Na quinta feira Felipe me liga para me contar que vai trabalhar em uma festa infantil tirando fotos. Ele está todo empolgado, a amiga da sua mãe é dona de um Buffet infantil e o indicou para tirar as fotos. Aproveito a oportunidade para contar que vou passar o final de semana na casa da minha avó.

— Então não vamos nos ver esse final de semana? – sua voz demonstra que ele fica desapontado.

Eu sorrio, ele não pode me ver então posso demonstrar que fico feliz por sua reação.

— Pelo jeito não, mas a gente se vê todo dia mesmo.

— Já está enjoada de mim é?

— Claro que não – dou risada – mas você vai trabalhar, ai eu não atrapalho sua concentração.

— Que convencida.

— Acho que vou dormir – já são onze horas da noite.

— Tudo bem. Dorme com Deus.

— Você também. Boa noite.

Coloco o celular embaixo do travesseiro. Tenho vontade de perguntar para ele o que somos, mas também tenho medo de pressioná-lo e estragar tudo. Foi fácil demais acostumar com a sua presença na minha vida.

....

Bruna aparece em casa sexta à noite com uma mochila, travesseiro e cobertor. Fico olhando para ela sem entender. Ela entra em casa e sorri para mim sem graça.

— Não me diga que você foi expulsa de casa.

— Claro que não. Você disse que vai para a casa da sua avó esse final de semana não disse?

— Sim.

— Então, posso ir junto?

A Bruna parece mais um cãozinho com o rabo entre as pernas.

— Não sei, acho que não vai caber no carro, ta meio gordinha – eu brinco com ela, não tem coisa que a deixe mais furiosa que dizer que ela está gorda. Na minha opinião ela podia engordar uns quilinhos, está muito magricela. Bruna fecha a cara mas não diz nada – Eu to brincando.

Dou risada.

— Se você não quiser que eu vá, eu entendo.

— Deixa de besteira. Coloca suas coisas lá no quarto e vem comer.

Termino de fazer a janta enquanto minha mãe toma banho. Quando ela aparece na cozinha secando o cabelo com a toalha e vê a Bruna lavando a salada, ela fica tão surpresa quanto eu.

— Oi querida – minha mãe a abraça e a beija.

— Saudades de você – Bruna diz para minha mãe.

— Também estava, você sumiu aqui de casa.

— Olha eu aqui. E se você deixar, vou passar o final de semana com vocês.

— Você é sempre bem vinda.

Nós três jantamos e nos divertimos com as histórias que a minha mãe conta sobre seu dia de trabalho. Ela trabalha em um escritório de contabilidade e seu chefe está sempre pegando no seu pé, pelo o que ela me conta ele é um mala.

A campainha toca e minha mãe vai atender. Estou curiosa para saber quem é, pois o porteiro não avisou que tinha visita.

— Já volto meninas – minha mãe diz saindo do apartamento e fechando a porta.

— Ué, quem será que é? – Bruna olha para mim curiosa.

O que a Bruna tem de organizada ela tem de curiosa.

— Eu acho que minha mãe está paquerando o filho do vizinho – falo baixinho me aproximando dela.

— Do senhor João?

— Sim.

— E você não fica com ciúmes?

— Claro que não! Depois que meu pai morreu minha mãe não teve nenhum relacionamento. Ela merece amar de novo.

— Deve ser muito difícil para ela – Bruna diz pensativa – pelo o que você me diz seus pais se davam muito bem.

— Sim – começo a lembrar dos dois juntos – era o casal mais lindo que eu já vi. Claro que os dois brigavam também, não existe relacionamento perfeito, mas logo eles faziam as pazes e estava tudo bem.

— Relacionamentos são complicados – percebo que ela já não se refere aos meus pais.

— Miguel sabe que você vai passar o fim de semana comigo?

— Não.

— Vocês terminaram?

— Também não. Preciso de um tempo, estive pensando no que você me disse aquele dia por telefone.

— Entendi.

Não fico especulando, se ela quiser me contar alguma coisa, será por livre espontânea vontade.

Bruna me ajuda a limpar a cozinha. Ela já conhece bem a nossa rotina e onde fica as coisa. Não demoramos para dormir pois vamos acordar cedo. Antes de dormir converso um pouco com Felipe por mensagem. Ele me manda uma foto descabelado, de pijama e abraçado com uma garrafa de coca cola, na outra mão tem um saco de salgadinho.

“estou com ciúmes dessa garrafa de coca” – envio a mensagem.

“vou beber todas para te esquecer”

Dou risada.

“hahaha essa foi boa”

“Partiu sessão pipoca”

“Partiu sono da beleza”

“Se ficar ainda mais bonita eu morro do coração! Beijos”

“Bobo. Bjos e boa noite”

Bruna percebe que eu parei de mexer no celular e diz:

— Você está apaixonada? Nunca te vi assim antes, você estava ouvindo Ed Sheran hoje.

— Eu sei, nem estou me reconhecendo – Não posso falar que ela nunca me viu assim antes porque nunca consegui esquecer o Miguel.

— Porque você está apaixonada.

— Talvez.

— Já contou pra ele?

— Claro que não – e não pretendo contar tão cedo.

— Você tem que falar Aline.

— Porque? Nós estamos muito bem e na hora certa vamos saber o que somos e o que sentimos um pelo outro. Deixa as coisas acontecerem naturalmente.

— Queria ser como você, desencanada.

Coitada, mal sabe ela o que passa pela minha mente.

— Você nem imagina como minha mente funciona – dou uma risada – vamos dormir? Minha mãe gosta de madrugar.

— Boa noite – Bruna diz.

— Boa noite Bru – me viro para o lado me enrolando no cobertor.

Estou quase dormindo quando escuto Bruna chorar baixinho. Penso em perguntar se está tudo bem, mas acho que ela esperou que eu dormisse para ela chorar. Que tem alguma coisa errada eu sei. Vai ser bom ela passar o final de semana longe, farei de tudo para que ela se sinta melhor.

Acordo com a minha mãe me sacudindo. Bruna já levantou e está se trocando. São seis horas da manha e eu daria tudo para dormir alguns minutinhos a mais, eu acordo cedo todo dia. Me levanto e vou direto tomar banho para despertar.

Depois do café pegamos à estrada. Minha avó mora em outra cidade e leva duas horas de carro para chegar.

A Bruna atende uma ligação do Miguel e não demora muito para começar a discutir com ele:

— Eu não estou fugindo de você Miguel. Preciso de um tempo para colocar meus pensamentos em ordem e você tem que respeitar – ela argumenta com ele – quando voltar, vamos conversar, mas não tem que ser agora.

Eu e minha mãe nos entreolhamos. Ele não desgruda nem por um segundo, isso dever sufocar a Bruna.

— Faz o que você quiser, eu não estou te pedindo nada – ela esta nervosa com ele – eu só quero um final de semana em paz, é pedir muito? – Bruna respira fundo, acho que para não mandar ele pro inferno – Não quis dizer isso, você que fica pilhado com tudo. Vou desligar, tchau – ela não espera ele responder e desliga.

— Esta tudo bem?

— Acho que ele não sabe o que é limites.

— Deixa isso pra lá, vamos curtir o final de semana.

Quando chegamos tomamos café de novo. Minha avó prepara um verdadeiro banquete para nós, tem pelo menos uns três tipos de bolo. Durante todo o caminho me preparei psicologicamente para quando chegasse, mas dessa vez entrar na casa da minha avó não é tão ruim. Lembro imediatamente do meu pai, acho que essa casa sempre me traz uma lembrança vivida dele pois foi onde eu o vi vivo pela ultima vez, e toda vez que volto aqui parece que vou encontra-lo de novo.Não choro e nem tenho vontade de chorar, apenas ando pelos cômodos lembrando dele.

A cidade que minha avó mora é mais quente, da até para arriscar sair para o quintal sem blusa. Decidimos dar uma volta. Meus avós moram em uma chácara, tem piscina, churrasqueira, pomar e até galinha. Os cachorros ficam doidos quando me vêem, bili pula em cima de mim e quase me derruba, ele é um pastor alemão e não tem noção nenhuma do seu tamanho.

— Calma bili – acaricio sua cabeça rindo.

Enquanto caminhamos a Bruna desabafa comigo:

— Não sei se o Miguel é abusivo. Ele faz um monte de coisas legais para mim, me dá flores, me leva para jantar e tenta se redimir quando ele erra. Eu também erro com ele, ele me perdoa e ai tudo fica bem. Às vezes ele é protetor demais comigo sabe? Eu sei que ele se preocupa com meu bem estar, mas chega a ser exagero.

— O que eu te disse é o que acabei vendo as poucas vezes que estive com vocês dois. Eu não sei nada sobre o seu relacionamento, só você sabe, é você que convive com ele. Se tem algo te incomodando você tem que falar. É normal a gente se preocupar com quem a gente gosta, mas isso não nos dá o direito de controlar a outra pessoa.

— Sim.

— Você o ama?

Bruna pensa um pouco para responder.

— Acho que sim – essa não é a resposta que eu esperava.

— Só não deixe que ele te machuque de novo Bruna, isso é muito sério.

— Foi um acidente.

— Eu acredito. O Miguel sempre foi gentil, educado e todo mundo que o conhecia gostava dele. Só toma cuidado, ta bom?

— Prometo.

Passamos uma tarde maravilhosa. Andamos a cavalo, encontramos uma bola perdida e ficamos jogando, só faltou coragem para pular na piscina. De noite meu avô faz pizza pra gente comer, fica deliciosa.

— Nosso vô, é a melhor pizza que eu já comi – ele fica todo bobo com o elogio.

— Obrigado querida.

— Eu vou ficar com ciúmes – minha avô faz uma carinha triste.

Eu a abraço e faço cócegas nela. Conversamos até tarde da noite, estou bêbada de sono quando vou deitar. Felipe não me ligou e nem me mandou nenhuma mensagem, só respondeu o bom dia que mandei para ele de manhã. Fico desapontada, queria conversar com ele, eu poderia ligar, mas e se ele estiver trabalhando ainda? Não consigo pensar muito sobre isso porque eu durmo rapidamente.

Domingo à tarde nós voltamos para casa. Bruna está bem melhor, ela falou pelo telefone com Miguel de novo mas não comentou nada sobre a conversa. Para mim o importante é que ela esteja bem, independente de como ou com quem.