O sol poente deitava sobre as terras irlandesas naquele fim de junho fazendo parecer que desde os primórdios dos tempos os céus sempre foram alaranjados, dava para sentir a umidade do ar na pele, fazendo da brisa que vinha do sudoeste naquela tarde ser um pouco mais fresca que o normal, as faias e carvalhos dançavam ao vento com todas as folhas seguindo a mesma direção numa sincronia natural perfeita e as águas do rio Shannon manavam em azul cobalto, refletindo sobre elas a imagem distorcida pela hidro cinesia, revelando aquele jovem garoto sobre a ponte.

De aparência pálida, bochechas semi rosadas e cabelos caramelo enaltecidos pela luz que combinavam com a cor de seus olhos, quem o visse de longe – porém muito improvável por causa da semotidade daquele lugar – diria ter uma estatura acima da média, devido ao comprimento das pernas que balançavam acima das águas. Pessoas ordinárias iriam a lugares como esse para apreciar a paisagem, tirar uma foto talvez ou simplesmente para pararem de pensar um pouco na vida. Mas aquele garoto ali sentado estava longe de ser normal, até porque não se importava com nenhuma daquelas sensações naturais proporcionadas pelo momento, pelo menos não naquela hora, ele estava ocupado demais impregnando sua mente com lamentações, se havia algo ali que ele tinha certeza que existia – e não se sentia nem um pouco confortável com isso –, era a vida.

– “Parece que estou carregando o mundo nas costas, é como se fosse algum tipo de castigo divino. Estou começando a me arrepender de muitas coisas, de muitas escolhas. Esses questionamentos sem fim na esperança de entender o porquê disso tudo estão drenando toda a minha vivacidade. Estou indignado, estou perdendo a paciência, estou de saco cheio! Não aguento mais estudar inutilidades, não aguento mais ficar em casa olhando pela janela os portões que rodeiam o terreno, mas também não suporto ver os mesmos lugares todos os dias, não aguento mais essa ponte e toda essa farsa que me obrigam a viver, e vou ter que carregar isso por sabe-se lá quantos anos para fingir que estou fazendo algo de importante, pra provar que sei alguma coisa. O que estou fazendo? Eu quero sair desse lugar, tem alguma coisa aqui me prendendo, impedindo de ir para frente todos os dias, como se eu ainda tivesse uma missão a cumprir nessas terras, mas a questão é que não aguento mais essa batalha pra tentar ir contra isso. São os outros que estão certos em aceitar essa realidade ou eu que estou errado? Por que me sinto como sendo o único a estar passando por isso? É pedir muito um pouco de liberdade ou ao menos poder decidir o rumo que quero levar? São tantas ideias, tantas vontades, tantos sonhos... Eles estão querendo sair de tal forma que estão me sufocando, mas o externo me impede. Eu falo, ninguém me ouve, só me julgam, me reprimem. Ainda me recordo da feição sarcástica de Elle quando falei sobre meu sonho, de explorar todo o mundo em busca de algo que ninguém antes já tenha visto, e logo em seguida ouvir uma risada farpa. Esses últimos meses o medo tem me consumido por achar que estarei sempre destinado a viver aqui. Porra! Eu só tenho dezessete anos, e por que tudo isso? Quem sou eu nesse momento? O que estou fazendo sentado aqui? E novamente, por que tudo isso? Estou perdido comigo mesmo.”

A brisa bateu uma última vez, como se fosse o indício do fim de mais uma revolta. A essa altura o sol passou de poente à inexistente, e a escuridão começou a tomar conta daquela plaga. Não havia mais laranja, não havia mais carvalho, não havia mais cobalto... Apenas um garoto recém-decepcionado. Sua sincera vontade era de se atirar ao rio para saber se haveria ali um mundo submerso a espera de um curioso como ele, mas ao invés disso se pôs de pé e voltou à mansão da colina, que agora não passava de uma singela silhueta, escondendo algumas das estrelas que apareciam na infinidade do universo.

– “Talvez nas estrelas haja outro lugar, onde eu também possa viver. Quem sabe?”

Notas finais
"Elle" é a abreviação de Murielle, forma como o garoto chama sua mãe devido à sua rígida criação, que será desenvolvida durante a narrativa.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.