O outro lado da Cicatriz
11 Conexão
Notas iniciais
Pov. Sophie
– Um beijo? — eu repeti, abismada.
– Sim! — Belle escondeu o rosto com as mãos, sentada na cama.
Eu me levantei lentamente. Minha mente estava embaçada. Na verdade, eu já sabia. Eu sempre soube que aquilo ia acontecer, mas agora que aconteceu, eu meio que não consigo acreditar. Não sei explicar. Na verdade, os fatos todos estavam ali, para quem quisesse ver. Eles sempre ficaram juntos, fizeram o dever de casa juntos, estão no time de quadribol da Sonserina, gostam que ficar perto do lago, ele adora os truques baratos de cartas dela.... Mas mesmo assim, parece-me meio absurdo.
– Mas Belle, — eu virei para ela — um beijo?
– Olha, se vai ficar repetindo o que eu digo, como um ridículo papagaio francês, eu vou lá embaixo discutir com o Draco, que é bem mais interessante! — Belle ergueu a cabeça, olhando para mim.
Eu senti uma lâmpada se acender na minha cabeça.
– O Draco, Belle! — eu repeti — Você não contou para ele!
– Por Merlin, tem isso ainda! — ela jogou-se para trás, deitando a cabeça no travesseiro.
Ela sempre foi melodramática para essas coisas. Vive discutindo com Draco e finge ficar furiosa com ele por dias, e aí, ele faz alguma coisa idiota e eles voltam ao normal. Mas desta vez, Belle parece realmente desesperada. O que me é muito estranho.
Eu sentei na beira da cama dela, apenas olhando ela colocar as mãos na testa e esbravejar.
– Por que essas coisas sempre acontecem comigo? — ela soluçava — Por que minha vida não podia ser mais fácil? Por que não posso ter um namoro comum com um namorado comum, como todo mundo faz?
– Porque você não é comum, Belle. Nenhum de nós é. — eu sorri, pousando minha mão no pé dela — Todos aqui nascemos diferentes, e comum é a palavra mais trouxa que se pode ser dita nesse universo. Todos temos dons, Belle. Ninguém nasceu para ser comum.
Ela olhou para mim. Tinha os olhos molhados e preocupados.
– Mas eu só queria que fosse mais fácil... — ela choramingou.
– Belle, nada nessa vida é fácil, — eu sorri — por que isso deveria ser?
– Maldita filosofia barata! — ela resmungou — Se eu tivesse humor, colocava vomitilhas dos Weasleys no seu café da manhã!
– Essa é la Belle que conheço! — eu ri.
Me levantei da cama dela, e caminhei pelo quarto. Sentei na minha cama, de costas para ela. Belle resmungou qualquer coisa, e virou-se para um lado, com o travesseiro sobre a cabeça. Eu ri. Belle afinal, é a bruxa mais complicada que eu já conheci. Seu conhecimento sobre namoro é questionável, afinal, a garota beijava um monte de caras assim que o Draco virava as costas! Na verdade, nem sei porque eles começaram a namorar, os dois não se combinam nem nada! Nunca se entenderam! Nem ao menos Belle agia como se estivesse apaixonada. Eu quase cheguei a desejar ouvir dela aqueles discursos chatos de "Draco isso... Draco aquilo...". Era estranho ouvir ela falar do Draco apenas com quem ela estava traindo o Draco. Bem, de uma coisa eu sei, se eu vier a ter um l'amour algum dia, quero que essa pessoa me deixe com a cabeça nas nuvens, que eu não consiga mais pensar em outra coisa a não ser ele.
– Tá incomodando muito hoje? — Belle me assustou.
– O quê? — eu coloquei a luva em cima da mão esquerda.
– Não se finja, Sophie. Eu sei da cicatriz. — essas palavras fizeram meu corpo gelar.
Virei lentamente, de modo a encará-la. Belle estava deitada de lado, com seu pijama vermelho de seda. Ela me encarava, com uma expressão que eu não sei dizer se era preocupada ou incriminadora.
– Eu... — sussurrei, e senti um nó na garganta.
– Tá tudo bem, Sophie. Todo mundo tem segredos. Não precisa esconder de mim. — ela falou.
Eu tirei a luva, e ela se aproximou de mim. Segurou minha mão, e a analisou bem. A minha cicatriz estava bem ali, próxima do dedão, muito inchada. E latejava muito.
– Ela está doendo muito. — eu avisei.
– Desde que viu o Potter, né? — ela falou. — Você precisa descansar.
– Todos precisamos. — eu disse, enquanto Belle voltava para sua cama e se cobria com seus lençóis. Vai ver, eu só precise de uma boa noite de sono.
– Belle... — eu chamei, sentando-me na cama novamente.
– O quê é? — ela resmungou.
– Eu não disse que vi o Potter. — eu falei.
Ela ficou quieta por um tempo. Eu sentia a minha acusação lançada no ar. E Belle não respondia.
– Vai dormir......! — ela virou-se para um canto, cobrindo o rosto com o travesseiro.
Não é uma boa saída dela, mas não vou perguntar nada para ela. Pelo menos, por hora.
********
Eu via o cemitério outra vez. Aquele cenário terrível e medonho no qual eu gritara anteriormente. Há muito tempo eu não vinha para cá, mas coisa boa não pode ser.
Eu nem precisei caminhar desta vez. Harry estava na minha frente, se debatendo preso no anjo. Era aquele pesadelo denovo.
Eu me aproximei dele. Pela primeira vez desde muito tempo, Harry me olhou. Seu rosto estava sujo de terra e sangue, e seus óculos estavam embaçados.
– Sophie, foge! — eu ouvi Potter esbravejar.
Lágrimas de tristeza correram pelo meu rosto.
– Não vou deixar você! — eu chorei.
– Não, Sophie! Fuja! Fuja para um lugar seguro! — Harry berrava.
– Mate a outra! — uma voz cavernosa disse atrás de mim.
– Nãão! — Harry gritou, desesperado.
Eu vi um brilho verde me envolver, e senti meu corpo cair no chão. Era como se eu estivesse petrificada, mas desta vez, eu nunca mais poderia me mover. Nunca mais.
– Harry! — eu sentei na cama, nervosa.
Olhei ao meu redor. Estava no dormitório, e estava um tanto escuro. Belle dormia na cama dela, virada para a janela, como se nada tivesse acontecido.
Eu sentei no chão do quarto, e encostei-me na cama. Minha cicatriz latejava. Fechei meus olhos. Tudo parecia ser tão real, como das outras vezes. O que não é verdade, tudo não passou de um sonho.
Eu ouvi uma respiração próxima de mim. Abri os olhos e olhei ao redor. Belle ainda dormia em sua cama. Curioso, de onde então....?
– Foi só um sonho..... foi só um sonho.... — eu ouvi a voz dele, alta e clara, como se ele estivesse do meu lado agora.
Fechei meus olhos. Eu podia ver o Harry, sentado em sua cama. E o mais estranho era que eu estava sentada com ele.
– Foi só um sonho... — Harry soluçava, abraçado aos joelhos — Foi só um sonho....
Eu senti um impulso muito forte me atraindo para ele. Não sei explicar, mas vendo ele assim, tão sozinho e indefeso, me fez sentir algo por ele. Acho que era pena.
– Pronto, Harry, tá tudo bem! — eu passei meu braço em seus ombros — Tá tudo bem! Você tá bem! Foi só um sonho! Não foi real.
Harry largou os joelhos e me abraçou, enterrando o rosto em meus cabelos e soluçando. Eu senti ele fazer isso. O que foi muito estranho, eu achava que era uma espécie de visão ou algo assim.
Mas ele estava me vendo e me sentindo também. E isso era estranho.
Passei meus dedos em seus cabelos negros, e senti ele chorar. Parecia uma criança assustada, quando a mamãe vai socorrer.
– Foi só um sonho, Harry. — eu sussurrei — Ninguém pode te machucar.
Harry foi se acalmando aos poucos, até enfim, parar de soluçar. Eu continuei ali, acariciando seus cabelos negros, até ele adormecer.
– Sophie? — uma voz me assustou. — Sophie?
Eu abri os olhos. Estava no meu quarto outra vez, sentada no chão.
– O que foi, Belle? — eu perguntei, fingindo estar sonolenta.
– Primeiro, por que está no chão? — ela enumerou nos dedos — Segundo, por que está chorando? E terceiro e mais importante, quem era aquele garoto que estava com você?
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