O país secreto.
45 Nos preparamos para partir
Notas iniciais
Acordo me sentindo maravilhosamente bem; eu não me lembro de ter tido uma noite de sono tão revigorante desde que atravessara aquela bola de luz, e isso com certeza me deixa com um humor indescritível. Me sento e olho ao redor, percebendo que fui a última a acordar, e que todos já conversam ou comem ou, no caso das garotas, tentam ajeitar os cabelos. Procuro Larm na multidão; eu sempre gosto de olhar seu rosto pela manhã — me faz lembrar por que o amo tanto... No entanto, não o avisto. Jayssa, que trançava seus longos cabelos negros e escorridos, nota que acordei e se aproxima, ajoelhando-se perto de mim.
– Emma — E sorri. — Você dormiu bastante. Estamos nos preparamos para partir, mas não podemos ir se estivermos cansados. Também precisamos de um banquete para receber os netos de Doquo aprisionados; eles vão estar com uma fome danada.
Abro a boca em um longo e interminável bocejo — que é logo repetido por Jayssa — e coço os olhos para afastar o sono.
– Onde está Larm?- Pergunto, sonolenta.
Jayssa inclina um pouco a cabeça ao responder:
– Foi pescar, ele e o Stive. Num rio não muito longe, pelo qual já passei um montão de vezes.
Me levanto molemente, estalando os braços, o pescoço e as costas. Jayssa também fica de pé, o que me faz perceber o quanto ela é pequena e o quanto parece frágil... Coisa que, naturalmente, ela não é.
– Às vezes, você me intriga — Conto à ela, com um meio sorriso. — Quero dizer... Uma menina que tão nova ganhou a imortalidade e virou uma guerreira? É o tipo de história que eu adoraria escrever.
Jayssa sorri.
– Ah, não pense que eu era apenas uma menininha de onze anos comum — Diz. — Até os nove anos, morava com meu pai em uma parte de Oliut chamada Catamara. Ele era um homem muito influente, por ser um guerreiro conhecido, e sempre quis que eu e meu irmão seguíssemos seus passos. — Seu olhar está distante enquanto devaneia sobre o passado. Algo que eu, mais do que ninguém, posso compreender. — Meu irmão morreu doente. Depois disso, papai passou a cobrar ainda mais de mim, e com tanta cobrança, eu fugi. Só que quando voltei, ele havia morrido; os vampiros o haviam atacado... Mas eu sabia que a culpa de tudo isso sempre foi minha. Se eu, que sabia lutar e tinha o domínio das águas, não tivesse fugido, meu pai teria uma chance... E foi então que me enviaram para o orfanato, onde conheci Demmitry.
Desvio o olhar para Demmie, que ri de alguma coisa. Pensar na história de Jayssa me faz lembrar da de Lissian. As duas são totalmente diferentes, mas há pontos em comum que não dá para serem ignorados. Ambas foram impedidas de crescer, embora de jeitos distintos. Ambas terminaram órfãs e sem amor. Engulo em seco, recordando do quanto fui rude com a pobre menina fantasma... Se eu pudesse reverter o que dissera...
– Presumo que Demmie, os gêmeos e Drafe tenham histórias semelhantes.
– Eu não diria "semelhantes" — Retruca ela. — Demmie sempre foi órfã, os pais de Vedir e Giroy morreram de alguma doença incomum, e Drafe... Bem, ele matou a família porque eles não queriam apoiá-lo no seu objetivo de servir ao rei Doquo. No começo, ninguém quis fazer amizade com Drafe, mas acabamos fazendo com o tempo... E hoje estamos aí, vivendo esse dilema de "vai e vem".
Seu rosto agora expressa um ar indignado e quase melancólico. Mas há em seus olhos azuis aquele lampejo de "se é pra ser assim, o que há de se fazer?". Não me demoro estudando-a.
– Vou ver se encontro Larm e Stive.
– Vai nessa — Responde-me, dando-me as costas.
Observo-a por mais uns intantes enquanto ela se reúne aos outros. O enigma Jayssa já está se desvendando para mim, se tornando mais claro conforme o tempo passa. Se eu tivesse de descrevê-la agora, diria: uma criança eterna que fez o que pôde para agradar o pai mas que, ainda assim, falhou; não vendo mais para onde correr, acabou concordando com a imortalidade... Mas hoje em dia, sei que faria tudo para abrir mão dela.
Achar Larm e Stive não é uma tarefa fácil, já que estamos em uma florestas e existem várias direções para se seguir. Vou em linha reta, com o sol assolando o topo da minha cabeça e os buzzes me incomodando como sempre — ainda bem que estou acostumada com eles, senão eu pirava. Ouço o barulho familiar do fluxo da água, então presumo que não há como estar longe. Apresso o passo, na medida em que o som se intensifica, e quando avisto o rio, avisto também os dois rapazes de costas para mim. Perto deles, há um amontoado de peixes.
Stive segura um arco e flecha, enquanto Larm avalia seu trabalho. Quando ele dispara, e evidentemente erra, Larm toma-lhe a arma e instrui o que deve ser feito.
– Você precisa se concentrar — Explica Larm, mirando e respirando compassadamente. Depois de alguns instantes, ele atira. A flecha, aparentemente presa por uma corda, é içada para cima com um peixe pendendo da ponta.
– Ah, que merda — Bufa Stive, se jogando sentado no chão. — Você sabe que eu sou um desastre em arco e flecha, por que não chamou o Liam?
Eu começava a ir em direção a eles quando a fala de Larm me faz saltar para trás de uma árvore e me esconder:
– Não tem nada a ver com pesca. Quero falar com você sobre Myafa.
Convencida de que preciso ouvir a essa conversa, me esforço para não fazer ruídos. Pisando com cautela, espio-os por entre as folhas.
Larm se senta ao lado de Stive, com os braços em torno dos joelhos.
– O que sente por ela? — Indaga.
– Eu não sei, cara — Diz Stive. — Não posso te explicar. Desde que a vi pela primeira vez, já gostei dela. E ela passou a gostar de mim também... Entende? — Ele faz uma pausa, olhando para o horizonte. — E quanto a você e Emma? Eu percebi, não adianta negar.
Larm ri, e o som da sua risada faz um sorrisinho quase bobo despontar em minha face.
– É, tem razão — Concorda. — Acho que entendo você, porque sinto algo muito parecido pela Emma.
Sinto meu coração se aquecer com aquelas palavras e me precipito um pouco mais para escutar. Mas agora eles estão quietos... O único som vem da correnteza do rio.
– É melhor você não magoar a Myafa — Diz Larm, por fim. — Ela é como uma irmã para mim.
– Ah, é sério? — Detecto uma nota de ironismo na voz de Stive. — Sério mesmo que você está dizendo isso para mim?
Abafo uma risadinha, notando que ambos estão no mesmo patamar. Stive gosta de Myafa, que acaso é como uma irmã para Larm. No entanto, Larm gosta de mim, que sou definitivamente a irmã de Stive. É bem cômico, se a gente pára para pensar.
– Eu jamais magoaria a Emma — Defende-se Larm.
– Nem eu a Myafa!
Eles se entreolham.
– Beleza — Finaliza Larm.
– É, beleza.
Ainda soltando risinhos contidos, fico encarando as duas silhuetas sentadas de costas para mim. Stive é mais alto, contudo Larm é mais corpulento. Os cabelos de Stive estão uma confusão ruiva sem fim, enquanto os de Larm estão apenas um tanto desarrumados. Os dois olham para o mesmo lugar, sentados na mesma pose, como velhos amigos. Eu estou olhando-os quando, do nada, alguém empurra meus ombros e grita "Buh!", me fazendo saltar meio metro do chão.
Gargalhadas enchem o ar e, ao me virar, constato que se trata de Will. Ele ri tão a vontade, que me faz ficar enfurecida. Meu coração está disparado e o rosto deve ter perdido toda a cor por causa do susto.
– Seu monstrinho! — Exclamo, tomando o cuidado de sussurrar para não me denunciar. — Qual é o seu problema, garoto?
– Eu? — Diz em meio aos risinhos sarcásticos. — Fala sério, Emma. Você quem estava escutando escondida a conversa dos outros e sou eu quem tenho problemas?
Cogito uma série de obscenidades para dizer-lhe naquele momento — coisas que eu jamais diria em voz alta — no entanto, seu poder de telepatia coopera para que eu não precise proferir qualquer dessas palavras. Will coloca a mão sobre o peito, fingindo ofença.
– Maninha... Não pensei que pudesse ser tão desbocada.
Agarro a manga da sua camisa, começando a arrastá-lo para longe da árvore, mas ele se desvencilha dois passos depois.
– Escuta aqui... Dill. — Pronuncio o nome com a maior vontade possível, e ele revira os olhos. — Eu estou querendo socar sua cara, então fecha o bico e fica quietinho.
Will une as sobrancelhas em uma careta, cruzando os braços.
– Parece até a Hellena falando — Resmunga num tom quase inaudível, entretanto suficientemente alto para que eu possa discenir cada palavra.
Suspiro, abandonando a raiva e a substituindo por impaciência.
– Eu só queria falar que nós já vamos. Drafe vai nos levar à uma gruta perto do castelo, e quando todos estiverem lá, vamos começar a guerra. — Ele ainda sustenta a expressão de inconformação por eu tê-lo chamado pelo segundo nome.
– Então faz uma coisa de útil: vai chamar os dois ali — Aponto por cima do ombro com o polegar.
Will não diz nada, e passa por direto por mim. Viro-me para vê-lo tomar distância, no entanto ele estaca ao chegar à árvore onde eu estivera espionando, e, sem se virar e nem sequer me espreitar brevemente, ele diz:
– Não me chame de Dill; é nome de menina.
E depois segue seu caminho, me deixando parada ali com um grande sorriso no rosto.
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