O outro mundo
20 Separação
Notas iniciais
Tudo corria perfeitamente bem. Algumas confusões aqui e ali, mas tudo estava normal. Ou quase. Os dias se passavam e o medo aumentava. Charlie já não chorava mais. Agora, dava uma gargalhada medonha e assustadora. Estava apavorado. O único momento em que Charlie não se mostrava assustado, mas sim corajoso, era quando o feitiço o atacava. Havia uma coisa que o rapaz não suportava: a liderança de Bryan. Achava ele muito convencido e metido. Gostava de dar ordens mas não cooperava. A única coisa que Bryan fazia de útil, na cabeça de Charlie, era caçar o que comer. Mas todo aquele desespero só fazia aprofundar mais a raiva de Charlie, que embora muito medroso, não deixava ferir seu orgulho. Sim, Charlie era muito orgulhoso e esse é, talvez, seu maior defeito.
Estava quase anoitecendo. Todos caminhavam muito quietos e olhando para os próprios pés. Charlie estava de mal humor e como sempre, com medo. Ele tentava caminhar sempre no no centro de todos, para o caso de algum ser monstruoso tentar atacá-los.
–Acho que aqui seria um bom lugar para passarmos a noite.- Supôs Bryan parando e sentando-se em uma pedra sob a árvore.
–Acho que não é não.- Discordou Charlie olhando apreensivo para o lugar a sua volta.
–Se você acha que nós vamos dormir em um hotel cinco estrelas, está muito enganado, queridinho.- Kate apoiou-se sobre uma das pernas e pôs a mão na cintura.
–Não é isso... Só estou dizendo...- Começou Charlie mas foi interrompido por Lucy.
–Está dizendo nada. É aqui e pronto.
–Por que vocês me tratam como se fosse criança?- Ele olhou a todos indignado.
–Porque é assim que você age.- John sorriu.
Nessa hora o feitiço atacou Charlie novamente. Ele é sem dúvidas o mais afetado. O que é mais enfeitiçado. O que sofre mais com isso. Seus olhos se tornaram azuis vidrados. Ele fixou seu olhar no tronco da árvore.
–Essa não...- Emily sussurrou.
–Poxa e eu achando que mais ninguém seria atacado...- John suspirou.
–Não seja tolo, John. É obvio que mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer.- Bryan o fitou sério.- Achei estranho os dois dias que ninguém foi afetado.
–Cala a boca!- Charlie virou os olhos para Bryan.
–Eu de novo? Ele me odeia...- Bryan suspirou.
–Você se acha muito esperto não é?- Charlie se aproximava.- Acha que é o nosso pai. Que manda em alguém.- Riu.
–Não Charlie. Eu não penso assim...
–JÁ FALEI PARA CALAR A BOCA!- Emily puxou Charlie pelo braço, mas ele se desvencilhou dela com facilidade.
–Charlie por favor...
–Mas quer saber?- Charlie o olhava com ódio.- Eu não vou ficar nesse grupinho aqui com esse líder– Cuspiu no chão.- VOU EMBORA!
–Charlie não!- Emily chorava. Ela sabia que ele sentia isso há muito tempo. Apenas o feitiço era capaz de fazê-lo desabafar tudo o que sentia.
–Charlie não faça isso...- Bryan tentou falar e continuou sentado. Charlie virou as costas.
–Quem quiser vir comigo...- E começou a andar. Emily queria ir, mas sabia que não devia. Sabia que tinha que ficar. Ela se enroscou no chão e ficou ali. Chorando. Lucy não podia abandoná-lo. Ele morreria se ficasse sozinho na floresta. Seus olhos inundaram. Sabia o que tinha que fazer. Começou a seguir Charlie. Pouco antes de desaparecer, virou para trás e olhou para Kate que estava muito perplexa para chorar. "Desculpa." Lucy formou a palavra nos lábios. Kate apenas a olhou assustada. Lágrimas escorriam sem parar dos olhos de Lucy. Tinha medo. Kate não foi. Tinha que cumprir a missão a que começara. John ficou confuso. Muito confuso. Olhou para sua irmã embolada no chão. Tinha que protegê-la. Mas olhou em seguida para seus dois amigos que estavam caminhando devagar para a morte. Não podia abandoná-los. Olhou, então, para Bryan e Kate. Sabia que eles cuidariam da sua irmã. Optou por seguir Charlie e Lucy.
–Por favor...- John apertou os olhos.- Cuidem dela.- Bryan e Kate assentiram assustados.- Emy... Te amo.- Emily apenas ergueu o rosto empapado de lágrimas e tornou a chorar.
E lá se foram Lucy, Charlie e John, seguirem seu próprio caminho.
Começaram a caminhada, agora só a três. Lucy soluçava. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Nunca pensou que o feitiço chegaria a esse ponto. John fitava os próprios pés. Os dois evitavam olhar para Charlie. A caminhada era rápida. Lucy tentava decorar o caminho e os pontos de referencia na esperança de que quando Charlie voltasse ao normal, poderiam enfim, retornar e encontrar ao grupo de Bryan novamente. Mas essa esperança era vaga. Lucy sabia que a explosão de Charlie era uma coisa que ele sabia que mais cedo ou mais tarde ocorreria. Mas e quando ele voltasse ao normal? O olhar determinado que agora era expressado daria lugar ao olhar de medo. Lucy esperava ansiosamente para ele voltar ao normal. Assim poderiam reencontrar os outros. A menina secou as lágrimas com as costas das mãos.
O silêncio era ensurdecedor.
Charlie levou as mãos a barriga. Seus olhos assumiram o negro intenso de sempre. Lucy sorriu esperançosa. Charlie sentou-se no chão. Sua barriga doía de fome.
–Charlie!- Lucy se abaixou perto do amigo. John ergueu os olhos e continuou onde estava. Suspirou entristecido.
–Onde estamos?- Charlie franziu a testa.
–Você discutiu com o Bryan e decidiu fugir. John e eu viemos com você.- Os olhos de Lucy brilharam.- Agora podemos voltar!
–O que? Eu estava reunindo coragem para fazer isso. Para discutir com ele. Ainda bem que o feitiço me fez esse favor.- Charlie olhou a menina nos olhos. Sorriu.- Obrigado. Por virem comigo.
–Então não vamos voltar?- O sorriso animado de Lucy se desfez.
–Você ouviu Lucy. É isso. Pode voltar se quiser.- John deu de ombros. Lucy apenas o olhou. Seus olhos estavam tão entristecidos quanto os dele.
–Olhe... Se quiserem, voltem.- Charlie suspirou.
–Está brincando?- John abriu um sorriso triste.- Não duraria um dia sem a gente.- Charlie sorriu.
Kate fazia a vigília. Estava muito preocupada. Ouvia os soluços constantes de Emily, que dormia e chorava. Bryan não conseguia dormir. Se sentia muito culpado. Fitava o céu sem estrelas e com uma lua que mais parecia uma bexiga de aniversário redonda. Mas não chorava. Enquanto Emily estava destroçada e Kate derramava lágrimas silenciosas, Bryan não derramava uma só lágrima. Sentiu que não conseguiria mais ficar deitado e se levantou. Sentou-se junto a Kate, que chorava baixinho. Kate Viu-o sentar ao seu lado e lançou-lhe um sorriso desanimado.
–Eles vão ficar bem.- Bryan tentava convencer a si próprio.
–Por que ainda não voltaram?- Kate o olhou. Seus olhos negros estavam tristes e marejados.
–Talvez não tenham achado o caminho.- Sugeriu Bryan.
–Você acha que ele ainda está enfeitiçado?
–Não. O feitiço não demora tanto assim.- Bryan segurou sua mão.- Não se preocupe.- Kate se levantou e foi dormir, deixando Bryan de vigia.
Ela sabia que eles não voltaram porque simplesmente não quiseram. Bryan também sabia. Mas tentava se convencer que estava errado.
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