O outro lado da moeda : Skye
14 Capítulo 14
Notas iniciais
SKYE
Levantou-se, fazendo uma careta ao apoiar o pé esquerdo no chão, a torção ainda estava lá. Calçou seu tênis e mancou até estar de frente ao espelho. Passou longos minutos apenas encarando sua fisionomia e refletindo que parecia muito nova para ter todas aquelas habilidades ou ir numa missão de campo daquela complexidade, mas por mais que se esforçasse não lembrava de nada referente a sua infância. As memórias recentes vieram mais fácil do que as antigas.
Olhava para os lados, vendo se Jemma não se aproximava, a médica parecia ter um sensor naquela cama, bastava Skye se mexer durante o sono para a britânica brotar da terra e checar se a menina estava bem. Ela a disse que a amnésia foi desencadeada por um inchaço em seu cérebro e que seria passageira, torcia para ela ter razão. Já haviam se passado dez horas e até aquele momento Skye só havia se lembrado recortes da sua vida, tudo estava repleto de lacunas.
Reed, Gordo, Lincoln, Wanda, Erik, Erin e Pietro já haviam abandonado a base, e talvez por isso a segurança tenha aumentado consideravelmente naquele hangar, principalmente na ala médica, onde Skye estava, mas pela sua recente amnésia ela não fazia a mínima ideia do motivo daquilo, só sabia que não poderia ser bom, ou eles estavam impedindo alguém de entrar ou ela de sair. Possivelmente os dois.
Não se abalou pelo recente incremento da segurança. Aproximou-se do computador da enfermaria e hackeou o sistema do avião, reiniciando-o, aparentemente seus conhecimentos tecnológicos estavam intactos. Ao reiniciar o sistema todas as luzes apagaram por trinta segundos, tempo mais do que suficiente para Skye fugir.
Tirando os guardas, o avião parecia estranhamente vazio, nenhum sinal de Fitz-Simmons, May, Ward ou Coulson, possivelmente estariam dando o relatório da missão para Victoria Hand, pelo menos daquela vez levaram os cientistas, sorriu ao lembrar-se desse episódio em Nova York. Subia a escada que levava até o primeiro andar e ao pegar no corrimão lembrou-se do Brasil, levantou a blusa e lá estava a marca do tiro, Jemma tinha razão, eventualmente lembraria de tudo.
Andava calmamente pelo primeiro andar, as mãos deslizando pelas saliências das portas dos dormitórios e os olhos a vagarem pelo ambiente, ao chegar no quinto cubículo sentiu seu coração disparar, aquele era o seu, tinha certeza. Abriu a porta, mas ao se deparar com uma mulher dentro dele, afastou-se, temerosa, embora seu pavor tenha ficado realmente evidente quando a morena a encarou, lembrava-se dela no complexo, a forma que ela matara Patrick e como ao tentar protegê-lo ela a arremessou contra a parede a uma velocidade absurda, aquela era a responsável pelo sumiço das suas memórias e a morte de meia dúzia de agentes, ela não poderia estar solta no avião, não fazia o menor sentido. Seus olhos eram um misto de incredulidade e medo, fechou-os, só poderia estar delirando, mas ao abrir, ela ainda permanecia ali.
– Skye ... – ela falou e a garota engoliu um seco, agarrando a primeira coisa letal que estava ao seu alcance, uma garrafa de vodca que alguém possivelmente esqueceu sobre a mesa de centro, a chocou contra a parede e pegou um dos pedaços de vidro antes que esse atingisse o chão.
– Não se aproxime! – retrucou, mesmo que ainda acreditasse estar falando com uma espécie de alucinação.
A mulher parou aonde estava e ergueu ambas as mãos no ar. Ela não estava tentando matá-la, por quê não ?! Questionava-se internamente, estava tão confusa que sua cabeça começava a latejar novamente.
– Eu não quis fazer aquelas coisas, eu estava sendo controlada – Katherine falou, tentando se justificar, mas notou que precisaria de mais do que aquilo para convencer a garota a sua frente. Skye pressionava o caco de vidro tão fortemente entre os dedos que seu sangue começava a pingar sobre seu all star branco, ela sequer notava a força que empregava, Kate precisava achar uma forma dela acreditar em si antes que se machucasse mais. Aproximou-se, mesmo sobre os protestos da mais nova e só parou quando o caco de vidro que a menina segurava estava apontado para sua jugular.
– Eu não estou mentindo, Skye – falou enquanto fitava os castanhos da jovem, tão parecidos com os seus. Teve vontade de abraçá-la e contar-lhe toda a verdade bem ali, mas Jemma dissera que seria melhor deixá-la se recuperar completamente antes de adicionar mais uma pressão a sua vida.
Skye soltou o caco de vidro e encarou a mão ensanguentada, bastou ver o líquido rubro e sentir o odor de ferrugem para todas suas memórias retornarem; sua infância, a guerra, Miles ... Caiu de joelhos, enquanto esforçava-se para respirar, não conseguia parar de encarar o próprio sangue e pressionava as mãos com força, fazendo-o tingir toda sua roupa num vermelho vivo.
– Não! – gritou alto quando Katherine tentou confortá-la, não queria que ninguém a tocasse naquele momento.
Mike surgiu após ouvir o grito da jovem, ele estava sendo o cão de guarda dela, aproximou-se da garota, lançando um olhar ameaçador na direção de Katherine, ele ainda não confiava na mulher, a maioria das pessoas ali compartilhavam da mesma opinião. Pegou Skye no colo, enquanto a menina afundava o rosto no peito dele e a levou dali, de volta a enfermaria.
– Eu preciso achar o Reed – falou baixo, olhando para Mike e esse apenas balançou a cabeça negativamente.
– Péssima ideia – opinou enquanto entregava um copo de água para a garota e fazia um curativo na sua mão injuriada.
– Eu estou cansada – falou de forma ambígua e afundou a cabeça no travesseiro, repassando tudo infinitas vezes, todos os horrores que a fizeram, todos os horrores que ela própria fez.
PHIL
Victoria Hand considerou a missão uma vitória sem direito a comemorações. Além de perderem um considerável número de bons agentes, saber que John Garrett ainda estava vivo não a fizera nada feliz, tampouco faria Nick Fury, com certeza iriam pôr a terra ao avesso se fosse necessário,apenas para achá-lo.
– As vezes me pergunto por que entrei nesse ramo – Coulson comentou num ar cansado, enquanto caminhava até o avião. Após cinco horas detalhando todos os acontecimentos do complexo ele só queria um banho quente e uma cama confortável, possivelmente não fosse encontrar nenhum dos dois, não após as recentes revelações feitas por Katherine de como políticos corruptos colaboravam com ataques terroristas apenas para manter países sobre sua proteção, ou como HYDRA oferecia seus serviços para compradores de órgãos, tráfico humano, produção de armas biológicas, tecnologia bélica ... HYDRA basicamente seria capaz de iniciar a terceira guerra mundial se assim lhe apetecesse. Ninguém queria aquilo.
– Estaríamos perdidos se você não estivesse aqui – May o respondeu e os demais concordaram com a cabeça, pareciam igualmente exaustos.
Fitz-Simmons conseguiram resgatar alguns dados da base de comando e do laboratório. Um dos arquivos indicava uma base aérea na China e o outro era de uma empresa que estudava insetos, mais exatamente, centopeias. Começariam suas buscas por aí. Debatiam sobre a missão quando Katherine surgiu em seus campos de visões, todos se calaram e, ou abaixaram os olhos ou se debandaram, como foi o caso de Fitz-Simmons que sequer tentavam disfarçar o terror que sentiam. Coulson e May foram os únicos a manterem o olhar fixo.
– E então ? – a mulher questionou aproximando-se do trio. Queria saber tudo sobre a missão pois queria ajudar, embora nem todos estivessem inteiramente abertos a aceitar aquela oferta, e por todos se entende Mike e Ward.
– Conversamos sobre isso no meu escritório daqui a trinta minutos, Katherine – o homem respondeu e já ia saindo, quando a morena o chamou novamente.
– Eu quero contá-la – anunciou e tanto May quanto Ward também viraram-se.
– Já conversamos sobre isso, Katherine, dê um tempo para ela se ... – Coulson ia terminando de falar quando Skye despontou na escada, sendo seguida por Fitz-Simmons que protestavam alto e tentavam impedi-la.
A garota trazia sua mochila com suas poucas roupas dentro dela e caminhava a passos rígidos, demorou um pouco para todos entenderem sobre o que aquilo se tratava já que Leo gritava de um lado, Jemma de outro e Skye retrucava no mesmo tom, pareciam ter regredido para o maternal.
– Parem! – Coulson vociferou num ar autoritário e a única que prosseguiu em seu tom alterado foi Skye, nunca levou Coulson muito a sério, não começaria agora.
– Não sou prisioneira de vocês! – finalizou já virando-se para sair. O curto circuito que Lincoln causou em todos os aparelhos elétricos afetou também sua pulseira, sendo assim não conseguiriam rastreá-la. Tinha conseguido sua alforria.
Coulson e Katherine se entreolharam, como se buscassem uma solução — Eu sou sua mãe, Skye – Katherine anunciou por impulso, apenas não queria que a garota fosse embora, ou pelo menos que não fosse embora sem saber.
SKYE
Skye congelou aonde estava e pressionou a alça da mochila mais forte entre os dedos. Todos pareceram prender a respiração, era uma daquelas situações que só ocorreriam de duas formas, ou muito mal ou muito bem, não havia meio termo.
– Você estará melhor sem mim, não costumo deixar boas coisas por onde passo – respondeu após um longo momento de silêncio, não virou-se, não queria que eles a vissem chorar.
– Eu também não, talvez seja o gene predominante da família Pryde – Katherine retrucou num ar apaziguador, aproximando-se da garota enquanto todos abandonavam a área, dando-as privacidade. Não a tocou, não queria forçar nada.
Virou-se, enfim encarado a mulher que estava a poucos metros – Eu ... – iniciou mas sua voz vacilou no meio do caminho – Não sei o que dizer, não posso ficar – admitiu e enxugou uma lágrima teimosa que ousou cair. Sempre idealizou aquele momento, mas quando ele enfim chegou, queria fugir e se esconder, como sempre fazia quando não sabia lidar com algo.
– Você não precisa fazer nada que não queira – lançou um sorriso fraco na direção da filha, repleto de tristeza — Eu nunca me perdoarei por não tê-la protegido como deveria, nunca me perdoarei por tê-los deixado te tirarem de mim, não espero que você me perdoe ... E mesmo que você não acredite, a única coisa que me faz minimamente humana é o amor que sinto por você – Katherine falou com a voz embargada, mas diferentemente de Skye ela não se importava em conter as lágrimas.
– Você não tem culpa – retrucou e levou a destra até o rosto da morena, enxugando-lhe, ternamente, uma lágrima – Eu não a culpo por nada – completou e forçou um sorriso. Katherine ao ouvir aquilo jogou os braços ao redor do pescoço da menina, a puxando para um abraço. Skye ficara rígida a princípio, relaxando a medida que o abraço se prolongava e só então o retribuiu, ambas desataram num choro silencioso e nenhuma das duas queria ser a responsável por quebrar aquele momento.
– Skye, hm, você que escolheu ? – Katherine perguntou, ainda comprimindo a garota contra seu corpo.
– E qual foi sua genial escolha ? – retrucou, afastando-se e a lançando um olhar pedante. Tinham mais em comum do que imaginavam. Kate riu dos modos da menina, naqueles poucos minutos já pudera notar que Skye não se deixava intimidar, sequer Coulson foi capaz de lhe causar algum efeito.
– Daisy – respondeu e sorriu – Daisy Theresa Pryde – completou.
Skye apenas a olhou com estranheza e fez uma careta – É, definitivamente vamos ficar com o Skye – respondeu e foi impossível não sorrir, a menina era o sopro de vivacidade que Kate outrora fora.
Passaram alguns instantes em silêncio, haviam tantas coisas a serem ditas e ao mesmo tempo nada parecia relevante o suficiente.
– Você ainda vai embora ? – Kate quebrou o silêncio, pondo ambas as mãos nos bolsos da calça.
– Não é para sempre – respondeu e a encarou de forma temerosa, odiaria ver decepção nos olhos da mãe que acabara de conhecer, por sorte, não encontrou. Ela parecia de certa forma orgulhosa por Skye estar trilhando o próprio caminho, fazendo suas próprias decisões.
Abraçaram-se, mal haviam se reencontrado e já estavam se despedindo novamente. — Seja cuidadosa — Kate a orientou num ar maternal e a garota rolou os olhos. Cuidado e falta de confiança eram seus sobrenomes,não precisava ser lembrada daquilo, mas não pôde negar que ficou feliz em alguém demonstrar preocupação com seu bem-estar.
– Preciso me despedir dos outros e me desculpar com os geeks — falou, livrando-se do abraço antes de apanhar a mochila do chão e a colocá-la nas costas novamente. Sorriu uma última vez na direção de Kate e piscou, subindo as escadas,onde encontrou Jemma, Leo e Ward, sentados nas poltronas dispostas na "sala de estar". Aproximou-se num ar arrependido, não queria ter gritado com eles, eram seus irmãos ou pelo menos o mais próximo que tivera desse tipo de relacionamento.
– Eu não vou embora para sempre, eu prometo — falou, ajoelhando-se ao lado de Jemma e pegando na mão da médica. A britânica não demorou a envolver a garota num abraço apertado, Jemma sabia que as feridas mais dolorosas ela não era capaz de curar e Skye tinha uma boa quantidade delas para lidar.
– Vou sentir muito a sua falta — a britânica sussurrou no ouvido da jovem,que despejou um beijo sobre a bochecha da mais velha. — Você pegou todos seus remédios ?! — e só após Skye confirmar ela a soltou.
Partiu para Fitz,enchendo o rosto do garoto de beijos,enquanto ele tentava se desvencilhar dos ataques de afeto,mas no fim não resistiu e acabou abraçando a menina,admitindo que também sentiria falta da mesma.
Com Ward já se manteve mais profissional,um aperto de mão e um sorrisinho de canto iniciaram a despedida — Já sabe né grandão,enquanto eu estiver fora,você cuide deles — o alertou,apontando para a dupla que já se distraia em algum jogo. O moreno apenas sorriu e concordou,abraçaram-se cordialmente e não havia mais a animosidade do primeiro dia.
Achar May não foi difícil,só haviam dois locais para ela estar,na cabine ou na arena. Estava na cabine daquela vez,bateu na porta duas vezes antes de entrar. Ela não a encarou,não se importou,já se habituara àquele jeito durão da chinesa,até gostava. Sentou-se na cadeira do copiloto e tirou de dentro da mochila uma bonequinha havaiana,que chacoalhava com o movimento,fora o primeiro enfeite que pusera em sua van e olhar para cara sorridente da boneca de alguma forma sempre lhe trouxe conforto,esperava passar o mesmo para May. Deixou a boneca sobre uma parte vaga do painel e deu um beijo na bochecha da morena,não usaram palavras mas se despedir foi igualmente doloroso.
Por último,mas não menos importante,Coulson. O homem estava em seu escritório e já parecia saber da decisão da garota. Se encararam por algum tempo,nenhum dos dois sabia exatamente o que fazer ou dizer.
– Tem certeza ? — Phil foi a pessoa a iniciar aquela conversa. Skye apenas concordou com a cabeça.
– Cuide de todos eles — pediu e foi a vez do homem concordar com um aceno. Trocaram um aperto de mão,mas Coulson acabou a puxando para um abraço,apesar de estranhar a reação do homem,não tentou afastá-lo,deixou que o abraço se dissolvesse e só então saiu,deparando-se com Mike a sua espera. Ele estava realmente disposto a abandonar o que ele mais amava apenas para tomar conta dela ?
– Você não precisa fazer isso — falou assim que o vira de malas prontas.
– Você não precisava ter feito muitas coisas por mim e fez mesmo assim — ele retrucou determinado.
– Eu não esperava nada em troca — respondeu prontamente.
– É justamente por isso que irei — pontuou. Aquilo fez Skye sorrir,ajudar Mike foi a melhor decisão que tomara em muito tempo e não reclamaria de alguma companhia na terra dos inumanos.
Deixaram o hangar e andaram até uma estação de ônibus,não tão longe dali. — Você já enviou aquela carta ? — questionou enquanto esperavam o transporte.
– Não — ele falou tirando-a do bolso da mochila e entregando-a para a menina. Agradeceu o fato dele não tê-la enviado e acendeu um palito de fósforo,pondo fogo na mesma.
– Vamos encontrá-lo! — exclamou enquanto entravam no ônibus para L.A.
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