O país secreto.
5 A casa abandonada
Notas iniciais
Eu acho que isso não vai dar certo.
É o que penso, e não entendo por que votei para ir. Agora que estou na rua, num frio de tremer os ossos, quero voltar. Mas é claro que não farei isso. Não vou sair de medrosa para os tapados dos amiguinhos dos meus irmãos. Eu vou. Bem, na verdade, eu já estou indo. A faladeira de Will me deixa nervosa, mas a cara de assustada de Luize mais ainda. Nem sei o que estamos fazendo na rua uma hora dessas! Tinha que ser ideia do descerebrado do meu irmão, é claro. Puxo Luize para mais perto de mim e a abraço, para nos aquecer.
–Incrível, não?- Stive ria.- Estamos fugindo de casa!
Reviro os olhos.
–Claro que não, seu tapado.- Annabely disse o que eu estava pensando em dizer.
–Só estamos buscando diversão.- Completou Hellena.
–Diversão?- Pergunta Amélia, como se não tivesse ouvido.- Nesse frio e no meio da noite?
–Exato.- Diz Hellena.- Só estamos buscando adrenalina.
–Isso mesmo, Hellena, adrenalina!- Diz Will empolgado, e embora não estivesse vendo os seus olhos, sei que brilham de entusiasmo, como acontece todas as vezes que faz algo que julga ser emocionante.
–Adrenalina.- Júnior bufa.- Para mim isso tudo é fogo no...
–Júnior!- Amélia ralha com ele.
–Que foi?- Ele pergunta, entediado.
Pigarreio.
–Também acho que deveríamos voltar.- Digo. Mas ninguém me ouve.
Todos pararam. Estávamos à vários quarteirões de nossa casa. Todos parecem impressionados com algo, e eu, como estou mais atrás com Luize, não vejo o que é até me aproximar. Solto Luize e chego mais perto.
–E-Emma.- Stive gagueja.- Se lembra?
O que está diante de nós também me deixa boquiaberta. É a casa abandonada na qual entrei uma vez por acaso.Era disso que Stive se referia. Acontece que eu tinha apenas seis anos, e o que me aconteceu foi horrível. Eu havia ido àquela casa com Stive, que não passava de um pirralho de nove anos. Quando vimos aquela grande casa caindo aos pedaços, é obvio, ficamos curiosos. Entramos no quintal sombrio e subimos a escadinha da entrada, que rangia. Stive empurrou a porta com as pontas dos dedos, o que causou um ruido bizarro. Nós dois lançamos uma olhadela dentro da casa e em seguida nos entreolhamos para saber quem entraria primeiro. Digamos que Stive venceu, e eu entrei na casa. Era poeirenta e espaçosa, e me deixou tão impressionada que recuei. Encostei as costas na porta e procurei a maçaneta. Droga, Stive não entrara. E a porta se fechara. Nunca soube como, mas ela se fechou. E eu a tentei abrir. Puxava com todas as minhas forças. E a porta não abria. Sentia as lágrimas descerem por meu rosto enquanto gritava para Stive me ajudar e tentava abrir a porta com minhas mãozinhas frágeis, que acabaram todas machucadas. Stive, eu sei, tentava puxar a porta por fora, mas também era fraco demais. Ouvia ele me gritar e tentar me acalmar. No fim, alguém que passava na rua, suponho, veio ajudar Stive a puxar a porta, que se abriu. Assim que a porta se abriu, sem pensar duas vezes, me joguei nos braços de meu irmão. O rosto molhado de lágrimas. As horas que passei ali, foram as piores de minha vida.
–Sim, Stive.- Digo, assustada com a lembrança.- Mas não quero repetir outra vez.
–Do que está falando?- Pergunta Liam
–Sabe que não é da sua conta?- Digo, semicerrando os olhos.
–Fica calma Emma.- Stive disse, ignorando o que Liam e eu havíamos dito.- Não vai acontecer de novo. Agora somos onze. Temos força para puxar uma porta.
–Está se referindo àquele episódio da porta emperrada?- Will ri.
–Queria que fosse você a estar preso lá dentro.- Digo sem paciência.- Mas que ninguém viesse te salvar.
–Ui, que medo.- Ele zomba.
–O.K., quem topa entrar na casa?- Pergunta Stive.
Arregalo os olhos. O que? Como assim entrar na casa? Será que o que aconteceu anos atrás já não foi lição suficiente? Claro que não. Aconteceu comigo, não com ele.
Para meu desespero, a maioria topou. Eu até poderia ir para casa, mas estávamos bastante longe, e além do mais, não é muito seguro uma menina de quinze anos vagar pela rua a noite. Me restou ir com eles, mas se algo acontecer de errado... O culpado vai ser os meus dois irmãos estúpidos, afinal a ideia de vir para a rua foi de Will.
Observo, imóvel, Will, Stive, Hellena e Liam entrar no quintal. Em seguida, vão Dianna, Chris e Annabely. Não sei se vou. Posso convencer os que ficaram do lado de fora – Júnior, Amélia e Luize- A voltarem comigo. Errado. Amélia segura Júnior pelo pulso e eles entram juntos no quintal. Não dá mais. Agora só restaram Luize, que é uma inocente criança de doze anos, e eu. Como eu odeio meus irmãos às vezes! Luize me abraça novamente e murmura algo que, na hora eu não entendo, mas depois de um tempo tentando compreender, entendo como um
“Estou com medo.”
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