Duas batidas na porta foram as responsáveis por tirarem todos de seus respectivos estados de torpor. Agora que sabiam o que Skye fizera, parecia difícil manter as piadas matinais e mesmo que não tivessem intenção, mudaram seus comportamentos ao redor da garota. Ward trincava os dentes toda vez que Skye passava perto, Jemma abaixava a cabeça, Fitz a lançava um sorrisinho complacente, May suspirava mais vezes do que o necessário, Coulson parecia repensar suas recentes decisões e Skye apenas ignorava, não mantendo contato visual com nenhum deles.

Todos se entreolharam com estranheza ao ouvirem as batidas, afinal, ninguém havia pedido serviço de quarto e a recepcionista não interfonou sobre algum visitante. Ward e May sacaram suas armas. Skye, por estar mais próxima a porta, olhara pelo olho mágico, engolindo um seco ao ver quem era. A abriu.

– R ... – sussurrou, permanecendo estática a sua frente. O homem usava óculos escuro, escondendo seus globos estrelados, e os cabelos grisalhos estavam levemente bagunçados.

Ele sorriu largo, olhando por cima do ombro da morena para os demais integrantes do time, que mantinham cara de poucos amigos e as armas ainda apontadas na direção dele – Reed – ele anunciou e estendeu a mão esquelética na direção da garota, que apenas a fitou, sem retribuir o gesto. – Vai me deixar entrar ou não ? – ele prosseguiu sem se abalar e ergueu as sobrancelhas.

Permitiu sua passagem e antes que pudesse fechar a porta dois jovens surgiram, pareciam brigar sobre algo e a garota pulava no pescoço do menino, que ria. Eram apenas alguns anos mais novos que Skye.

Reed virou-se e suspirou – Esses são os gêmeos, Wanda e Pietro. Meus filhos. – explicou-se rapidamente e os jovens entraram no apartamento, lançando sorrisos cordiais para todos. — E então, com quem eu devo tratar sobre negócios ? – R questionou, caminhando até o centro da sala e sentando-se no sofá, sem a menor cerimônia, nem se importava com as armas apontadas em sua direção, parecia divertir-se na realidade.

– Creio que seja comigo – Coulson se manifestou, num ar sério – Podemos fazer isso no meu escritório, uma conversa particular – ele completou e May o lançou um olhar de “você perdeu o juízo ?” Reed sorriu e apenas concordou com a cabeça.

– Como queira – ambos se dirigiram até o escritório, deixando para trás uma May nervosa.

– E então, como estão ? – Wanda questionou jogando-se no sofá e Pietro sorriu ao sentar-se ao seu lado. Pareciam genuinamente felizes e tinham o mesmo ar confiante do pai, o que era no mínimo irritante.

– Excelentes – Skye respondeu, seca. Sentando-se numa poltrona já que os gêmeos haviam tomado a maior parte do sofá.

– Reed nos disse sobre você, Skye – Pietro falou e a lançou uma piscadela sugestiva.

– Sobre meus futuros poderes ?! – comentou debochada, encarando as próprias mãos e deu um sorriso cínico – É ... Mal posso esperar, espero que consiga ficar invisível – completou num ar sarcástico.

– Vocês querem ver os nossos ? – Wanda questionou, decidindo ignorar o mau-humor da outra jovem. May e Ward sacaram suas armas novamente, enquanto Fitz-Simmons diziam sim de forma animada, toda aquela novidade científica os deixaram mais do que excitados, queriam estudar o DNA daquelas pessoas e descobrir a origem dos seus poderes.

– A não ser que queiram ver em primeira mão o estrago que essa belezinha faz, acho melhor não – May falou entre dentes e lançou um olhar feroz para a garota de cabelos vermelhos. Essa fez um bico mimado e logo após sorriu.

Pietro era super veloz e antes mesmo que May e Ward percebessem ele já havia tirado as armas de suas mãos,enquanto Wanda fazia o sofá no qual estava sentada, flutuar, numa, aparentemente, nuvem vermelha. Todos olhavam com certa admiração e medo, após a demonstração de Wanda, Pietro devolveu as armas para May e Ward, sentando-se novamente e apreciando a cara de incredulidades dos demais.

– Eu sabia que vocês iriam gostar, papai não nos deixa mostrar para muitas pessoas, então aproveitamos toda oportunidade que temos – Wanda explicou e levantou-se saltitante, indo procurar algo na cozinha para comer, sendo seguida pelo irmão. Eles eram no mínimo incomuns.

– Ele é rápido e ela é estranha – May sussurrou enquanto olhava pelo canto dos olhos os dois jovens brigarem sobre quem deveria ficar com o chocolate e foi impossível não sentir um pouco de empatia por Reed, criar aqueles dois deve ter sido um longo passeio no inferno. Os conhecia a apenas vinte minutos e já tinha uma enxaqueca.

Coulson e Reed saíram do escritório e pareciam ter chegado a um acordo, já que trocaram um aperto de mão e um sorriso amistoso.

– Me perdoem pelos meus filhos ... – Reed começou enquanto era possível ouvir Wanda empurrar Pietro contra a parede – Eles passaram da hora de nascer – ele brincou e lançou um olhar sério na direção dos gêmeos que se puseram ao seu lado no mesmo instante.

Apesar de não conseguir ver, Skye sabia que Reed a encarava, pois tinha aquele sorrisinho no canto dos lábios, o mesmo sorriso que tinha ao levá-la até o sonho – Nos veremos novamente – ele falou para todos, mas Skye sabia que aquela mensagem era destinada a ela.

Wanda e Pietro despediram-se e seguiram o pai.

Coulson esperou alguns instantes,após fechar a porta, para pronunciar-se. Todos o olhavam com expectativa.

– Eles irão nos ajudar – Coulson iniciou, levantando os olhos que antes encaravam o chão – Com algumas condições, claro – ele prosseguiu e sentou-se na poltrona que Skye antes ocupava – Não poderemos matar nenhum Inumano e uma vez que eles estiverem fora do domínio da HYDRA, não iremos colocá-los no índex, eles estarão livres – Coulson falava, como se nem ele acreditasse no acordo que fizera – E ao final da missão ... Ele quer você, Skye – finalizou e encarou a menina, em seus olhos era possível ver um pedido de desculpas. Ele a usara como moeda de troca ... Ela não demonstrou surpresa.

– Você perdeu o juízo, Coulson ? – May vociferou, e era a primeira vez que a viam perder o controle daquela forma. Ele não respondeu e ela continuou no seu ar protetor, enquanto se punha na frente da adolescente.

Skye o encarou longamente, porém não parecia zangada ao fazê-lo – Tudo bem– concordou com firmeza, não tinha nenhum sinal de rancor em seu tom – Não iria ter outro lugar para ir de qualquer forma – finalizou e lembrou-se de Miles. Achou que sua chance de redenção estivesse com ele, mas o sonho a fez perceber que estava apenas o aprisionando numa rede de mentiras, ela não o merecia e o mais justo seria deixá-lo partir. Que futuro poderiam ter juntos ? Ela nunca poderia dar-lhe um filho, nem o explicar o porquê de não podê-lo e todas as vezes que acordasse por conta uma pesadelo e ele a perguntasse sobre o que era, ela mentiria. Viveria uma mentira. Pelo menos estando com Reed teria uma chance de reencontrar sua mãe, considerando que ela ainda estivesse viva.

– Qual é o alvo ? – questionou ao encarar Coulson, já mudando de assunto e deixando claro para os demais que aquele não estava aberto a discussões. Ela iria com Reed,ponto.

– Atlanta – ele respondeu – Aparentemente HYDRA funciona sob uma base militar americana, no subsolo – pausou, permitindo que todos compreendessem a complexidade daquela operação. – Fitz-Simmons, precisaremos de muitos ICER’s – ele falou enérgico — Ward e May, um plano de ataque e extração – completou ao apontar para os dois – Skye, as plantas do complexo – e só então levantou-se – Eu irei ligar para a Victoria, dar a notícia ... Desejem-me sorte – finalizou jocoso, trancando-se em seu escritório.

Todos permaneceram estáticos por mais algum tempo, encarando a porta do escritório, sem dizer nada.

– Não podemos falhar – Skye foi a pessoa a quebrar o silêncio e a primeira a se mover, indo hackear uma base militar americana, o que seria relativamente fácil, considerando que já que fizera antes, incontáveis vezes.

Imprimiu as plantas e as levou até os estrategistas – Aqui – falou ao estende-la sobre a mesa de vidro. Era realmente um forte subterrâneo, paredes reforçadas, diversos túneis que interligavam as estações e era no mínimo quatro vezes maior do que um campo de futebol. Parecia impenetrável, mas May, Ward e Skye logo foram capazes de determinar os locais mais vulneráveis, assim como um meio de extração, só tinham um pequeno problema. Precisavam cortar as comunicações do complexo e para fazê-lo, precisariam de um homem infiltrado e até onde sabiam, não havia nenhum e nem tempo hábil para designar algum espião. Já seria difícil lidar com o contingente de dentro da base, não precisariam de reforços para dificultar ainda mais a operação.

Coulson aproximou-se do trio e levou poucos segundos para determinar qual era a pedra no meio do caminho – O Reed pode lidar com isso, ele me falou das habilidades que os integrantes do seu grupo possuem – ele disse, deslizando o indicador pelo papel – Um consegue se teletransportar, é assim que eles levarão os Inumanos para Deus sabe onde – completou e encarou aos três, com os braços cruzados sobre o torso. – O filho super veloz nos dará o acesso, Wanda e Reed lidarão com os Inumanos, os impedindo de nos matarem ... Um tal de Lincoln nos ajudará, aparentemente ele é uma espécie de Pikachu humano e Victoria enviará Mike, que continua com a mesma força de antes, só que agora não ... – pausou – Explode – finalizou e olhou para o grupo. Na teoria tudo parecia muito perfeito, mas eles não sabiam quais eram os poderes dos Inumanos presos ali e tudo parecia depender dos poderes de Wanda e Reed, se eles morressem, todos morreriam junto.

– Eu quero estar no time que irá atacar o Red Room – falou de forma autoritária e encarou Coulson, era possível ler as entrelinhas daquele longo olhar, ele a devia uma por ter praticamente a vendido e ele sabia disso, pois concordou.

– Tudo bem – ele respondeu e a garota relaxou.

Eram todos crianças e adolescentes. Perigosos ? Com certeza, mas não mereciam morrer, elas não pediram por nada daquilo.

– May, você levará agente Simmons até os laboratórios, SHIELD quer as pesquisas que estavam sendo feitas – Coulson prosseguia, parecia ansioso para acabar com tudo aquilo e ter um pouco de paz de espírito, se é que fosse encontrar aquilo novamente.

– Ward, você levará Fitz para a sala de comando, precisaremos do plano B, caso o A falhe –

– E o que seria exatamente esse plano B ? – a garota indagou e ele apenas deu um sorriso triste.

– Se foquem no A e não teremos que descobrir – disse, sadicamente misterioso.

Ninguém ali era estúpido, todos sabiam o que a sala de comando era capaz de fazer; trancava determinadas portas, impulsionava gases tóxicos para outras, parava a circulação de ar pelos ductos, causava explosões ... Implodia. O plano B do Coulson era um massacre.

– Temos dois dias para pôr esse plano em ação, contamos com o fator surpresa – ele finalizou e partiu novamente, alegando que falaria com Reed sobre Gordon cortar as comunicações, poucos instantes antes da equipe atacar.

Naquela noite, Skye não conseguira dormir, apenas revisava o plano. Já sabia cada mínimo detalhe dele, mas tentava achar algum erro, alguma incoerência, alguma coisa que eles tivessem ignorado, mas não, tudo parecia perfeito e a única coisa que conseguia pensar depois de concluir isso era na Lei de Murphy: “Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior
maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível.” Torcia para Murphy ser apenas um pessimista acéfalo.

Notas finais
No próximo capítulo vai ter tiro,porrada e bomba (? Valesca nunca me compreendeu tão bem. Até lá.