O país secreto.
55 Super-Vovó-Desnaturada
Notas iniciais
Última porta. Última torre. Soara tão simples quando Isie pronunciara, que eu sequer pensei que seria tão complicado achar a sala. Eu não aguentava mais correr quando Hellena finalmente encontrou-a.
Paramos diante da porta de madeira marrom-escura, com arranjos dourados em forma de espirais no batente, e cuja maçaneta redonda parece uma bolinha de cristal. No centro da porta, há uma placa onde se lê: "Aldof maody. Ni apeb". Fazer o quê? Nem tudo em Oliut foi feito para turistas.
O rosto de Hellena se contorce em uma careta azeda.
– Que droga — Pragueja. — Será que é aqui mesmo?
– Acho que sim — Falo. — Tipo, última porta, né? Mas o que você acha que está escrito? — Aponto para a placa.
– Sei lá — Ela dá de ombros. — Eu temho uma na porta do meu quarto que diz: "Proibido gente chata". Deve ser algo parecido.
Arqueio as sobrancelhas para ela.
– Não acho que o vilão e atual rei de Oliut escreveria algo do tipo.
Hellena encolhe os ombros outra vez, e começa a esmurrar a porta. O som de seus socos me fazendo piscar ocasionalmente.
– Ei! — Grita ela. — Abram a porta! Abram a porta!
Ela desiste de bater e encosta o ouvido, escutando pacientemente ao movimento lá dentro.
– Olha — Sussurra. — Só ouço... Silêncio. Acha que tem alguém aqui, ou aquela garotinha de cabelo azul estava mentindo?
Solto um bufo cansado.
– Você fala "garotinha" como se vocês duas não tivessem a mesma idade — Rolo os olhos. — Agora vamos. Me dê licença. — Empurro-a para longe da porta, agarrando a maçaneta e girando-a com facilidade. Quando forço a porta, ela se abre, para a surpresa de Hellena. — Viu? Está aberta. Não precisava de escândalo.
Com um som ruidoso, a porta vai se abrindo cada vez mais até estar escancarada. Hellena e eu reprimimos exclamações ao avistarmos a sala.
Digamos que a sala de Vindre — ou, pelo menos, suponho que seja de Vindre — é uma mistura de sala de estar e biblioteca. Com paredes revestidas de livros, do chão ao teto, é necessário longas escadas dispostas aqui e ali, para que se possa alcançar os livros superiores. No centro, há muitas almofadas e poltronas luxuosas, para um máximo conforto e, do teto, sinos de vento produzem um som monótono e de dar medo. A pouca iluminação da sala vem de lareiras, umas cinco delas, e, ao final, há portas duplas de vidro que dão acesso à sacada. Por um momento, esqueço que estou em Oliut, e que estou em uma guerra, e fico tentada a raptar alguns desses livros. É quando uma risada baixa e trêmula faz meu estômago gelar.
Giro nos calcanhares e engulo em seco, flagrando a mulher descendo de uma das escadas, com um livro em mãos. Ela é uma senhora de fofos cabelos brancos como algodão e pele amarelada. Apesar da idade, ela está bem conservada; a única coisa que nos faz perceber que ela não é tão jovem são seus cabelos, e as rugas em torno dos olhos. Afora isso, ela não demonstra ter mais que quarenta anos.
A mulher termina de descer as encadas, com um sorriso divertido no rosto. Ela caminha até nós.
– Ora, ora — Cantarola ela. — Quem diria. Ouvi falar da polêmica Emma Bouringor, mas não fazia ideia de que ela era uma amante de livros!
Ela coloca o livro que trazia em minha mão, e eu só posso encará-la, boquiaberta. De perto, percebo que seus cabelos ainda tem traços loiros, e que ela se parece assustadoramente com minha tia, Isabel, a mãe de Hellena e Luize. É o mesmo narizinho arrebitado, e os mesmos olhos escuros desafiadores. Hellena fica encarando-a como se não pudesse acreditar.
– Você é...? — Começa minha prima.
– Meu nome é Maly — A senhora sorri. — Maly Hogfword.
– Ah, deixa eu adivinhar — Em um acesso de raiva, jogo o livro no chão. — A desgraçada da minha avó que traiu meu avô se juntando ao inimigo, e forçou-o a mandar seus próprios filhos para outra dimensão, acertei?
Hellena emburra a cara, cruzando os braços. Algo em sua expressão me diz que eu acabo de dizer tudo o que ela queria. Maly, ou Super-Vovó-Desnaturada, sorri ainda mais. Suas roupas se resumem a um macacão preto justo, com a gola levantada e que termina nos calcanhares. Sinto um pouco de inveja dela, porque apesar da idade, suas curvas são perfeitas.
– Vocês ouvem só a parte superficial da história — Ela diz, tranquilamente. — Não param para pensar nos motivos que me levaram a fazer isso. Acabam acreditando que Doquo é um homem perfeito, mas não o conhecem como eu conheço. Todos temos defeitos.
– Que engraçado — Hellena ri, para enfatizar. — Por que será que eu acho que uma mãe jamais deveria dar motivos para seus filhos serem afastados dela?
Maly cambaleia para trás, como se Hellena tivesse lhe dado uma bordoada, e quando ela se recompõe, seu rosto se transforma em uma máscara de ódio.
– Doquo era um marido abusivo, que pensava que todos tínhamos que exceder à sua soberania — Ela troveja. — Lílifa, coitada, tinha sido prometida ao filho de um guerreiro, que lutara ao lado de Doquo mais de uma vez! As pessoas deveriam escolher com quem se casar, sempre! Baelo, nosso filho mais velho, tinha a responsabilidade de ser o líder no campo de batalha, por mais que ele tivesse outros sonhos, e que não quisesse guerrear. E a Kily, que ainda era nova demais até mesmo para pentear os cabelos sozinha, já estava sendo ensinada a lutar e a comandar Hope. Como ela comandaria? Ela ainda falava errado! — O rosto de Maly está escarlate, enquanto ela lança as palavras como granadas. — Vocês acham que eu estava fazendo o quê? Estava protegendo-os! Dando-lhes liberdade, para escolher seus destinos. Não fosse por mim, nenhuma de vocês estaria aqui hoje. Nenhuma de vocês estaria viva!
Hellena e eu piscamos, incrédulas, assimilando o que tímhamos acabado de ouvir. O rosto de Maly se abranda, e ela torna a sorrir.
– Olhe como vocês são lindas! — Ela diz, cheia de afeição. — Eu sonhei com dia em que conheceria meus verdadeiros netos. Agora olhem vocês!
Hellena franze o cenho.
– Mas e a Isie? — Ela pergunta. — Ela não é sua neta?
Maly revira os olhos, inconformada.
– Isie é filha de Oliz, uma bastarda. — Ela diz. — Eu só tive um filho com Vindre, e até hoje eu não sei por onde anda. — Ela aponta para o chão, e eu desço o olhar. O livro está ali, arreganhado. — Pegue-o. Você vai gostar da história. Fui eu mesma quem a escrevi.
Eu me abaixo cautelosamente e apanho o livro.
– Fala de um certo menino ruivo — Prossegue a rainha, enquanto eu folheio-o. — que morava em um orfanato. Você vai adorar.
Hellena se inclina para ver as páginas, e eu ergo o olhar para a rainha.
– Eu...
Sou interrompida por uma série de palmas, compassadas e lentas. Do canto mais escuro da sala, surge um homem gingando. Seus cabelos grisalhos estão bagunçados, e sua pele morena, enrugada pela idade, não faz dele menos bonito. Seus olhos são pequenos e apertados, quase como os de asiáticos, e ele é alto e esguio. Trajando um terno antiquado, com uma gravata borboleta mal apertada, ele parece um daqueles caras de novelas antigas. Deve ser bem velho, na casa dos 70, mas, como sua esposa, ele está incrivelmente bem. Ele ginga até nós, e só percebo que estou recuando quando Hellena me puxa de volta.
– Muito bem! — Sua voz grave e forte retumba pela sala. Ele pára de aplaudir e une as mãos às costas. — Muito bem, Maly, querida!
Maly olha-o e sorri ainda mais.
– Vindre! Elas estão aqui! — Se entusiasma ela. — Diga à elas!
Hellena e eu nos entreolhamos e, a julgar pela sua expressão, posso deduzir que ela pensa a mesma coisa que eu: "essa conversa está meio esquisita!"
– Eu não vou dizer — Vindre exibe seus dentes como trofeis. — Ela vai.
Ele faz um gesto sobre o ombro e, do mesmo lugar de onde ele surgiu, aparece uma garotinha. Seus cabelos castanhos intensos e curtos estão presos em um rabo de cavalo, deixando apenas umas mechas soltas atrás de suas orelhas pontudas. Sua franja está perfeitamente alinhada sobre a testa, e seus olhos negros amendoados estão vidrados à frente. Meu coração dispara e meus olhos inundam.
– Annabely! Anna... — Esbraveja Hellena, sua voz vacilando e desvanecendo até se tornar um mero ruído. Ela vai correr para abraçá-la, mas eu, por mais que esteja me roendo de vontade de fazer o mesmo, a impeço.
Agora é esperar.
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