O país secreto.
51 Acho que te amo
Notas iniciais
É um grito interminável, um grito sufocado. Um grito agudo perfurando o silêncio da noite. Meus pulmões... Parecem prestes a explodir. Meu coração está agitado, minha mente está tumultuada...
Fecho os olhos com força, tomando fôlego e gritando uma vez mais, como quem está prestes a morrer. Sinto braços em torno de mim, me apertando junto do corpo. Palavras doces aos meus ouvidos, como um roronar. Dizendo que tudo vai ficar bem; que tudo terminará bem para mim.
Minha voz vai desvanecendo, até se tornar um ruído seco. Abro os olhos molhados de lágrimas, e percebo o quando estou tremendo. Vejo um céu, tão pálido, tão melancólico, quanto eu. Agarro o punho da pessoa que me segura, erguendo instintivamente o olhar e constatando se tratar de Larm.
– Emma... Meu amor... — Murmura ele, pertinho do meu ouvido.
Ofegando, noto que não há motivos para um grito tão terrível; não fora um pesadelo. Não fora uma tortura mental. Então por que eu estou tão apavorada?
É aí que me dou conta de que meu desespero se resume a tudo o que passei até aqui, somado com a angustiante dor no meu braço esquerdo. Desço o olhar para este braço e percebo que a ferida ocasionada pela mordida de lobo está horrorosa. Além de inflamada, tons de verde e roxo a cercam, e realmente dói muito. Abro e fecho a mão, flexionando os músculos, mas me arrependo em seguida, arquejando. Mordo os lábios, deitando a cabeça no peito de Larm e chorando baixinho.
– Larm — Soluço. — E se eu tiver que amputar o braço?
Larm passa a mão pelo meu cabelo, apoiando o queixo na minha cabeça.
– Ei, não diga isso — Sussurra ele. — Você vai ficar bem. Não pense nisso, ok?
Seco algumas lágrimas com as costas da mão, me sentando ereta. Forço-me a permanecer forte e inabalável, ainda com toda aquela dor. Larm se ajeita, encostando as costas no tronco da árvore e me olhando dequele jeito meio zombeteiro, mas compreensivo, que me fez apaixonar. Cruzo as pernas, de frente para ele. Ah, o Larm... Esses olhos escuros tão normais, esse cabelo desarrumado, essa barba bem aparada... Como eu gosto dele! Resolvo esquecer esse detalhe, por ora, e me concentrar em Birc e o meu sonho.
– Larm — Falo, fazendo um tremendo esforço para manter a voz firme. — Eu tenho uma coisa para te dizer.
Larm escuta atentamente à cada palavra dita por mim; conto-lhe sobre Birc estar tentando ajudar, e que espera que cuidemos de sua irmã em troca. Digo sobre como Delli e Feln me enganaram, fazendo-me matar nossos melhores aliados e, em seguida, fugido em forma de morcegos. E finalizo com a frase impactante de Birc:
– Foi algo como: vilão nem sempre tem que ser mau. E os maus às vezes não são vistos como vilões.
Larm inclina um pouco a cabeça, curioso.
– Parece um enigma.
Assinto, me empolgando.
– Sim, eu achei que pudesse ser um enigma — Digo. — Mas ele garantiu ser apenas uma parte de um livro...
Larm ainda está pensativo, e muito mais sério que o usual. Como o conheço, posso afirmar que está analisando todas as possibilidades, se aprofundando nessa frase mais do que eu poderia.
– Birc é um garoto muito mau, disso eu tenho certeza — Começa. — Mas se há algo de bom nele, é que ele sempre diz a verdade, ainda que nos engane de outros modos. Por ele ter essa qualidade, ele adotou um meio de falar suas verdades sem ser propriamente entendido.
– Larm — Sacudo a cabeça, sem conseguir entender muito. — Por favor. Seja mais claro.
Larm volta seus olhos negros para mim, e um sorriso lindo e travesso ergue os cantos da sua boca. Devo ter enrubescido, como sempre que ele sorri. Mas Larm obviamente ignora esse detalhe.
– Eu gosto de quando você fica confusa — Comenta, ainda sorrindo. — Suas sobrancelhas franzidas, seu olhar perdido... E você faz biquinho.
Abro a boca para responder, mas desisto, cruzando os braços em aborrecimento. Depois de cogitar algumas coisas para dizer, opto pela mais simples:
– Estávamos falando do Birc.
– Ah, sim, o Birc — Ele ri, voltando o assunto. — Bem, resumindo: sim, isso foi uma charada. Um enigma. Nada de livro, coisa nenhuma. Foi claramente um enigma.
Meus braços se descruzam lentamente, e fico boquiaberta.
– Um enigma? — Me surpreendo. — Você acha que tem um vilão entre nós?
Larm tranca o maxilar, e sua expressão deixa explícito que ele literalmente sabe que há um vilão entre nós. No entanto, a única coisa que responde é:
– Claro que eu não sei, pergunta para o seu irmãozinho leitor de pensamentos.
Ele se ajoelha, puxa minha cabeça para perto do seu rosto e me dá um beijinho na testa e, em seguida, outro bem rápido nos lábios. E então se levanta, me oferecendo ajuda para fazer o mesmo. Seguro sua mão esquerda com a minha direita, ficando de pé em um salto.
– Vamos embora hoje — Informa ele, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e me olhando com ternura. — Hoje, quando você e a Geladinha matarem Vindre, os vampiros perderão a bênção de andarem sob a luz do dia. Eles vão virar um monte de pó.
Sorrio, um pouco mais animada. Só de pensar em me vingar de Delli e Feln, de vê-los morrer como vira Stive, já faz valer meu dia. Eu quero que todos aqueles que me fizeram sofrer morram dolorosamente, a começar por Arismir — o primeiro a me estender a mão e o primeiro a me trair. E, indiscutivelmente, de quem eu tenho o mais vívido ódio. Depois eu quero matar Vindre e, consequentemente, os vampiros. E quero matar Birc, mesmo que ele tenha me ajudado — um dia de ajuda não se compara a meses de tortura e sofrimento. E, então, e só então, materei ao vilão disfarçado de amigo que vive entre nós — não importa quem seja.
– Meu amor?
Ouvir a voz de Larm me faz perceber que estou rangindo os dentes e olhando perdidamente para o nada. Então olho nos seus olhos e, em seguida, sou surpreendida com um beijo.
Enquanto Larm me beija, esqueço completamente de todo o pensamento vingativo, e só penso nele. Quando nos separamos, ele ri de lado.
– Hey — Sussurro. — Sabia que eu te amo? Tipo, muito mesmo?
– É claro que eu sabia.
Ele passa o braço em torno dos meus ombros e me guia para de volta ao resto da turma. Dessa vez, é certo: estamos definitivamente indo para a guerra. E eu, por incrivel que pareça, estou bem ansiosa por isso.
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