O paciente que ouvia demais
1 Silêncio
Havia muito barulho. Os ouvidos do homem zumbiam sozinhos quando os sons cessavam, e por isso parecia haver sempre alguém dizendo alguma coisa ou alguma coisa dizendo alguma coisa. Era irritante. Será que nada sabia ficar quieto por um instante? Para sempre haveria uma turbulência, para sempre haveria algo para consertar?
Ah, pronto. Aquilo de novo.
Aquele círculo idiota vinha pulando e dando cambalhotas. O que ele achava? Que ia mudar de aparência dependendo do ângulo? Era um círculo, droga! Ele costumava ser mais calmo quando era apenas uma linha reta. Mas de tanto ganhar voz, foi entortando até ficar repetitivo. Agora ele falava o tempo todo e nunca chegava ao que parecesse minimamente uma conclusão. O único momento em que calava a boca era... Ah. Agora.
O som extremamente alto de água caindo. Gotas e mais gotas de uma água salgada, dispensável, mas amada. Para o homem, ela vinha inesperadamente. Ele nunca sabia ao certo quando a torneira seria aberta, e de tanto força-la a se fechar, mais círculos apareciam. Mas era bom sentar e deixar a água cair. E enquanto ela caía, os círculos iam falando mais alto e ao mesmo tempo. Como parar tudo isso, então? Era bom, mas fazia mal.
Aquela mola que vivia traçando caminhos ao redor dele conseguia distraí-lo às vezes. Alguns anéis eram legais, faziam-no rir. Outros viviam dizendo que ele precisava fazer os círculos calarem a boca. “Mas não sei como!”. “Se vira! Nós aqui não demos um jeito de andar juntos?”. O homem achava fascinante como todos aqueles anéis formavam a mola e iam andando por aí sem problemas. Ah, espera, eles não estão andando mais, um dos anéis queria parar. Mas o homem não os observava mais.
Ele olhava para aquela caixa misteriosa de sempre. A mola já havia dito para ele entrar lá. Muito se falava sobre aquela caixa. Ninguém chegava mais que cinco metros perto dela. Era inofensivamente perigosa, os círculos diziam. Os círculos não se davam muito bem com a lógica. Por falar nisso, a lógica estava sumida fazia algum tempo e não deixara rastros quando se fora. O homem, de novo, começou a pensar sobre aonde ela poderia ter ido, e ele sabia que isso era um modo de evitar pensar na caixa. Talvez ela fosse simpática, mas quem sabe o obrigasse a ignorar a mola, os círculos, a água...? Aqueles anéis mais chatos o perturbariam para sempre se isso acontecesse.
Lá vem aquele sujeito afobado. O homem nunca conseguia vê-lo de fato. Costumava dar as caras em forma de uma sombra e vivia sumindo. Mas não importava muito onde estava. De todo jeito, fazia o coração do homem acelerar e um pressentimento ruim invadi-lo. Costumava acontecer quando estava muito perto ou muito, muito longe da caixa. Aquela coisinha era mesmo um mistério danado.
O homem foi se afastar dela e deu de cara com a sombra. Seu coração bateu tão forte que fez uma rachadura em seu peito. Os círculos vieram pulando, berrando. Aqueles infelizes. O homem queria muito pegar cada um deles e estica-los a força, mas muitos se machucariam e ele não queria isso também. De repente, a água pingava em gotas pesadas na cabeça dele. Uma musiquinha começou a tocar, bem romântica, e bem na hora errada. As gotas viraram rio.
Um passo atrapalhado foi dado para trás, para ir embora e se afastar daquela algazarra, e uma dor de cabeça profunda abateu o homem. Ele cobriu-a para se proteger do que quer que fosse e fechou os olhos. Sabia que tinha entrado na área da caixa. Ele olhou para a confusão de coisas na frente dele e percebeu que não podia ouvir nenhuma delas. As molas estavam agitadas, indo de um lado para o outro, como se pedissem para ele sair dali. Ele pensou em fazer isso, mas, ah, ali estava a sombra. Não queria ficar perto dela.
O homem foi se afastando cada vez mais, em direção à caixa, viu-a meio aberta e, louco para fugir do olhar oculto da sombra, entrou e fechou-a.
Ele fechou os olhos e se sentou, abraçando os joelhos. Não podia ouvir nem ver nada. Não havia nem zumbido em seus ouvidos, graças aos Céus! Era bom ficar ali. Mas...
E se os círculos estivessem precisando de ajuda?
Ele se levantou, pronto para ir ao socorro deles.
“Calma, eu nunca consegui ajudá-los mesmo. De que adianta ficar ouvindo aquela baderna?”.
Ele se sentou.
O que as molas deviam estar pensando dele... Ele queria ouvi-las um pouco, só de curiosidade. Esticou a mão para abrir a caixa, e então se lembrou de como costumava desejar uma máquina de costura. Ele resolveu procurar uma, e prometeu que logo depois voltaria para dar atenção às molas.
Assim que encontrou a máquina, após dias e dias andando dentro daquela caixa, ele começou a costurar sua camisa rasgada. Gostou tanto daquilo. Gostou demais. Gostou com gosto. Gostou tanto que fez várias peças diferentes com tecidos diferentes. Passou mais vários dias costurando.
“Droga! As molas! Vão me odiar! Há quanto tempo devem estar precisando de mim?!”
Com todas as suas amadas peças nos braços, ele correu de volta para a saída da caixa. Estacou na frente dela. O único som que ouvira nos últimos dias tinha sido o da máquina de costura. Era um som divertido, às vezes até se transformava em música. Ele podia substituir aquela musiquinha romântica do lado de fora da caixa por essa. Queria tanto ficar ali dentro para sempre.
Ele se inclinou e abriu a caixa só um pouquinho, de olhos fechados. Esperou a enxurrada de gritos e sensações ruins, mas nada veio. “Quem sabe eles tenham dado um jeito?”.
E fechou a porta.
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