O país secreto.
1 Má notícia.
Notas iniciais
Acordo mais cedo que de costume. Bom, na verdade, tenho acordado nesse horário ha pelo menos um mês. Gosto de fazer coisas diferentes e a monotonia é minha pior inimiga. O sol não tinha despertado ainda, mas essa é a intenção: Vê-lo nascer. Meus irmãos acham que eu endoidei, com essa nova ideia de ver o sol nascendo todo dia. Mas não sei... Eu amo sol. Não me importo de perder alguns minutinhos extras de sono. Simplesmente quero vê-lo aparecer.
Vago pelo corredor ainda com o traje de dormir. Meus pés descalços tocam no chão frio o que faz-me arrepiar hora ou outra. Minha casa é bem grande e tem espaço para abrigar mais duas famílias. Por isso, vez ou outra, mamãe e papai convidavam Tio Billy e a família dele e Tia Bel com a dela. Eles são irmãos de minha mãe e, na minha opinião, a melhor época do ano era quando eles vem- Não por eles, por que, cá entre nós, eu não dou a mínima por eles estarem ou não aqui, mas sim por seus filhos.
Chego à sala e atravesso-a. Está bem frio, especialmente porque é madrugada, mas não hesito em abrir a janela. Quando o faço, uma brisa gélida toca meu rosto. E eu fico olhando mais além.
–Emma?- Uma voz soa atrás de mim.- Já acordada?
Não preciso me virar para saber que é meu irmão Stive, então continuo a olhar para fora.
–É o que parece, não?- Digo.
–Não acha que é muito cedo para estar acordada?- Ele pergunta. Quanta petulância! Ele também está fora da cama certo?
–Ia dizer isso agora mesmo.- Só então me viro.
Stive usa uma blusa vermelha de mangas compridas e uma bermuda de napa. Observo-o bem. Stive não se parece comigo a não ser pelos olhos castanhos amendoados e os lábios bem desenhados. Seus cabelos são ruivos e encaracolados, são lindos, já os meus são castanhos e lisos. Confesso que já tive inveja dos cabelos dele, mas enfim... Stive é o irmão mais velho, com três anos de diferença de mim. Ele ama pegar no meu pé, assim como Will, que é o mais novo. Os dias são torturantes com os dois me atormentando. Por isso gosto de quando meus primos nos visitam.
–Okay.- Ele suspira.- Se quer repetir a estupidez de ver o sol nascer...
Ele da de ombros bocejando e depois vejo-o sumir no corredor. Deve ter ido pra cozinha. Sei que ele rouba comida escondido, embora nunca tenha admitido. Não sei como ele consegue continuar magro feito uma vara...
Mas chega de pensar em Stive. Volto meu olhar para a janela e vejo os primeiros fiapos de luz surgindo. É o sol. Ele começara a nascer e eu estou aqui para vê-lo. Abro um sorriso satisfeito enquanto assisto ao espetáculo.
Mil lembranças invadem minha mente, como quando Meus irmãos, primos e eu montávamos um acampamento no jardim... E eu, sempre a última a dormir e a primeira a acordar. Lembro como Will e eu pintávamos o rosto de Stive e dos nossos primos. Até recebemos o apelido de Dupla de Pestes! Queria tanto voltar a ser criança...
Stive acabara de chegar a maior idade, eu já tinha quinze e Will estava nos treze... Enfim, não tínhamos mais muita paciência para acampamentos. Na época, Stive tinha onze, idade que, agora, a mais nova do grupo, Annabely, filha do tio Billy, possui. Lembro-me que na época ela tinha quatro.
Assim que o sol apareceu definitivamente, continuei olhando para fora por um instante. Mas depois me afastei da janela, fechando-a. Quando me viro, percebo com um sobressalto que Will me observava, sentado no sofá atrás de mim. Ele abafa uma risada quando nota que me assustei.
–Você é maluca.- Ele conclui, sorrindo. Acho que ele está se referindo ao fato de eu ter acordado mais cedo para ver o sol.
–Não sei por que.- Bufo cruzando os braços.
–Por que não filmou com seu celular o nascer do sol?- Ele diz.- Assim poderá assisti-lo sempre que quiser.
Will... Sempre com suas ideias sem cabimento! Bom, pelo menos ele tem ideias diferente de alguns de meus primos. Observo-o. Ele usa uma blusa azul-marinho de mangas com uma prancha de surf estampada no centro e uma calça de moletom cinza. Digamos que Will é a cópia exata de papai: Moreno, baixo e atarracado, cabelos cacheados e castanhos. Mas os olhos são como os de todos da casa, com exceção de papai (Ele tem olhos cor de mel.) São castanhos amendoados. Ele tem um senso de ironismo ótimo, mas não para mim. Eu odeio isso. Mas também sei ser irônica quando preciso.
–Você é um estupido mesmo.- Estreito os olhos para sua tolice.- É diferente! Você prefere ir ao teatro ou que filmem para você ver depois?
–Tanto faz.- Ele da de ombros.
–Idiota.- Digo saindo de lá.
Me dirijo à cozinha, onde encontro minha mãe fazendo o café. Ela me cumprimenta de costas, sem nem me olhar. Como ela sabia que era eu, isso eu não sei. Mas também não importa. Mamãe tem os cabelos iguais aos meus, porém da cor dos do Stive. Na realidade, ela se parece muito comigo.
–Bom dia, Emma.- Foi o que ela disse.
Papai está sentado à mesa, passando manteiga na torrada. Me sento em uma das cadeiras de madeira enquanto minha mãe serve o café. Logo em seguida, chega Will, como sempre, sorrindo debochadamente. Às vezes tenho vontade de apagar aquele sorriso com um murro, mas tudo bem. Ele se senta ao meu lado esquerdo
–Onde está Stive?- Pergunto pegando uma torrada da cesta.
–Ainda não acordou.- Responde Papai.
Claro. Nem sei por que perguntei. Stive tem o costume de acordar depois das sete.
Mamãe senta ao meu lado direito. Estou distraída passando manteiga em minha torrada quando ela diz:
–Tenho uma coisa para dizer.
O que seria? Só espero que seja algo bom. Beberico o café e mordo um pedaço da torrada.
–Como todos vocês sabem, estamos em época de receber seus tios.
Sério?! Sim! Como esqueci? Tio Billy e Tia Bel vem hoje! Abro um sorriso entusiasmado ao ouvir isso.
–A Emma esqueceu.- Diz Will. Será que estava tão obvio?
–Tudo bem.- Mamãe suspira.- Mas enfim, agora ela sabe. A notícia é a seguinte: Hoje eu falei com Vanessa por telefone. Ela virá também.
O que?! Meu sorriso sumiu instantaneamente. Como assim Vanessa? Bem, Vanessa é uma grande amiga da família, mas todas as vezes que ela vem algo dá errado. Os filhos dela são horríveis! Amélia é uma patricinha que só pensa em si mesma. Júnior, então... Meu Deus, é repugnante! E o mais velho, Liam, Adora me atormentar! Que droga! Ela poderia me dar qualquer notícia, menos essa.
–Acho que Emma não gostou muito...- Will escancara o sorriso. Claro né, para ele está ótimo. Ele é amiguinho de Amélia, mas, por mais que ele negue, vive babando por ela.
Fale com o autor