O país secreto.
19 Um meio diferente de caçar.
Notas iniciais
Caminho distraidamente, olhando tudo ao meu redor. Vez ou outra me perdendo e afastando-me demais do carinha da harpa. Mas logo chegamos no local onde devo apanhar água. É um rio como todos os outros, com uma correnteza não muito forte, e águas límpidas. Água. Água. É disso que preciso. Interrompo a execução de meu poder para que possa ter contato com a água.
Assim que a garrafa está cheia, pulo no rio, sem temer nenhuma criatura aquática que provavelmente há ali. O garoto bufa e gira os olhos quando percebe que pulei no rio e depois me dá as costas.
–Divirta-se.- Ele diz, caminhando para longe do rio e de mim.- Eu vou arranjar comida.
–Boa sorte!- Grito em meio as risadas e depois mergulho. Meus pés não alcançam o chão, mas pelo menos sei nadar. Subo para a superfície
Se eu tenho medo de ficar sozinha? Nem um pouquinho. Eu já saí sozinha no meio da noite várias vezes por estar com raiva de alguém ou de alguma coisa. Quando eu tinha cinco anos, fazia isso com tanta frequência que citar um dia específico é quase impossível. Me lembro de vagar pelo quintal chutando tudo que cruzasse meu caminho, fervilhando de ódio.
Contudo, depois que cresci, descobri meu maior medo e minha maior desconfiança. Não é nenhum bicho, embora muitas vezes eu julgue-os como sendo um. Por conta desse meu medo, não saio mais por aí sozinha.
Meu maior medo é o ser humano.
Acho que esse é quem deveríamos temer, pois é o verdadeiro perigo. Por isso hesitei tanto quando conheci esse tal Homem da Harpa. Alguém que fica um bom tempo me observando tomar banho no lago deveria estar calculando o melhor meio de me matar ou algo pior. Entretanto, ganhou minha confiança. Me salvou. Me acolheu...
Exatamente como fizera Arismir.
Mergulho para libertar-me do pensamento. Arismir é diferente... com aquele jeito enigmático e calculista de ser, já é possível imaginar o que ele é.
Quando nado para a superfície, me convenço de uma coisa: Não confiarei em ninguém senão em mim mesma, meus irmãos e primos. Nem mesmo em meu próprio avô.
Está obvio, é questão de sobrevivência. E se eu confiar cegamente nos dois homens que dividem a caverna comigo e eles me colocarem em uma emboscada? Não seria a primeira vez que passo por isso.
Nado para a margem e saio do rio. Eu mesma estou retorcendo meus conceitos. Eu estou enfiando minhocas em minha própria cabeça. Eu devo estar enlouquecendo.
Sacudo a cabeça, apanho a garrafa e me ponho de pé. Sozinha. Perdida. Onde estaria o Homem da Harpa agora? Será que me abandonou?
Seis notas musicais tocadas com uma delicadeza que até mesmo os profissionais devem desconhecer respondem minhas perguntas. O garoto está por perto.
Sigo a música até encontrá-lo. Ele está sentado em uma rocha, e um animal, um coelho com enormes presas, caminha lentamente até ele, como se estivesse enfeitiçado. E está. Os dedos do rapaz deslizam pelas cordas da harpa com muita habilidade, e seus olhos parecem chamas negras.
Ele está concentrado, não nota minha presença, e eu não consigo desviar o olhar de sua harpa. Devo estar sob o efeito da magia.
O coelho chega mais perto. E mais. Agora está aos pés do rapaz. Ele interrompe a música e saio do transe. Suas mãos se soltam da harpa, que cai sobre seu colo, e com muita agilidade seguram o coelho pelo pescoço. Ele torce o pescoço do animal e, sem dó nem piedade, o mata.
Por um instante, observa a caça. Mas depois seus olhos voltam-se para mim. Meus olhos estão arregalados e eu estou bem assustada. O olhar dele desce para minhas roupas encharcadas e ele torce o nariz em desaprovação.
–Você não deveria ter feito isso.- Ele diz.- Agora não poderá espantar os Buzzes com seu fogo.
–Não importa.- Digo.- Pelo menos estou mais limpa.
–E molhada.- Ele completa, se levantando.
–Exatamente.- digo.
–Você come calist?- Ele pergunta, erguendo o bicho pelo pescoço em minha direção. Bem, já estou me adaptando a essa nova língua daqui.- Foi o melhor que consegui.
–Desde que não morra de fome, para mim está ótimo.- Digo.
–Que bom, meu amor.- Ele diz e giro os olhos. Odeio quando me chama assim.- Não estamos em condições de exigências.- Faço a menção de que vou falar mas ele me interrompe.- E depois que você se secar, poderá cozinhar a carne. Não estou nem um pouco afim de comer carne crua.
Ele começa a andar e eu o acompanho.
–Você está muito folgado.- Observo.
–Te dei moradia, comida e água.- Tento falar mas ele me interrompe novamente.- E sem contar que salvei sua vida.
Cruzo os braços.
–Mas isso não lhe dá o direito de...
–Talvez algum Kirq estivesse com fome.- Ele balança a cabeça.- Desculpe Kirqs. Salvei a comida de vocês.
–Olha só, um velho me salvou uma vez.- Digo com a voz alterada.- Só pra depois me mandar para cá! Para morrer...
Ele olha para mim, parando de andar. Sua expressão está mais séria.
–Você foi salva por um velho?- Ele pergunta.
–Fui. Eu e meus primos e...
–Qual era seu nome?- Ele pergunta.
–Arismir...- Franzo as sobrancelhas, confusa.- Mas o que isso tem a ver...?
Ele me ignora e apressa o passo. Ele conhece Arismir? Por sua expressão séria e jeito mais apressado de andar, sugiro que o que sabe desse homem é algo bem sério. Algo que ele mal espera contar para o rei.
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