O país secreto.
28 O retorno.
Notas iniciais
Minutos parecem horas. Não escuto nada além de minha própria respiração, e não vejo nada além das chamas que bruxuleiam em minhas mãos. O olhar atento, fixado nas árvores, mesmo não conseguindo vê-las. Auxiliada por meus ouvidos, que prestam atenção a cada ruído mínimo. Já fiz isso mais vezes do que posso contar, mas hoje, especialmente, estou mais distraída que o normal.Tenho que manter o foco, a concentração, mas minha mente insiste em vaguear para o mais longe possível. Desde a tragédia com Luíze, o sequestro à Dianna, a fuga de Hellena, até o colar ganho por Amélia. Tudo está acontecendo suficientemente rápido para que eu ainda não tenha encontrado tempo para abrir o estojinho...
Sou arrancada dos meus pensamentos quando meus ouvidos captam movimentos vindos de algum lugar próximo. Gravetos se partindo, passos rápidos e farfalhares de folhas. Pode ser um predador, ou alguém que deseja me matar. Permaneço imóvel, e apago o fogo em minhas mãos para não chamar atenção. Sinto o coração acelerar e a respiração ficar mais pesada. Levanto-me com cuidado, preparando-me para agir.
Meus olhos identificam três silhuetas. A do meio é a mais baixa, e se debate. A da esquerda é alta e esguia. A da direita deve ter mais ou menos a minha altura. Parecem inofensivos, e há possibilidade de que já os conheça.
Faço um breve movimento com a mão, e esta pega fogo. O lugar fica mais iluminado e me aproximo para vê-los melhor.
Não sou capaz de acreditar no que vejo. Diante de mim estão Demmie e um dos gêmeos- Vedir, pela roupa que está usando- e eles carregam ninguém menos que uma revoltada Hellena.
–Deveria cuidar melhor dos seus bichinhos de estimação, Emma.- Demmie diz, e Hellena se contorce tentando se desvencilhar de suas mãos.
–Bichinho é a sua...
–Ei!- Briga Vedir. Ele volta o olhar para mim.- A pegamos vagando na noite. Pálida como a neve. Porém, cintilando de ódio.
Meu sorriso se escancara e me aproximo de Hellena para abraçá-la. Mas ela se esquiva, e minha alegria se transforma em tristeza.
–Eu não pedi para que me trouxessem aqui.- Ela diz entredentes.- Eu sei o que faço e faço o que quiser!
–Calma aí, nervosinha.- Demmie aperta seu braço e ela bufa.- A menos de um quarteirão de você havia um Kirq. Faminto, louco por um petisco. Carne congelada seria sua satisfação.
–Tira suas mãos de mim!- Hellena diz,andando para trás.- A vida é minha! Se eu quiser tirá-la, problema é meu! Vá pentear essa sua juba, que será melhor para você.
–Emma...- Vedir alterna o olhar entre as duas e eu.- Olhe, é bem capaz de ela fugir novamente. É tão escorregadia quanto Jayssa! Mas receio que se ela tornar a escapulir, não consigamos trazê-la de volta.
–E o que sugere que eu faça?- Pergunto, esganiçada.
Ele morde o lábio inferior, pensativo.
–Posso, até onde sei, criar muros invisíveis. Impenetráveis.- Ele diz.- Se você concordar, poderíamos trancá-la na caverna até a poeira baixar.
–Mas... E quanto a mim, Larm, Liam e Stive? Não podemos ficar aprisionados com ela ou todos morreremos à míngua.- Observo.
–Tem razão...- Murmura.- Então acho melhor a isolarmos em um canto da caverna. Apenas ela, e mais ninguém. Com uma pequena brecha na magia, apenas para a passagem de alimentos e água.
–Eu...- Sussurro, sentindo os olhos marejarem.- Não quero deixá-la sozinha... Não agora...
–Desculpe, Emma.- Ele apoia a mão em meu ombro.- Não vejo outra saída. Se quer vê-la viva, então sugiro que me escute.
–Não sei se confio em você.- Retruco, lembrando subitamente das lembranças de Giroy, do sequestro à minha prima mais velha...- Você deixou aquele rapaz sequestrar Dianna.
Ele desvia o olhar para Hellena e eu faço o mesmo.
–... Você não passa de poodle laranja recém-saído da tosa.- Diz Hellena, irritada.- Não tem o direito de me dizer o que fazer, e muito menos de me “salvar”!
–Eu não entendi o que disse, mas asseguro-lhe que suas ofensas de criancinha mimada não atingem nem a ponta da minha unha.- Retruca Demmie.- E você tem razão.- Ela assente.- Lugar de porcaria é no estômago de Kirqs.
Os cabelos de Hellena perdem toda a cor e ela começa a ficar tão branca e reluzente quanto um fantasma.
–Acho que deveria confiar em mim.- Diz-me Vedir.- Para o bem de sua prima.
Assinto, e ao realizar o movimento, sinto algumas lágrimas se desprenderem de meus olhos.
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Demmie empurra Hellena para o canto da caverna. De um canto, Stive e Doquo olham a cena com seus grandes olhos castanhos maiores ainda. Do outro, Liam contempla atento e boquiaberto a cada movimento; e Larm limpa a harpa distraidamente com a folha de uma árvore, ignorando-nos completamente.
–Eu não quero estar aqui!- Vocifera Hellena, chorando sem parar.- Eu quero fugir! Quero vingar a morte de minha irmã!
Vedir a segura e Demmie sai de perto, recuando e parando ao meu lado.
Vedir abraça Hellena com força, empurrando-a para trás até que atinja a parede. Murmura algumas coisas para ela e faz com que se sente no chão, sentando-se ao seu lado. Mas não a solta.
–Eu... ela era minha irmã gêmea, cara.- Ela soluça.- Parte de mim.
Alguém se aproxima e para ao meu lado. Vejo, pelo canto do olho, que se trata de Stive. Ele me envolve com o braço, e engulo em seco para reprimir as lágrimas.
–Eu sei, eu também tenho um irmão gêmeo.- Vedir diz.- E compreendo sua reação, pois se algo acontecesse a ele, eu estaria tão destruído quanto você.
–Você me entende mesmo?- Ela pergunta, frágil.
–Sim.- Confirma.- Mas eu não iria a lugar nenhum vingar sua morte.
–Mas isso é errado!- Ela o empurra para o lado, mas ele a abraça novamente.
–...Hellena.- Ele diz, dócil..- Eu não conheci sua irmã. Mas você a conhecia como ninguém, não é mesmo?
Ela assente, soluçante.
–Tenho certeza de que era uma ótima pessoa.- Ele afasta uma mecha de cabelo da testa dela.- Assim como você. Diga-me: Você acha que ela gostaria de vê-la morrer por sua causa?
Hellena sacode a cabeça negativamente.
–...Acha que ela gostaria de vê-la arriscar-se assim?- Vedir diz, bondosamente.- Deixe-a descansar em paz, menina. Nada do que possa fazer a trará de volta.
Ela balança a cabeça, enquanto mais lágrimas descem por seus olhos. E o abraça, afundando o rosto em sua camisa e soluçando descontroladamente.
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–Como fez aquilo...?- Corro para alcançar Vedir e Demmie que caminham sem olhar para trás, pela floresta.
–Seleção de palavras.- Ele dá de ombros.- Falar com o coração... Bem, chame como preferir.
–Obrigado.- Digo, parando de andar. Ele para também, mas Demmie continua e em pouco tempo, já não posso mais vê-la.- Não conseguiria ser tão carinhosa.
Ele olha para mim.
–Sempre gostei muito de Hellena.- Ele diz.- Não como Drafe gosta de Dianna. Mas gosto dela. Não gostei muito da ideia de deixá-la presa. Uma boa conversa sempre resolve as coisas, não é mesmo?
–Como assim, você gosta da Hellena?- Dou um sorriso involuntário.
–Não dessa forma.- Se aproxima de mim.- Sou seu protetor. Ela é minha protegida. Gosto dela como uma... irmãzinha? Não sei dizer. Sou muito profissional, sabe?
–Uhum...-Faço, sem conseguir tirar o sorriso.
Ele me estuda uns segundos, antes de se virar e simplesmente desaparecer.
A minha alegria está bem obvia. Hellena está de volta. Não teve que ser presa. Minha vida volta temporariamente ao “normal”.
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