O nascimento de Pain

1 A morte de Yahiko


Notas iniciais
Lembrem-se que esta fic é de 2008

Konan estava chorando. Não tinha nenhuma expressão em seu rosto, mas ainda assim não conseguia parar de chorar. Deixava que as grossas lágrimas que transbordavam por entre suas pálpebras e percorriam livres pela pele pálida de sua face fossem os únicos vestígios do que ela sentia naquele momento. As últimas vinte e quatro horas tinham sido as piores de sua vida, pior até mesmo que o dia em que ficara sozinha no mundo.

Obervou triste uma gota de lágrima se desprender de seu rosto e cair na face pálida e sem vida de Yahiko. Fungou o nariz em um gesto involuntário, e logo passou o dedo indicador na pele fria para limpar o rosto bonito. Sem resistir ao desejo, permitiu que seus dedos vagam carinhosamente pelo rosto liso.

Ele tinha morrido tão jovem. Mesmo antes de findar o carinho, já pensava na dor da saudade que a partida precoce lhe causaria. Este pensamento a fez sentir vontade de chorar mais, mas ouviu passos.

Nagato estava voltando. O aumento do volume do barulho de seus passos rápidos e severos trouxe uma expressão de pavor ao rosto miúdo, e sem demoras limpou as gotas que molhavam seu rosto, levando consigo os vestígios mais grossos do choro.

– O que pensa que está fazendo? – Ele perguntou.

– Apenas o preparando para você – Mentiu.

Estava ali se despedindo do ruivo que amava, mas que por culpa sua havia sido morto por aquele monstro. Ouviu o som de seus passos se aproximando, e logo em seguida seus pés entraram em seu campo de visão; não tinha coragem de olhar para ele.

Seu corpo foi puxando com violência para longe do corpo de Yahiko. Tomada pelo susto, não conseguiu sustentar o peso so próprio corpo e apenas gritou de dor ao se sentir sendo puxada pelas mechas azuladas enquanto seu corpo era arrastado pelo chão sem nenhum respeito ou humanidade.

Contudo a dor emocional que sentia superava exponencialmente a dor física. Ela não compreendia nem encontrava um motivo para as coisas terem chegado naquele ponto. Konan abriu os olhos e tentou ver além da mão de aço que lhe prendia a face do amigo de infância, mas encontrou apenas uma criatura desumana que se parecia apenas fisicamente com o menino que tinha crescido ao seu lado.

Tudo em que pensava naquele momento era nas palavras esquecidas no passado, de um dia em que ele mesmo havia jurado que usaria todo seu raro poder para proteger ela e Yahiko. Mas ele havia matado Yahiko. A mesma mão que protegia, escolheu ferir.

– Você tem mesmo muita sorte disso ter acontecido. Preparar o corpo dele vai me consumir bastante chakra. – Disse usando a outra mão para apertar o ombro dela com violência.

– Nagato, você não era assim. Por que tudo isso?

Konan estava com medo. Quando o portador do Rinegan tinha começado a mudar tinha Yahiko do seu lado, e protegiam um ao outro como os amigos que sempre foram. Mas agora ela estava sozinha, e Konan sabia que sozinha pouco podia contra o moreno de olhos grises.

– Porque você me pertence Konan, eu desejo você e se você não for minha não será de mais ninguém. – Puxou a face dela com força – Está vendo isso? – Nagato a forçou a olhar para o corpo morto de Yahiko. – É o que vai acontecer com cada um que tentar chegar perto de você.

– Mas e se eu não quiser você?

A azulada tentou, apesar de todo medo, manter a calma. Não a ajudaria em nada ceder ao desespero neste momento, uma atitude assim poderia apenas o deixar mais violento.

– Mas você me quer. – Ele afirmou em voz branda. – É o seu destino por bem, ou por mal. Vou me preparar para o jutsu, você vai ficar aqui guardando o corpo dele pra mim. E nem ouse fazer alguma gracinha, você sabe que eu te acho se tentar fugir.

Após as palavras ásperas, soltou o corpo dela com tanta força que Konan caiu ao lado do corpo de Yahiko com o impulso. Quando se recompôs, Nagato não estava mais ali, e sua mente foi completamente preenchida por lembranças que tinha do ruivo ao seu lado. Estiveram por tanto tempo juntos e mesmo assim, tão pouco tempo de amor assumido.

.:.

24h atrás...

.:.

– O que faz sozinho aqui fora?

Konan perguntou ao ruivo, que admirava a noite. Eles se quer imaginavam tudo que viriam a passar dali pra frente, haviam acabado de voltar de uma missão e mais uma vez Nagato dera pequenos sinais de seu amor possessivo e não correspondido por Konan. Nesta vez Yahiko ainda pode a defender.

– Eu não suporto isso Konan, pouco me importa se Nagato tem mais poder ou não, ele não tem o direito de se achar seu dono. Tudo o que ele disse hoje, a forma como ele... Isso me faz sentir nojo dele. – O ruivo estava possesso com as mais recentes atitudes do portador do rinnegan.

– Nada disso adianta, não resolve nada e você sabe disso. – Ela pôs-se lado a lado com o ruivo na sacada, encarando os lábios cortados, o olho roxo e tantos outros ferimentos fruto da proteção que jamais negaria a ela. – Não vamos a lugar algum se ele não quiser mesmo, ele controla tudo que vê. – Tirou do bolso uma pomada curativa e começou a passar no rosto tão bonito e que amava tanto.

Dos três ninjas da chuva, Yahiko era o único que ainda tinha feições vivas no rosto, uma vez que Konan trazia tristeza estampada no olhar e Nagato nada expressava. Ela gostava disso, o olhar vivo dele lhe fazia lembrar que também vivia, por vezes conseguia até sorrir. E agora ele estava ali todo machucado por sua causa, porque dos três, ela sabia também que era a mais fraca, não que isso diminuísse seu poder, não de jeito nenhum, ela era forte, muito forte, mas ainda assim sua força nada representava perto da de Yahiko e muito menos a de Nagato.

Quando estavam os três juntos, ela era sempre quem apaziguava as discussões entre os meninos, coisa que era muito comum. Gostava muito de Nagato, ele costumava ser como um irmão mais velho sempre a protegendo de tudo e de todos, mas a amizade que tinha com Yahiko era muito mais forte.

Por muitas vezes ela desejou ficar sozinha com ele, pois sem o moreno por perto, o ruivo se soltava mais, era mais espontâneo e ás vezes até mais carinhoso. Hoje não eram mais as crianças que haviam sido encontradas por Jiraya-sensei, estavam mais velhos e dependentes de si próprios. Há tempos também a cumplicidade entre Konan e Yahiko havia passado as barreiras de uma simples amizade.

– Arigato Yahiko-kun – Ela disse sem o encarar, com voz baixa. – Ele provavelmente teria conseguido o que queira se você não tivesse aparecido.

Yahiko sentia as mãos frias em sua face espalhando o creme curativo por seus machucados. Ela também devia estar machucada, mas as feridas dela jamais seriam visíveis ou curadas, pois estão sob sua pele, localizadas bem no coração.

– Eu nunca vou permitir que ele encoste se quer em um fio de cabelo seu. – Ele enquadrou o rosto diminuto entre suas mãos para que ela o encarasse. – Entendeu?

Ela o encarou quando sentiu seu rosto entre as mãos quentes e seus olhares se encontraram, ele havia perguntado algo, mas ela não ouviu. O amava tanto que a forma como o ruivo a protegia a fazia sonhar em ser correspondida.

As cenas fortes dos acontecimentos daquele mesmo dia mais cedo contaminavam seus pensamentos, a fazendo colocar em sua cabeça a ideia de que o amanhã não é nada além de incerteza. Um frio passou por sua espinha, um mau pressentimento, de repente era como se não pudesse garantir que tanto ela quanto Yahiko estariam vivos no dia seguinte. O medo tomou conta de seu corpo, o medo de perder a pessoa que a fazia se sentir viva.

Sem responder ao que ele perguntava aproximou-se mais, unindo seus lábios aos dele num tímido beijo, seu primeiro mesmo que não passasse de um tímido encostar de lábios antes de recuar. Surpreso, porém feliz Yahiko a puxou novamente contra si, dessa vez para lhe selar os lábios de vez, tímidos e apaixonados.

Yahiko era o par de olhos que a seguia, o calor que aquecia até mesmo sua alma fria. Yahiko era a marca dos passos que ela seguia, era ele quem trazia luz à sua vida e alegrava seus dias. Ficaram ali por tempos experimentando o gosto um do outro até que foram subitamente interrompidos pelo estrondo da parede caindo.

Aconteceu tudo tão rápido, ela nem teve tempo de pensar em algo. Sentiu seu corpo ser arrancado com brutalidade do abraço de Yahiko e arremessado com força no chão. Um de seus braços quebrou com a queda, estava totalmente vulnerável ali. Incapaz de realizar qualquer jutsu, ela podia apenas assistir.

Yahiko e Nagato lutaram, o moreno dirigia insultos incabíveis contra Konan e Yahiko enquanto lançava seus ataques. Não foi nada muito demorado, em sua crise de fúria, Nagato arremessou Yahiko pelo menos uns trinta metros longe e o ruivo parecia desacordado. Em seguida o moreno se dirigiu a ela e a pegou no colo a força para levá-la para dentro de casa.

– Então é isso, você me rejeita pra ficar com aquele imbecil? – Ele jogou no sofá a kunoichi que se debatia em seu colo.

– Nagato, por favor, fique longe de mim. – Ela pediu inutilmente ao moreno que se aproximava cada vez mais.

– Eu amo você, como você pode não perceber isso – Ele gritou.

Estava perto demais dela, apertava seus ombros enquanto sacudia seu corpo. Nem mesmo i impulso da agressão o impedia de continuar aproximando sua face da dela. Não precisava de permissão, tinha que limpar sua língua suja pela saliva de outro.

Ela tentou se concentrar, tentou mover o braço quebrado para realizar qualquer jutsu que fosse, mas era tudo em vão. Nagato tentava tomar-lhe um beijo a força, ela tentava retirar-se dali, mas era presa por uma larga corrente de chakra criada por ele.

Seu corpo todo estava preso e imóvel. Os olhos claros se contorceram em uma careta rude enquanto selava os lábios com força para impedir a entrada da língua que se esfregava com força contra seus lábios em busca do beijo desrespeitoso.

Uma vez que não teve nenhum beijo correspondido, ele levou os lábios ao pescoço de Konan. Não teve dificuldades ali uma vez que as correntes de chakra deixavam o corpo da kunoichi imóvel.

A azulada não cogitava relutar mais, pois seria um esforço em vão. Sabia que o fim da história seria o mesmo de qualquer forma, então apenas virou o rosto na direção da porta expressando nada além da típica tristeza em seus belos orbes cor de mel.

Não permitiu que lágrimas caíssem, pois Nagato não merecia uma emoção se quer. Mesmo que fosse ódio. Ainda tinha esperanças de, como na última vez, Yahiko aparecesse ali para salvá-la, antes que Nagato tivesse a chance de corrompê-la.

Como se ouvisse seus desejos, ele apareceu e ao vê-la na situação em que se encontrava atacou Nagato com todo ódio que podia sentir. Outra luta começava ali, em meio a isso tudo, o moreno perdeu o controle sobre as correntes que prendiam Konan e ela, sem poder fazer nada, apenas se escondeu.

A luta foi extensa, eram fortes ambos oponentes. De onde olhava Konan não saberia dizer com certeza quem estava se saindo melhor. Os dois estavam bastante feridos e desgastados já, e em um último movimento tudo estava acabado.

Nagato se segurava cansado em um móvel qualquer da casa, mas Yahiko jazia no chão. O ruivo não havia sido forte o suficiente, não tinha sido capaz de proteger Konan mais uma vez.

O ruivo sentia o gosto do próprio sangue na boca, sabia que era o fim. Havia perdido muito mais do que a luta, tinha perdido Konan e estava perdendo a vida.

Sabia o que o portador do rinnegan faria com ele após sua morte e definitivamente não desejava aquilo. Procurou Konan pela sala, encontrando-a escondida espiando a batalha, com seu típico olhar triste, mas dessa vez com algo mais.

Odiou-se, iria morrer logo quando havia conseguido se aproximar dela, e estava morrendo por ter fracassado ao protegê-la. Talvez não fosse merecedor do amor daquele anjo.

Em sua mente passou um filme com imagens de quando eram menores, pode ainda por pouco tempo reviver o único beijo que dera nela, como queria poder sentir o gosto de seus lábios novamente. Mas era tarde demais, as lembranças daquele curto filme seria tudo o que levaria consigo para a outra vida.

Nagato estava exausto demais para continuar e sem dizer nada, saiu do aposento deixando Konan para trás com o corpo sem vida. Assim que se viu só no local, a azulada cambaleou até o corpo de Yahiko, e com ele permaneceria todo o tempo que pudesse.