O narrador

1 Capítulo Único


Narrador, personagem e escritor estão cara a cara. A personagem pede uma audiência, e um juiz é invocado à cena. Logo, a tela em branco é preenchida por detalhes de um tribunal. Não há mais pessoas além das citadas, nem mesmo advogados. Sentado atrás da mesa, no alto, o juiz pediu que a personagem falasse:

— Eles querem me matar! Eles são assassinos! — declarou.

— Você sabe que você é apenas um personagem, não é? — retrucou o escritor.

— Sim, mas sou uma pessoa com suas características e sentimentos. Vossa excelência, faça alguma coisa! — clamou.

O narrador, quieto — o que não era do seu feitio —foi questionado pelo juiz sobre sua participação na acusação da personagem.

— Vossa excelência, entenda que eu apenas narro os acontecimentos, não sou eu que os elaboro — explicou-se.

— O que faz dele um cúmplice! — acusou a personagem — Mesmo que ele diga que é imparcial, ele tem a sua própria posição.

— Essa cena é ridícula! Vossa excelência, com todo o respeito, não era nem para o senhor estar aqui. Não era nem para isso existir. Isso é uma obra de ficção, nada disso é real! — o escritor voltou a falar.

— Quem disse que não sou real? Dentro desse universo, eu sou bastante real! — defendeu-se a personagem.

— Já que é assim, tudo bem. Se você é real aqui, então, assim como na realidade, a vida chega ao fim. Por isso... — o escritor aproximou-se do narrador e sussurrou no seu ouvido.

De repente, a porta do tribunal foi aberta com brutalidade, e um homem mascarado e armado entrou no julgamento. Atirou na personagem e foi embora. O juiz, sentado em sua cadeira, desapareceu. Como um passe de mágica, todos voltaram ao devido lugar. O escritor voltou a digitar as palavras que você, leitor, lê agora. Eu voltei a narrar os fatos da história, e a personagem ainda vai ser morta na história principal. A arte imita a vida, e, como tudo na vida chega ao fim, inclusive a vida... Então, não chore, caro leitor, um dia você também partirá, assim como o escritor dessa história. Menos eu, é claro, que sempre viverei enquanto existir alguém que lerá aquilo que conto."

Com amor, seu narrador.


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