O país secreto.
39 Meu avô
Notas iniciais
Demmie e eu conversamos muito pelos dias que se seguiram, e acabamos não chegando a conclusão alguma. Dianna está cada vez mais alienada, mais respondona e mais impaciente, características que são de longe distintas das da verdadeira Dianna. Não há doçura naquela... Nem aquela expressão séria de quem vai resolver todos os problemas do mundo. Não há o ar de adulta responsável — mesmo que ela tenha apenas dezesseis anos. Sinto falta da verdadeira Dianna... Pois a que nos acompanha só me causa raiva.
Demmie tem se mostrado uma amiga incondicional durante nossas conversas. Ela sabe tudo sobre mim, me consola e me entende sobretudo. Me cede seu ombro para mim chorar, enxuga as minhas lágrimas e me dá as sacudidelas mais brutas de todas, ordenando que eu seja forte.
Mas como é "ser forte"? Uma espécie de charada, talvez?
A tarde está um pouco mais fria do que costuma ser, e felizmente eu tenho minha reserva de calor para me aquecer. O vento sacode meus cabelos e meu surrado vestidinho roxo, mas a sensação não é nem um pouco ruim.
Depois de caminharmos por horas a fio, nossos pés já não aguentam mais de dor. Paramos sob uma longa árvore robusta e nos sentamos próximos uns dos outros. Aquela parte da floresta é, na verdade, o início de um precipício, onde adiante vê-se um amontoado de colinas e montes enevoados. No chão, folhas secas e gravetos se espalham, provavelmente soltos de algumas dessas árvores, e o único som é o do assobio do vento chacoalhando as folhas ao redor.
Esquento a caça, ao passo que Jayssa nos arranja água e Hellena a esfria, e só quando estamos satisfeitos, começamos a nos dispersar. Os únicos que permanecem sob a árvore são Giroy e Demmie, pois logo eu também me levanto e me dirijo à silhueta gorda e alta do meu avô, postado diante da borda do penhasco.
Doquo é um enigma, e já me convenceu disso. Com seu rosto enrrugado pela idade, os poucos tufos de cabelos ruivos na cabeça, sua barriga protuberante e sua barba longa bifurcada, não é tipo de herói que costumamos imaginar. Mas não deixo de pensar em sua importância nessa história, afinal, não fosse por ele, meus irmãos, meus primos e eu jamais nasceríamos... Nada disso seria real.
– Emma — Diz, de costas para mim. Sua pose solene, as mãos cruzadas às costas, os olhos castanhos esquadrinhando a paisagem de montanhas e vales verdejantes... Ele parece um homem incrivelmente sábio. — Vejo que há dúvidas que rondam sua mente. Venha cá. Quero que veja uma coisa.
Incerta, mas curiosa, aperto a barra do vestido entre os dedos, de olhos atentos na figura de costas para mim. Ele é meu avô, afinal. Eu não deveria me sentir intimidada ao falar com ele. Ainda assim, hesito bastante antes de deixar minhas pernas me levarem para o seu lado, perto demais da borda do penhasco, o suficiente para me deixar enjoada. Engulo em seco, imaginando o velho Doquo me empurrando lá para baixo.
– Eu sugiro que relaxe, mocinha — Sua voz grave e rouca surge feito um sussurro. — Não há necessidade de temer ao seu próprio avô.
Olho-o de soslaio, timidamente. Sua semelhança com meu irmão é perturbadora o suficiente para eu não encará-lo por mais que poucos segundos.
– Perdão — Murmuro, pigarreando em seguida e repetindo num tom mais alto: — Perdão. É que eu estou com um tantinho de medo de... Cair.
– Você não vai cair, que bobagem — Ele ri pelo nariz, oscilando levemente para frente e para trás. — Eu só queria... Bem, olhe aquilo ali, Emma — Ele aponta para frente, para a mais alta e mais distante montanha, que além de ter o pico coberto por uma camada de neve, está rodeada por uma névoa espessa. Estreito os olhos, arriscando mais um passo para frente, e é então que avisto o pontinho insignificante no alto da montanha. — Aquele é o castelo. O seu castelo. De todos os meus netos.
– Meu? O quê? — Me espanto, fitando Doquo como se ele tivesse me revelado o mais sombrio dos segredos. — Ele vai continuar sendo seu, ora essa.
Um sorriso insinua-se em seus lábios bem delineados, revelando os poucos dentes restantes da boca. Um lampejo de divertimento e angústia perpassa sua face.
– Emma — Ele pronuncia meu nome, como quem escolhe o sabor de sorvete que quer. — Quem diria que eu, um pobre velho esperando pela morte, viveria o bastante para ver os belos netos que tive? Belos, inteligentes, geniosos. Cada qual com uma característica própria, que os fazem especiais. Oliut não poderia ter reis e rainhas melhores, nem num bilhão de anos...
– Espere! — Ergo as mãos, soltando a palavra com urgência. — O que quer dizer com rainhas e reis?
Doquo torna a contemplar a paisagem, aspirando o aroma refrescante da tarde, e depois recua. Ele passa por mim, e giro nos calcanhares para vê-lo se afastar.
– Quer ouvir uma história?
Arfo, indo em seu encalço. As palavras de Doquo haviam me atingido feito bofetadas; até então, eu acreditara que seria apenas uma princesa, mas que as responsabilidades de governar o mundo ainda seriam de Doquo. Todavia, de acordo com o que ele disse, quem irá governar será eu. Eu! Que não sei cuidar nem do meu próprio nariz. Que não tenho autoridade nem para mandar no meu irmão mais novo. Que mal sei decidir entre chocolate preto e chocolate branco. Como eu mandaria em um mundo inteirinho?
Sigo Doquo até uma clareira, onde nos sentamos sob os feixes de luz que passam por entre as folhas. A brisa ali é um pouco mais intensa, e os corvos soltam gasnados esganiçados de algum ponto distante. Doquo cruza as pernas, me encarando com seriedade.
Ouço atentamente à história mais fascinante que alguém já me contara, reagindo de modo diferente a cada frase pronunciada. Ela fala de um amor proibido entre dois nobres, Aggi e Igno; da ida e vinda entre mundos paralelos e de uma profecia que selava seus destinos. Mas não passa nem perto de um conto de fadas, afinal não tinha nenhum "viveram felizes para sempre".
Ao fim da história, eu estou quase tão encantada quanto quando minha mãe lia livrinhos infantis para mim dormir. Mas a tensão que paira no ar é quase palpável, porque, em momento algum do conto, Doquo abriu sequer um sorriso. Ele mantivera a voz grave, livre de emoções e monótona.
O silêncio é quase total, a exceção do barulho dos corvos. A tarde chega ao fim e dá início ao anoitecer, o que dificulta para mim discenir o rosto sério de Doquo.
– É uma história muito instrutiva — Comento, me assustando com o volume da minha voz depois de tanto tempo quieta. — Quero dizer, dá para tirar umas lições valiosas, como por exemplo: mate o seu pai se ele for um chato e não deixar você ver a luz do dia...
A tentativa de descontração só faz meu desconforto aumentar diante do olhar penetrante de Doquo.
– Aggi jamais o mataria, mesmo que isso significasse ver seu sonho cada vez mais distante — Fala ele, pensativo. — Mesmo que isso custasse sua liberdade.
– Era brincadeira — Sorrio, nervosa. — Não precisa dar uma resposta filosófica para tudo o que eu disser.
Dessa vez, os cantos da sua boca se erguem em algo próximo a um sorriso divertido.
– Emma, você tem escutado histórias bizarras desde que chegou a Oliut — Ele suspira. — E deve imaginar que Oliut não é um país conhecido por espalhar boatos sem fundamentos pelos quatro cantos. Há aquelas histórias que encontramos em livros, e há aquelas que contamos para nossos filhos, ou para nossos amigos durante o almoço. A diferença é que as dos livros são as inventadas; aquelas que pessoas escrevem para distrair outras em troca de boas éreas (isto é dinheiro, se tiver um outro nome no seu país). Mas, aquelas que contamos com tanto entusiasmo numa tarde com os amigos... Essas não podem ser calúnias, e nem nada que passe longe da verdade.
– Aonde quer chegar? — Olho-o desconfiada.
– Aggi e Igno existiram, pequena Emma — Ele diz, para minha surpresa. — Eles viveram muito antes de meus tataravós. E eu, até o dia em que sua mãe e seus tios nasceram, era o único descendente vivo deles.
Abro a boca em uma exclamação que fica sufocada na garganta. Várias perguntas se formam em minha mente, mas só a que consigo reproduzir é:
– Quer dizer que eu sou descendente deles também?
– Não é preciso ser um gênio para concluir isso — Ele ri. — Por essa razão, meus netos governarão Oliut, Liberty e Hope. Os três mundos interligados. Os mundos de Aggi e Igno.
Desvio o olhar para o chão, refletindo sobre aquilo. Se eu acho responsabilidade demais governar um mundo, imagine o que penso de governar três? Criar leis, garantir qualidade de vida para as pessoas, não deixar as bases ruírem... Eu jamais vou dar conta. Só posso rezar para Dianna sobreviver, porque tenho certeza de que ela é perfeita para o papel de rainha.
– Mas espere, Doquo, tem uma coisinha...
– Só espero que não esteja pensando em demolir, explodir e destruir.
Abaixo as pálpebras, dispensando a piada.
– Tanto faz — Sussurro. — Bem, quero dizer... O senhor disse que Igno se casou uma segunda vez. Já que ele era o rei de Oliut, então seus filhos com a outra esposa teriam direito ao trono? Porque deve haver descendentes vivos dessa ninhagem.
De repente, a face de Doquo torna a ficar sombria e impenetrável. A penumbra não me permite ver com clareza, mas seus olhos reluzem de um brilho quase insano.
– Eles jamais teriam direito, pois a criança de Aggi e Igno era de um poder surreal. Todos a partir dele eram. Eu sou. Você é — Ele faz sinal para mim. — Descendentes de Aggi são os reis legais de todos os três mundos, já os do segundo casamento de Igno, com a perversa Lila, não são dignos de coisa alguma. Lila teve muitos filhos com o rei. E estes foram criados para abominar o filho de Aggi. Esse ódio entre eles foi passado de geração em geração, e sempre, desde os antigos tempos, descendentes de Lila tentam usurpar o trono dos de Aggi. É assim até hoje... Vê o Vindre, por exemplo. O Arismir. Eles só querem reinar.
Cubro a boca com as mãos, absorvendo a realidade. Vindre e Arismir... É claro. Não podia haver outra razão para que Vindre estivesse tão certo que o trono é seu.
– Na era primitiva, os descententes de Lila queriam trucidar os de Aggi. Mas agora, passado tanto tempo, as mentes se abriram e as pessoas evoluíram. Arismir e Vindre não são tolos como seus antepassados. Eles não acabariam com alguém com um poder tão superior ao seu. Estão jogando. Brincando com suas mentes.
Sinto as lágrimas quentes arderem em meus olhos.
– Por quê?
Doquo inclina um tanto a cabeça, com um sorriso psicótico.
– Ele não me matou, Emma. — Murmura. — Ainda estou vivo. Ele não pode matar alguém tão poderoso... A menos...
– A menos? — Inicito, ansiosa e temerosa.
– A menos que com uma força igual a minha. Quer meus netos para jogá-los contra mim, para que, futuramente, eu não consiga montar um exército e tomar de volta o que é meu por direito. Vindre precisa de vocês, pois são o exército ideal para ele. Ele está atraindo vocês para lá, querida, foi ele quem conjurou o portal que os trouxe para Oliut. Quer prendê-los para sempre. E, logo que puder me destruir, dará um jeito de acabar com vocês. Assim, Oliut será propriedade dos descendentes de Lila.
– Oh! — Pestanejo — Ele bate bem da bola, tem certeza?
Ele não entende a expressão, mas não faz esforço para entendê-la.
– Emma, quero que preste atenção — Doquo se levanta com alguma dificuldade e eu, num pulo, já fico de pé. Ele se aproxima de mim e coloca a mão em meu ombro; a escuridão agora é quase total. — Você e Hellena são a chave para destruir os últimos descendentes de Lila. Fogo e Gelo. Saberão o que fazer.
– Mas eu...
– Emma — Interrompe-me, apertando mais meu ombro e depois afagando-o. — Confie em si mesma. Desvende o mistério que é seu cérebro e faça conforme sua intuição. Não hesite; seja forte.
A primeira lágrima desce pela bochecha esquerda, e ele a limpa com o polegar. Logo, inúmeras outras deslizam por minha face. Me sinto tão perdida, tão desolada! Preciso da minha mãe comigo, para me amparar e dizer que eu vou ficar bem, que tudo vai. Lanço os braços em torno da cintura do meu avô e afundo o rosto em sua camisa, me entregando a um choro sentido, e ele apoia o queixo na minha cabeça e a mão no meu cabelo, acariciando-o.
– Minha pequena Emma — Sussurra. — Ainda não é hora, mas sua estrela brilhará algum dia. Seu sorriso iluminará as ruas, os becos e as florestas de Oliut. Você nos trará a liberdade e a esperança...
Continuo a soluçar em sua camisa, pensando no olhar compreensivo da minha mãe, no jeito descontraído do meu pai e no sorriso debochado de meu irmão Will, ao qual eu queria sempre apagar com um murro.
– Você... — Murmuro, ao me separar do abraço e olhar para o rosto tranquilo do meu avô. — É meu Papai Noel, sabia?
– Papai Noel? — Ele franze o cenho em desentendimento.
Eu rio, sem lhe dizer que pensara aquilo por suas características de "bom velhinho".
– Eu ainda posso ler seus pensamentos — Ele pisca para mim, e me dá as costas.
Suspiro e seco as lágrimas do rosto antes de seguí-lo.
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