O paraíso

1 A morte


Às 15h26 de uma fria tarde de dezembro, mês de seu aniversário de 58 anos, Takami Keigo, mais conhecido como Hawks, o ex-herói das asas, morreu.

Hawks travou duras batalhas ao longo da vida, tanto como o herói número 2 do país quanto como o presidente do HPSC. Contudo, nos últimos três anos o palco de sua maior batalha foi a ala oncológica do Hospital Geral de Fukuoka.

A morte o encontrou sozinho em seu leito hospitalar. Fumikage, o amigo mais próximo, visitara-o poucas horas antes e declarara sua intenção de aparecer à noite, logo após a cerimônia de formatura de sua filha mais velha.

— Aguente firme. — Quando a amargura das palavras pesou o ar, acrescentou: — Yuzu-chan vai adorar te mostrar as fotos da formatura.

Hawks concordou, um sorriso fraco nos lábios. Um pressentimento repousava em seu peito. Memorizou o rosto cansado do seu primeiro e único aprendiz. Se tivesse forças para falar, diria para ele aproveitar a noite e se divertir. Também diria que o amava como a um irmão.

Após a saída de Fumikage, solicitou outra dose de analgésico à gentil enfermeira. A droga abafou a dor e trouxe uma doce sonolência. Hawks virou a cabeça para a janela aberta. O céu azul perdeu a nitidez conforme suas pálpebras pesavam.

Dormiu e não acordou.

*

Às 15h35, o médico atestou o falecimento de Hawks. Um comunicado chegou à administração do hospital. A secretária respirou fundo antes de ligar para o número repetidamente gravado no histórico de chamadas do telefone administrativo.

Tokoyami Yuzuki, oradora da turma, declamava um elaborado discurso no momento em que o celular de seu pai tocou dentro do bolso. Antes de atender, ele sentiu.

*

Hawks morreu sem deixar herdeiros. Em testamento, destinou seu amplo patrimônio a uma variedade de instituições de caridade e projetos de pesquisa. Em seu funeral, milhares de fãs lamentaram a perda de um ícone do passado; centenas de heróis lamentaram a perda de um líder carismático; e dezenas de colegas lamentaram a perda de uma figura inspiradora. Apenas uma dúzia de pessoas lamentou a perda de Hawks.

*

Em um ponto indeterminado do tempo, alheio ao pesar que sua ausência deixou no mundo, Hawks acordou. E estava no céu.

O céu literal, de um azul infinito salpicado por nuvens brancas, onde seu corpo despencava em queda livre. O vento assobiava nos ouvidos dele. A melódia estridente o transportou para o último salto de paraquedas, quando a visão panorâmica do Monte Fuji levou lágrimas aos seus olhos. Hawks acreditou que jamais voltaria a contemplar o mundo do ápice de um voo. Mas estava ali agora, e apesar de não ter ideia de como chegou lá, abriu um largo sorriso. Por instinto, assumiu a posição do arco — barriga para baixo, pernas flexionadas, braços estendidos — e encontrou estabilidade na resistência do ar.

Qualquer dúvida sobre sua atual localização se tornou insignificante diante da imensidão do horizonte. Após meses restrito a um quarto de hospital, dividindo o espaço com aparelhos de suporte de vida e um punhado de notícias ruins, era bom ser apenas um pontinho em meio ao azul-celeste.

Um longo tempo se passou antes de Hawks perceber que não conseguia ver o chão. Acima ou abaixo, só haviam nuvens vaporosas, flutuando preguiçosamente ao bel-prazer do vento.

De que altura saltei?, questionou-se, levando uma das mãos para a alavanca do paraquedas. Neste momento, descobriu que não havia paraquedas. O tecido verde-claro da camisola hospitalar era a única cobertura em seu corpo. Um calafrio de medo se formou na base de sua espinha, porém perdeu intensidade quando Hawks tomou inteira consciência de sua forma física.

Um par de asas se projetava de suas costas.

O choque quebrou a estabilidade dele. Girou ao redor de si em uma confusão de membros e penas vermelhas. Mais de três décadas o separavam do jovem alado que cruzava os céus com a mesma habilidade de seu homônimo animal. Gritos se alojaram em sua garganta, presos em um nó invisível que só permitia a passagem de ar por sua boca aberta.

Lembrou-se do hospital — não aquele onde viveu seus últimos dias, mas aquele no qual um médico pesarosoanunciouque sua peculiaridade estava perdida para sempre.

Hawks lutou para reaver o controle. O passar do tempo enterrou a sensação de ter um par extra de apêndices, mas a experiência permanecia viva no mais profundo de seu ser. Bateu as asas e desacelerou a queda. Oscilou incontáveis vezes, descendo e subindo como um pássaro em seu primeiro voo. Sentiu o puxão de uma corrente de ar ascendente. Com o coração trovejando, seguiu o fluxo e disparou rumo à imensidão superior.

Cada bater de asas o lembrou que não voava assim desde a noite anterior a invasão na Vila da Montanha Gunga. O temor surgiu outra vez enquanto pensamentos se encadeavam em uma única conclusão:

Estou morto.

*

A morte nunca foi um conceito estranho para Hawks. O treinamento da Comissão tratou de familiarizá-lo com a possibilidade de matar ou morrer em nome do bem maior. Missões aconteceram e o aprendizado se revelou uma realidade impossível de escapar. Pessoas morreram, pessoas tentaram matá-lo. No fim, Hawks conservou um coração batendo por muito mais tempo do que imaginava. O diagnóstico de um tumor agressivo no estômago o pegou desprevenido. Estava confortável demais com a vida para se lembrar que um dia morreria. Os melhores tratamentos do mundo lhe compraram um tempo extra na terra, porém a compreensão se tornou uma companhia diária: a finitude era a sentença dos homens.

Meses antes de morrer, Hawks deixou Tsunagu arrastá-lo para um templo. Ninguém o acusaria de ser do tipo religioso, mas o badalar dos sinos e o perfume dos incensos acalmou seu espírito. Seguindo o exemplo do amigo, juntou as palmas em oração e curvou seu corpo emaciado. Não acreditava em milagres, muito menos confiava nos deuses, mas era otimista o suficiente para desejar:

Que a minha vida tenha valido à pena.

*

O medo veio e se foi. Uma mistura de tristeza e resignação o substituiu. Logo, um contentamento o encheu. A dor no estômago desapareceu, assim como o repuxar das queimaduras nas costas e a fadiga que os anos acumularam em seus músculos. Hawks abriu as asas até sentir que podia abarcar o infinito e voou como o menino que fora no passado. Mergulhou nas nuvens, banhou-se na umidade delas e emergiu para secar sob o sol quente. O toque do vento vibrou em suas penas, inundando seu cérebro com sensações há trinta e cinco anos esquecidas.

O sabor agridoce de lágrimas lavou os lábios dele. Paraquedismo nunca chegou perto disso.

*

Entre sua ausência de cansaço e um sol eternamente preso no ápice do dia, Hawks não notou o passar do tempo. O céu não computava minutos, porém havia um cronograma a seguir e Hawks precisava cumpri-lo.

Um chamado encontrou o caminho até os ouvidos dele. Hawks pausou suas brincadeiras nas nuvens para olhar ao redor. A incerteza ressurgiu. Estava morto e ainda não sabia que lugar era aquele. O chamado ecoou novamente; palavras sem som e sem forma o convidavam a se aproximar.

Por entre as nuvens inferiores, uma montanha surgiu. Era coberta por um tapete de árvores frondosas, cujas copas verde-musgo brilhavam sob os raios solares. Uma pontada de familiaridade atingiu Hawks, mas não conseguiu precisar de onde conhecia aquela paisagem. Meneou as asas e avançou em direção à montanha. Por curiosidade, raspou os pés no topo das árvores. As folhas fizeram cócegas em sua pele nua, revelando-se tão reais quanto o toque do vento. Um cheiro úmido de natureza exalava no ar, semelhante ao de qualquer outra floresta que visitou em vida.

Hawks franziu as sobrancelhas. Estou mesmo morto?

— Acredite, você está.

A resposta repentina fez Hawks errar um bater de asas. Perdeu o equilíbrio e esbarrou no galho de uma grande árvore. A gravidade venceu sua falta de prática. Despencou quatro andares até atingir o chão. O corpo dele registrou o impacto da queda, porém não houve dor. Ergueu-se para uma posição sentada, pensando se tinha ou não imaginado aquela voz.

Uma mulher estava parada diante dele.

Aparentava ter entre sessenta e setenta anos. O cabelo castanho-claro, cortado rente à nuca, apresentava grandes mechas de fios grisalhos. As rugas no rosto redondo e bonito apontavam para uma tendência a sorrisos. Usava um vestido simples, cor de creme, que descia até abaixo dos joelhos e deixava os braços à mostra. Manchas de sol pintavam sua pele branca. Os pés descalços estavam sujos de terra. Em uma das mãos carregava um balde cheio de flores; na outra, segurava um regador de metal.

Os olhos dourados se enrugaram nos cantos quando ela sorriu para Hawks.

— Olá, Keigo.