O país secreto.
63 A coroação
Notas iniciais
Do alto do trono, eu tenho uma visão perfeita de todas as cabeças das pessoas aqui presentes — que, aliás, são muitas. Ter tanta atenção voltada para mim me faz sentir ligeiramente desconfortável, portanto remexo no assento a cada cinco segundos.
Doquo até agora não disse nada que me interessasse. Apenas conta aos súditos sobre bravura, coragem e desempenho, dando os devidos créditos aos quatro guardiões — tanto aos três que sobreviveram, quanto à Vedir.
Sim, você leu bem. Três.
Doquo em momento algum mencionou Drafe, pois foi revelado, dias atrás, que Drafe era um traidor. "Nem todos os vilões tem que ser sempre maus, e nem todos os maus são vistos como vilões", dissera Birc. Eu não posso dizer que não estava avisada.
Como todos sabem, Drafe estava incubido de salvar os prisioneiros e levá-los para a floresta. Contudo, seus planos eram outros — ele queria matá-los, e até hoje, não entendo por quê. Drafe levou Júnior e Chris para o porão, longe de qualquer ruído da guerra, e assassinou Júnior friamente. Chris me contou que, graças ao tempo em que Drafe gastou matando Júnior, ele foi capaz de usar seu dom — que é o mesmo que o de meu irmão Stive — para convocar um dos machados que faziam a decoração do porão. Chris cortou fora sua cabeça, e conseguiu fugir.
Olho para Chris, ao meu lado esquerdo. Ele está determinado, com os olhos verdes focados adiante e o cabelo preto decentemente penteado. Eu... Eu senti tanta falta dele durante esses meses, que posso olhá-lo durante horas e horas sem me cansar. Me pergunto se, caso fosse eu no lugar dele, naquele porão com um assassino, se eu teria a mesma coragem que ele teve.
A um canto, sentadas em luxuosas cadeiras acolchoadas, vejo Myafa, com seu cabelo verde cacheado preso em um rabo de cavalo e vestida com um lindo vestido longo cor de esmeralda, e Isie, que está usando um vestido negro até as coxas e tem o cabelo azul solto em ondas pelos ombros. Isie esteve perto da morte, mas conseguiu superar, ganhando um braço enfaixado. Ela ficou dormindo por dois dias consecultivos e, nesse meio tempo, a única pessoa que ficou ao seu lado foi Will. De certa forma, Isie ainda é uma princesa, e Myafa também.
— ... Quero que conheçam seus novos reis e rainhas — As palavras de Doquo me trazem para a realidade. Ele está usando um lindo terno azul-marinho, e uma coroa de ouro sobre a cabeça quase completamente careca.
Assim que ele termina de falar, enfileiram-se diante dos tronos cinco pessoas — respectivamente, Liam, Demmie, Larm, Giroy e Jayssa — cada um trazendo uma almofada vermelha com uma bela coroa repousando sobre ela. Larm é quem está na minha direção; ele sorri para mim, me trazendo lembranças nítidas do nosso breve encontro em meu quarto. Sinto meu rosto corar, e um sorriso começar a aparecer involuntariamente.
— Dianna Marins Bouringor, a vidente! — Doquo faz um gesto para Dianna, e Liam começa a se mover em sua direção. Ele está elegante com seu terno branco, mas é inevitável perceber a tristeza que domina seu rosto. Quando ele coloca a coroa prateada sobre a cabeça de Dianna, a reverencia e se vira para ir embora, eu me pego sentindo pena dele. — Ela nos ensina que a perseverança e a paciência são fundamentais!
Dianna tenta conter o sorriso quando a plateia explode em aplausos e assobios, mas é incapaz de se manter séria.
— Christian Marins Bouringor, quem é capaz de mover objetos com a força da mente! — Entoa Doquo.
Demmie, parecendo meio contrariada, caminha até ele, coloca a coroa sobre seu cabelo e depois retorna resmungando. Demmie está irreconhecível com esse vestido longo rosa bebê e o cabelo ruivo preso em uma trança sobre o ombro.
— Ele nos ensina — Continua meu avô. — A sermos estrategistas e perspicazes nas horas mais difíceis!
Todos aplaudem, contudo Chris permanece do mesmo jeito, recusando-se a sorrir. Talvez ainda pense arduamente sobre a tragédia com sua irmãzinha.
— Emma Bouringor Sender, a Dama do Fogo!
Meu coração dispara loucamente quando vejo Larm vindo na minha direção. Por um instante, penso que vou passar mal e desmaiar... Não, desmaiar não, eu vou mesmo é morrer de um infarto fulminante.
Larm pega a coroa de ouro com acabamentos em prata, e põe em minha cabeça, chegando o rosto bem perto do meu.
— Você está linda — Ele sussurra.
Engulo em seco, ainda mais enrubescida do que qualquer humano poderia ficar.
— Ela nos ensina...
Larm chega para trás, sorrindo, e então me dá as costas.
— Que, mesmo se sentirmos que somos fracos, devemos seguir em frente e lutar com todas as nossas forças!
As palmas fazem com que eu me encolha totalmente no trono, desejando cavar um buraco no chão e enfiar minha cabeça, feito um avestruz — ainda que eu saiba que avestruzes não fazem isso, naruralmente.
— Hellena Maria Bouringor Fidalgo, a Dama do Gelo!
Hellena bufa, revirando os olhos. Giroy, apesar de um pouco abatido, está incrivelmente bem para quem esteve perto da morte — suponho que isso se deva ao fato de ele ser imortal, ou essas coisas. Giroy entrega a coroa à ela, e sorri, e algo no seu olhar transmite uma mensagem que eu posso compreender perfeitamente: "obrigado". Vedir morreu, mas teve a oportunidade de amar alguém e ser feliz, até onde poderia. Por isso, Giroy devia agradecer Hellena... Graças à ela, Vedir provavelmente se sentiu mais vivo do que nunca.
— Ela nos ensina a encarar os adversários com valentia, a ser nós mesmos, independente do que os outros poderão pensar — Doquo olha para ela, e pisca um de seus olhos castanhos divertidamente.
— E, finalizando, William Dill Bouringor Sender, o telepata!
Jayssa, que está com um vestido azul cintilante e o cabelo negro dividido em marias-chiquinhas, coroa Will e se une aos demais convidados com um sorriso alegre.
— Will nos ensina... Bem... — Doquo gagueja, sem saber como prosseguir. — A superar os desafios e vencer a tristeza.
Will, dentre todos nós, é quem mais assume o ar de presunção e superioridade. Se engrandecendo com os aplausos e os vivas de seus súditos.
— Esses serão os novos reis e rainhas de Oliut! — Anuncia Doquo. — Portanto, dividirei as posses de Liberty e Hope entre eles. Hope, a partir de hoje, passa a ser comandada por Christian, Hellena e Dianna Bouringor! Emma e William ficarão com a gerência de Liberty. Estamos entendidos?
— Espere!
Todos olhamos para Will, que agora está de pé e se sentindo o máximo com essa coroa empoleirada na cabeça. Eu sempre soube que William é o tipo de pessoa que, se caso for elogiado ou possuir um tantinho de autoridade, fica insuportável. Se Stive estivesse aqui, lhe daria um belo sopapo e o mandaria calar a boca e sossegar.
— Agora que eu sou o rei de Oliut e Liberty, eu tenho umas mudanças básicas para fazer.
A sala é preenchida por murmúrios. Doquo o olha com uma interrogação estampada na cara, enquanto eu e os demais netos de Doquo estamos com as sobrancelhas arqueadas. Que diabos meu irmão acha que está fazendo?
— Primeiramente — Will ergue um dedo. — Quero banir para Liberty todos aqueles coelhinhos do mal, aqueles tais calists.
— O quê?! — Hellena não consegue se conter.
— Enquanto eu fugia com a Myafa, aquele troço me atacou e fez uma ferida horrenda no meu braço. — Prossegue, inspecionando as unhas. — Em segundo lugar, eu, como rei, vou estar um tantinho ocupado com tantos assuntos. Então, quero alguém para me ajudar a gerenciar Liberty. — Ele aumenta o tom de voz conforme os burburinhos ficam mais intensos, quase como protestos. — Uma comissão. Vou chamar de Comissão das Pérolas. Quero minhas adoráveis guardiãs e Myafa como as tais pérolas.
Vejo Demmie se precipitar para ele, doidinha para lhe dar umas porradas, mas é impedida por Liam, que segura seus braços. Will sequer se incomoda com a reação da guardiã, com seu sorrindo crescendo cada vez mais.
— Bem, isso é tudo. — E então assenta-se novamente em seu trono.
— Will, você é um idiota, sabia? — Provoca Hellena. — Está se sentindo. Fica ainda mais imbecil falando desse jeito.
Doquo pestaneja, boquiaberto.
— Bem — Diz ele. — De qualquer forma, ele é um rei. Então não posso me queixar de suas decisões. Pois então... — Ele abre os braços, tornando a encarar os súditos. — A comida é liberada no primeiro andar!
— Não! — Grito. — Esperem!
As pessoas, que já começavam a sair, hesitam e recuam.
Eu estou ofegante, apertando fortemente as mãos fechadas sobre o colo. Só há uma coisa fixa em minha mente — e eu preciso dizer. Um motivo pelo qual lutei até aqui, uma única coisa pela qual almejei desde o princípio. Passei por vários obstáculos, enfrentei muitos perigos, perdi pessoas amadas, mas não posso fechar os olhos para a realidade.
Com o coração na garganta, eu me levanto e ergo as mãos, pegando delicadamente a coroa de sobre minha cabeça. A paltéia fica surpresa, soltando exclamações, ainda mais quando coloco a coroa em cima do trono.
— Eu não posso ser a rainha de um mundo — Declaro, em voz alta. — Quando uma parte de mim está presa em outro! Não vim até aqui no intuito de me sentar em um trono e administrar um país. Eu vim até aqui para salvar quem eu amava, salvar Oliut e poder ter uma vida normal outra vez. — Olho para meus primos e irmão, com os olhos marejados. Todos estão embasbacados, mas não posso culpá-los. — Eu não sou Emma Bouringor, a Dama do Fogo! — Esbravejo, tornando a fixar a multidão. — Sou Emma, a estudante. Sou Emma, a irmã. Sou Emma, a filha, a amiga. Apenas isso... Não quero que me olhem pensando em mim como a rainha do mundo. Quero que me olhem como a adolescente, a pessoa. — Torno a fitar meus parentes. — Nós perdemos muitas coisas. Vamos deixar nossas habituais vidas para trás e seguir um novo rumo? Esquecer nossos pais que sofrem com a nossa ausência? Esquecer nossa casa? Tudo?
Hellena se levanta, determinada, e já tirando a coroa. Ela, assim como eu, coloca-a no trono, se unindo à mim em seguida.
— Emma está certa. — Concorda ela. — Se nós chegamos até aqui, era porque queríamos achar nossos parentes e voltar para casa.
Mesmo que o ambiente esteja repleto de vozes surpresas e assustadas, Doquo sorri. Parece que ele imaginou desde o início que tomaríamos essa decisão, portanto não se abalou. Ele caminha até nós.
— Vocês tem absoluta razão. — Concorda. — Mas, Emma, receio que esteja enganada quando diz que não quer ser rainha e, sim, voltar para casa. Não importa onde estejam, vocês serão sempre reis e rainhas de Oliut, Liberty e Hope. Isso vai através de mundos.
— Sim — Dianna aparece ao lado de Hellena, também sem coroa. — É uma boa proposta.
Doquo, com seu rosto bondoso e sorriso gentil, pergunta:
— Alguém mais quer voltar?
Silêncio. Eu me sinto ligeiramente magoada com Will por ele preferir ficar; e se eu não voltar a vê-lo? E se ele jamais for para casa? Eu já perdi Stive na poeira, aguentarei perder Will também?
Contudo, ele nem se move, apenas fica parado com toda a sua arrogância.
— Muito bem.
Doquo move as duas mãos, e um portal surge diante de nós. É a mesma esfera branca e brilhante, só que um tantinho menor. A iluminação faz meus olhos doerem.
— Adeus, rainhas — Diz Doquo. — É melhor irem antes que o portal comece a sugá-las.
Assentimos. Dianna é a primeira a passar, logo seguida de Hellena. Na minha vez, no entanto, sinto alguém me puxar pelo pulso e, quando me viro, vejo Larm.
— Não vá! — Ele pede.
— Venha comigo!
— Eu não posso!
— Não, não pode! Você deve!
Ao final dessa pequena discussão, Larm sorri e caminha para o portal, passando antes de mim. Olho ao redor, flagrando Myafa, que chora com o rosto escondido nas mãos.
— Myafa!
Ela ergue o olhar para mim, entretanto não tenho muito tempo. A esfera está começando a me puxar para si, mas eu não posso deixar a mãe do meu sobrinho ali. Quando Myafa chega até mim, eu a empurro para dentro do portal e mergulho em seguida.
Fale com o autor