O país secreto.
53 O início da guerra
Notas iniciais
Eu gostaria de ser forte; gostaria de ser corajosa, e de poder enfrentar o que viesse sem temer. Gostaria de manter minhas emoções ocultas, mesmo que por um instante, para encarar tudo o que está havendo... Uma pena que tudo isso não passe de um desejo. Que a Emma da vida real seja tão fraca, uma menininha, e não uma guerreira. Que eu esteja com tanto medo, que minhas pernas tremem mais que vara verde. Que meu coração esteja em frangalhos...
Encaro o majestoso castelo à minha frente, uma enorme construção semelhante à uma escultura de gelo. Escuto várias exclamações de surpresa dos meus amigos, mas não consigo reproduzir uma palavra — o castelo é de tirar o fôlego. Há um córrego estreito, com uma ponte graciosa sobre ele, e uma muralha do outro lado, com portões altos. Guardas trajando cotas de malha e elmos de guerra ladeiam os portões, trazendo finas lanças afiadas, e um deles grita:
– Quem vem lá?
Will, Hellena e eu, os primeiros a chegar, recuamos alguns passos. O dia está deslumbrante — maravilhoso para uma guerra sangrenta. Will revira os olhos.
– Que clichê — Balbucia ele. — Só falta ele chamar outros guardas e gritar "peguem-nos".
Eu preferia que Will tivesse ficado quieto, porque menos de um segundo depois, o outro guarda faz exatamente isso. Hellena dá um tapa na cabeça dele.
– Ô, boca! — Reclama ela, empurrando-o para trás. — Fora daqui. Agora!
Will tropeça nos próprios pés, antes de sair correndo para uma pequena floresta no alto da montanha. Hellena toma a frente da situação e, num piscar de olhos, está totalmente branca.
Esfrego os olhos uma porção de vezes, sem conseguir acreditar. Eu nunca vira Hellena se transformar tão rapidamente, e estou desnorteada o bastante para não conseguir nem me mover. Do outro lado, o portão se abre, e uma multidão de guardas armados aglomeram-se na entrada. Eles partem em nossa direção, começando pela ponte... É nesse momento que Drafe surge com mais três de nós — Giroy, Vedir e Jayssa — desaparecendo logo em seguida.
– Lena! — Grito, enquanto ela aguarda, pronta para o ataque, os guardas se aproximarem — Como você...?
– É só praticar, Solzinha.
Ela bate o pé no chão com força e, como em uma dança bem ensaiada, gira nos calcanhares, apontando a mão aberta para eles, de onde brotam lanças de gelo.
Os guardas estão no meio da ponte, quando os primeiros cinco são abatidos e caem no rio. Jayssa abafa um gritinho.
Giroy e Vedir param cada a um a um lado de Hellena, com suas espadas a postos, para o caso de os guardas chegarem perto demais. Jayssa e eu estamos em um transe tão profundos, que estamos congeladas — não ao estilo Hellena, claro.
– Emma! — Chama Hellena, lançando suas lâminas de gelo nos guardas, que parecem aumentar de quantidade ao invés de diminuir. Percebo com horror que eles já estão praticamente no final da ponte. — Eu não vou dar conta deles sozinha!
Engulo em seco, acordando para a realidade. No que eu estava pensando? Eu estou em uma guerra! Cerro os punhos, passando direto por Jayssa e parando bem ao lado de Giroy. Semicerro os olhos para o exército.
Eu sei, usar meu dom requer concentração. E como eu me concentrarei com um exército inteiro diante de mim, quase assinando minha sentença? Respiro fundo um monte de vezes, para me acalmar, mas os gritos de guerra e uivos de fúria dos guardas não cooperam. Fecho os olhos.
"Não é questão de me concentrar", penso. "Basta eu olhar para eles e pensar que eu tenho que fazer isso. Ou Luize e Stive morreram por nada. E eu morrerei por nada também"
Meus olhos se abrem, e uma corrente de energia toma conta do meu corpo, passando pelos braços e alcançando as mãos. Eu quase gargalho, porque minhas mãos pegam fogo.
– Ei, o que é aquilo? — Dianna grita, e só então percebo que ela também está aqui. Desvio minha atenção momentaneamente para ela e percebo que ela aponta para cima...
Hellena acaba de abater mais meia dúzia de guardas, ganhando tempo. Mesmo que hesitante, levanto o olhar para o céu encontrando... Meu Deus, são dragões?
Monstros alados revestidos de escamas, com longas asas de morcego e narinas flamejantes... É, são definitivamente dragões.
A primeira bola de fogo cai exatamente ao meu lado, cospida por um dos dragões. Drafe, que surgira sabe-se lá da onde, pragueja baixinho.
Eu estivera tão aturdida, que sequer percebi que já não há nenhum guarda vivo, e que nosso grupo está todo aqui. Outra bola de fogo cai na floresta, e poucos instantes depois, Will aparece correndo e segurando as calças.
– Era... Fogo... Dragões... Eu... Morrer... — Ele fala, atropelando as palavras.
Aparentemente, todos estamos assustados o bastante para não acharmos graça. Olho para cima outra vez, vendo que a dupla de dragões gira em círculos, escolhendo a vítima com precisão. Quando desço o olhar, me deparo com o rosto de Myafa — olhos prateados esbugalhados, boca entreaberta e sobrancelhas arqueadas. A figura do desespero.
– Emma, Hellena, Giroy, Vedir — Comanda Doquo. — O portão está se fechando. Vão!
Minha mente demora a processar as palavras e, quando percebo, estou sendo arrastada pelos gêmeos, correndo contra a minha vontade.
Chegamos à ponte, e uma explosão diante de nós faz-nos encolher. É claro que uma bola de fogo não me faria mal, mas talvez... O impacto... Decido não pensar muito acerca disso.
O portão agora está praticamente todo fechado, deixando uma pequena abertura.
– Rápido! — Esbraveja Hellena. — Rápido!
Mesmo que grogue com o choque, eu murmuro alguma coisa como "não sei por quê. O Drafe teletransporta a gente e... Eu quero pão de queijo".
Meus olhos estão se fechando, as palbebras pesam, e minha vista está turva. Na confusão do meu cérebro, ouço vozes irreais, de pessoas do passado.
"Eu não disse que isso daqui seria o paraíso" Dissera Arismir.
"Que idiota dormiria ao relento?" Falara Larm.
"Você é uma idiota" Declarara Stive.
Minhas pernas vacilam, e os joelhos cedem. Os gêmeos, que ainda estão me carregando, ajeitam meus braços em seus ombros, gritando coisas para mim que não consigo compreender. A última frase, uma das últimas coisas que Stive dissera, martela em minha mente, fazendo minha cabeça doer. "Você é uma idiota. Você é uma idiota. Você..." O último vislumbre que tenho antes de desacordar é do rosto de Hellena, berrando alguma coisa para mim. Seus olhos estudando cada perímetro do meu rosto, e em seguida olhando sobre os ombros. Sua expressão de pânico me faz sorrir, mesmo que eu não saiba o motivo.
E então desmaio.
Quando meus olhos se abrem, e vejo o rosto de Hellena, gritando comigo, tenho a sensação de que apenas pisquei. Os lábios dela se movem, sem produzir uma palavra. Mas é como se alguém fosse aumentando o volume da TV devagarinho, pois os sons começam a surgir, se tornando mais intensos a cada segundo, até que sou capaz de entendê-la
– ... Pra morrer? — Sua voz aguda perfura meus ouvidos. — E eu não estou brincando, Emma Bouringor! Se te doparam, é melhor você acordar e... e... — Ela, de joelhos a minha frente, olha ao redor com preocupação. — Emma! Emma! Me escuta!
Hellena ergue a mão para me dar uma bofetada — que pela ardência em meu rosto, sei que não foi a primeira — quando me sento rapidamente e seguro seu pulso. Minha visão entra em foco; vejo o rosto muito branco de Hellena e seus cabelos perolados cobertos de floquinhos de neve.
– Lena — Falo. — Eu posso te ouvir.
Eu esperava um abraço, ou algo assim, mas Hellena se levanta e agarra o colarinho do meu vestido, me levantando a força. Meio mole, mas bem melhor, finalmente me dou conta de onde estou — estou na guerra. E os sons de espadas tiritando, berros de dor e explosões são bem mais intensos do que se suporia.
Giro nos calcanhares, vendo a batalha sangrenta diante de mim. Cada um dos integrantes do nosso grupo encara cerca de cinquenta guardas de uma só vez — o que é bem assustador. Mas todos se viram bem sozinhos.
– Hellena — Torno a olhá-la. — Onde estão Giroy e Vedir?
Hellena morde os lábios, virando o pescoço lentamente. Sigo seu olhar, e vejo os dois lutando contra uma multidão de guardas. Aparecendo aqui, sumindo ali. Meu coração dá um salto.
– Estão nos protegendo. Principalmente a você, bela adormecida — Ela dá de ombros. — Agora vamos!
Hellena segura meu pulso e começa a me puxar, enquanto corre, serpenteando entre os guardas. Eu faço o possível para acompanhar seu rítmo, o que não é fácil quando acaba-se de ter um ataque de pânico e desmaiar. Quando chegamos à escadinha que dá acesso ao castelo, ela pára arfante.
– E a propósito, gatinha — Diz. — Não existe pão de queijo em Oliut. É bom você saber.
E sobe correndo os degraus.
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