O país secreto.

24 O invasor de sonhos


Notas iniciais
Não sei se ficou bom, mas espero que curtam. Fiz com carinho ;)

O sol está se despedindo e os diversos tons alaranjados tomam conta do céu. Estou do lado de fora da caverna, contemplando o fim do dia. E que dia. As coisas acontecem rápido demais, e ainda não consegui digerir tudo. Em menos de um mês minha vida virou de cabeça para baixo e, confesso, ainda não me adaptei. Há alguns anos atrás eu e meus primos acampávamos no quintal, contávamos histórias de terror, brincávamos de super poderes... nunca achamos que tudo se tornaria realidade. Nunca achamos que teríamos de subir em um trono, receber uma coroa e ter tanta responsabilidade assim. Nunca pensei que acamparia em uma floresta, que enfrentaria perigos reais. Isso é ficção. E eu estou bem no meio dela.

Tento varrer o pensamento, porque ele não me deixa feliz. Seguro o pingente do colar ganho por Amélia, mas não o abro. Não hoje. Não agora. A pouca luz não ajudaria a ver o conteúdo do estojinho. Então é melhor eu ir dormir agora. Preciso descansar.

Entro na caverna e depois observo Stive sair. Ele ficará de vigia hoje, nas primeiras três horas.

Deito no chão frio, e não demoro a pegar no sono. Logo estou dormindo.

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Abro os olhos lentamente. Tudo está tão branco que parece que estou perdida no meio do nada. Eu sei que só se trata de um sonho, mas é o sonho mais real que já tive minha vida toda. Me levanto. Estou tonta e desnorteada. Começo a andar. Mas percebo que estou sempre no mesmo lugar. O cenário branco já está começando a me assustar. Até que avisto o primeiro objeto.

É uma cadeira preta, que se destaca no meio de tanto branco. Me aproximo e sento nela, sorrindo levemente, afinal fico feliz em achar algo que não seja branco. Então, outra cadeira aparece diante de mim. Amarela e mais bonita que a primeira, na qual estou sentada. Esta é cravejada em diamantes e rubis, mais alta e elegante. Como um trono.

Pra que outra? Eu só posso sentar em uma.

Mas aquela não é para mim.

Um par de olhos inteiramente dourados e brilhantes aparecem flutuando sobre a cadeira.

Sinto um arrepio percorrer minha espinha. Eu sei exatamente de quem são aqueles olhos.

Acima dos olhos surge uma cabeleira verde despenteada.

Tento me levantar, mas estou presa a cadeira.

–Ora, ora, não se assuste.- O sorriso de Birc aparece, flutuando abaixo dos olhos.

Sacudo-me, desesperadamente para me soltar da cadeira, mas é inútil.

Pouco a pouco Birc vai aparecendo e logo está diante de mim, sorrindo satisfeito com minha relutância.

–Você não vai sair daí. Nem acordar, se é o que pretende.- Ele esfrega as unhas no macacão cinza surrado.

–O que você quer?- Pergunto, secamente.

–Vim fazer uma gentileza.- Ele diz.- Acredite, não é fácil invadir mentes a distância. Mas por você, eu fiz um esforço.

–Vá para o inferno.- Digo, ameaçadora, semicerrando os olhos.

Ele finge mágoa.

–Que bonitinha.- Ele começa a gargalhar, debochadamente.- Se não for boazinha, não vai ganhar o presente.

–Eu não quero nada que venha de você.- Retruco, parando de me balançar e apertando com força os braços da cadeira.

–Aposto que quer.- Ele se diverte, levantando-se e caminhando de um lado para outro.- Afinal, aposto que ama muito aqueles idiotas.

Minha boca se abre alguns centímetros, perplexa.

–Sabe de quem estou falando?- Pergunta, parando atrás de mim e aproximando a boca de meu ouvido esquerdo.- Então concorda que são idiotas?

–Cala esse lixo que você chama de boca!- Brado, irritada.

Ele solta uma gargalhada divertida.

–Eu vou te levar até lá. Por mera... diversão.- Ele estala os dedos e me desprendo da cadeira, caindo de quatro no chão.

O cenário se desfaz ao meu redor, e estou de volta a casa de Arismir. Ela parece mais sombria do que me lembrava e os móveis que eu achava fantásticos estão quase todos quebrados. Levanto-me apesar da tonteira e corro pela casa, tropeçando em objetos quebrados até que uma visão me faz parar. Meu coração gela e tenho vontade de chorar. É meu irmãozinho. É Will. Enroscado no chão, cobrindo os ouvidos com as mãos. Soluçando. Chorando. Dez vezes mais magro. Corro até ele e me abaixo ao seu lado. Tento abraçá-lo, mas minha mão atravessa-o. É como se eu fosse um fantasma. Ele ergue o rosto e olha diretamente para mim. Não pode me ver. Mas sente minha presença. Sua mão direita sai da orelha e se estica em minha direção. Quando está a centímetros de tocar meu rosto, dobra os dedos, hesitante. Sua cabeça balança de um lado para o outro enquanto incontáveis lágrimas soltam-se de seus olhos. Desesperado, cobre novamente o ouvido. Começo a chorar também.

–Que comovente.- Birc bate palmas, e depois finge secar uma lágrima do rosto com a ponta do dedo.- Agora saia daí.

–Não.- Digo, tentando abraçar meu irmão de todo o jeito, mas não conseguindo.

Mas tudo se desfaz antes que eu possa dizer mais alguma coisa. Agora estou em um lugar completamente desconhecido. Seria lindo se não fosse tão assustador. É um longo corredor, com gárgulas nas paredes e morcegos entalhados. Estou perdida e sozinha. Birc não está aqui, não faço ideia de onde foi parar. E é até melhor que não esteja mesmo.

Uma mulher, carregando lençóis brancos vem apressadamente em minha direção e me atravessa. Ela para por um instante, afinal deve ter sentido minha presença, mas depois segue caminho, murmurando coisas. Começo a andar e avisto Birc no fim do corredor, sentado no chão, encostado na parede. Ele se levanta e vem ao meu encontro.

–Onde estamos?- Pergunto, confusa, olhando ao redor.

–Lógico que no castelo.

Volto o olhar para ele, com os olhos arregalados. Ele apenas ri.

–Vai odiar o que verá.- Ele diz.- Siga-me. Vou levá-la aos seus primos.

Hesito por alguns segundos- afinal estou com Birc, um dos vilões- mas então o sigo. Passamos por várias salas esquisitas, vários corredores sinistros e vários funcionários carrancudos até chegarmos ao nosso destino. Avisto meus primos em uma cela grande e suja. Corro até eles e atravesso as grades.

O que vejo me assusta muito. As lágrimas turvam minha visão. Chris está abraçado a Annabely, ambos magricelas e sujos, como mendigos. Júnior está deitado em um canto, com a cara virada para a parede, cantarolando e chorando ao mesmo tempo, feito um louco.

Um guarda abre a porta da cela e atira Dianna aqui dentro, com violência. Ela cai no chão, mas se levanta com rapidez, agarrando o braço esquerdo com o direito. Ela chora tanto que seus olhos estão inchados. Annabely se solta do irmão e abraça a irmã com força. Dianna está bastante magra, mas com certeza menos que os outros presos.

Me aproximo das duas, para escutar qualquer murmúrio que seja.

–Onde está Luize?- Sussurra Annabely, apenas para Dianna escutar.

–Ela resistiu, não quis usar seus poderes para o mal...- Dianna diz, com a voz trêmula- Luize morreu.

Sinto meu coração acelerar e as lágrimas começarem a rolar por meu rosto.

Annabely se afasta da irmã, recuando. Ela sacode a cabeça, recusando-se a acreditar. Os olhos brilham, graças as lágrimas e uma nuvem começa a se formar sobre sua cabeça.

–Anna...- Dianna segura o braço da irmã.- Ela foi corajosa. Lutou até o último segundo.

–Não!- Brada Annabely. Seus olhos ficam completamente negros e brilhantes. Os cabelos se arrepiam, enquanto na nuvem acima de sua cabeça começa um temporal. Do chão brotam plantas que logo viram pequenas árvores e ao seu redor uma parede de vento começa a se formar. Seus pés já não tocam mais o chão.

Dianna recua, assustada.

Aquilo me surpreende. E a todos os outros também. Júnior e Chris agora estão de pé, assustados e Dianna não sabe o que fazer.

–Belynha...- Chris diz, cauteloso.- Você não come nada ha três dias. Não gaste sua energia assim, pequena.

A boca de Annabely se contorce e seus olhos voltam ao normal. O vento acaba e a nuvem some. Annabely cai em pé, mas seus joelhos cedem e ela cai sobre eles. As árvores continuam ali. E a pequena Annabely começa um choro incontrolável.

Minhas mãos estão suadas e estou a ponto de começar a gritar quando Birc me puxa pelo braço para fora da cela e sorri satisfeito.

–Fenômenos da Natureza. Poder legal, não é mesmo? E bem raro, por sinal.- Birc diz, em tom de aprovação.

Cerro os punhos, a fim de dar um soco na cara dele. Luize morreu. Não é uma boa hora para ouvir seus deboches e sarcasmos. Mas o que eu poderia esperar de Birc?

–E aí?- Diz, retirando um objeto do bolso traseiro do macacão e distraindo-se com ele- Gostou do que viu?

Não sou capaz de responder, nem mesmo de gritar com ele. Há um bolo em minha garganta e minha língua está pesada demais.

–Adeus.- Diz ele.

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Acordo. As palavras de Dianna ecoando em minha cabeça. “ Luize morreu.” “Ela foi corajosa. Lutou até o último segundo.” Um nó começa a se formar em minha garganta. Estaria eu sendo corajosa? Acho que não. Eu já deveria ter ido procurá-los. Mas preferi ficar aqui, bem alimentada, enquanto meus primos e irmãos morriam de fome. Enquanto Luize morria. Cubro os olhos com as mãos e começo a chorar. Estou tremendo muito e não posso voltar a dormir. Como vou contar para Hellena que sua irmã gêmea, que sempre esteve ao seu lado, morreu? Eu não posso fazer isso.

Começo a chorar ainda mais e soluçar, até que decido sair da caverna, para não acordar ninguém.

Quando chego ao lado de fora, percebo que Stive não aguentou ficar de vigia. Caiu no sono. Está até roncando.

Mal posso ficar em pé, minhas pernas estão bambas. Preciso buscar apoio. Começo a andar sem rumo, afastando-me cada vez mais da caverna. Eu sei o caminho. Saberei voltar.

Vou até o riacho, onde costumo buscar água, caminhando pesadamente. De noite, corro um tremendo risco de ser atacada, mas não me importo. Preciso gritar. Preciso dizer minhas últimas palavras a Luize, mesmo que ela não as escute. Preciso me despedir.

Abaixo-me próxima ao riacho, tomando cuidado para não tocar na água. Isso atrapalharia a executar meu poder, se necessário fosse.

Deixo uma lágrima cair no riacho.

–Você...- Engulo em seco, relembrando grandes momentos que passei ao lado de Luize.- se lembra do dia em que eu te joguei na lagoa, quando você tinha três anos? Foi de propósito.- Suspiro.- Eu tinha apenas seis anos, era ciumenta, queria te matar. Mas depois me arrependi. Pulei lá para te salvar e quase morri com você. Se não fosse pelo Stive... Lembra daquela vez em que nós duas e a Hellena fugimos de casa? Andamos apenas dois quarterões e voltamos para casa, achando que tínhamos feito grande coisa. Nós não éramos muito normais.- Rio. Um riso sem nenhum humor.- Lembra das histórias de Stive? Você tinha tanto medo...

Minha voz vacila.

–Você sempre foi uma peça muito importante em meu jogo, Lu.- Digo. Lágrimas e mais lágrimas descendo por minhas bochechas.- Como vou completar meu quebra-cabeça agora?

Passo os dedos pela água, anulando o pensamento que dizia para não fazer isso.

–Eu preciso de você...- Murmuro.- Preciso de você comigo... irmã.

Olho em volta, para ter certeza de que estou sozinha.

–Te amo, Luize.- Minha voz sai mais baixa e mais sofrida do que pretendo.

Em seguida, extravaso toda a dor acumulada em meu peito em um grito, alto e sofrido. Depois tombo para trás e deixo todas as lágrimas rolarem. E ali durmo. Ali passo a noite, a beira do riacho.

Notas finais
Se houver erros, peço que me alertem, please