O país secreto.
15 Vejo Liam chorar.
Notas iniciais
Quando a noite chegou, eu, sozinha no quarto, mais uma vez, não pude dormir. Realmente não entendo o porquê de minha insônia ser tão frequente. E agora, como tudo caiu sobre meus ombros de uma vez só, dormir fica mais complicado. Reviro na cama e tento convencer a mim mesma, que pelo menos dessa vez eu não vou me levantar e sair vagando pela casa. Mas Assim que fecho os olhos, a imagem de uma Luize ensaguentada me invade a cabeça e eu os abro instantaneamente. Luize. Um nó começa a se formar em minha garganta e eu me sento na cama, jogando os cobertores para o lado. Apoio os cotovelos nos joelhos, que se movem impacientes. Passo as mãos nos cabelos, incomodada com que vi. E agora? O que será de mim? Partir em uma missão em busca de meus primos que, meu Deus, nem sei se estão vivos?
Agora não adianta, não vou dormir nem que tente. Levanto e saio, como em todas as outras vezes, de camisola e descalça.
Preciso de água, preciso fazer alguma coisa que distraia minha mente e me livre dos pensamentos ruins. Saio pelo corredor, rumo a cozinha, mas no caminho, um barulho me chama a atenção.
É, pelo que parece, um soluço. Alguém chorando. E está na porta de saída.
Caminho até lá, me perguntando quem seria, então vejo.
Liam está de costas para mim, sentado no chão, a porta de saída está aberta, e ele está ali, mas não olha para fora. Suas mãos estão nos cabelos, e ele parece bem abatido. Pigarreio para que ele saiba que estou ali, e quando ele me escuta, seca as lágrimas rapidamente antes de me olhar. Seus olhos estão vermelhos, e sua aparência não é das melhores. Os cabelos castanhos desgrenhados, os olhos verdes vazios...
–O que você quer?- Ele pergunta, secamente.
Olho-o por um instante. Tão frágil. Deve ser o mais sentimental dentre nós, e o que mais omite isso.
–Nada.- Digo, mais delicadamente do que falaria noutra ocasião. Sento-me ao seu lado, e ali permaneço, esperando que ele diga algo.
–Por que está acordada agora?- Ele pergunta.
–Estou preocupada com... eles.- Digo, com um nó ainda mais apertado na garganta.- E com medo.
–Acho que eu também.- Ele diz, abraçando os joelhos, enquanto soluça.- Júnior é meu irmão mais novo. Ao que mais sou afeiçoado. E se... Bem, vocês nem se importariam.
Engulo em seco, percebendo que de fato não sentiria tanto.
–Você não perdeu seus irmãos.- Ele diz.- Eles estão aí. E vocês ainda tem poderes especiais, o que faz com que se encaixem aqui. E quanto a Amélia e eu? Somos completos... turistas.
Ele abaixa a cabeça. Eu queria consolá-lo, mas como o faria? Dizendo que não está sozinho? Não tem como, e vindo de mim, não o agradaria muito. Levanto a mão, mas quando ela está a centímetros de encostar em seus cabelos, hesito. O que estou fazendo? Este é Liam, o garoto que mais odeio. Não posso consolá-lo, não posso ajudá-lo. Devo ignorar tudo aquilo que ele me disse. Mas não consigo. Vendo-o assim, tão sozinho, não sou capaz de deixá-lo.
–Eu... Sinto muito por seus primos capturados.- Ele diz, com a voz abafada.- Mas eu acho que... estão todos mortos agora. Inclusive meu irmão.
Abaixo a mão, enquanto balanço a cabeça, assustada. A lágrima que esperava ansiosamente para ser libertada de meu olho cai, e em seguida outras inúmeras começam a escorrer pela minha bochecha.
–Eles não vão voltar.- Ele soluça.- E a gente não vai para casa.
Cubro meus olhos com as mãos. Por mais que eu negue, é verdade. Não voltaremos. Mas e se ele estiver certo sobre meus primos e o irmão dele? Se todos estiverem mortos? Se nossa jornada for em vão? Estou assustada, desesperada, preocupada e tudo ao mesmo tempo. Liam chora por saber que não verá a quem ama nunca mais, e eu também. E todos os outros devem chorar escondidos, como Liam faz. Aposto que ele faz isso todas as noites. Até mesmo Hellena, que parece tão forte, deve ser frágil como ele. Como eu.
Me levanto dali e saio correndo de volta à meu quarto. Bato a porta atrás de mim e pulo na cama, cubrindo a cabeça com os cobertores. Não sei o quanto chorei, mas sei que foi até adormecer. Os meus sonhos foram conturbados, perturbadores. Hellena sendo esfaqueada, Annabely tentado ajudá-la a voltar a vida, mas vendo que é inútil e saindo dali aos prantos. Luize abraçada ao cadáver da irmã e coisas assim. Acordo berrando, mas já é de manhã. Meu berro chama a atenção de Birc, que vem até o quarto e tenta me tranquilizar, afagando-me os cabelos. Quando me acalmo e conto o sonho a ele, o mesmo arregala os olhos.
–Espere, Hellena morreu?- Ele diz com seus olhos dourados normais arregalados.
–Foi um sonho. Um sonho.- Repito freneticamente, sentada na cama e balançando-me para frente e para trás.- Nada além de um sonho.
–Mas você...- Ele olha para mim por uns instantes com cara de assustado, então suspira.- Ah, não, você não é a vidente.
Paro de me balançar e olho-o diretamente nos olhos, intrigada.
–Vidente?- Pergunto, com as sobrancelhas franzidas.
–É.- Ele diz.- Uma de vocês é vidente, acho que é a tal da Dianna.
Agora tudo faz sentido! Dianna e seus pressentimentos... Lembro-me claramente da vez em que ela me alertou para que não brigasse com Liam, ou o mataria. Então ela pressentia que eu poderia incinerá-lo? E aquela vez em que ela tentou me impedir de entrar na casa abandonada? Outra visão, fraca, mas visão. Temos uma vidente entre nós...
–Temos uma vidente entre nós!- Emito o pensamento em voz alta, e soa com mais entusiasmo do que pretendia, com um sorriso inesperado, que Birc estranhou. Ele poderia invadir meus pensamentos, mas não o fez.
–Sim, mas o que que tem?- Ele diz, visivelmente confuso.
Acontece que tive uma ideia. Genial!
–Bem, se a Didi é vidente, ela pode prever se os nossos primos, irmãos dela e o irmão do Liam estão vivos, não pode?
Birc coça a cabeça pensativo.
–Exigiria anos de prática.- Ele dá de ombros.- Mas se a pessoa for um bom vidente, ou neto de Doquo, como é o caso, deve levar alguns meses para ter essas visões tão detalhadas.
O sorriso em minha face aumenta. Então ainda há uma esperança.
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