem mais vulnerável em meio a guerra, principalmente como líder dos autobots. Sim, imagine só se o conjunx de Optimus Prime caísse nas mãos dos decepticons. Ah, seria um trunfo e tanto. Não, pior. Imagine só se o maldito caísse nas mãos de Megatron, líder dos decepticons e inimigo mortal de Optimus Prime.
Megatron salivou com a ideia. Que se dane os trunfos, ele teria feito picadinho do maldito conquistador de Primes. Megatron arrancaria pedacinho por pedacinho do maldito até restar somente sua centelha. Depois disso a esmagaria, pelo menos a metade que não pertencesse ao Prime. A outra metade Megatron colocaria em seu próprio peito, só para saber, para poder sentir como seria a sensação, como era…
Como era um tolo.
Megatron riu de seu devaneio. Desde quando queria saber como seria ser conjunx de Optimus Prime; do maldito Prime. Seria no mínimo estranho, tocar o autobot, sem aquela velha intenção de socá-lo com muita força, ou, de querer matá-lo, de uma vez por todas. Megatron só se lembrava de tocar prime nas mãos ou, no máximo, apoiá-lo em seus ombros, em suas breves e raras tréguas. Se arrependeu um pouco. Podia muito bem ter aproveitado mais de cada um daqueles contatos. Agora ele o perderia para sempre, não que já o tivesse tido alguma vez, mas, mesmo assim, de uma forma estranha, o perderia.
— Megatron?
O ex decepticon se assustou ao ouvir a voz de Optimus atrás dele. Ficou pensando se se viraria para encará-lo, de igual para igual, como sempre havia feito. Megatron sabia, melhor do que ninguém, que jamais devia dar as costas a um inimigo. Mas nem isso eram mais. Até mesmo esse último laço havia sido desfeito.
Continuou sentado na beirada da nave, observando as estrelas.
— Por que não foi a reunião que eu marquei hoje? – Optimus se sentou ao seu lado, fingindo que não havia sido ignorado.
— Ir até lá para quê? Se esqueceu que eu nem posso beber nada, só aquele maldito fool’s energon? Acha mesmo que eu iria até lá para comemorar a sua união com um bot qualquer, enquanto saboreio um pouco de veneno? Não, obrigado.
— Mas hoje é um dia muito especial. E pare de fazer drama, eu sei que o Ratchet já te contou a verdade sobre o fool’s energon.
— Tá, mas, ainda assim, é energon de baixíssima qualidade; igual a essa sua união repentina.
— Eu jamais deixaria que te envenenassem com aquilo, Megatron. E não fale assim, tenho certeza que você ficará feliz por mim também.
Megatron sentiu Optimus o cutucar e notou que o autobot estendia um copo para ele. Megatron pegou educadamente. Cheirou. Era energon doce misturado com alguma bebida bem forte. Bebericou um pouco. Era delicioso.
— E então, você vem, estão todos lá, só falta você? Eu quero apresentar a todos o meu novo parceiro de centelha.
Megatron sentiu o último gole descer amargo. Realmente, se tivesse tomado o tal do fool’s energon, com certeza, teria aquele sabor.
— Vamos lá Optimus, sei que pode fazer isso sem mim.
— Agora é Pax de novo e não, eu não posso fazer isso sem você.
— Essa bebida desceu amarga, igual a esse seu convite estúpido – Megatron arremessou o copo no chão, se levantando irritado – Eu não quero ir a essa festa idiota e fingir que estou feliz por você, sabe porquê, Prime, porque eu não estou. Eu não devia ter me esquecido de quem eu sou, não devia ter me rendido e aceitado a minha sentença sem lutar. Agora não me restou mais nada, nada mesmo – as óticas de Megatron finalmente transbordaram – Nem mesmo você, Prime.
— Eu já te disse antes – Optimus também se levantou e segurou firme as mãos de Megatron, tentando acalmá-lo – É Pax.
— Quer saber, eu chamo você do que eu quiser.
— Ah é, então, a partir de hoje, eu também vou te chamar da forma como eu quiser.
— Chame, eu não estou nem ai.
— Conjunx.
— Quê? – Megatron só não cutucou os áudios porque Optimus ainda segurava firme as suas mãos – O que você disse?
— Conjunx. E foi você quem disse que eu poderia chamá-lo como eu quisesse agora. E é assim que eu quero te chamar, até que um dia eu me junte ao Allspark. Aliás, foi para isso que eu vim, não.
— Então, quer dizer que, esse tempo todo, a pessoa que você pediria para ser seu conjunx… – Megatron parecia incrédulo.
— E quem mais seria? Eu não conheço mais ninguém que tenha tudo o que eu poderia querer em um conjunx.
Optimus riu internamente da expressão de choque de Megatron. Se inclinou para beijá-lo, mas foram interrompidos por uma gritaria familiar.
— Olha só, ali estão eles, começaram sem a gente, esses apressadinhos.
— Espero que não pensem que vão passar a lua-de-mel aqui na nave.
— Uhm, isso seria constrangedor. Devem fazer muito barulho, mais que o Tailgate e o Cyclonus.
— Ei! – Tailgate parou de comemorar, ofendido.
Todos os tripulantes da Luz Perdida apareceram ali, segurando copos e alguns enfeites que lembravam balões e serpentinas de papel, muitos deles roxos. Swerve surgiu do nada e entregou uma bela taça a Optimus e outra igual a Megatron.
— Bem, parece que vocês já terminaram, então, podem se beijar – Megatron ficou encarando Rung perplexo – Bem, é que seria eu o responsável por fazer o discurso de união de vocês, mas parece que Pax voltou aos velhos hábitos e fez isso sozinho.
— Desculpe, Rung, mas ele estava perdendo o controle, então tive que intervir; você o conhece bem.
— Não melhor do que você, Pax – Rung se afastou para deixá-los mais à vontade.
— Bom, parece que a festa já está aqui – Optimus pegou a mão de Megatron e o puxou para fora das comemorações – Vamos, essa é a nossa deixa.
— Mas pensei que esse era para ser o nosso momento – Megatron disse aquilo ainda bastante constrangido por toda a situação.
— Essa foi só a oficialização da nossa união. Nosso momento é para ser particular. E o Magnus tem razão, a gente não devia passar nosso primeiro ciclo juntos na nave, eu quero ficar um pouco sozinho com você; você sabe.
— Tailgate e Cyclonus?
— Nem sei bem quem são.
Megatron riu deixando Optimus confuso.
Megatron se sentiu feliz de verdade pela primeira vez. Então esteve errado esse tempo todo. Isso significava que Optimus gostava de bots fortes, imponentes e grandes, bem o contrário do que imaginava.
Gente forte.
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