O país secreto.

29 Meu quase primeiro beijo.


Notas iniciais
Gente queria avisar que estou sem net, então vai ser complicado postar. Só pude postar hoje porque roubei o chip da minha mãe (e ela nem sabe) Ops! :D Espero que gostem, não sei se ficou bom já que fiz às pressas. Posso ser presa por esse crime :P Boa leitura!

Depois da volta de Hellena, as coisas se normalizaram. Bem, parcialmente. Ela ainda se recusa a falar comigo e com os outros moradores da caverna, exceto Doquo. Passa grande parte do seu dia emburrada em um canto, e quem lhe dirigir a palavra, leva um fora de presente. Larm já me orientou a ser cautelosa, a dar um tempo a ela. Mas isso me parece difícil. Eu só queria ajudar, demonstrar o quanto gosto dela. Contudo ela não parece interessada nas minhas boas intenções.

Os dias passam voando, e mantenho a rotina. Caçar, buscar água, cozinhar, tomar banho...Bem, digamos que me sinto estranha tomando banho no riacho, agora que sei que Jayssa está espalhada por ele. Mas, de qualquer modo, é melhor não pensar muito nisso, ou viverei suja para sempre...

Pois é... Mais dias. Mais noites. E eu aqui, sem mover uma palha do lugar. Sei que os guardiões estão encarregados de cuidar do caso, mas eu também deveria cooperar. Ajudá-los a encontrarem minha família. No entanto, não o faço. Continuo parada no mesmo lugar, chorando feito um bebê...

E assim estou: Sentada do lado de fora da caverna, diante de um Calist morto e uma faca ensaguentada, praguejando e chorando baixinho. Dizendo coisas horríveis sobre mim mesma. Por que sou tão covarde? Por que tão egoísta? Por que não me levanto daqui e vou atrás deles? Dos meus primos? Do meu irmão?

Sinto-me mais frustrada que nunca, e as lágrimas que descem de meus olhos não são de tristeza. Quero dizer, disso também, mas principalmente de raiva. Sinto raiva de mim mesma, raiva da minha fraqueza. Hellena está aqui, porém mais longe do que nunca. Dianna foi sequestrada por um louco. Luize morreu. E o resto está tão magro quanto meu dedo mindinho. E eu? Parada no mesmo lugar.

Afundo o rosto nas mãos, e fico assim por uns minutos.

–É impressionante.- Alguém diz, e pela voz sei que é Liam.- Você só fez chorar desde que cheguei.

–Fica na sua.- Digo, com a voz abafada pelas mãos.- Se eu choro ou não, o problema é só meu.

–Não, Solzinha, não é.- Ele diz. A menção de meu antigo e detestável apelido, me faz soltar alguns soluços de saudade.- Seu irmão está preocupado. Acha que pode fazer alguma besteira.

Afasto os dedos uns dos outros e olho entre eles para o chão. Meus olhos vão do Calist à faca ensaguentada.

–Você acha que eu seria capaz?- Murmuro, distraidamente, com os olhos fixos na faca.

–Você é maluca.- Ele diz, e por mais que não tenha visto, posso jurar que deu de ombros.- Então, vindo de você, qualquer coisa é possível.

Minhas mãos escorregam e caem sobre o colo. Estico o braço e deslizo os dedos até que a faca. Seguro-a com firmeza pelo cabo. Liam arregala os olhos e prende o fôlego, imaginando o que eu poderia fazer com aquilo. Ergo o objeto frente ao meu rosto e fito a lâmina manchada de vermelho.

–Emma, você...

–Eu sempre fui a certinha da família.- Digo, secamente.- Menina obediente, incapaz de cometer alguma loucura. Igual a todos. Mas eu não quero ser igual...

–O que vai fazer com isso?- Ele estica a mão para me roubar a faca, mas eu tiro-a de seu alcance.

–O que quiser fazer.

Liam está assustado, e, por uma fração de segundos, posso jurar que ele pensou que me mataria. Mas eu não daria a ele esse gostinho. Agarro meus cabelos com a mão esquerda e com a direita corto-os bem curtinho, serrilhando a lâmina da faca de um lado para o outro em todo aquele emaranhado. Esquerda, direita, esquerda. Quando termino, deixo cair a faca e os cabelos que acabara de tirar. Instintivamente, olho para Liam, que parece bem mais aliviado. Nos entreolhamos alguns segundos. Mas, inevitavelmente, caio na gargalhada, e ele parece indignado com isso.

–Você... sua maluca!- Ele diz, entre risadas. Debruço-me em seu ombro, rindo sem parar.

–Eu... eu te... assustei...- Tomo fôlego.- Se pudesse ver sua cara, estaria como eu.

–Retardada.- Conclui.

–Você pensou o que?- Pergunto, afastando umas mechas do rosto, sentindo-me bem mais leve sem todo aquele cabelo.- Que eu fosse me suicidar? Não ia te dar esse prazer...

–Gostei do penteado.- Ele sorri.

–Eu não gostei do seu.- Franzo os lábios, passando a mão por seus desgrenhados cabelos castanhos.- Tem cabelo demais aí. Parece um ninho de passarinho.- Pelo menos ele sabe o que é um passarinho.- E essa barbinha aí? Nossa, você já é um homem.- Abafo uma risada.- E que bigode é esse? Céus, você está parecendo um homem das cavernas...

–Então me arruma.- Ele diz, erguendo uma sobrancelha.- Só não vá me deixar parecendo uma mocinha.

–E quem disse que eu vou te arrumar? Se vira, meu filho.

–Idiota.- Ele cruza as pernas.

O encaro, erguendo lentamente as sobrancelhas.

–Tá certo.- Rio, pondo-me de joelhos e indo até ele assim. Depois me sento sobre as pernas.- Mas só porque você está realmente ridículo.

–Mas primeiro limpa essa faca, sua nojenta.- Liam diz, olhando para a faca enojado.

–Claro, princesinha, como pude esquecer?

Desço na caverna e derramo um restinho de água sobre a faca. Não vou dizer que limpei perfeitamente, mas é para cortar o cabelo do Liam. Qualquer porcaria serve. Ninguém me diz nada aqui em baixo. Larm e Stive conversam sobre alguma coisa; Hellena permanece emburrada; Doquo tira uma soneca.

Então subo e encontro Liam, que me encara com o cenho franzido.

–Demorou.- Ele diz.

–Uma ova. Agora fecha a matraca antes que eu me arrependa.- Ajoelho-me, agarro seu queixo e começo raspando os poucos fiapos de barba que ele têm com a faca.

–Você...- Ele tenta, mas empurro seu queixo para cima, trancando seus dentes e o impedindo de falar.

–Já mandei calar a boca.- Continuou meu trabalho. Passando a faca em seu queixo, concentradíssima. Ele tenta falar mais uma vez e eu dou-lhe um empurrão.

–Por que tem que ser tão desobediente? Fica quieto aí! É claro, se não quiser uma cicatriz permanente.- Digo e ele assente.- E não mexa a cabeça.

Como é difícil lidar com esse tipo de gente! Por que não fica quieto e pronto? O que tem de tão importante a dizer que não podia esperar?

Passo a faca na roupa e começo a retirar com ela os fios do bigode. Seus olhos verdes amareados me encaram, querendo falar, mas não podendo. A verdade é que eu temo o que ele possa querer dizer. Temo que seja algo... digamos... constrangedor.

E agora devo estar tão vermelha quanto um Buzz. Concluo meu trabalho com o bigode o mais rápido possível, afinal não quero mais ter que encará-lo. E também não quero que me encare.

Então vou para trás dele e começo a cortar o cabelo. Essa é a parte mais complicada. Tenho que acertar a posição de sua cabeça hora ou outra, e dar alguns tapas que significam “Sossega ou eu vou fazer um estrago”. Felizmente, ele entende o recado e para de tentar me contar o que quer que seja. Assim posso cortar seu cabelo em paz.

O resultado não fica lá essas coisas. Mas melhor que antes, isso posso garantir.

No fim, mostro a ele o resultado, no reflexo da lâmina da faca. Ele parece feliz, Entretanto insatisfeito.

–Bem, obrigado Solzinha.- Ele diz, passando a mão no cabelo.- Você é uma excelente cabeleireira.

Me levanto e limpo a sujeira de cabelo, areia e grama da roupa. Começo a andar para trás, pouco a vontade, principalmente quando ele se levanta e, aos poucos, se aproxima mais de mim.

–Aliás, você é excelente em tudo...

Liam chega mais perto e estamos a centímetros um do outro. Seu rosto está bem próximo do meu agora. Ele acaricia meus cabelos e me fita. Sinto meu coração acelerar e o rosto esquentar. O que ele fará? Me beijará?

Uma garrafa vem rolando e para aos meus pés. Liam olha para trás e sigo seu olhar. Larm está parado à alguns metros, esfregando uma folha em sua harpa, distraidamente.

–Esvaziou, enche.- Ele diz, referindo-se a garrafa, sem nos olhar.- Lei da vida. Desculpe a interrupção.

Ele gira nos calcanhares, vira a cabeça para nosso lado e olha para nós uns segundos, com um sorrisinho estampado. Depois pula no buraco da caverna.

Liam passa a mão nos cabelos, pouco a vontade. Abaixo-me e apanho a garrafa.

–Pode ir.- Falo- Vou pegar água.

Ele me olha uns instantes, antes de me obedecer e voltar para a caverna.

Notas finais
Beijões, perdoem os erros ok? Amo vcs, seus lindos :P