O país secreto.
9 Conheço um garoto maluco.
Notas iniciais
Bom, eu consegui dormir, e os sonhos foram tão “legais” que prefiro omiti-los. Mas, enfim, depois da minha gritaria por conta dos pesadelos, e de Hellena vindo me acudir, passei o resto da madrugada de olhos bem abertos. Não estava nem um pouco afim de encontrar Myafa, ou qualquer outro residente da casa, e começar mais uma conversa esquisitas. Não. Tenho que dormir.
Mas agora, pela manhã, percebo que minha vontade de voltar a dormir foi em vão. Fico deitada na cama, olhando para o teto. A casa não tem luz, e acho que também não tem nada que tenha relação com fios de eletricidade, mas está levemente iluminada pelo fiapo de luz que atravessa a janela, já que Dianna não fechara a cortina ontem quando esteve aqui, e eu não tinha muita força para me levantar e fazê-lo. O quarto mais parece um ovo de tão pequeno, portanto só há uma cama. Fico pensando se aquele era o quarto de Myafa, ao qual ela teve de se despedir com a nossa chegada. Ela é bem capaz de fazer uma coisa assim, penso, pelo pouco que conheço dela, já a acho bem simples.
Deve ser umas cinco da manhã no mundo real, mas aqui, eu realmente não faço ideia das horas. Levanto da cama, pálpebras caídas, já que não tive uma boa noite de sono. Me obrigo a levantar e depois, descalça mesmo, atravesso o quarto e saio porta afora.
Quando chego ao corredor, posso vê-lo com mais clareza que ontem a noite. Ele é estranho como o quarto em que dormi, sendo arredondado também, o que me dá a impressão de estar vagando pelo interior de um tubo de esgoto. Mas é até fofinho, se observar bem. Pintado de um leve tom de azul, ele me lembra o céu pela manhã, e sinto-me em casa. Mas não estou em casa, o que me deixa triste.
Chego à sala, onde conversei com Myafa e percebo, que na verdade não é uma sala, mas sim uma cozinha, decorada estranhamente. Acho que cozinhas não deveriam ter poltronas, mas aquela tem. Duas, aliás. Ela é pintada de azul, como o corredor, e o fogão não é exatamente um fogão, mas sim um negócio que desconheço. Tipo a tromba de um elefante que esguicha fogo e uma grade por cima, onde a chaleira- que graças a Deus é normal- apita. Myafa está de costas, e seus cachos verdes com menos volume. Em volta da mesa, redonda como o resto da casa, estão Stive, Dianna e Amélia. Eles não me veem, pois estão de costas. Myafa parece não se importar com a chaleira que não para de berrar. Ela está recolhendo a louça de ontem, eu acho, e colocando tudo em um balde, e também não me percebe. De uma das poltronas um senhor bem velho, com olhos totalmente prateados como os de Myafa me olha sério. Depois ele parece me reconhecer e sorri.
–Senhorita...?- Ele diz, fazendo sinal para que eu dissesse meu nome.
–Emma, senhor.- Digo com formalidade.- Emma Bouringor.
O homem fica rígido. Ouço um prato se quebrar e Myafa me olhar bem assustada. Poxa, entendo que meu sobrenome é horrível, mas também não precisa exagerar. Sinto minhas bochechas esquentarem e sei que estou corando, como se tivesse dito algo de errado. Meu irmão, minha prima e Amélia olham de mim para o velho sem entender. Um rapaz- que não faço ideia de quem seja.- Aparece na porta da cozinha, perplexo.
–Ela disse “Bouringor”, ou não ouvi direito?- Ele não se parece muito, nem com Myafa, nem com o velho, mas seus cabelos verdes o denunciam como irmão de Myafa, se bem que cabelos verdes devem ser comuns por aqui. Os olhos dele, antes totalmente dourados, tremeluzem e ficam normais.
–Sim.- Diz Dianna se levantando e se aproximando.- E esse também é meu sobrenome, qual o problema?
Ele dá um gritinho, e Stive abafa uma risada.
–Quem mais aqui possui esse sobrenome?- Pergunta o velho. Os poucos fios de seus cabelos, são dourados como os olhos do menino.
–Eh... hm, digamos que praticamente todos nós.- Diz Stive assustado com toda aquela tensão.
Vejo Myafa arregalar os olhos, que por acaso, estão normais.
–Menos eu.- Diz Amélia.- E meu irmão Liam.
O menino, que julgo ter pelo menos a idade de Dianna, abaixa os olhos não acreditando.
–Eu... Deveria ter sabido que não era uma lenda.
Dianna olha para mim, quando ninguém está vendo, e gira o indicador próximo ao ouvido.
–Você está zombando de mim?!- O garoto grita, e honestamente, não sei como ele viu o gesto de Dianna, já que seus olhos fitavam o chão. De repente ele se arrepende de ter gritado com ela, pega sua mão e começa a beijá-la.- Me desculpe, my lady, não foi minha intenção.
À essa altura, eu já estou achando que esse garoto sofre de sérios problemas mentais. O velho está quieto, pensativo, e Myafa tira a chaleira do fogo, finalmente.
–Eu deveria ter imaginado que ninguém entra aqui por acaso.- Ele murmura.
Stive pigarreia.
–Hm, senhor Arismir?- Ele chama, o que faz o velho, que agora sei que é o tal do Arismir, volta seu olhar para meu irmão.- Eu estou muito confuso.- Novidade, penso.- O senhor pode me explicar o que está acontecendo?
–Eu posso contar-lhes a história.- Ele diz.
–O senhor não ouviu?- Hellena entra na sala e para ao meu lado.- Ele quer saber o que está acontecendo e não ficar ouvindo histórinhas.
O velho a ignora. O menino estranho está encantado com Hellena e a olha como uma mariposa encantada com a luz.
–Você também é uma Bouringor, não é mesmo?- Ele pergunta, esquecendo a mão de Dianna.
–E você com isso?- Ela gira os olhos.
O menino pega uma mecha azul do cabelo dela e ela o arranca bruscamente da mão dele.
–E até tem os cabelos azuis típicos daqui!- Ele se impressiona.
–Cala a boca, garoto, nem te conheço!- Ela diz, e abafo uma risadinha com toda a cena.
–Perdão, senhorita, perdão.- Ele diz, abobalhado.- Sou Birc, e estou muito encantado em recebe-la na minha casa.
Acho que quando sair daqui, vou rir por três horas seguidas. Arismir focou de contar a história, e também o porquê de todos ficarem surpresos com meu sobrenome, que cá entre nós, eu nunca gostei.
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